Os Caçadores de Jade Parte II

by luizcsilva on 25 de dezembro de 2014

Alguns pandarens queriam vingança. Eles reuniram forças para o dia em que iriam enfrentar os mogus. A raiva motivava cada sopro em seu peito. Mas o que é aforça sem controle? Esses pobres escravos logo se tornaram instrumentos da ira, voltando seu ódio contra tudo e contra todos. Tinham esquecido a lição mais importante de Xuen: “O único inimigo é você mesmo.”

— Os Pergaminhos dos Celestiais

Gotas de suor escorriam lentamente do pescoço de Fendrig. O medo estava voltando, remexendo suas entranhas, rugindo feito um trovão distante. Nas profundezas daquela montanha de ninguém, ele se perguntava se a tempestade enfim o dominaria. Não conseguiria mantê-la afastada por muito mais tempo.

Pensamentos sombrios revoavam em sua mente. Quem podia garantir que aquele lugar era estável? Que medidas de segurança os pandarens instalavam em suas minas? Talvez nenhuma, quando construíram aqueles túneis. Talvez por isso os alvanéis pandarenos evitassem o lugar.

Fendrig se xingou por não ter ficado no acampamento, mas de que isso serviria? A Ferro Negro e o Martelo Feroz teriam voltado e visto que ele não minerara nada. E então talvez descobrissem que a “Mão de Khaz” já não entrava em uma mina fazia mais de ano.

— Há outra câmara mais à frente! — gritou a Ferro Negro.

Fendrig sentiu alívio. As paredes irregulares vinham se estreitando, ficando mais apertadas. Era difícil respirar. Ele parou um pouco para se recompor, recuperando a máscara de autocontrole que mantinha com maestria dia e noite.

A comprida sala retangular era muito maior que a anterior. Por sorte, havia uma passagem na outra ponta, e estava aberta. O teto e as paredes eram lisos e retos, muito bem assentados.

A investigação de Fendrig não lhe revelara o propósito daquelas câmaras. Os pandarens as construíram em tributo aos celestiais. Mas por quê? As runas entalhadas nas paredes não davam a resposta. Eram inscrições vagas e crípticas. Antigos provérbios pandarenos, em sua maioria.

Entalhada no chão, bem no centro da câmara, estava a cabeça de Niuzao, do tamanho de um broquel. Os olhos de safira do boi reluziam, refletindo a luz da chama sobre o capacete de Fendrig.

Fenella pisou no disco ao atravessar a sala, e o golem pesado foi atrás. Carlo adentrou a câmara e, após uma breve inspeção no recinto, seguiu os passos da Ferro Negro.

Fendrig mal os notou. Sua atenção estava voltada para os murais complexos que cobriam as paredes da câmara. Representavam Niuzao, o Boi Negro. Fendrig lera sobre ele enquanto cruzava o mar rumo a Pandária. Era uma criatura poderosa, capaz de enfrentar exércitos inteiros. Não surpreendia que os pandarens adorassem o boi na esperança de tomar emprestada sua força.

Naquele mural, no entanto, Niuzao não parecia um guerreiro destemido. O Boi Negro se encolhia, cercado por uma legião de guerreiros mogu, no topo de uma colina. Ao examinar de perto, Fendrig notou que os soldados eram falsos — estátuas de argila. Na beirada do mural, mogus reais admiravam a cena extasiados.

De repente, o ar ficou carregado de energia. Fendrig sentiu o estômago revirar. Aquele lugar era sobrenatural. Ele se perguntava se havia deixado escapar algum detalhe durante as investigações. Talvez os mogus tivessem descoberto os túneis. Talvez os tivessem amaldiçoado.

Fendrig sentiu um calafrio ao perceber que estava sozinho. — Ei! Cadê vocês dois?

— Aqui na frente! — ecoou a voz de Fenella da porta.

O Barbabronze saiu correndo em direção à voz e tropeçou em uma depressão do piso. Ao olhar para baixo, descobriu que estava em cima do emblema de Niuzao. O rosto do Boi Negro, outrora estoica, assumia ali a mesma expressão de terror que se via no mural.

Fendrig saltou para trás: o disco começara a girar, parando somente após dar uma volta completa. A fricção de rocha contra rocha produziu um rugido que fez a sala tremer. Por trás das paredes, o anão ouvia o som de eixos e roldanas, o estalar da madeira velha e o esticar de cordas fortes que se tensionavam.

— Que barulho foi esse? — gritou Fenella do túnel.

— Foiiiii… — Fendrig estava sem palavras.

