Gelbin Mekkatorque: Interrompido Parte 1

by luizcsilva on 10 de julho de 2018

– Nós fizemos uma varredura dos andares superiores no setor 17, senhor. Tudo indica que o lugar ficou intocado desde nossa, ahm, partida. Só está tudo fedendo a trogg…

– Ah, sim… aquela mistura adorável de mofo, sarna e macaco azedo. Acaba com o apetite de qualquer um, sei bem disso.

O capitão Zeca Piscamola fez uma careta, empalidecendo ao ouvir seu comandante. O fedor obviamente estava afetando o moral.

– E sua equipe está usando meus Rodinhos Limpa-Narina de Alta Velocidade?

– Sim, senhor. O fedor… bom… dá até pra sentir o gosto, senhor. Não importa o quão bem rodadas estejam nossas narinas. – Piscamola inclinou a cabeça para trás, exibindo um belo par de narinas gnômicas muito bem rodadas. – Dois membros do meu esquadrão pediram transferência para a Patrulha Troll em Sidermar, e meu médico quer saber se oferecemos licença-catinga.

O Grão-faz-tudo Gelbin Mekkatorque suspirou, empurrou os óculos para a testa e passou o indicador e o polegar dos lados de seu nariz proeminente. Os novos óculos doíam, e ajustá-los seria a primeira de milhares de tarefas que ele planejava realizar quando a missão terminasse. Ele não dormira na noite anterior, e a pele onde as lentes se fixavam estava esfolada e dolorida. A retomada de Gnomeregan começava a parecer bem mais que uma mera ação militar.

O fedor, por exemplo. Um dos problemas de uma vasta cidade mecânica subterrânea – um dos centenas de problemas – era a ventilação. Em capacidade total, a rede de ventiladores, dutos e filtros necessitava de uma equipe de quinze técnicos trabalhando 24 horas por dia em turnos para manter Gnomeregan limpa e cheirando bem. O futum trogg acumulado de anos coalesceu em camadas de lodo pungente e impenetrável, mais difícil de remover que os próprios invasores.

– Não se preocupe, Capitão. Os geniozinhos da Divisão de Alquimia estão finalizando o protótipo do meu Canhão de Fragrância K-Tingalonj, que nos ajudará a limpar esse fedor das paredes. Por que você e seus homens não tiram o resto do dia de folga e vão secar umas tulipas na Cervaforte?

O outro gnomo sorriu, bateu continência e assentiu com a cabeça.

Mekkatorque voltou a se concentrar nas plantas espalhadas pela mesa às suas costas e recolocou os óculos com um estremecimento. Algumas seções de Gnomeregan ainda eram disputadas ferrenhamente, enquanto outras tinham caído em suas mãos com surpreendente facilidade. É claro que a ajuda da Aliança havia sido instrumental para isso, mas Gelbin ainda não se convencia. O Salão das Engrenagens parecia quase ter sido… abandonado. Não era do feitio de seu velho inimigo ceder território tão facilmente.

Gelbin foi interrompido por em seus pensamentos por um pigarro. Ele se voltou e viu que o capitão ainda estava ali, torcendo as mãos.

– Perdoe-me, há mais alguma coisa, capitão?

– Bom, sim, senhor Grão-faz-tudo. Se eu posso perguntar…

– Claro que pode. Pode falar.

– Muito bem, senhor. Acontece que o pessoal e eu estávamos imaginando por que fomos mandados para fazer reconhecimento daquele setor. Ele não fica perto das linhas de frente, parece não ter recursos, valor estratégico nenhum. Parece que é só a biblioteca de um velhote biruta mesmo. Senhor.

– “A biblioteca de um velho biruta”…

O capitão Piscamola deu um sorriso cúmplice. – Hah, essa foi a impressão que eu tive, senhor: pilhas de livros velhos, papel amassado, e algo que parecia uma toca de coelho feita de latinhas de torta –

– Ah, de fato, creio que a maquete do Metrô Correfundo parece mesmo com isso…

– A… como, senhor?

