Sobre a água Parte II

by luizcsilva on 8 de janeiro de 2015

Dentro da garganta da fera era frio e cheio de água e ecos. Xun não enxergava nada no escuro, e a boca da criatura continuava fazendo pressão sobre ele, e a água amortecia seus socos contra as entranhas do monstro. A mandíbula de ferro continuava teimosamente fechada.

Xun sabia que não conseguiria fugir lutando. Mas também sabia que a criatura esperava um bocado de comida. Então prendeu o que lhe restava de ar, reuniu tudo na boca e empurrou de volta para os pulmões. Inchou as bochechas e apertou o peito e colou-se à parede da garganta da grande fera enquanto ela nadava sem parar, açoitando Xun com a língua e tentando empurrá-lo para dentro do estômago. Xun estava cansado e com medo, mas fechou os olhos com força e esperou.

Alguns dias depois, quando a maioria dos aldeões de Za Xiang estava reunida no cais tentando pescar, um velho pandaren caminhava pela praia, à procura de madeira e algas. Ele ficou muito surpreso ao ver uma casa em frente à praia, mas sua surpresa foi ainda maior quando se aproximou e viu que a “casa” era uma tartaruga-dragão, com uma cabeça comprida e esguia feito a de uma cobra e um cosco que recobria todo o corpo, incluindo a barriga.

Foram precisos os esforços combinados de toda a aldeia, que puxou e deu tudo de si, para içar a criatura mais para longe do mar. Os aldeões trouxeram martelos para rachar o casco e os usaram noite adentro. O martelar abafava o ronco dos estômagos. Quando o casco se partiu, eles encontraram pontos macios onde cortar a carne, e havia o bastante para alimentar a todos.

As marteladas barulhentas acordaram Xun, e, quando os aldeões abriram a barriga da fera, ele saiu rastejando, para a alegria da sua família e de toda Za Xiang. A fera tinha se mostrado quase tão teimosa quanto ele. Não abria a boca para soltar a presa de jeito nenhum. Dentro da garganta, ele prendera a respiração por tanto tempo que a criatura acabara se afogando, mas não afundou por causa das grandes lufadas de ar no pulmão de Xun.

Xun contou aos aldeões que eles não tinham nada a temer e podiam pescar qualquer coisa do mar, desde manjubinhas até feras enormes. Eles cozinharam a carne da tartaruga-dragão e se saciaram pela primeira vez em muito tempo.

 

Tarlo compreendeu que, sem história para ouvir, sua atenção se voltara para o som mecânico da chuva nas ondas, rugindo e se acalmando vezes sem conta. E estava ainda mais cônscio do medo que sentia. As mãos estavam fechadas com força em um remo e não se soltavam.

O grande vulto embaixo d’água ficou pairando lá, sem dar mais voltas, pelo que pareceu uma eternidade. Talo imaginou que ele devia estar pronto para atacar. Shi Ga estivera olhando de soslaio para o monstro durante a história. A água da chuva descia aos borbotões de seu capuz e bigodes, que pareciam dois rabos de rato colados ao queixo.

Então, subitamente, o vulto se afastou, diminuindo de tamanho até Tarlo não conseguir mais vê-lo. Nenhum dos pandarens disse nada, mas dentro de alguns minutos os remos estavam de volta à água.

Devia ser só um tubarão mesmo. Sua maior preocupação ainda era o frio. Tarlo tremia tanto na tempestade que seus ossos pareciam feitos de gelo. Mal conseguia manter as mãos paradas. Os pandarens o ajudaram a tirar o manto ensopado, cobriram-no com outros dois que retiraram de um baú de ferro e serviram mais cerveja. Talvez logo chegassem à terra, e ele teria certeza de que tinha sobrevivido.

Mas, enquanto isso, o barco ainda se movia, e a curiosidade, embora fosse burra e sem objetivo certo, venceu Tarlo. O tal pivete Xun partiu para salvar sua aldeia, teve sorte no lugar certo, lutou contra peixes enormes cheios de presas e não se machucou. E, de uma tacada só, resolveu os problemas de todo mundo, foi parar na praia pertinho de casa e a vida voltou ao normal? Tá bom.

