O Pergaminho em Branco Parte 2

by luizcsilva on 25 de junho de 2015

— Ah, agora sim — disse Shuchun. Agora todos os guerreiros tinham uma variedade empolgante de espadas, maças e armas de haste. Shuchun apoiou o queixo nas mãos e ficou assistindo.

— Você fez isso?! — rugiu Druz, entre os disparos.

— Eu, não — respondeu Shuchun. — A história.

— E você! E você!

— Acho que é verdade — disse Shuchun. — Mas eu podia ter mencionado que as armas estavam pegando fogo…

FUSH!

— Aah!

— Tá, isso foi meio irresponsável — admitiu Shuchun, vendo a luz alaranjada do fogo brilhar no pelo de suas patas erguidas. — Eu vou ficar quieta. Podem continuar.

Os minutos se passaram, pontuados por grunhidos, arquejos e acrobacias ousadas. Finalmente Shuchun se levantou e desceu pela duna até o palco da batalha.

— Cada grão de areia se tornou um guerreiro feroz decidido a matar Di Chen — repetiu a Andarilha, empurrando os soldados distraidamente. Eles paravam, confusos, como se não a vissem — A batalha só terminou quando Di Chen admitiu que havia desafios difíceis demais até para ele.

Ela chegou ao centro das centenas de soldados. Druz e Ziya estavam de costas um para o outro, completamente cercados. Armas flamejantes obscureciam o céu.

— Quer dizer que é pra gente se render? — perguntou Ziya, ofegando.

— É uma opção — respondeu Shuchun.

— Por mim, tá ótimo — disse Druz, baixando a arma. Ziya fez o mesmo imediatamente.

O vento uivou no alto, rico com as risadas da bruxa do deserto, e carregou os soldados grão a grão. Os goblins os viram sumir.

— Você podia ter avisado — grunhiu Ziya.

— Ela tentou contar o resto da história — disse Druz, sorrindo e se abaixando para pegar a arma — Mas nós quisemos lutar…

Ele parou e lançou um olhar desconfiado na direção de Shuchun. — Espera. Antes dessa última confusão, estávamos falando sobre continuar a lutar. E acabamos numa batalha impossível.

O queixo de Ziya caiu. — Estávamos falando de monstros e sobre não haver caminho de volta, e acabamos sendo seguidos por um monstro em um labirinto!

— Andarilha das Lendas — disse Druz, firme. — Estamos criando armadilhas quando discutimos?

— Claro que estão — respondeu Shuchun, sem trair seus sentimentos. — Eu achei que vocês soubessem.

Como é que a gente ia saber?

— Quando meu povo se mete em uma discussão muito séria, eles chamam um Andarilho das Lendas — explicou Shuchun. — O Andarilho escuta os dois lados e conta uma história que contesta as opiniões de todos. Não era isso que vocês estavam fazendo?

— Não!

— Ahn — disse Shuchun.

— Nós podíamos ter morrido!

— Nunca — disse a Andarilha. — Afinal, Di Chen não sofreu nem um arranhão. Na história.

— O que aconteceu com ele no fim? — perguntou Ziya. — Ele se rendeu também?

O vento ficou forte outra vez, e o círculo alto do Sol se expandiu sobre eles, um lençol estendido de luz branca. Shuchun sacudiu a cabeça e apontou para um vulto no topo de uma duna distante. Enquanto observavam, o vulto girou para dar um golpe com um punho cansado, esfacelando um guerreiro e transformando-o em pó.

— Ele continua lutando até hoje — disse ela. — Sempre há motivos para lutar. O truque é saber quando parar.

Os goblins ficaram quietos, lado a lado, no centro de uma pequena sala branca.

— O que está acontecendo? — disse Druz, pelo canto da boca.

— A câmara das lendas está esperando que vocês falem para que ela possa criar o último desafio — respondeu Shuchun, as costas apoiadas na parede.

Druz aquiesceu.

— Foi o que eu pensei — disse ele, e então ficou quieto outra vez. O tempo passou.

Por fim, Shuchun teve pena deles.

— Vocês podiam falar sobre seu amor mútuo por pôres do sol — disse ela.

— Isso pode virar alguma história?

Shuchun pensou.

— Várias — admitiu ela.

 

Silêncio.