– Aqueles eram meus aposentos, capitão.

– Seus… aposentos? Ah. Ah. Mil perdões, senhor Grão-faz-tudo. eu não quis –

– Não é bem o que você esperava para alguém em minha posição elevada, não é? – Gelbin riu e inclinou-se para diante, dando um tapinha no ombro do capitão. – Não se preocupe com isso, Piscamola. Eu posso ter tido um lugar de prestígio no Paço dos Faz-tudo, mas o meu trabalho de verdade, minhas especulações e invenções, tudo acontecia naquela biblioteca de velho biruta. Bem, quando sair, por favor avise ao sargento Cobrefuso que estou pronto para fazer o levantamento da área. Obrigado por seu excelente trabalho, capitão.

Gelbin esperou até que sua equipe de segurança dobrasse a esquina e deixou o sorriso morrer em seu rosto. Seus ombros caíram com um sopro profundo que era tanto um suspiro quanto um impropério.

Era difícil. Difícil voltar ao seu estúdio. Seu cantinho. Este era o lugar que ele via sempre que ouvia a palavra lar, mesmo depois de tantos anos fora. Anos vivendo da caridade e tolerância de aliados que, apesar de seus nobres sentimentos, ainda olhavam para ele com pena.

A pena… essa era a pior parte. Para uma raça ambiciosa cujas vidas eram justificadas pelo hábil comando das leis científicas do Universo, a pena era algo intolerável. Era insultuoso ser digno de pena. Gelbin irritava-se com a solidariedade, e ele sabia que seu povo também. Como líder, ele descobrira ser sábio prestar atenção às próprias emoções, pois elas não raro refletiam em alguma medida as inclinações do restante dos gnomos.

Mas não era só isso. Pelo menos não para ele. Ter que manter o sorriso, a jovialidade corajosa e a astúcia gnômica diante de seu povo. Ter que que projetar confiança contínua e constante no aperto do velho Beco da Gambiarra, quando tudo o que ele queria era prostrar-se no chão e… e…

Trêmulo, Gelbin suspirou, cambaleando para o lado e encostando o ombro contra a parede de metal com um baque surdo. Tantos mortos. Tantos!

Reunindo forças, ele apertou os punhos e expirou. Fechando os olhos, começou a contar números primos até que os sentimentos recuaram mais uma vez até a periferia da sua mente. Ah, os confiáveis e seguros números primos. Era possível confiar neles sempre. Sempre. Gelbin sabia que um dia ele teria que voltar a encarar esses sentimentos, mas agora não havia tempo. Os gnomos precisavam do Grão-faz-tudo em sua melhor forma para a retomada do seu lar, e dar sinais de vergonha e remorso só pareceria fraqueza. Um povo nômade à beira da extinção não pode se dar ao luxo de ter um líder dando sinais de fraqueza.

Não outra vez.

Sacudindo a cabeça para afastar os pensamentos, Gelbin avançou e começou a avaliar a condição de sua antiga casa. Ao contrário de seus pares na Aliança, o Grão-faz-tudo não fazia questão de condições de vida luxuosas, preferindo uma residência prática. De que serve um trono quando pensamos bem melhor caminhando? A gasta rede de salões no setor 17 era a representação física dos processos mentais de Gelbin: biblioteca conectada à sala de projetos, por sua vez conectada à forja, conectada à área de montagem. Pesquisa, imaginação, criação e engenharia. Ali, vastos contingentes tinham sido reunidos para, com a ajuda do ferro, marchar para a batalha. Literalmente.

Fora naqueles salões que Gelbin projetara o primeiro mecanostruz, que permitira a seu povo pequenino alcançar a velocidade dos corcéis humanos. Aquele invento fizera sua fama quando jovem, e o colocara no caminho da liderança. O micro-ajustador giromático, o robô de reparos, o Metrô Correfundo, até mesmo o protótipo da máquina de cerco enânica – tudo isso começara como esboços e sonhos em seu estúdio. Tudo criado a partir do caldo primordial da imaginação de Gelbin, para o avanço da raça gnômica.