Ele cutucou o ombro de Kuo.

— Então é só isso? Ele encontra uns bichos grandes, é engolido por um deles, sobrevive milagrosamente e, quando a fera encalha na praia, isso salva a aldeia da inanição?

Kuo sacudiu a cabeça. — A história de Xun não acaba aí, é claro.

— Claro que não — replicou Tarlo. — Sempre tem mais quando a gente vai inventando. Deve ser bom não ter que se limitar às coisas que aconteceram de verdade. Por quanto tempo Xun prendeu a respiração? Dois dias?

Tarlo esperava que a expressão de Kuo traísse alguma mágoa, mas ele apenas sorriu, embora fosse um sorriso encharcado e peludo.

— Que bom que você se lembra do nome dele. Shi Ga sabe contar o resto da história melhor, então deixarei que ele continue.

Kuo e Mei Pa pegaram os remos e Shi Ga sentou-se recostado no banco ao lado de Tarlo, olhando para ele enquanto o barco seguia — em direção a quê, ele não sabia. Os olhos de Shi Ga estavam brilhantes como sempre, e sua voz roufenha obrigou Tarlo a se inclinar a contragosto para ouvi-lo melhor.

— Muito tempo tinha se passado desde que Xun salvara seu povo, e com a passagem do tempo sempre há mudanças…;

 

Durante muitos anos, Xun alimentou sua aldeia. O povo de Za Xiang comia tartarugas-dragão e grandes lulas de oito olhos e enguias imponentes. Ninguém comia mais que o próprio Xun, e ele também bebia o óleo das feras. Ao chegar à idade adulta, ele cresceu e ficou mais forte, até que sua cabeça podia ser vista sobre os telhados das casas da aldeia. Caminhava com a solidez e a retidão de uma sequoia.

Como era costume dos pandarens machos que viviam perto dos ventos marítimos frios, Xun deixou a barba crescer. Sua barba se impregnava do sal do mar e parecia gasta feito o couro de um animal selvagem. Seus olhos tornaram-se rubros e injetados de sangue, e as pupilas eram constritas como as de um peixe. Diziam que ele conseguia enxergar uma légua debaixo d’água.

 

Quando Xun usava suas camisas no mar, a água tremia diante da sua presença e fugia para suas roupas, encharcando-as e deixando-as úmidas por dias. Ele começou a deixar as grandes camisas — feitas por doze alfaiates da aldeia — na praia para secar, e elas ficaram empedradas e duras de salmoura. Os filhotes tropeçavam nelas ao passar pela praia. Pior ainda, quando se revirava na cama, os grandes ombros derrubavam a casa, e assim Xun começou a andar por aí sem camisa e a dormir no cais para poupar a aldeia dos inconvenientes do seu tamanho.

Ao crescer, Xun começou a pescar as grandes feras marinhas por conta própria. Ele foi picado e mordido vezes sem conta, e as cicatrizes formavam uma floresta perfeita em seu peito e queixo. Um tubarão colossal com um dente na boca para cada habitante de Pandária mordeu a orelha de Xun certa vez. Sem conseguir soltar o tubarão, ele caminhou pelo leito do oceano de volta à terra e ergueu a fera para fora da água, onde ela não podia respirar, e a arrastou até a praia, o que criou os rios que ainda correm perto de Za Xiang. Quando os aldeões soltaram o tubarão, parte da orelha de Xun se foi com ele. O que sobrou parecia couro curtido, e a família de Xun comprou um grande anel do tamanho do bracelete de um filhote para ele usar como brinco.

E todos os habitantes da aldeia pararam de pescar, pois não precisavam mais.