— Eu não entendo — disse Ziya. Druz a cutucou, e ela o ignorou. — Por que os pandarens usam histórias para resolver problemas?

— Não somos apenas nós — respondeu Shuchun. — Todas as raças têm histórias que são contadas e recontadas. Nós gostamos delas porque elas têm as respostas fáceis que nos ajudam a encontrar as difíceis. Mas histórias são perigosas.

— Jura? — disse Druz. A Andarilha sorriu.

— Às vezes, nós esquecemos que histórias quebram as regras — disse Shuchun. — Respostas simples não se importam com as consequências, e há muitas.

— Eu entendi — disse Druz. — Seu artefato é uma resposta fácil. Mas você é neutra, Andarilha das Lendas. Nós não podemos nos dar ao luxo de… Nós temos que tomar decisões difí… ah, praga!

Bem abaixo deles, sob o assoalho branco, antes opaco, algo escuro e terrível se movia.

— Você sabia que isso ia acontecer — disse ele.

Shuchun deu de ombros.

— Eu não forcei você a entrar na câmara das lendas — respondeu ela.

— Qual é essa?

Shuchun observou o horror que se desenrolava lá embaixo.

— Você quer um palpite? Acho que é “As aranhas de Te Zhuo” — disse ela.

Druz e Ziya fecharam os olhos. A nuvem negra abaixo deles se expandiu e milhares de pequenos — não pequenos o suficiente — corpos subiram em direção à luz.

— Como você é contra aranhas? — perguntou Ziya.

— Não sou muito bom, não. Andarilha das Lendas? Alguma chance de a gente pular para a moral da história? Alguma coisa sobre ações e consequências? A gente já entendeu.

— Já? — perguntou Shuchun, educadamente. — Elas ainda estão vindo.

As paredes brancas sumiram como nuvens cinzentas em vento forte. Os goblins e a Andarilha ficaram em cima de uma plataforma de pedra no centro de um grande aposento barulhento. Milhares de pernas subiam, e sombras pesadas e enormes davam voltas nas trevas ao redor da plataforma numa velocidade estonteante.

— Bom, então conte o final da história — disse Druz, entredentes. — Faça isso parar.

— Isso vai ser um problema — admitiu Shuchun. — Nenhum explorador que entrou no templo perdido de Te Zhuo foi visto de novo. Essa é uma história para meter medo em criança, não é bem uma história.

— Uma história para as crianças não entrarem no templo onde a gente já está? — perguntou Ziya, cansada.

Shuchun se alegrou.

— Espera, espera aí — disse Druz. — Ninguém nunca voltou? Então não encontraram nenhum corpo.

Shuchun virou a cabeça de lado. — E…?

— Então como é que a gente sabe que é um lugar ruim? — perguntou Druz. — Pode ser tão maravilhoso que ninguém quis sair.

— Olha, é uma possibilidade — concedeu Shuchun enquanto Ziya enterrava o rosto nas mãos. — Só que o título da história menciona aranhas, e deve ter um bom motivo pra isso.

— É? — disse Druz. Ele e Ziya se aproximaram sem precisarem combinar, juntando os ombros.

— Bom, eu não disse que ninguém nunca ouviu os exploradores de novo. Eles gritam.

— Deixa eu adivinhar. Eles gritam alguma coisa sobre aranhas — disse Ziya.

— Se gritam.

Uma onda de morte negra em incontáveis patas peludas explodiu do fosso abaixo. E parou. Aglomerados de olhos brilhantes ardiam de fome.

— Então, se entrarmos nesse templo Te Zhuo — disse Druz depois de respirar calmamente —, podemos encontrar qualquer coisa. Armadilhas. Aranhas bem impressionantes.

— Servos dos Deuses Antigos, talvez — disse Ziya. — Eles entram em qualquer lugar.

— Uma ação — disse Druz lentamente. — Um resultado: a gente não sai mais daqui.

— Não temos como sair dessa, não é? — perguntou Ziya. — Nossas ações nos trouxeram aqui. Temos que lidar com as consequências.

— Isso — disse Shuchun, sorrindo. — Muito bem.

As trevas inundaram a plataforma e carregaram os goblins.