– O que me leva a perguntar – ele sussurrou – se mil invenções brilhantes podem compensar um engano terrível…

As trevas acolheram suas palavras e as revestiram de dor. Esperando por uma resposta que ele já conhecia, o Grão-faz-tudo notou algo que o fez sorrir. Ele estava falando sozinho. Ele não fazia aquilo desde… bom, desde a época em que vivia nestes túneis. Quem sabe o retorno da neurose não seria um bom sinal? Gelbin coçou sua barba bem aparada.

– Estou encontrando esperança em uma recrudescência psicótica. As coisas devem estar péssimas mesmo.

Movendo-se pela área de montagem, ele passou um dedo em uma bancada empoeirada e estalou a língua. Mesmo à luz bruxuleante – cujo funcionamento, ainda que precário, era outra prova da qualidade da engenharia gnômica – Gelbin soube que seu antes imaculado estúdio iria precisar de uma esfrega geral e irrestrita.

Ele olhou para o mostruário de troféus na parede oposta. O Grão-faz-tudo havia instalado o mostruário a pedido dos aprendizes, e somente porque ele de fato precisava de um lugar onde empilhar as condecorações inúteis. Como tudo o mais, estava sob uma camada de poeira.

A peça principal do mostruário era seu primeiro protótipo funcional de mecanostruz, esguio e altivo entre várias medalhas e fitas. Gelbin sorriu, notando que mesmo os modelos mais avançados, recém-saídos de Altaforja, ainda retinham a mesma ginga de pássaro do original, bem como sua forma arredondada de chaleira. E ele ouvira relatórios de seus agentes em Nortúndria dizendo que os enigmáticos gnomecânicos haviam adotado sua invenção para propósitos misteriosos. O que poderia ser mais lisonjeiro do que ter uma raça de máquinas usando a sua máquina para locomoção?

E embora o mecanostruz fosse a primeira (e provavelmente a mais popular) de suas invenções, o fluxo contínuo de criações práticas, poderosas e únicas que jorrara destes salões havia fortalecido seu povo e provado que os gnomos são um reforço vital para a Aliança de anões, humanos e elfos. Fora ali que Gelbin Mekkatorque passara de mero inventor a Grão-faz-tudo dos gnomos. Fora ali que Gelbin Mekkatorque tivera suas ideias mais brilhantes, que criara suas melhores invenções e recebera as maiores comendas de um povo que celebrava a criatividade e a habilidade de manufatura acima de tudo.

E fora ali que Gelbin Mekkatorque havia aceitado tolamente os conselhos de alguém que ele considerara um amigo. Fora ali que Gelbin Mekkatorque dera a ordem que matara quase todo o seu povo, deixando o sobreviventes sem lar e arremessando-os na mendicância e na ignomínia.

Ele bateu com o punho na parede, levantando uma nuvem de poeira, e as luzes piscaram no alto como a representação visual de sua frustração. O Grão-faz-tudo tremeu, abrindo e fechando as mãos em punho. E então… ele decidiu caminhar para espairecer. Ele saiu da área de montagem e foi até a forja, e depois seguiu até a sala de projetos. Ali ele parou. Gelbin percebeu de súbito, com alguma surpresa, que somente agora, anos após a traição, é que ele dera um primeiro sinal de raiva. E essa reação raivosa, tão pouco característica dele, lhe fez sentir bem.

Talvez fosse a convivência com os anões. Ou talvez voltar para casa, finalmente longe do olhar de benfeitores condoídos e cidadãos preocupados, fosse como um fechar de cortinas, e ele já não precisasse se comportar feito um Grão-faz-tudo. Aqui ele podia ser Gelbin, finalmente. E Gelbin podia se entristecer; podia se sentir traído; Gelbin podia ficar furioso e penalizado com toda a terrível injustiça dessa história.