Xun ficou feliz de cuidar de tudo. Mas à medida que a idade avançada chegava, começou a se preocupar. Os peixes ainda eram escassos nas águas perto de Za Xiang, e desde seus tempos de filhote nunca vira mais que uns poucos de cada vez. O apetite dos aldeões, que comiam as grandes feras que Xun pescava, tinha aumentado, mas nenhum outro pandaren crescera tanto quanto Xun, e ninguém conseguia trazer a grande fauna marinha como ele conseguia. Ele tinha medo de que, quando morresse, o povo da aldeia perdesse o oceano para as criaturas e fosse forçado a abandonar seus lares ou morrer de fome.

Um pandaren sensato poderia sugerir que Xun liderasse a aldeia para partirem em busca de uma vida nova. Certamente um herói com a força e o tamanho de Xun, alguém que tinha feito tantas coisas, poderia se tornar um bom caçador ou conquistar um lugar para sua família e amigos em uma cidade maior.

Mas Xun não era sensato. Ele era teimoso e adorava seu lar, e assim resolveu que iria alimentar Za Xiang para sempre.

Em suas noites de repouso no cais, ele ouvia a conversa de velhos pescadores, pandarens que já tinham os pelos grisalhos quando ele ainda era um filhote. Eles repetiram certa história tantas vezes que ela ficou gravada na mente de Xun: a história de um monstro sem nome, vasto como o próprio mar. Tinha trezentos metros de largura, maior que qualquer fera que já levada à terra.

Da primeira vez que Xun ouviu a história, a criatura era um tubarão imenso com fileiras e fileiras de dentes. Quando contaram de novo, passou a ser uma anêmona cor de vidro, coberta de esporões.

Xun não via as duas versões como sinal de que a história fosse falsa. Independentemente de qual fosse a versão verdadeira, pensava, a fera sempre era grande o bastante para todos dividirem, e havia sal e fumaça o suficiente para secar e defumar as postas de carne por muito tempo ainda. Suas barbatanas ou tentáculos serviam para sopas nutritivas. Sua barriga dava para bifes frescos ou carne seca que durava bastante. Dava para fatiar, fritar, apimentar, rechear, marinar, misturar com verduras, filetar, grelhar e comer no espeto. Eles comeriam a presa por meses. Anos. Gerações.

Outro ponto comum em todas as histórias sobre a criatura descomunal era que ela vivia bem no fundo do oceano, mais fundo do que qualquer pandaren já fora. Assim, Xun passava horas enchendo os pulmões de ar, sentado no topo da colina mais alta da aldeia, engolindo as rajadas de vento que sopravam para dentro de sua boca. Atava pesados barris aos pés para afundar até o leito do oceano. À medida que entrava no mar, as contracorrentes formadas por suas grandes passadas levavam bancos de areia à superfície, e as gaivotas que tinham feito ninho em sua barba voavam juntas para o céu como setas brancas. Os aldeões já tinham se acostumado àquela cena e acenavam para as gaivotas como se fossem o próprio Xun.

 

O barco parara outra vez, e sem realmente planejar, Tarlo se viu com a vara de pescar na água e a cabeça nas nuvens. Mei Pa e Kuo tinham feito o mesmo, lançando a linha várias vezes até ficarem satisfeitos, depois sentando-se quietos feito estátuas enquanto a chuva escorria por eles.

Quando entrara para o exército, Tarlo também era jovem e burro. Ele tinha certeza de que lutar pela Aliança resultaria em mais do que apenas outra luta, em mais do que corpos em pedaços espalhados pelo chão. Mas, quando se é jovem e burro, é normal ter certeza de alguma coisa que não é verdade. Sempre haveria um novo inimigo ou um prêmio que duas pessoas desejavam e não podiam partilhar. Gente que guerreava dava origem a gerações que guerreavam. Morte levava a mais morte. E tudo aquilo.

Então por que ele não tinha desistido do exército e ido para casa?

Ele parou. Era estranho, mas Tarlo podia jurar que tinha sentido um puxão na linha. Talvez ele estivesse tremendo de frio… mas então sentiu outra vez. Agarrou a vara com as duas mãos, e Shi Ga calou-se de repente, interrompendo a história para ver Tarlo pescar. — Cuidado agora…

Tarlo se ergueu com todo o cuidado possível. Apertou a vara com mais força, como se fosse uma lança. Uma fisgada, depois outra, e então ele puxou rapidamente para cima…

…e um anzol vazio saltou das ondas e bateu no ombro de Tarlo. A linha úmida se enrolou em sua orelha.