Ziya abriu os olhos. O frio contra sua bochecha era um chão de mármore, comprido e pálido, estendendo-se na direção…

… de um pergaminho do lado oposto da parede, em uma câmara estreita e sem portas. Os fantasmas de palavras passavam pela superfície do pergaminho rápidos feito pensamentos. Era o branco total de um olho sem pupila, encarando-a, esperando.

Shuchun passou por cima dela e bloqueou sua visão do pergaminho com uma passada tão precisa que parecia ter sido prevista.

Grunhindo, Ziya se ergueu.

— Isso é tudo? — grunhiu Druz. Ele se aproximava da parede, parecendo pior do que ela se sentia.

— É — respondeu Shuchun.

— O que é isso?

— Alguns chamam de arma — disse Shuchun. — Outros chamam de lição ou punição. Tudo o que eu sei é que os Andarilhos da Lendas o criaram há muito tempo e devem arcar com o fardo de manter o mundo a salvo das consequências.

— Por que ele é tão perigoso? — disse Ziya.

— Um pergaminho em branco — qualquer pergaminho em branco — contém possibilidades. Pode se tornar o conto de Rakalaz — explicou Shuchun, e Ziya olhou para o alto. Abriu-se uma rachadura no teto e caiu areia por ela. Em algum lugar lá em cima, ela contara uma história. Teria o pergaminho escutado?

 

— Ou talvez o pergaminho registre a lenda de um exército infinito feito de areia, de uma legião de aranhas — disse Shuchun — ou coisa pior.

— Então você está dizendo que ele traz personagens à vida, que nem os andarilhos? — perguntou Druz.

— Não. Você não entendeu. Eu posso evocar Di Chen para discutir com a bruxa do deserto e combater o exército lendário. Eu não poderia fazer com que ele combatesse meus inimigos.

Druz ergueu a sobrancelha. — O pergaminho pode fazer isso?

Ziya notou a fome em sua voz. Será que Shuchun ouvira?

— Talvez — disse Shuchun, serenamente. — Nossas lendas dizem que ele pode transformar palavras em carne. Esperança em realidade.

— Você vai me desculpar, mas pra mim isso tem cara de evocação mágica — disse Druz. — Bruxos fazem isso o tempo todo. Não tem nada de errado, fora algumas invasões demoníacas.

— Não? — perguntou Shuchun.

Uma arma foi engatilhada.

— Não. Não vou negar que é perigoso — disse Druz, como quem se desculpa, apontando o rifle para Shuchun. — Mas uma arma é uma arma. Não vai atirar até que alguém aperte o gatilho. Ahm, modo de falar. Ziya, pegue o pergaminho.

Shuchun olhou para Druz com tanta tristeza que Ziya se perguntou como ele conseguiu aguentar.

— Eu falei que não deixaria você levá-lo.

— Não é uma discussão. Ziya. Pergaminho.

— Você acha que poderá controlá-lo, quando nós não pudemos?

— Eu? Não. O sr. Gallywix quer o que está guardado aqui. Ele vai conseguir o que quer.

— “E assim os goblins decidiram pegar o pergaminho” — disse Shuchun suavemente.

Suas palavras passaram pelo pergaminho, que pulsou com uma chama branca. As paredes da sala se racharam e luz branca entrou pelas fendas.

Instintivamente Druz puxou o gatilho.

— “Instintivamente Druz puxou o gatilho e…”

… a bala partiu.

Os goblins partiram levando o pergaminho e adentraram os aposentos do príncipe mercador Gallywix.

Ziya cambaleou, combatendo a náusea que sentia. Druz cambaleou junto, trombou com ela e se apoiou em seu ombro.

Como eles tinham chegado ali? A última lembrança que ela tinha era do rifle disparando contra o rosto solene da Andarilha das Lendas Shuchun, o que parecia ter acontecido apenas alguns segundos antes.

Agora eles estavam em outra parte. O rugido longínquo dos motores do superzepelim pulsavam atrás das paredes. Ziya e Druz estavam em um espaço apertado e escuro. A oficina de um faz-tudo com um banco simples de madeira. Uma bancada. Ferramentas organizadas cuidadosamente.

Jastor Gallywix sentava-se à bancada, desenhando um diagrama a mão livre, e a desorientação de Ziya passou. Tinha sido um dia longo.