O estrondo se tornou ensurdecedor. No vão das portas, começaram a descer blocos maciços de pedra numa velocidade alarmante. Sentindo as pernas pesadas feito bigornas, o anão deu um passo, tropeçou e caiu no chão. Seu capacete também caiu e, com o impacto, a chama que luzia sobre ele se apagou.

— Barbabronze! — gritou Fenella.

Fendrig ergueu os olhos e se deparou com a luz violeta da gema da Ferro Negro. O bloco de pedra deslizava pelo vão da abertura. Fenella estava agachada ao lado de Carlo e do golem, os rostos pouco discerníveis a distância. Todos os três lutavam para impedir que a porta se fechasse, mas sem sucesso.

Poderia ter tentado correr. Em vez disso, ficou parado vendo a porta se fechar feito um cordeirinho indefeso. As trevas o engoliram. Na sua cabeça, ainda ressoava o rugido da rocha. Mas o som assumira um timbre diferente. Era o som de um mundo que se esfacelava, de uma montanha e sua ira ancestral vindo abaixo.

— Fendrig! Cadê você, companheiro? — disse uma voz na escuridão.

Ele a reconheceu. Fazia um ano que não a ouvia, desde que…

— DESMORONAMENTO! — gritou uma outra voz.

Fendrig tentou se erguer, mas as pernas não lhe obedeciam. No escuro, perdeu completamente o senso de direção. Uma onda de náusea fez sua cabeça girar. Seus pulmões se encheram de um ar gélido e ele soube exatamente onde se encontrava.

No Caminho de Cristálgida.

— Não. Aqui não… aqui não… — Balbuciou para si mesmo enquanto olhava à sua volta. Embora a câmara continuasse escura, sentiu que havia crescido. Ele não estava mais em Pandária. Estava naquela montanha cavernosa, entranhada nas profundezas das terras enânicas. Ele e mais doze mineiros trabalhavam ali quando o Cataclismo ocorreu e os terremotos esfacelaram seu mundo.

Tochas débeis tremeluziam pela câmara. Nos breves instantes de iluminação, ele via vultos gigantescos cair, rochas do tamanho de vagões despencar do teto.

— Cadê o Fendrig?

Aquela voz de novo. Só que mais alta. A ela se seguiu um coro de vozes conhecidas.

— Ainda estou aqui! Eu vou voltar!

—Eu vou contigo!

— Não — suplicou Fendrig, numa voz estrangulada. — Salvem-se!

Eles não ouviram. A luz das tochas ficava cada vez mais forte. Cada vez mais próxima.

— Por aqui! — gritou um deles. — Ele está…

Um estrondo aterrorizante calou a voz para todo o sempre.

Ainda assim, os outros seguiram em frente, gritando o nome de Fendrig. Uma a uma, ele ouviu as rochas imensas cair. Ouviu os gritos dos mineiros e viu a luz de suas tochas desaparecer no nada.

Durante esse tempo todo, Fendrig permaneceu imóvel. Estava aterrorizado demais para se levantar e procurar os companheiros moribundos. Ele tremia, mas estava a salvo num abrigo natural formado por rochas caídas. Pura sorte, e vergonhoso.

Tão de repente quanto havia começado, o terremoto cessou. Tudo ficou em silêncio.

Fendrig fechava e abria os olhos, tentando se convencer de que estava tendo um pesadelo. Mas nada mudou. O ar continuava gélido, e ele sentia a garganta seca e a língua coberta por uma camada espessa de rocha pulverizada.

— Ei! — Alguém chutou suas costelas com força.

Fendrig ergueu os olhos, esperando ver a equipe de resgate que o encontrara sob os escombros da caverna. Dos treze mineiros que a adentraram naquele dia, apenas ele saíra vivo, e nem mesmo usando os próprios pés. Seus salvadores tiveram que carregá-lo, pois ele não tinha forças para caminhar.

Aquela, no entanto, não era a equipe de que se lembrava.

Um grupo de figuras vaporosas, que emitiam uma luz pálida e iridescente, o rodeava. Eram doze no total, todas trajando vestes de mineiro. Os doze anões mais corajosos que Fendrig já conhecera.

 

— Chega, Koveth. — Fenella apoiou as costas na parede do túnel, o suor escorrendo de sua fronte.

O golem se afastou da porta de pedra que levava à câmara selada. Ele passou um tempo esmurrando-a, mas não obteve resultado. Enquanto isso, Fenella e Carlo vasculharam o túnel, tentando descobrir um jeito de abri-la. Não encontraram nenhum.

— Tolo… — resmungou Carlo. — Por que não correu enquanto pôde?

Fenella balançou a cabeça. Ela e Carlo já estavam longe da câmara quando o bloco de pedra começou a descer. Quando chegaram, ele já estava pela metade, e, mesmo com a força bruta de Koveth, não conseguiram impedir que a porta se fechasse.