O peixe fujão arrancara a isca da linha. Talvez dois peixes trabalhando juntos a tivessem partido ao meio e levado embora. Ele ficou furioso o bastante para pular na água e ir atrás deles, mas então viu o rosto peludo e inescrutável de Shi Ga. Um pandaren sabia dar sorrisinhos irônicos?

— Isso, pode continuar — rosnou Tarlo.

 

Xun desceu sob as ondas. Desceu por mais tempo do que podia medir, mais de mil vezes a própria altura através das profundezas. A água ficou mais fria, os peixes rarearam e o mar escureceu ao seu redor.

Ele já tinha nadado sob o mar antes, mas nunca em um local sem o movimento das ondas, e as muralhas de pedra erguiam-se ao redor dele como as paredes de um cânion. Mesmo com água nos ouvidos, era com se alguém apertasse suas orelhas bem fundo. Logo o interior dos ouvidos se rompeu e jorrou sangue. O sal do mar o incomodava, mas ele não recuou das profundezas.

Xun desceu nas trevas até seus olhos não servirem mais para nada. Ele não conseguia ver o menor indício de luz vindo de cima nem enxergava nada que além das próprias patas diante do rosto. Não via as criaturas sombrias, enormes feito baleias, que passavam por ele no escuro, e quando roçava seus corpos escamosos, elas não o notavam, de tão grandes que eram.

Ele vagou à deriva até adormecer e acordou depois de uma boa noite de sono, ainda afundando. Um pouco de calor vindo do fundo aquecia a água, e ele desceu nadando mais depressa até suas patas tocarem poeira preta e azul. Debaixo dele se abria uma enorme fossa, um rasgo no leito do oceano, e ao soltar os pesos dos pés e passar pela abertura, Xun teve certeza de que se dirigia ao centro de Azeroth.

Dentro da fossa, Xun sentiu a água passar veloz e, em seus ouvidos rompidos, ouviu os ecos de seus movimentos amplificados. Sabia que a caverna era tão grande que era um mar em sim mesma, e as paredes eram tão distantes entre si que levaria uma hora para nadar de uma a outra.

Ele sentou e deixou que os olhos se ajustassem às trevas perto do assoalho do mundo, e logo começou a ver formas vagas, vultos trêmulos e a parte superior de um amplo recesso rochoso. Vastas cristas se erguiam diante do lugar, e Xun teve certeza de que lá dentro encontraria o lar de alguma grande fera sem nome, pois aquele era o local mais profundo que já visitara em todo o mar.

Mas a pequena montanha ao redor da caverna era esquisita. Tinha a cor branca amarelada de uma minhoca, não o tom azul acastanhado de rochasubmarina. Mesmo nas trevas, Xun podia discernir a cor com clareza. Ele ficou intrigado.

Então as guelras da montanha bateram e uma chuva de pedras se seguiu. Xun viu que a coisa estava viva.

Era tão grande quanto a aldeia de Xun, e o calor que emanava era forte o suficiente para aquecer a fossa e as profundezas do oceano. A coisa se moveu, como se a presença de Xun a tivesse acordado, e ele pôde ver centenas de tentáculos aninhados sob seu corpo, que se assemelhava ao trono ramificado de uma grande árvore. Havia ferrões enormes e afiados nas pontas dos tentáculos, cada um do tamanho de um adulto.

A garganta era um baixio de recifes de coral, e os tubarões que nadavam entre os dentes, alimentando-se dos restos de comida, eram grandes o suficiente para virar um barco com um empurrão dos focinhos. A pele lisa era coberta de espinhos ondulantes que se moviam na água escura. A criatura se ergueu, libertando-se de imensas placas de terra, e o odor de sua respiração inundou os oceanos com eras de morte e decomposição. Xun sentiu-se cansado pela primeira vez em muito tempo.