Gallywix estava mais magro do que ela se lembrava, mas não muito. Sua barriga saía de baixo do colete simples, aberto. Na época ele também usava uma cartola grande demais, anéis brilhantes e um sorrisinho horroroso de arrepiar canela de sacerdote.

Mas esse Gallywix não usava joias e não estava sorrindo.“Talvez você não o conheça tão bem quanto eu” , Druz dissera…

Druz se empertigou ao lado dela.

— Taqui, chefe — disse ele, e jogou o pergaminho na bancada. Gallywix não tocou no artefato.

— E a Andarilha das Lendas?

Ziya sentiu uma onda de culpa. Ela vira a bala voar. Shuchun se fora. Não havia dúvida.

— Morta — disse Druz, mas ele soou hesitante.

— Que pena — respondeu Gallywix, e acenou na direção do pergaminho. — O que é isso?

— Parece que é um tipo de portal que torna as histórias reais. As coisas saíram de controle antes que a Andarilha pudesse explicar melhor.

O príncipe mercador olhou com atenção para o pergaminho. Ziya se preparou para a coisa terrível que…

— Parece encrenca — disse Gallywix. — Vou guardar no câmara inferior quando voltarmos a Azshara.

O queixo de Ziya caiu.

— Chefe — disse Druz, quase implorando. — Se o senhor não usar, alguém vai.

 

— Você sabe o que eu vou dizer — disse Gallywix, olhando para ele.

— Sei, sim — respondeu Druz, suspirando.

— Que bom. A última coisa de que precisamos é de uma arma enorme dando sopa por aí. Tire-a daqui.

— E é só isso? — As palavras foram ditas antes que Ziya pudesse se refrear.

Gallywix olhou para ela. Ela podia ver as engrenagens girando na cabeça dele.

— O que você esperava, Sargento? — perguntou ele.

— Eu esperava que você usasse! — grunhiu Ziya. — É o que você faz. Você usa coisas. Você é um monstro!

Para sua surpresa, Gallywix concordou.

— É, eu sou. Mas não desse tipo.

— É desse o tipo que você é, sim!

— Não — disse Gallywix. — Nós nunca nos vimos antes, Sargento, então permita-me explicar. Eu não me importo de vender você se você ficar descuidada. Eu mando você para a morte se isso for ajudar o cartel. Mas eu não quero que você morra por estupidez ou por causa de uma arma grande e imbecil a troco denada. Eu não sou assim.

Ele olhou para o anel pendurado no pescoço dela. As mãos de Ziya se fecharam ao redor dele, protetoras. Uma expressão inescrutável passou pelo rosto de Gallywix.

— De qualquer forma, eu sinto muito pelo que houve com seu marido em Hyjal. Mas não sinto muito por nada do que eu fiz. Então, sim, eu sou um monstro. Mas eu cuido do que é meu. Sempre que possível.

— E no momento, isso significa esconder essa arma antes que alguém fique sabendo dela.

Mas é claro que alguém descobriu, sussurrou a voz da Andarilha das Lendas Shuchun, e a sala se cristalizou, desacelerou ao redor de Ziya. Os rumores correram mundo: Gallywix encontrara uma arma poderosa em Pandária e a guardara para si.

Na mente de Garrosh Grito Infernal, o chefe guerreiro da Horda, só podia haver uma explicação para tal traição: rebelião. Garrosh levou a Horda dividida a invadir o Ancoradouro Borraquilha.

O superzepelim sumiu. Chão sólido apareceu sob os pés de Ziya.

Das alturas frias do palácio de Gallywix, ela viu seu lar em chamas. Druz cambaleava ao seu lado, com os olhos marcados de cansaço.

— Ponham suas armaduras — disse um capanga atrás deles. — Eles logo estarão aqui.

As forças de Garrosh chegaram ao palácio. Os goblins recuaram para os corredores subterrâneos, protegendo o cofre e os segredos ali contidos, disse a Andarilha das Lendas Shuchun.

Ziya recuou, com as adagas úmidas nas mãos. Um elfo sangrento ergueu um arco e Druz empurrou Ziya para o lado, recebendo o projétil no ombro. Ele cambaleou por cima dela grunhindo e ela o arrastou consigo.

Logo, os poucos goblins sobreviventes já não tinham mais para onde ir, disse a Andarilha das Lendas Shuchun, calma e implacável.

Uma flecha acertou Ziya e ela se sentou, um pouco surpresa. Druz apoiou-se nela, arquejando. A antecâmara era uma grande sala de aço repleta de goblins mortos. A Horda, os invasores, se aproximavam, relutantes agora que o massacre estava próximo. Ela reconheceu alguns deles de Hyjal e de outras batalhas. Se ela pudesse recuperar o fôlego, sabia que poderia convencê-los de que estavam cometendo um engano…

A porta da câmara se abriu atrás dela.

A perna de um tanque-aranha passou por cima dos goblins. E outra. E o príncipe mercador Gallywix avançou gargalhando insanamente contra os invasores. Garrosh abriu caminho por suas tropas, segurando o machado na gigantesca mão vermelha.

— Recuem — rugiu o chefe guerreiro. — O traidor é meu.

O duelo não durou muito, mas tampouco correu como se esperava — disse Shuchun.

— Ajude-me — disse Druz, chiando e mexendo no rifle. Ajudando-o do chão, Ziya levantou o cano da arma, mirando em…

O duelo. O mecano-tanque cambaleou para o lado, recebendo outro golpe do machado e cuspindo faíscas das juntas enferrujadas. Gallywix estava perdendo. É claro que estava.

Por que ele ainda estava rindo?

Gallywix se ejetou dos destroços do mecano-tanque e se agarrou às presas do orc musculoso, batendo a cabeça contra o rosto do chefe guerreiro como o lutador de rua que ele fora um dia. Garrosh caiu com um joelho no chão.

De cabeça pensa, delirando de dor, Druz disparou. Ele errou.

Gallywix estremeceu e caiu.

E Garrosh conquistou os tesouros da câmara, disse a Andarilha das Lendas Shuchun.

Ziya jazia em uma poça crescente de sangue sem saber se era seu, observando Garrosh ajoelhar-se para pegar o pergaminho.

Meses se passaram, sussurrou a Andarilha das Lendas Shuchun ao ouvido de Ziya. E o mundo mudou.

Ziya se rendeu à história, fechou os olhos e…

… lutou para abri-los. Sangue escorria para seu olho bom. O elmo tinha aparado o pior do golpe do orc. Ziya grunhiu, livrando-se da desorientação, e rolou para a esquerda.

A espada do orc cortou o chão onde ela estivera. Ela pulou e fez descer as duas adagas num arco cruel.

O orc a encarou sem expressão, com as adagas projetando-se de sua garganta, e caiu.

Ele logo se levantaria de novo.

Garrosh acreditava em um mundo governado por orcs. O pergaminho tornara aquilo realidade. Os orcs afluíam por toda Kalimdor, escravizados por um mestre diferente do sangue demoníaco que outrora os dominara. Nada poderia matá-los, e o vácuo pálido do artefato que os impelia brilhava em seus olhos vazios.

Teldrassil, em chamas, caíra no mar. Um fosso calcinado era tudo o que restara de Exodar. Os taurens e trolls, horrorizados com a devastação, tinham fugido pelo Grande Mar, esperando que Garrosh ficasse contente com as vitórias obtidas.

Ele não ficou.

Ziya estava perto do Porto de Ventobravo. Uma última batalha ao lado de seus aliados e antigos inimigos. Uma luta que não podiam vencer.

O som de passos a alertou e ela sacou as adagas.

— Você — disse.

— Eu — disse Druz, enrolando uma gaze esfiapada em uma ferida profunda no braço. —É bom ver você, Sargento.

Ele não carregava arma nenhuma. Talvez tivesse se perdido. Talvez ele tivesse desistido completamente e a deixado cair. Se qualquer maneira, ela não podia culpá-lo.

Eles ficaram lado a lado. A frota de orcs chegou à enseada lotada, despejando centenas de guerreiros uivantes nas docas. Taurens morreram ao lado de humanos, anões e elfos sangrentos, mas tarde demais, tarde demais.

O orc aos pés de Ziya se mexeu, e suas feridas horrendas começaram a se fechar.

— O que conta são as boas intenções… né? — disse Druz.

— É tudo culpa sua — disse Ziya, baixinho.

Druz deu uma risadinha. — Pelo menos não vamos viver para nos arrependermos.

Ziya correu para a batalha e Druz a seguiu.

 

Ventobravo caiu. Os orcs reinavam supremos. Por algum tempo.

O Portão Negro, desprotegido, foi reconquistado pela Legião Ardente. Horrores se ergueram do mar e não encontraram campeões que os rechaçassem.

As montanhas de Azeroth queimaram e derreteram. Os oceanos ferveram até que nada mais restasse. E tudo era trevas.

Tudo era luz.

Esmaecendo, o pergaminho em branco ainda lançava uma longa sombra na direção da Andarilha das Lendas Shuchun, transformando os rastros de gotas de água nas paredes da câmara das lendas em uma rede enfeitada de pérolas brilhantes.

A bala estava parada diante de Shuchun, o último vínculo entre os dois goblins e seu futuro terrível.

A Andarilha Shuchun esticou o braço, colheu a bala do ar e a depositou com cuidado no chão.

— “A Andarilha das Lendas Shuchun se voltou para o pergaminho” — disse ela. — “De certa forma, Druz estava certo. O pergaminho era simples como uma arma. Mas armas podem ser disparadas acidentalmente. Balas podem atingir o alvo errado. Então a Andarilha das Lendas Shuchun mirou com cuidado e disse…

“‘As imagens que os dois goblins viram não eram reais.’

A sala girou, derrubando os goblins no chão. Shuchun não se moveu um centímetro.

— “Nenhum dos horrores que eles testemunharam aconteceu de verdade.”

Ziya baixou a cabeça sob o peso das ondas nauseantes de memória, das perdas e velhas feridas que ela já não carregava.

Ela ouviu: — “E tudo estava como estava.”

Ziya olhou para cima em súbita calma. Shuchun guardou o pergaminho bem enrolado atrás do ombro.

— Aquilo foi real? — disse Ziya. — Alguma coisa foi?

Shuchun refletiu sobre a pergunta.

— Você vai dormir melhor se eu não responder.

Ela estendeu as patas para ajudá-los a se levantar. Ziya segurou uma delas. Druz, não.

— Você podia ter usado o pergaminho desse jeito a qualquer momento que quisesse? — perguntou ele. Parecia uma acusação.

— Podia.

— Me fez fazer coisas que eu…

— “Fez”? — disse Shuchun, e já não havia gentileza em seu tom. — Você acredita que a paz é impossível porque nunca tentou. Você acredita que a guerra continuará porque ela nunca terminou, e toma decisões difíceis sem temer as consequências.

— Você escolheu seu caminho — disse a Andarilha Shuchun, e respirou fundo. — Eu salvei você dele.

Druz rilhou os dentes. — Então por que nos levar pela câmara das lendas? Por que não fazer a gente esquecer que encontrou alguma coisa? — Ziya percebeu seu tom súplice.

O sorriso de Shuchun era bondoso e astuto de maneira inquietante.

— Talvez vocês precisassem descobrir o preço das respostas fáceis — respondeu.

Eles se despediram na praia em meio ao ar fresco e salgado.

— Você tem um lugar seguro onde guardar isso aí? — perguntou Druz, indicando o pergaminho. Algo quebrara nele; isso era óbvio. Mas fora reforjado em algo diferente. Algo mais forte.

— Tenho — respondeu Shuchun.

— Ótimo. Sargento, tire uma folga. Remunerada, é claro — acrescentou ele quando Ziya abriu a boca. —  Faça a Andarilha chegar aonde precisa.

E ele subiu de volta pela corda do superzepelim sem dizer mais nada.

Ziya e Shuchun se afastaram da costa subindo uma trilha. O superzepelim afastou-se erraticamente no horizonte como se o piloto estivesse bêbado. Provavelmente estava.

— Pra onde a gente vai? — perguntou Ziya.

— Por aqui — disse Shuchun, apontando. — Temos uma jornada longa pela frente.

Ziya girou o anel pendurado em seu pescoço. Para sua surpresa, ela estava sorrindo. Era bom proteger em vez de atacar, para variar um pouco. Acreditar que a guerra e seus horrores podiam ter fim.

Elas viajavam em silêncio.

— Quer ouvir uma história? — perguntou Shuchun.

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