Fenella se deu conta de que não havia nada que pudessem fazer por Fendrig naquele momento. Teriam que voltar com explosivos ou com a ajuda dos pandarens antes que acabasse o ar da câmara.

A Ferro Negro fez um sinal para Koveth e foi-se embora túnel adentro.

— Você vai abandoná-lo à própria sorte? — perguntou Carlo.

— Vamos precisar de ajuda para libertá-lo, e para isso teremos que descobrir um jeito de sair daqui.

Carlo se demorou diante da porta, cabisbaixo, e então foi atrás de Fenella.

 

Fendrig fitava os fantasmas dos mineiros e se perguntava se haviam voltado para se vingar. Afinal de contas, o que fizera ele para honrar seu sacrifício? Até Pandária, nunca mais pusera os pés noutra mina. Mentia para se livrar de tais tarefas. Passava os dias contando histórias das minas que desbravara, empenhando-se em manter a fachada de aventureiro destemido. Era a única coisa que lhe restava.

— O que querem de mim? — guinchou Fendrig.

Em silêncio, os espectros se aproximaram. Barbabronze tentou desferir um golpe contra eles.

— A gente não morde, companheiro — disseram os fantasmas em uníssono. — Viemos para ajudar. Você está caído no chão há tempo demais.

Fendrig respirou fundo para tentar se acalmar. Deixou que os vultos sombrios o erguessem e teve a sensação de ser levantado por uma massa de ar. Juntos, puseram Barbabronze de pé.

— Pronto!

— Desculpe, camaradas. — Fendrig baixou a cabeça, envergonhado. — Eu devia ter procurado vocês na mina. Devia ter feito alguma coisa. Qualquer coisa. Eu… estava com medo.

— Nós também. A diferença é que não deixamos o medo nos dominar. Já passou da hora de tu fazer o mesmo. Atenção, vamos te soltar. — Fendrig sentiu o medo dar um nó em seu estômago.

— Não! — O gritou saltou-lhe da boca. — Eu estou preso aqui. Não sei como sair.

— Tudo o que podemos fazer é te colocar de pé. Se tu vai voltar a se deitar ou se manter erguido é uma decisão tua.

O anão engoliu em seco, a garganta afligida pelo ar frio da montanha. — Eu… — Tentou dizer algo, dando-se conta de que só queria uma desculpa para manter os fantasmas ao seu lado.

— Hora de voltar a viver — interviram os espectros. — Pronto?

O coração de Fendrig batia com força. Sua respiração se tornou ofegante. Quando sua hora chegasse e ele partisse ao reino do além, o que diria aos fantasmas dos doze? Muitas vezes se fizera essa pergunta. Diria que viveu o resto da vida com medo? Ou que viveu uma vida plena, de olhos abertos e com o fogo ardente queimando nas veias?

E, agora, ali estavam eles.

Ele limpou a garganta e sentenciou: — Vão em frente.

Os fantasmas o obedeceram.

Fendrig desceu lentamente ao chão e cambaleou, lutando para manter o equilíbrio. Encontrou forças para se manter de pé e encontrou aquela parte de si que ainda jazia sob as rochas de Cristálgida. Estava cansado e os músculos da perna ardiam a cada movimento. Mas a dor era prazerosa. Era uma sensação real.

Uma luz fraca e azulada irrompeu em um ponto da câmara. Fendrig divisou a figura de Niuzao. Os olhos de safira do boi brilhavam com fulgor, cada vez mais forte.

Sem olhar para trás, deu um passo a frente e firmou o pé sobre o disco.

 

Fenella já ia longe no túnel quando ouviu o ranger das rochas às suas costas. Ela, Koveth e Carlo correram a tempo de ver a porta da câmara de Niuzao se abrir. Com cautela, a Ferro Negro adentrou a câmara, com a gema brilhante em mãos, e avistou Fendrig.

Um sorriso largo se abriu no rosto do Barbabronze.

— O que aconteceu? — perguntou Carlo, que irrompeu na sala.

Fendrig soltou uma gargalhada do fundo de suas entranhas. — Nem eu sei, guri. — Ele apontou para a figura de Niuzao sob seus pés e continuou: — O disco é uma espécie de mecanismo. Acho que tropecei nele quando entrei.

Fenella inspecionou o disco, desconfiada. Lembrou que pisou nele ao atravessar a câmara, mas não aconteceu nada. A figura entalhada possuía exatamente o mesmo aspecto de antes. Era um desenho simples do Boi Negro, com traços estoicos, bravios e destemidos.

— Tu está bem, então? — perguntou ela. — Tu ficou paralisado.