Seus olhos e ouvidos, antes excelentes, o deixaram na mão em meio ao lodo. Xun sentiu a inegável ferroada da idade avançada ao notar a aspereza de sua barba flutuante. Há dias não apreciava ar fresco ou vento frio. Comparado à criatura à sua frente, Xun não parecia pequeno. Ele era pequeno, como um filhote diante do sol.

O punho nu de Xun bateu direto contra um dos grandes dentes. Rachaduras apareceram na base. Outro soco e o dente se estilhaçou, fazendo com que fragmentos partissem ricocheteando pela boca do monstro como arpões arremessados. Quatro tubarões que comiam a placa dos dentes da criatura foram sugados para dentro da garganta, vítimas de uma enxurrada invisível.

Xun baixou a cabeça e continuou a golpear. Com estalos horrendos que ele conseguia ouvir mesmo com os ouvidos danificados, mais seis dentes se soltaram no mar. Eles subiram rapidamente, juntando algas, peixes e baleias no caminho. Quando os dentes finalmente apareceram na superfície, cobertos de plantas e bichos empalados, pareciam trinchadores de frutos do mar do tamanho de árvores.

A criatura fechou a boca e Xun pressionou os pés contra a areia movediça daquelas gengivas, fazendo força para o alto a fim de impedir que a boca se fechasse sobre ele. Seus pulsos retorciam-se de agonia, e os ossos foram pulverizados, mas ele manteve a boca da criatura aberta. O monstro era incansável e metia os tentáculos por entre os dentes, enrodilhando-se na garganta de Xun, puxando seus membros e perfurando-o repetidas vezes na barriga.

As ferroadas eram horríveis e deixavam feridas vermelhas como marcas de sucção em sua pele, mas o veneno era pior. Xun sentiu o sangue queimar em seu corpo. Ele não podia mover os braços para se proteger, pois a boca terrível poderia se fechar, então mordeu um dos tentáculos com força e continuou a morder até conseguir soltá-lo. Fechou a mão em volta do tentáculo fugidio e foi puxado para o mar aberto.

Os tubarões que moravam na boca da criatura ficaram perto dos braços e pernas de Xun, mas suas mordidas sangraram um pouco do veneno para fora do corpo dele, que os manteve por perto como escudos para impedir que os tentáculos coleantes lhe furassem os olhos. Enquanto isso, ele nadou por sobre a boca da criatura e começou a golpear-lhe a cabeça. Os espinhos em sua pele se eriçaram como se o monstro fosse um grande baiacu, e a pele de Xun se rasgava feito pano quando ele acertava um soco, mas não parou. Seus golpes eram como trovões cruzando campo aberto, abafados no fundo do mar. Os espinhos da criatura se romperam e sua carne fervia com a força de cada golpe, mas ela continuou muda feito uma lula..

 

Durante dias, lutaram sem descanso: Xun golpeava a barriga ou a cabeça do monstro e se afastava quando os tentáculos se aproximavam demais. A coisa tentava esmagar os ossos de Xun ou puxá-lo para perto de sua boca. A fúria da batalha era tamanha que as ondas rebentavam na costa de Za Xiang, tão altas que os aldeões ficaram medo. O cais rachou e foi levado para o oceano. As pessoas se esconderam em suas casas.

Por fim, Xun começou a se cansar. O veneno corroía seu coração, tornando mais difícil erguer os braços para golpear. A dezena de tentáculos que restava o cobriu, enrolando-se várias vezes em suas pernas e seus braços, apertando. Xun sabia que não tinha forças para socar mais nada.

Antes que esmagassem os braços, ele apertou os dedos em dois dos tentáculos ondulantes, firmou as pernas no leito do oceano e ergueu a criatura. Xun sentiu as entranhas estalarem como o rebentar de uma fita.