Ele grunhiu e golpeou a parede novamente, gostando de sentir a dor nos dedos e de ouvir o clangor que reverberou pelos salões de ferro ao redor. Pelo menos, conviver com os anões tornara seu povo mais forte, mais confortável em seus feitos de proeza física como nunca antes na história registrada dos gnomos. Os anões haviam dominado a arte grosseira do combate corpo a corpo em um mundo repleto de seres bem mais altos, enquanto os gnomos tinham sempre preferido escapar e evitar conflitos. Mas os anos de dificuldade e sobrevivência entre aliados rústicos havia dado aos gnomos um gosto pelo combate. Gelbin jamais vira tantos gnomos manuseando espadas, vestindo armaduras e se impondo diante da Gente Alta.

– Bem – ele murmurou –, isso de tentar se impor não fez muito bem aos nossos números.

A vibração causada pelo seu golpe violento na parede ainda ecoava pela sala, e o Grão-faz-tudo parou para pensar. Algo não estava certo.

Gelbin inclinou a cabeça e recuou um passo. O Setor 17 havia sido escavado nos confins sólidos a noroeste de Dun Morogh: uma área composta principalmente de granito e xisto. Os salões revestidos de ferro nesta ala de Gnomeregan não deveriam responder a impactos com tamanha ressonância. Será que sua memória o estava traindo?

Gelbin bateu os nós dos dedos contra a parede outra vez, de olhos fechados. E a vibração ecoou com o timbre parecido ao de um sino.

Sem tirar os olhos da parede, Gelbin recuou até o centro do salão. Sua velha cadeira de fabricação troll, um móvel de construção adoravelmente primitiva de osso e couro de ráptor, ainda estava no mesmo lugar. A cadeira era uma lembrança da primeira incursão da Aliança apoiada por gnomos em um acampamento da Horda durante a Segunda Guerra, e Gelbin ficara com o objeto de aparência agressiva para se lembrar de duas coisas importantes. Primeiro, que seus inimigos viviam em um mundo construído com a carne e os ossos de monstros. E segundo, que mesmo selvagens dentuços cobertos de limo apreciam um pouco de conforto às vezes. Embora o Grão-faz-tudo raramente ficasse sentado enquanto trabalhava em suas invenções, ele fazia a cadeira de cama improvisada onde passava suas madrugadas de brainstorming. Seu perfil baixo e grande área de couro forrado, projetado para o traseiro substancialmente maior dos trolls, tornava-a perfeita para sonecas gnômicas. Ele se deixou cair na maciez da cadeira com um suspiro preocupado.

Teria havido alguma nova construção nesta área desde o êxodo? As suspeitas de Gelbin agora eram mais fortes. Ele vasculhou a sala de projetos, procurando sinais de sabotagem: fios soltos, painéis fora de lugar ou pegadas desconhecidas na poeira. Todo este setor fora varrido por sua equipe mais confiável, mas Mekkatorque aprendera a nunca confiar cegamente. Especialmente se Termaplugue estivesse metido na história.

Sicco Termaplugue. O nome ainda fazia seu estômago se torcer, uma tensão que não podia ser convencida a deixá-lo. Gelbin finalmente atinara com uma descrição para esta sensação estranha: era um sentimento ao qual ele estava severamente – assustadoramente – mal-acostumado. Era confusão. Nesta ocasião raríssima, o Grão-faz-tudo Gelbin Mekkatorque se encontrava muito, muito confuso.

Como isso podia ter acontecido?