— É, eu… me perdi um pouquinho. — Os olhos de Fendrig encontraram os da Ferro Negro. Sua frieza habitual havia desaparecido, dando lugar a algo distinto. Algo real. — Uma coisa é certa: esse lugar é mágico.

O Barbronze olhou para Carlo, que respondeu com um aceno breve.

— Está tudo bem agora — retomou Fendrig. Usando pederneiras, o anão de porte avantajado reacendeu a chama do capacete e, então, de cabeça erguida, conduziu seus companheiros montanha adentro.

 

Outros pandarens foram dominados pelo terror. A simples menção do nome de seus algozes os deixava paralisados. O medo perpassava todos os aspectos da vida. Temiam cada sombra e cada ruído. Temiam a própria vida, contentando-se em desperdiçá-la numa prisão de seu próprio feitio. Se ao menos se lembrassem do mantra de Niuzao: “O medo quer nos diminuir. Usemo-lo para nos revelarmos.”

— Os Pergaminhos dos Celestiais

O túnel parecia não ter fim. Murais de Chi-Ji, a Garça Vermelha, adornavam as paredes de fora a fora. Nas primeiras imagens, o celestial — símbolo da esperança, explicou Fendrig enquanto caminhavam — sobrevoava multidões de escravos pandarenos exultantes. Mas, à medida que adentravam o túnel, as imagens se tornavam cada vez mais sombrias: guerreiros mogu capturavam Chi-Ji, amarravam suas asas com correntes e exibiam a Garça Vermelha aos pandarens, que baixavam os olhos e choravam.

O número de mosaicos diminuiu gradualmente, dando lugar a um mar de gemas brilhantes. As paredes e o teto estavam cobertos de cristais de rubi, que refletiam o brilho da luz dos anões.

— É maravilhoso — murmurou Fenella consigo mesma. Aquela era a verdadeira beleza, não as florestas e flores que cresciam na superfície. Os cristais e as pedras sobrevivem à prova do tempo.

Ela notou um ponto verde escuro na parede e se aproximou para ver melhor. Havia uma pedra de formas perfeitas encaixada no meio de dois cristais. Fenella apontou a gema brilhante para o teto e descobriu várias outras iguais àquela. Já havia visto aquilo em algum lugar…

Curiosa, esticou o braço para tocar numa delas.

A pedra soltou um guincho.

Fenella de um pulo para trás quando patas esguias se desdobraram sob o tórax da aranha xistosa. Ela chacoalhou a carapaça. Um punhado de olhos verdes reluziu na escuridão. A comoção assustou as outras criaturinhas. No teto e nas paredes, dezenas de come-comes ganhavam vida, estalando as patinhas.

— Koveth! — gritou Fenella. — Atacar!

— Afirmativo. — O golem esmagou um amontoado de aranhas, espalhando-as pela parede.

Mas havia mais delas. Um mar de aranhas avançou, afundando patas afiadas feito navalha na carne dos anões. Parte do teto desmoronou e um grupo de aranhas gigantescas, da metade do tamanho de Fenella, despencou no chão.

— São muitas! — Carlo brandia o martelo, rachando a carapaça de uma das aranha maiores. — Corram!

Ele e Fendrig fugiram pelo caminho de onde haviam vindo. Fenella tentou segui-los, mas o exército de aranhas a impediu. Uma porção delas se separou do grupo e se pôs a perseguir Barbabronze e Martelo Feroz. A anã olhou na outra direção: o caminho estava livre.

— Koveth — sibilou ela —, retirada defensiva!

Fenella saiu em disparada, o som dos passos do golem ribombando às suas costas. Ela não parou para pensar aonde estava indo ou por quanto tempo havia corrido. Continuou até se deparar com uma bifurcação. Havia uma estátua de Chi-Ji na parede de cristal. As asas da Garça Vermelha estavam amarradas e a cabeça do celestial estava virada para o túnel da direita, com os olhos cheios de lágrimas.

Fenella parou para recuperar o fôlego. Ninguém a seguia, exceto Koveth, com o corpo de ferro amassado e riscado.

Um grito agudo ressoou na direção de onde haviam vindo. Um grito de anão. Fenella sentiu um arrepio. De repente, como que por feitiçaria, o ar da caverna esquentou.

“Não posso fazer nada por eles.” O pensamento emergiu de algum recôndito sombrio de Fenella. “Se eu voltar e nós três morrermos, vai ser uma vergonha para o meu clã. Moira me pôs no comando. As más línguas de Altaforja vão dizer que eu estraguei tudo, que levei um Barbabronze e um Martelo Feroz para os braços da morte. Mas, se eu seguir em frente e sobreviver, uma Ferro Negro terá triunfado onde os outros sucumbiram.”