O corpo titânico singrou as águas. Tinha léguas de altura e, suspenso sobre os tentáculos, parecia uma pipa num barbante. Xun puxou com toda a força de que dispunha e jogou a criatura colossal com toda a força contra o leito do oceano, causando um impacto cujo som ele não conseguia ouvir. Terra cinzenta e poeira subiram da área do impacto, nublando as águas por quilômetros.

Sem perder tempo, Xun enrolou os grandes tentáculos várias vezes em volta dos punhos e tentou empurrar a criatura para diante. Ele a erguera uma vez. Agora só precisava levá-la até a superfície. Puxou, esperando que a enorme carcaça cedesse.

Mas ela não se moveu.

A visão de Xun resumia-se a um ponto. Seus movimentos eram lentos na lama. Os pulmões anisavam por ar. Ele se recuperaria e tentaria mais uma vez. Mal se dando conta do próprio coração, que batia fortemente, arrastou-se para o recesso que antes se encontrava bloqueado pela massa corporal do monstro.

Nas trevas, um cardume de peixes pequenos nadou ao redor de sua cabeça. Tinham pequenas nadadeiras e suas escamas eram da cor de ouro pálido.

Xun sentiu piedade, esquecendo-se momentaneamente da condição catastrófica em que se encontrava. Piedade dos peixes dourados aprisionados ali, mas também do seu captor. A grande fera tinha comido quase todos os peixes menores do mar e depois guardara o restante para si. A fome só chegara à sua aldeia por causa da fome de outra criatura.

Tornou-se cada vez mais difícil para Xun se lembrar de qualquer coisa, mas seu objetivo era inabalável. Ele descansaria e depois tentaria erguer a criatura outra vez. Deitou-se no leito do oceano, cercado de cardumes peixinhos brilhantes, e soltou um pouquinho de sua respiração, liberando milhares de bolhas.

Xun se perguntou se tinha encontrado mesmo a parte mais profunda do oceano. Ele se perguntou se as histórias seriam verdadeiras, e, enquanto pensava, seu espírito começou a deixá-lo. Antes que os olhos finalmente se fechassem, observou os peixes nadarem para fora da caverna, para o alto, para o mar aberto.

 

Shi Ga se levantou. Provavelmente porque a história terminou, pensou Tarlo. Mas o pandaren tinha mais a dizer.

— Quando Xun lutou, o povo de Za Xiang viu apenas as ondas. Mas a pesca não é só o que se passa acima da água, e sim o que acontece lá embaixo, o que os peixes veem. A experiência é uma luta de vida ou morte, mesmo que não pareça assim aos seus olhos.

Tarlo aquiesceu. — E quanto ao peixe na caverna?

— Xun não sabia, mas aqueles peixes — disse Shi Ga — eram os ancestrais da carpa dourada. Eles nadaram até águas seguras e se multiplicaram. Hoje, são os peixes mais comuns que temos, e são apreciados por jovens e velhos, adultos e crianças.

Tarlo olhou para um dos baldes do barco. Dois peixes de escamas douradas volteavam lá dentro. Ele agora entendia a moral, ou o esboço de moral. Xun salvara sua aldeia ao encontrar por acaso uma nova fonte de comida. Uma historinha legal, embora tivesse alguns buracos.

— Se Xun morreu na caverna, como é que vocês souberam da luta? — perguntou Tarlo, baixo demais para ser ouvido direito na chuva. Ele se sentiu mal por chamar atenção para aquilo. Obviamente era uma história querida dos pandares. Xun devia ser o tatatataravô de alguém, um indivíduo importante na aldeia daquela época.

— Hum. — A resposta de Shi Ga fazia parecer que ele considerava a questão pela primeira vez. Nenhum dos outros pandarens disse alguma coisa; limitaram-se a continuar batendo na água com os remos. Shi Ga pegou o próprio remo enquanto a chuva continuava a cair em catadupas.

Já estavam remando fazia horas. O sol não tinha subido, e Tarlo achava que não haviam se aproximado nem um pouco da terra. Os três pandarens moviam os remos sincronizadamente. Pareciam estar simplesmente seguindo em linha reta, até Shi Ga farejar o ar e retirar o remo da água. Os outros dois fizeram o mesmo. — Aaah — disse ele, respirando fundo enquanto o barco balançava.