Um gnomo de Gnomeregan agindo contra sua ração era algo impossível, um erro, uma aberração inconcebível. Ao contrário dos anões, os gnomos não tinham um histórico de violência interna. O passado deles sempre fora livre de tiranos e facções violentas. de forma geral, gnomos simplesmente não combatiam outros gnomos. Em um mundo de leões, tigres, pelursos e Gente Alta, os gnomos tinham que confiar uns nos outros. Isso era evidente. Por isso gnomos não utilizavam a sucessão agnática, responsável por muito derramamento de sangue entre as outras raças de Azeroth, e tinham abandonado a monarquia há séculos. Os gnomos escolhiam seu líder por consenso geral, baseado em seus méritos. Mérito inteiramente mensurável em benefícios para os gnomos. Agir de forma danosa para com alguém da mesma raça, ambicionar o poder às custas do bem-estar do povo – um anão poderia fazer essas coisas, ou um orc. Os humanos podiam, sem dúvida. Mas como um gnomo poderia ser responsável pela quase completa extinção dos gnomos?

Sicco dissera ter testado os níveis de radiação do gás. Ele dissera ter evidência do efeito letal do gás nos troggs, e mostrara a Gelbin números forjados sobre densidade e peso volumétrico. O gás deveria ter ficado nos acessos em quarentena e nas seções inferiores de Gnomeregan, envenenando os invasores quando estes emergissem das profundezas enquanto os gnomos esperavam, protegidos nos túneis superiores, longe dali. Na hora, aquilo lhes parecera a única solução para a invasão imprevista, e uma que não necessitaria da interferência da Aliança, então muito ocupada. Os gnomos ajudariam os gnomos. Termaplugue parecia confiante que seu truque funcionaria.

Mas se o gás teve algum efeito nos troggs, foi apenas o de deixá-los mais agressivos. E então o gás subiu até a cidade, atravessando os Filtros Domiciliares Limp-Ar. E matou todos os gnomos que esperavam em suas casas, sufocando-os sob odientas nuvens verdes atrás das portas que deveriam tê-los protegido, como o Grão-faz-tudo prometera. Gnomeregan morreu naquele dia. Morreu porque Gelbin Mekkatorque confiou que um amigo gnomo sempre seria um amigo de verdade. Ou pelo menos, um gnomo de verdade.

Gelbin se recostou e fechou os olhos. O aperto em seu peito era quase doloroso, e pela milionésima vez ele se perguntou se deveria abdicar do título e deixar que outro fosse o Grão-faz-tudo. Alguém menos confuso. Alguém que não cometeria um erro tolo que custou a vida de tantos…

Dessa vez não seria possível conter o desespero, a densa onda de mágoa se insuflando do local onde por tanto tempo estivera contida. Gelbin respirou em haustos rápidos, contou números primos, apertou o braço da cadeira com força. Mas agora era tarde. A dor venceu suas defesas e irrompeu em seu peito num soluço rouco e engrolado.

E sozinho no pétreo e sombrio silêncio de seu estúdio abandonado, o Grão-faz-tudo Gelbin Mekkatorque finalmente chorou.

Depois que as lágrimas secaram, o tremor cessou e a quietude gélida retornou ao salão, Gelbin deu um suspiro sôfrego e se endireitou. Ele se sentia… vazio… de uma forma limpa, esvaziada. Não era uma sensação exatamente agradável. Mas era do que ele precisava.

Era hora de voltar à superfície, ao seu povo. Ele já começava a se sentir egoísta, passando tanto tempo envolvido com seus próprios problemas. Apoiando-se no braço da cadeira, ele começou a se erguer.

E então parou.

Havia algo frio debaixo de sua mão. Gelbin abriu os olhos e olhou para baixo. Dobrados com cuidado sobre o braço da cadeira estavam seus óculos favoritos, as lentes simples com aro de mithril que ele ganhara de presente ao se formar na Faculdade Engrenória. Fortes, confiáveis e confortáveis. Estes óculos tinham emoldurado seus olhos por décadas – até a partida apressada dos gnomos, causada pela invasão dos troggs. Gelbin vinha se virando com um par novo, que ele forjara em Altaforja nas horas livres quando não estava indo do Beco da Gambiarra ao trono de Barbabronze e de volta. Seu pobre nariz muito sofrera desde então. Sorrindo, o grão-faz-tudo estendeu o braço para pegar o objeto há tanto esquecido.