Quanto mais pensava na ideia, mais ela fazia sentido. Carlo e Fendrig fariam o mesmo se tivessem a oportunidade. Eles a odiavam. Era um ódio marcado a ferro no seu âmago, um ódio que nem o tempo nem a experiência seriam capaz de expurgar.

Fenella contemplou a bifurcação.

“Me deixe orgulhosa”, dissera-lhe Moira, em particular. Era aquilo que ela queria dizer, não era? Por que mais teria pedido à filha de Fineous Forçanegra para liderar aquela equipe?

Um movimento chamou a atenção de Fenella. Nas paredes, refletida nas facetas dos cristais, viu imagens suas. Estavam acenando para ela, chamando-a, implorando que tomasse a passagem da direita.

Fenella seguiu os reflexos, mal se lembrando de que Koveth a acompanhava. O túnel descia em espiral, ficando cada vez mais frio. Ela quase tropeçou em algo espalhado pelo chão — ossos. Pela forma do crânio, parecia um esqueleto de pandaren.

— Tu não vai encontrar nada aí. Vai acabar andando em círculos, guria.

Mal se ouvia a voz. Era o sussurro do sussurro.

Fenella girou nos calcanhares, o coração acelerado. — Quem está aí?

— Ora, tu não se lembra do teu próprio pai?

Então ela o viu: Fineous Forçanegra, refletido na superfície de dezenas de cristais. O infame alvanel vestia seu fraque e seu monóculo prediletos, elegante como sempre. Usando uma pederneira, acendeu o cachimbo e deu uma longa baforada. O perfume doce da fumaça emanava de suas lembranças. A última vez que o vira fora havia anos, logo antes de um bando de forasteiros invadir o território dos Ferro Negro e matar os mais nefastos membros de seu clã — incluindo seu pai.

“Não é real.” Fenella sacudiu a cabeça, mas Fineous permaneceu onde estava.

— Vai abandonar aqueles dois à própria sorte? — inqueriu ele.

Fenella o ignorou e seguiu em frente. Seus reflexos continuavam acenando, mas o movimento havia se tornando ainda mais urgente e inquietante — quase desesperado. “Depressa.”

— Eu te dei uma segunda chance e é isso o que tu vai fazer com ela?

A anã espumava de raiva, escancarando os dentes para amaldiçoar Fineous por sua hipocrisia.

Mas ele havia desaparecido. Onde antes via seu pai, viu uma imagem mais jovem de si mesma, com tranças da cor do fogo caindo-lhe sobre a cintura. Esta outra Fenella esgueirava-se pelos corredores da Cidade de Umbraforja, carregando plantas embaixo do braço. Ela as havia roubado de arquitetos famosos e forjara nelas o selo de seu pai. A anã observou seu reflexo cruzar a capital dos Ferro Negro e apresentar as plantas ao imperador, Thaurissan.

O governante do clã ficou tão impressionado com o trabalho que rapidamente apontou Fineous para o cargo de arquiteto chefe. Logo correram boatos de que ele não havia criado aquelas plantas. Thaurissan abriu uma investigação. Ninguém jamais conseguiu provar nada. Fenella cuidou para que não conseguissem. Seu crime foi tão sólido e esmerado quanto um diamante mil vezes lapidado.

E ela fizera tudo por vontade própria.

Fineous não se enraiveceu ao descobrir, mas ela se lembrava de ter visto algo relampejar em seus olhos. Não era arrependimento, nem culpa, nem tristeza, mas um amálgama dessas três emoções que irrompera das trevas que governavam o coração de seu pai.

— Nunca contei para ninguém o que tu fez. — O reflexo de Fineous havia reaparecido. — Aceitei a condenação e o menosprezo. No fim, morri como um vilão. Não me queixo. Não fui um bom anão. Tu sabe disso. Mas, no fundo, eu tinha um pouco de bondade. Pelo menos eu fiz uma coisa boa: te dei um futuro.

Fenella não conseguia encarar Fineous, ainda que ele não passasse de um reflexo ou de feitiçaria. A verdade era que não passava um dia sequer sem que ela pensasse no que havia feito e no que ele fizera por ela. Sempre que ouvia mencionarem o pai em meio às bigornas, seu nome arrastado na lama, sentia-se imensamente culpada. Nesses momentos, ela se dava conta, mais uma vez, de que não fizera nada para mudar, nada que honrasse o ato nobre de seu pai.

Mas que alternativa restava? Tentar é correr o risco de fracassar. Tentar significa confiar nos outros e acreditar que os outros confiam nela. Isso não fazia sentido, pois, em seu âmago, ela estava certa de que, não importava o que fizesse, sempre seria uma ladra a se esgueirar por Umbraforja, pronta para enganar toda uma nação.