— É aqui.

 

Tarlo já estava tremendo, mas, quando as ondas se agitaram, borrifando espuma em seus colos, esqueceu o frio completamente. Mei Pa foi até a caixa de ferro, agora situada em meio a uma das poças maiores no fundo do barco.

O que ela removeu cuidadosamente da caixa parecia grande demais para caber lá. Lembrava uma corrente de barco enferrujada com um gancho na ponta, do tipo usado para ancorar um navio no porto. Enormes redes caíam da corrente como pétalas.

Mei Pa se levantou, postando-se feito uma proa de navio na ponta do barquinho, equilibrando-se como se pudesse cair a qualquer momento. Apesar do tamanho da pandarena, o barco não balançou. Ela começou a girar a corrente em um arco amplo sobre a cabeça, e Tarlo se agachou involuntariamente quando a corrente atingiu a água com um impacto prodigioso. Espirais empilhadas de metal passaram por sobre o ombro dela em direção ao fundo do oceano.

A cabeça de Tarlo doía.

 

Mei Pa continuou concentrada na tarefa, encarando as ondas por minutos a fio. Então se retesou, e Tarlo teve certeza de que ela cairia no mar. Mas aí a pandarena começou a puxar a corrente, e a primeira das redes foi erguida e caiu no convés. Estava cheia de peixes rebrilhantes, dourados, brancos e verdes, e Kuo e Shi Ga começaram a soltá-los, jogando-os em todo o barco, um verdadeiro furacão de vida marinha.

Com um arremesso desajeitado, Tarlo mergulhou a linha de pesca infantil de volta na água.

Enquanto os pandarens trabalhavam, ele fitou as canecas de cerveja, os potes, as redes, os baldes de iscas, tudo recoberto de peixes que se debatiam. Peixes nadavam nas poças a seus pés. O barco quase já não tinha mais espaço onde deixá-los. E os pandarens ainda pescavam mais peixes. Um peixe de cara achatada e testa franzida com um tentáculo em cima da cabeça. Um peixe cor de ébano fumegante como uma pedra vulcânica resfriando. Um peixinho azul com uma capa fina de… gelo… recobrindo o corpo.

— Esses peixes são… realmente deliciosos — disse Mei Pa, interrompendo um pouco o esforço de manter a corrente firme.

Com mais algumas redes cheias, os braços de Mei Pa começaram a se cansar. Kuo e Shi Ga foram ajudá-la, e os três juntos voltaram à cantoria de “pergunta e resposta”, gritando com o esforço de içar a linha de pesca pesada.

Embora cansado, Tarlo aprendera fazia muito que ficar parado durante uma atividade frenética era uma boa maneira de ser pego de surpresa, de ser morto, ou ambos — naquela ordem. Ele pensou em se adiantar para ajudar, então…

Sua linha fisgou.

Tarlo não ia perder aquele. Afastou a sensação de surpresa e depois tensionou os braços. O vento esfriou o suor urgente de seu rosto e pescoço.

O que quer que resolvido roubar a isca puxou a linha com força para a esquerda, e Tarlo teve que ceder mais linha do que esperava. Embora suas costas doessem, ele arqueou os ombros e ficou em pé enquanto a linha começava a se mover outra vez, aparentemente controlada pela coisa embaixo d’água. Ele puxou no sentido oposto e teve que fazer uma força tremenda para manter a vara no lugar.

Tarlo já havia participado de competições de força antes. Ele enfrentara taurens de armadura, tomara claves e espadas de suas patas e afastara os braços fortes feito colunas do seu pescoço. Mas aquilo… aquilo era diferente. A criatura com que ele lutava para trazer lá do fundo nadava no melaço, coberta de pesos, brincando de queda de braço com ele por meio de uma linha fina atada a um caniço desajeitado. Ele puxou a linha novamente, mas fazer o adversário chegar mais perto da superfície, se aproximar do barco ou até mesmo se mover em linha reta era uma batalha.