– Agora posso voltar a ser eu mes –

Os óculos se soltaram da cadeira com um estalo, e Gelbin congelou no lugar. Uma memória fria assomou por trás de seus pensamentos: os óculos tinham sido presente de graduação de Sicco Termaplugue.

E Gelbin jamais teria deixado os óculos largados sobre a cadeira.

Tarde demais ele notou um arame enrolado no arco do nariz, que descia pelo lado da cadeira e sumia num buraco do chão, quase invisível. Veraprata, incrivelmente leve mas mais forte que o aço. Gelbin sentiu um puxão no fio – o tremor mecânico de uma mola se soltando – e olhou para o alto a tempo de ver uma porta pesada batendo e fechando a entrada. Um clangor metálico igual respondeu da saída atrás dele.

Uma nova construção no Setor 17? Aparentemente sim. Alguém havia deixado uma armadilha para o grão-faz-tudo, e Gelbin entrara nela direitinho. Quem mais sentaria em sua cadeira? Quem mais tocaria nos óculos do grão-faz-tudo? Engrenagens ocultas rangeram atrás de paredes ocas e Gelbin se perguntou se o Capitão Piscamola havia sido subornado, ou se a equipe não tinha mesmo notado a sabotagem.

Houve um som chiado de estática, e um alto-falantes foi ligado. Dele, saiu uma voz que assombrara os sonhos do grão-faz-tudo por anos.

– Sabe, meu caro Gelbin, eu me perguntava se essa isca não seria um tanto óbvia para você. Quase não acreditei quando ouvi o alarme. Parece que sempre posso contar com essa sua charmosa ingenuidade para derrotar seu intelecto.

Gelbin se ergueu prontamente e enxugou os olhos. Por um momento ele teve o medo infantil de que Sicco o tivesse visto chorando, mas o grão-faz-tudo deixou o pensamento de lado. A sensação vazia de alguns instantes fora substituída por algo mais frio. Medo e vergonha ecoando sua confusão em harmonia dolorosa. Rilhando os dentes, Gelbin tateou o elo do cinto de onde a fiel Engrenálibur pendia. Nada. Na pressa de rever seu velho estúdio, ele viera completamente desarmado.

Isso era outra coisa que ele nunca fazia, nem mesmo andando por Altaforja. Estaria ele perdendo a lucidez?Confusão, esquecimentos, e agora isso.

De um jeito estranho, Termaplugue estava certo. O grão-faz-tudo suspeitara de uma armadilha nesta área, tão facilmente reconquistada. Mas… como Sicco podia desperdiçar tamanha quantidade de tempo e recursos apenas para matar um único gnomo, quando toda a Aliança batia à sua porta? Sim, muito confuso.

– Concentre-se, droga! – Gelbin sussurrou para si mesmo. Ele acabaria morto se não organizasse os pensamentos. O grão-faz-tudo jamais se sentira tão mal, mas ele não podia deixar seu antigo amigo desconfiar disso, se quisesse viver. Talvez uma disputa verbal pudesse distrair a mente de Sicco – famosa por sua pouca elasticidade – enquanto Gelbin procurava maneira de fugir. Ele limpou o pigarro.

– Acho que dei muito crédito a você como estrategista, Sicco. Não admira que minhas tropas estejam conseguindo tantos avanços contra seu exército entrincheirado, e que nos supera em número em três para um: você andou perdendo tempo com esses joguinhos bobos de vingança.

Varrendo a câmara com o olhar, Gelbin se esforçou para manter a concentração. Se Termaplugue decidisse ventilar o mesmo gás usado contra sua raça, não haveria escapatória. Gelbin conhecia o salão bem o suficiente para entender isso. Apenas duas portas, ambas lacradas. Ele levantou a frente da túnica, protegendo o nariz, e procurou pelos sinais da névoa verde mortal. Talvez ele conseguisse prender a respiração por tempo suficiente para sair pelo duto preparado por seu inimigo para asfixiá-lo.

Sicco Termaplugue estava rindo.

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