— Sou uma Forçanegra — sentenciou.

— Nomes não justificam nada. A questão é que eu nunca tive chance de mudar. Tu, sim. Basta dar o primeiro passo, guria. Tu já conquistou tanta coisa, não é possível que não consiga fazer algo tão simples.

Fineous virou o cachimbo de cabeça para baixo, esvaziando-o. As cinzas se esvaíram entre os cristais. — Bom, isso é tudo o que eu tinha para dizer. Foi bom te ver de novo, guria.

Lentamente, ele se desvaneceu. Mesmo depois de partir, Fenella ainda sentia o cheiro do tabaco no ar.

 

Fim da linha.

Fendrig ficou contra a parede de cristal. Das feridas nos seus braços, jorrava um sangue quente, que encharcava as luvas de couro.

Carlo estava por perto, de dentes arreganhados. Fendrig nunca gostara muito dos anões Martelo Feroz, mas aquele ganhara sua simpatia. Era corajoso e bravio.

— Lá vêm elas de novo! — Fendrig cerrou o punho em torno da picareta.

Adiante, um mar de aranhas xistosas avançava contra eles. Carlo arremessou o martelo nas criaturas. Cuspindo raios e trovões, a arma esmagou uma aranha particularmente grande, reduzindo-a a uma massa informe numa explosão de luz e ruído. Quando os olhos de Fendrig se recuperaram do clarão, ele viu o martelo voar de volta para a mão de Carlo.

Mas as aranhas não cessavam o ataque desorganizado. Não importa quantas os anões matassem, mais e mais aracnídeos irrompiam dos recônditos da caverna.

Por um instante, Fendrig avistou uma luminescência arroxeada. Uma figura monstruosa irrompeu das trevas.

O golem Ferro Negro investiu contra as aranhas, esmagando-as com seus pés e mãos gigantescos. As come-comes se voltaram contra aquela nova ameaça. Escalaram as pernas do golem, mordiscando sua derme férrea e emitindo guinchos ensurdecedores.

De trás do constructo, Fenella sacudia a gema brilhante e gritava: — Venham!

Fendrig e Carlo saltaram as aranhas e correram em direção a Fenella. Eles a seguiram túnel adentro, deparando-se, por fim, com a mesma bifurcação. A estátua gigantesca da Garça Vermelha pairava sobre eles, cada asa apontando para um dos caminhos. A cabeça de Chi-Ji estava voltada para a esquerda, o bico sinuoso aberto como se cantasse.

— E o golem? — perguntou Carlo, preocupado.

— Voltar ou esperá-lo seria arriscado demais. — A voz de Fenella estava firme como aço, mas Fendrig notou que ela continha as lágrimas. — É a nossa única chance.

Carlo baixou a cabeça, cerrou o punho e o pôs sobre o peito, reverente, no que Fendrig supunha ser uma saudação dos Martelo Feroz.

— Não achei que tu fosse voltar — admitiu Fendrig para Fenella, ofegante.

Ela o fitou por um longo momento e, então, disse: — Também achei que não fosse.

A Ferro Negro não explicou o que aquilo queria dizer, mas, para Fendrig, não era necessário. Para sua surpresa, ele se deu conta de que estava feliz em revê-la. — Bom, tu voltou. É tudo o que importa.

— A gente ainda não se livrou do arranca-rabo — interveio Carlo. — Não sabemos que caminho tomar.

— Eu sei. — Fenella contemplou a figura de Chi-Ji e, então, o túnel da direita. Fendrig acompanhou seu olhar, mas não viu nada que lhe parecesse estranho, somente a luz violeta da gema que reluzia nas paredes de cristal.

— Por aqui — disse ela, tomando o caminho da esquerda.

 

Outros pandarens viam os mogus como um inimigo invencível. Perderam toda a ambição. Tornaram-se insensíveis, envoltos numa crisálida de autodestruição. Dizem que esses escravos perderam até a capacidade de sonhar. Afinal, de que lhes serviriam os sonhos se sua sina já estava decidida? Tudo o que precisavam fazer era abrir o coração e acreditar no seu próprio poder, ver que nem tudo estava perdido. É como Chi-Ji costuma dizer: “A esperança é o sol por trás da nuvem tempestuosa. Habita sempre o coração, ainda que velada aos olhos.”

— Os Pergaminhos dos Celestiais

A passagem estreita subia cada vez mais. Era íngreme, mas estável. Havia poucas curvas, era praticamente uma linha reta. Em pouco tempo, os três anões chegaram a um limiar. Uma Serpente de Jade, entalhada em pedra, adornava o portal.

Fenella atravessou primeiro. Ao adentrar a vasta caverna, a anã engoliu em seco.

Veios de jade brotavam do chão e das paredes. Mesmo em estado bruto, a pedra era lustrosa e de um verdor profundo. Embrenhada naquela escuridão densa, ela brilhava como se tivesse vida própria. Um filete reluzente de safira desenhava um arco serrilhado no teto, à maneira de um raio.

Carlo deu um assobio: — Parece que a guriazinha não estava mentindo, hein?

Deslumbrados, os três anões vagaram pela caverna. No centro, erguia-se uma coluna grande e circular, coberta de símbolos pandarenos. Encostada no pilar, havia uma vara de bambu tão grossa quanto os braços de Fenella.

Fendrig apanhou o bambu e o inspecionou. Pôs a mão dentro dele e puxou um rolo de pergaminho da parte oca. O Barbabronze se sentou em uma rocha e, com cuidado, desenrolou o pergaminho, revelando linhas elegantes de caligrafia pandarena. O anão sacou seu código e estudou as runas com atenção.

— O que é isso? — perguntou Fenella.

— Os pergaminhos dos celestiais — respondeu Fendrig. — Quer que eu leia?

— Quero — disse ela. Carlo aquiesceu e se sentou no chão, perto de Barbabronze.

Fendrig lia de forma pausada, conferindo sempre o código. Os pergaminhos contavam a história dos celestiais, da ascensão do império mogu e, nessa era terrível, do modo como os pandarens se perderam e foram dominados pela raiva, pelo medo, pelo desespero e pela dúvida.

— Os celestiais tentaram ajudar os escravos, cada um à sua maneira — disse Fendrig. — Mas isso atraiu a fúria do Rei Trovão. Um por um, o imperador subjugou os celestiais até que só restasse Yu’lon, a Serpente de Jade. Ela começou a espalhar sua sabedoria entre os mineiros da Floresta de Jade, fazendo com que vários deles abandonassem suas tarefas em busca de conhecimento. Numa dessas idas aos campos de escravos, o Rei Trovão lançou um raio que cortou os céus e trespassou o flanco da serpente. Yu’lon caiu entre as árvores da floresta e desfaleceu.

“Quando ela acordou, deu por si nas profundezas do mundo. Os mineiros pandarenos a tinham levado para um local sagrado — câmaras escondidas de seus senhores mogu. Inspirados pelos ensinamentos de Yu’lon, os pandarens haviam construído um refúgio para adorar os celestiais em segredo. A Serpente de Jade, comovida com o que viu, lançou sua magia sobre o refúgio, de modo a ajudar os mineiros a encontrar a sabedoria, a esperança, a resistência e a força que haviam perdido. Depois, ela fez um pedido…”

— Que construíssem uma estátua dela… — interrompeu Fenella, passando a mão pela coluna de pedra. Era um trabalho esmerado, quase idêntico ao pilar que se via no canteiro de obras do Coração da Serpente.

— Isso mesmo — confirmou Fendrig. — Durante cem anos, gerações de mineiros labutaram. Enquanto isso, a Serpente de Jade, ainda ferida pelo ataque do Rei Trovão, se aproximava da morte. No instante em que o trabalho foi concluído, ela deu seu último suspiro. Os mineiros prantearam. Acharam que não tinham conseguido salvá-la. Mas aí a estátua se mexeu. Seus olhos se abriram. A cauda espiralou. A estátua havia se transformado na Serpente de Jade. Renascida, Yu’lon contemplou os mineiros aos prantos e disse: “Só existe uma certeza: todo fim marca um novo começo.”

“Os mineiros se empenharam em espalhar a sabedoria de Yu’lon, instilando nos outros pandarens as grandes virtudes dos Celestiais — pelo menos o bastante para eles sobreviverem até o dia em que o escravo lendário Kang, o Punho da Primeira Aurora, se ergueu e liderou seu povo rumo à liberdade. Muitos anos depois, quando o Imperador Shaohao ensinou todos os pandarens a superar seus medos, dúvidas, desespero e raiva, os filhos dos mineiros construíram templos imensos para honrar os celestiais e fundaram uma ordem dedicada a preservar seus ensinamentos: a ordem dos Celestiais Majestosos.”

Fenella fechou os olhos e se deixou levar pela história, se deixou envolver pelo ar ancestral do lugar.

O silêncio continuou até Carlo soltar uma gargalhada — Sabe, eu achei que fosse mostrar para vocês o que é um anão de verdade. Mas eu só fiz um papel ridículo.

— Todos nós fomos ridículos — replicou Fendrig. — Somos três alvanéis acabados. O que eu não entendi foi por que o concelho nos escolheu para fazer esse trabalho.

De fato, por quê? Fenella não sabia ao certo. Talvez se tratasse de uma manobra política por parte de Moira e do conselho. Jogariam os três alvanéis mais ranhetas de Altaforja num crisol e torceriam para que saíssem inteiros. Se não voltassem, seria só mais um exemplo da tensão lastimável que havia entre os clãs. Se triunfassem, a vitória teria um valor inestimável.

Então lhe ocorreu outra ideia. A verdade era que os três haviam realizado façanhas notáveis no passado. Talvez todos ainda acreditassem que fossem capazes de grandes feitos.

Todos menos eles mesmos.

— Vai saber o que se passa na cabeça deles — disse Fenella. — Seja como for, aqui estamos nós.

— O sol já deve estar se pondo — acrescentou Carlo. — Não temos tempo para extrair essas pedras.

— Não estou mais preocupada com isso. — Fenella estendeu as mãos para os anões sentados. — Temos uma estátua para construir. O que me dizem?

Carlo e Fendrig fitaram a palma da mão de Fenella e trocaram um olhar. Dando de ombros, o Martelo Feroz pegou a mão da anã e se pôs de pé. O Barbabronze imitou o gesto.

— Então vamos começar a construir — declarou Carlo.

Fenella passou por uma protuberância de jade e avaliou suas medidas. Com uma martelada, arrancou um pedaço do tamanho do seu punho. — Podemos começar por aqui— disse, jogando a pedra para Carlo.

O Martelo Feroz a guardou numa bolsa dependurada no cinto. — Espero que sair seja mais fácil do que entrar.

— Acho que não teremos dificuldade, companheiro. — Fendrig ainda estudava Os pergaminhos dos Celestiais. — Diz aqui que construíram uma passagem direta para esta câmara.

Sem demora, os três anões se separaram e começara a examinar as paredes em busca de aberturas.

— Achei! — gritou Carlo de uma das extremidades da caverna.

Fenella e Fendrig correram até ele. Um bloco de pedra circular, com o dobro da altura da Ferro Negro, estava cravado no solo. Fenella tirou uma luva e levou a mão a uma extremidade do bloco. Sentiu uma leve corrente de ar contra a pele. Fora um pequeno entalhe de Yu’lon no centro, a pedra era lisa.

— Teria sido legal da parte da guria mencionar essa passagem — suspirou Carlo.

— Só ouvi falar dela nesses pergaminhos — disse Fendrig, dando de ombros.

— Deixem disso e vamos, rapazes — interveio Fenella, pressionando o corpo contra a pedra.

Carlo cuspiu nas mãos machucadas e as firmou contra a pedra. Fendrig se agachou e se preparou parar empurrar com o corpo.

— Três… dois… um… e… já! — fez Fenella.

O pedregulho cedeu levemente.

— Empurrem!

A rocha desabou túnel adentro, provocando enorme estardalhaço. Uma rajada de vento invadiu a câmara, derrubando Fenella. Adiante, em meio ao breu da passagem, brilhava a luz do dia.

 

Quando os anões regressaram, já era noite e a competição já tinha terminado fazia muito tempo. Uma equipe liderada por um pandaren chamado Hao Mann ganhara, trazendo de volta cinco sacos imensos de jade. No entanto, os alvanéis festejaram com tanta vontade que era impossível distinguir vencedores de perdedores.

O Encarregado Raiki ficou sem palavras ao ver a pedra que os anões trouxeram. Ele reuniu os outros pandarens e, por alguns instantes, a festança parou. Ao ver aquele jade reluzente, os alvanéis ficaram boquiabertos. Nenhum deles jamais vira uma pedra tão bonita.

No meio das parabenizações que se seguiram, Fenella avistou a garota pandarena no meio do campo.

— Rapazes. — Fenella cutucou Fendrig e Carlo. — é aquela guria. Vocês acham que a gente devia agradecê-la?

— Claro — responderam os outros dois.

Eles foram na direção da garota, mas ela saiu correndo para o norte.

— Ei! — gritou Fenella. — Espere!

Os anões abriram caminho em meio aos alvanéis pandarenos, mas, quando chegaram na beira da construção, tudo o que viram foi uma colina deserta. A garota havia desaparecido.

— Para onde ela foi? — perguntou Fendrig.

Fenella ia abrir a boca para dizer alguma coisa quando viu um movimento brusco no céu. A Serpente de Jade observava os anões. Os olhos de Fenella se encontraram com os de Yu’lon e ali se perderam — olhos enigmáticos, tão antigos quanto o elemêntio.

A Ferro Negro permaneceu ao lado de seus companheiros por um longo tempo, observando a celestial subir cada vez mais alto, um veio de jade contra o céu diamantino.

 

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