Ele forcejava, o rosto afogueado, e sua respiração saía entrecortada. A minúscula vara de pescar sacudia nas mãos de Tarlo, arranhando suas palmas, deixando seus braços dormentes como se ele estivesse batendo na muralha de um castelo com a espada. Atrás dele, houve um impacto na água, e Tarlo sacudiu de susto, mas não ousou se virar para trás.

A vara descia, dobrando-se mais freneticamente a cada instante. Tarlo puxou mais, respirando fundo, ficando na ponta dos pés para obter qualquer centímetro de vantagem. Sua linha estava tão retesada que, por um segundo horrível, viu as fibras ressaltadas e teve a certeza de que alguma coisa iria ceder.

Ele só não esperava que fosse o peixe. Sem aviso prévio, a pressão em seus braços parou, e as escamas douradas do peixe se debatendo rebrilharam quando Tarlo o ergueu da água.

Era bem menor do que merecia ser. Menor do que o trabalho que dera, pelo menos.

Mal dava para distinguir o peixe das dezenas de carpas douradas que se contorciam e nadavam pelo barco, e Tarlo não teve que se esforçar muito para impedir que fugisse das suas mãos.

Todos os três pandarens agarravam a corrente, movendo-se como se em uma coreografia para fazê-la entrar de volta na caixa gigantesca, mas pararam quando viram Tarlo segurar sua presa no alto, sorrindo como se tivesse vencido alguma batalha.

Enquanto observavam, ele tirou o anzol dos beiços gordos do peixe. Jogou o animal em um balde de água em seu canto do barco e se sentou, relaxado.

Um.

 

Enquanto empacotavam a pesca da noite, a chuva finalmente diminuiu até tornar-se uma garoa. As gotas eram menores agora, e Tarlo podia enxugá-las da vista com a mão em vez de só apertar os olhos. Ele se sentou ao lado de Shi Ga.

O que ele queria dizer — perguntar — era: — Vocês vão voltar para a praia agora?

Mas o que saiu foi uma simples declaração: — Eu acho que entendo por que vocês queriam me contar aquela história.

— Huuum? — A sobrancelha de Shi Ga se ergueu.

— Para provar que vocês não são loucos. Mas também… para inspirar, não é?

Shi Ga sorriu. — Nós só contamos a história de Xun para você porque é uma boa história. Mas talvez você tenha descoberto mais coisas nela.

— E é por isso que vocês estão aqui no mar? Para pegar peixes e contar histórias?

— Nós continuamos o trabalho de Xun. Não só para nos alimentar e sobreviver, mas também para encontrar nosso próprio legado. Para… contar nossas próprias histórias. Não foi para isso que você veio para cá?

Tarlo refletiu sobre aquilo. O que ele esperara encontrar em Pandária? Uma morte gélida longe de casa? Um fim para a luta? Certamente não esperara pescar a janta. Na pesca em alto mar na tempestade, dava para pegar todo tipo de coisa.

Ele ergueu um remo e se juntou aos pandarens que remavam, quatro sobre a água.

 

What's your reaction?
Feliz
0%
Resenha dos Livros
Lore dos Personagens
Varok Saurfang | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Alto Suserano Varok Saurfang e a luta pela honra

Sylvanas Windrunner | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

A Morte de Sylvanas Windrunner

Arathi | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

A Ascensão do Arathi

Calia Menethil | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Calia Menethil a Última Herdeira do Trono de Lordaeron

Nathanos Blightcaller | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Nathanos Marris, o Blightcaller

Lâminas de Ébano | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

A Linhagem Fordragon

Dranosh Saurfang | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

E se o Bolvar Fordragon nunca se tornasse o Lich King?

Draeneis e Naarus | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Os Mistérios dos Draeneis e Naarus

Brigitte Abbendis | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Alta General Brigitte Abbendis

Draeneis Forjados na Luz | World of WarCraft, WarCraft, wow, azeroth, lore

Draeneis Forjados na Luz

Translate »
%d blogueiros gostam disto: