Sylvana Correventos: Fim da Noite Parte 2

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by luizcsilva on 27 de dezembro de 2018

Guilnéas

Como num sonho, o cerne do exército de mortos-vivos de Lordaeron se lançou adiante. Ordens gritadas soavam estranhamente abafadas. A cavalaria pesada precipitou-se em massa através da abertura na muralha, cascos esqueléticos equilibrando-se precariamente sobre os destroços. Os Renegados lutavam para se espremer por uma fenda que mal comportaria quatro cavaleiros por vez.

A artilharia dos defensores abriu fogo, numa saraivada de estampidos secos. Onde os projéteis aterrissavam, soldados e cavalos explodiam em pó e sangue podre. Os mosquetes disparavam como o rufar de tambores, e fileira após fileira tombava. Mas aqueles veteranos haviam sobrevivido aos horrores da Coroa de Gelo e avançavam sem hesitar sobre os defensores, como num maremoto de pele e ossos. A segunda leva avançou, lançando ganchos sobre a muralha, tentando vencer o óleo fervente que derramava do alto. Subitamente, o front foi tomado por chamas. Ainda assim, a artilharia cuspia fogo; ainda assim, os Renegados atacavam.

Alguns conseguiam chegar ao alto da muralha, para logo serem destruídos. Os defensores não eram humanos, mas criaturas lupinas que perambulavam pela Pinhaprata e foram organizadas em uma força de defesa. Quando mosquetes e espadas falhavam, garras e dentes arrasavam o exército morto-vivo.

Os Renegados investiram mais uma vez. O sangue nas armas escorria com a água da chuva. Eram apenas silhuetas cinza na névoa, e os gritos tornavam-se débeis ecos conforme os soldados eram assassinados. Mas agora até mesmo os defensores hesitavam. Já haviam matado tantos, como poderia haver mais?

A primeira onda de orcs surpreendeu os guilneanos. As tropas da Horda marcharam sobre um tapete de cadáveres com a sede de vitória presa nos olhos e nas gargantas. Tudo ficou em silêncio, e então acabou.

O Baluarte continuava no lugar, as fortificações incompletas que percorriam a fronteira entre Lordaeron e o território que ficara conhecido como Terras Pestilentas. O mestre-boticário Lindolfo estava ali, sem o braço esquerdo e com um corte profundo no rosto. Tentou falar com seu povo, mas não obteve resposta. Estava orquestrando uma última defesa improvisada no Baluarte, mas não tinha com o que trabalhar. O coração do exército renegado havia sido sacrificado em Guilnéas.

Os poucos que restaram depararam-se com uma tropa de humanos e anões que marchava para o oeste, após vitórias em Andorhal. No Baluarte, sobravam poucas esperanças entre os sobreviventes. As demais tropas da Horda haviam desaparecido.

“Isso não é real”, Sylvana deu-se conta diante dos sombrios acontecimentos que se desenrolavam. Ela estava morta, podia senti-lo, mas seu espírito estava preso no limbo. “O que é isso?”

A última cena de que lembrava era o momento da morte. E essas visões eram como memórias de situações que não haviam acontecido. De onde vinha isso? Onde ela estava?

A capital foi cercada subitamente. O rei Wrynn postou-se sob os escombros incendiados da torre de zepelins e desenhou um mapa da Cidade Baixa para os generais. Ele já havia tomado a cidade de assalto antes e sentia-se confiante da vitória.

Por entre as muralhas da cidade, fogueiras rugiam. Sylvana ferveu de ódio, “a Aliança já está queimando os cadáveres”. Mas não. A banshee tentou entender aquela visão confusa. “Os Renegados que sobreviveram preferiram se lançar ao fogo”, atinou Sylvana, “a encarar os executores”.

– Isso não é real! – Sylvana proclamou, e a voz lhe soou na cabeça como quando era viva. Seria o povo dela tão fraco assim? Não, não! Garrosh havia enviado à morte a elite das tropas da banshee em campanhas insensatas. A liderança dos Renegados havia sido eliminada. Era isso que as visões mostravam.

As brumas se fecharam por completo, tornando o futuro indistinto. Sylvana já não conseguia sentir o corpo. Flutuava em algum tipo de limbo. Deu-se conta de que conseguia se enxergar e levantou as mãos, admirada. A pele havia voltado a ser de um rosa dourado, firme e luminosa como havia sido em vida. Mas ela não estava sozinha ali.

De repente, percebeu que estava cercada. Nove guerreiras flutuavam num círculo em volta de Sylvana, e a beleza delas excedia até mesmo a dela. As Val’kyren preservavam a aparência de quando vivas. Algumas ostentavam cabelos negros como a noite que emolduravam rostos bronzeados e olhos azuis como as safiras. Outras tinham cabeleiras louras de tom pálido e brilhante como o sol refletindo na neve. Os rostos eram suaves, mas os queixos eram severos. Os braços eram aveludados e musculosos; as coxas, grossas e fortes. Cada uma empunhava uma arma diferente: lanças, alabardas, grandes montantes de duas mãos que se estendiam da cabeça aos pés formando uma faixa brilhante de aço polido. Cada uma delas foi a melhor guerreira da própria geração.

“São iguais a mim”, Sylvana percebeu, “vaidosas, vitoriosas e orgulhosas”.

– Sim, nós somos. – A Val’kyr loura que empunhava a montante respondeu como se Sylvana tivesse falado alto. A voz da criatura era melodiosa e firme. – Eu sou Annhylde, a Invocadora. Essas são minhas irmãs, damas guerreiras, e somos as nove que restaram. Nós servíamos aos guerreiros do norte em vida, e escolhemos continuar leais na morte.

– Servir o Lich Rei.

– Você escolheu servir ao Lich Rei? – irritou-se Annhylde.

– O que é isso? O que são essas visões? – Sylvana exigiu saber.

– Visões do futuro – Annhylde explicou. – Todas as vidas deixam um rastro. Este é o seu.

– Não é preciso uma bola de cristal para ver o Grito Infernal desperdiçando os recursos da Horda, dilapidando-os na ânsia por conquistas. – Sylvana sentiu a antiga raiva insuflando-se novamente, mas não sentia o corpo reagir. Ela não sentia nada. – Para onde vocês me levaram? Eu deveria estar morta.

– Você está – respondeu outra Val’kyr, de cabelos cor de carvão.

– Eu sei o que é a morte – protestou Sylvana. – Vocês estão me mantendo no limbo. Por quê?

Annhylde manteve-se paciente e respondeu com voz tranquilizadora e comedida: – Para mostrar as consequências da sua morte e oferecer-lhe uma escolha…

– Eu fiz a minha escolha – interrompeu Sylvana.

– O seu povo perecerá! – exclamou a Val’kyr de cabelos escuros. Ela claramente havia sido em vida a mais jovem das damas guerreiras, e agora era a mais impaciente na morte-viva.

Sylvana pensou no próprio povo. Eles haviam percorrido um longo caminho desde o bando de cadáveres confusos e desamparados que se amontoava entre as ruínas da capital de Lordaeron. Os Renegados agora eram uma verdadeira nação, uma massa de corpos sem vida, fétida e podre, exímia nas artes arcanas e nas artes da guerra, e livre de quaisquer amarras morais. Eles foram treinados para ser a arma perfeita. A arma de Sylvana. E eles haviam desferido o golpe final para o qual foram construídos. E Sylvana não se importava nem um pouco com o destino deles.

– Que pereçam! – gritou Sylvana. – Estou farta deles!

Annhylde ergueu a mão para calar sua irmã de armas mais nova: – Quieta, Ágata. Ela não sabe. Ela precisa ver mais. – A líder Val’kyr dirigiu os luminosos olhos verdes para Sylvana, olhos margeados de tristeza. – Sylvana Correventos, o esquecimento que você busca é seu. Nós não vamos detê-la.

Os olhos de Annhylde se fecharam, e imediatamente as criaturas se transformaram em formas espectrais sem rosto.

Então Sylvana sentiu que estava sendo puxada para longe, que seus sentidos estavam vacilantes. Tudo desapareceu, e o tempo parou.

– Ela está perdida! – lamuriou-se Ágata.

A chuva continuava, inexorável, e transformara o terreno em torno da muralha de Guilnéas em um pântano. Garrosh passava em revista as tropas renegadas montado em seu lobo de guerra, que afundava as patas na lama. A água da chuva escorria pelo rosto do chefe guerreiro, e vapor emanava-lhe da cabeça raspada.

– Guilnéas se acovarda detrás daquelas paredes de pedra – bradou o Chefe Guerreiro, cuja voz ressoou por entre as trovoadas. – Vocês, cidadãos de Lordaeron, vocês conhecem a história dos guilneanos. Quando os aliados humanos precisaram deles, o que eles fizeram? Ergueram uma muralha e se esconderam!

O ruído de espadas batendo contra escudos ecoou. Nem todos os Renegados se apegavam às lembranças da vida, mas aqueles que o faziam detestavam o reino que havia se negado a ajudar. Garrosh continuou, com a voz tão altiva quanto sua cabeça erguida:

– Eles vivem em desonra. Como vocês esperam que eles lutarão? Com honra? – Risos guturais espalharam-se pela multidão. – Não! Eles morrerão como covardes e assim serão lembrados. Mas a glória de vocês hoje viverá nas histórias e nas canções. – Garrosh virou-se para a muralha rompida e ergueu o Uivo Sangrento, lendário machado do chefe guerreiro, na direção do bastião destruído. – Muralhas caem, mas a honra é eterna!

O mestre-boticário Lindolfo passou a mão esquelética pelo cabelo emaranhado. Os urros de orcs, taurens e Renegados encobriram os trovões. “Como é que ele consegue?”, perguntou-se Lindolfo. “Meu irmãos saúdam a própria destruição!”

Lindolfo tentou desesperadamente formular um argumento, um último apelo à sensatez contra o plano de Garrosh. Tentou imaginar o que a Dama Sombria diria, como ela sufocaria tal sede de sangue. Abriu a boca, mas não disse palavra.

Um ruído retumbou ao longe, na retaguarda dos Renegados. Garrosh disparou com o lobo de guerra para a lateral da formação, abrindo caminho para o ataque, e convocou:

– Heróis dos Renegados! Vocês são a ponta da minha lança. Ergam suas armas! Levantem suas vozes! E só parem quando a bandeira da Horda tremular sobre aquela muralha! – Garrosh brandiu o Uivo Sangrento à frente. – Atacaaaaar!

– NÃO ESCUTEM TAL ORDEM! – Do norte, um grito se dirigiu às tropas. O chamado de Sylvana carregava tamanho poder e tamanha pureza que mesmo a chuva pareceu parar ao comando da Rainha Banshee. Relâmpagos rasgaram os céus, e trovões retumbaram como martelos contra uma bigorna. Todas as cabeças se voltaram para ela, a Dama Sombria montada sobre um cavalo descarnado, o manto negro agitando-se com a fúria do ataque e os olhos cobertos por um capuz que refletia luz na água da chuva. Diante daquela aparição, os Renegados baixaram as armas, curvaram as cabeças e ajoelharam-se.

Lindolfo não caiu de joelhos, embora suas pernas tenham fraquejado ante a visão da redentora dos Renegados. Com as vestes arrastando-se na lama, o mestre-boticário seguiu aos tropeços até Sylvana para tomar as rédeas do corcel e sussurrou, arfando de alívio: – Dama Sombria!

Logo em seguida, Lindolfo deteve-se de espanto ao ver criaturas luzentes de asas translúcidas: Sylvana estava acompanhada das abomináveis Val’kyren!

Garrosh aproximou-se da Dama Sombria com os olhos refletindo a sede de sangue. Aos pés do Chefe Guerreiro, milhares de Renegados ajoelhados em silêncio pareciam um mar de estátuas. Lindolfo encolheu-se instintivamente.

No entanto, Sylvana não hesitou, tampouco retirou o capuz em sinal de respeito. Apenas ergueu o queixo, num gesto muito sutil. A dama Sombria dirigiu-se a Garrosh, mas em volume alto o suficiente para que todos ouvissem:

– Grito Infernal, Guilnéas será derrotada. E a Horda terá o tão desejado prêmio. Mas se você quiser usar o meu povo, terá que fazê-lo do meu jeito. – Sylvana jogou o manto sobre um ombro só, exibindo a pele manchada em tons de cinza e a armadura de couro negro enfeitada com penas. – Três dos meus navios mais rápidos então a caminho da costa sul para desviar a atenção de Guilnéas, e reforços estão vindo de Plangemortis.

Lindolfo ergueu a cabeça ao ouvir aquele comentário cifrado. Até onde sabia, além do cemitério, nada havia restado em Plangemortis.

O mais intrigante, na verdade, era a mudança no comportamento de Sylvana. A voz da soberana, sempre assustadora, agora soava muito mais contundente, como se falasse com a objetividade dos deuses. E o que eram aquelas Val’kyren flutuando em silêncio em torno da dama Sombria?

– Grande Dama – sussurrou Lindolfo. – Por onde andou?

Sylvana olhou para o servo, que recuou com as mãos trêmulas, deixando cair as rédeas do corcel espectral.

Trevas

Sylvana Correventos permaneceu em queda livre. Não no sentido físico, pois o corpo da Dama Sombria fora destruído no sopé da Cidadela da Coroa de Gelo. Seu espírito, no entanto, caía, perdido como um navio sem leme numa tempestade.

Como ela havia chegado ali? Não se lembrava. Arthas a matara? Ela cometera suicídio? Fora mandada ao juízo pelas Val’kyren? O tempo não existia naquele lugar. A vida inteira pareceu-lhe não como uma sequência de acontecimentos, mas como um único instante, um vislumbre localizado de consciência em um vazio infinito.

Só enxergava trevas.

E então sentiu. Sentiu verdadeiramente, pela primeira vez em muito tempo. E se encolheu. Em dor.

Ali estava ela, com o espírito mais uma vez inteiro, apenas para senti-lo sofrer. Recobrar os sentimentos apenas para viver dor. Frio. Desesperança.

Medo.

Havia outros na escuridão. Criaturas que não reconhecia, pois nada tão terrível poderia existir no mundo dos vivos. Garras a rasgaram, mas Sylvana não tinha uma boca com que gritar. Olhos a observavam, mas ela não podia encará-los de volta.

Remorso.

Sentiu uma presença familiar, e reconheceu-a. Uma voz provocadora que outrora a controlava. Arthas? Arthas Menethil? Ali? A essência dele correu desesperadamente até Sylvana, para então recuar horrorizada ao ver que ali estava a Dama Sombria. O garoto que se tornaria o Lich Rei. Uma mera criança loira que colhia o resultado de uma vida inteira de erros. Se, naquele momento, a alma da Dama Sombria não estivesse tão atormentada e destroçada, poderia até mesmo, pela primeira vez, ter sentido uma ínfima centelha de pena de Arthas.

Em meio ao imenso universo de todo o sofrimento do mundo e todo o mal do infinito, o Lich Rei era… insignificante.

Então os outros a tinham. Cercaram-na. Exultantes, atormentadores, rasgando-lhe a consciência, deliciando-se com o sofrimento.

Terror.

Aquela seria a eternidade: o vazio infinito, o sombrio e desconhecido reino da angústia.

Teria se passado apenas um momento ou numa vida inteira, antes que um raio de luz irrompesse na escuridão? Pois, logo em seguida, elas se aproximaram de braços abertos. As nove Val’kyren, parecendo ainda mais belas em meio àquele domínio das trevas, envolveram Sylvana em uma auréola de luz.

A Dama Sombria sentiu-se nua e pequena. Enrodilhada em si mesma. Ao recobrar a voz, apenas soluçou. Sylvana Correventos estava arrasada. Ainda assim, as Val’kyren não a julgaram.

– Grande Dama Correventos – disse Annhylde com a voz apaziguadora, acariciando o rosto da elfa patrulheira. – Precisamos de você.

– O que… O que vocês querem?

– Estamos presas à vontade do adormecido Lich Rei. Prisioneiras na Coroa de Gelo, talvez por toda a eternidade. Ansiamos pela liberdade, como você também um dia. – Annhylde ajoelhou-se ao lado de Sylvana, e as demais juntaram-se às duas com os braços entrelaçados. – Precisamos de um instrumento. Alguém como nós. Uma irmã de armas, forte, que compreende o viver e a morrer. Que viu a luz e as trevas. Alguém merecedor, merecedor do poder sobre a vida e a morte.

– Nós precisamos de você – repetiu Ágata, cujo cabelo negro flutuava livremente na luz.

– Minhas irmãs ficarão livres, livres do Lich Rei para sempre, mas suas almas ficarão ligadas a você – retomou Annhylde. – Sylvana Correventos, Dama Sombria, Rainha dos Renegados… Você poderá caminhar entre os vivos novamente por meio da irmandade das Val’kyren. Enquanto elas existirem, também você viverá. Liberdade, vida… e poder sobre a morte. Este é o pacto. Você aceita esta dádiva?

Sylvana respondeu, mas não de imediato. O vazio deixara-a aterrorizada. Mesmo agora, ela ainda sentia a fúria de tormentos à sua volta. Aquela proposta era a única saída. Mas Sylvana não queria concordar movida a medo. Aguardou até que sentisse algo mais. Companheirismo. Irmandade. Irmãs. Separadas, estavam todas aprisionadas. Juntas, no entanto, estavam livres… e, com elas, poderia adiar o destino.

– Sim – afirmou Sylvana. – Nós temos um pacto.

Annhylde assentiu de cabeça com a expressão severa, e então levantou-se. Sua silhueta estava obscura e fantasmagórica: – O pacto foi feito, Sylvana Correventos. Minhas irmãs são suas, e você governa a vida e a morte. – A Val’kyr hesitou um instante e continuou. – E eu tomarei o seu lugar.

A luz foi ofuscante.

Em seguida, Sylvana despertou com o corpo torcido, mas inteiro. Acima dela, a enorme coluna da Coroa de Gelo se erguia como uma lápide.

Annhylde havia desaparecido. Sylvana estava cercada pelas oito Val’kyren remanescentes.

Enquanto elas vivessem, Sylvana também viveria.

Guilnéas

– Quem é você para contestar minhas ordens? – questionou Garrosh, esporeando o lobo de guerra para a frente. O enorme orc avançou sobre Sylvana, postando-se frente a frente e encarando-a, enfurecido.

– Eu era como você, Garrosh – respondeu Sylvana, sem se mover nem recuar, com a voz firme e baixa, para que apenas o Chefe Guerreiro a ouvisse. – Meus lacaios eram meras ferramentas. Flechas na minha aljava. – A Dama Sombria aproximou-se, retirou o capuz lentamente e encarou o rival com os olhos de azeviche vívidos e pupilas enormes que escondiam labaredas vermelhas e refletiam ódio.

Até então, ninguém havia ousado encará-la nos olhos. Ninguém, além de Garrosh Grito Infernal.

O Chefe Guerreiro viu neles um grande vazio negro, uma escuridão sem fim. Havia medo naqueles olhos, mas também algo mais. Algo que horrorizou até mesmo o poderoso orc. O lobo de guerra começou a recuar instintivamente.

– Garrosh Grito Infernal, eu caminhei pelo reino da morte. Testemunhei a treva infinita. Nada que você disser, nada que fizer, pode me assustar.

O exército de mortos-vivos que protegia a Dama Sombria ainda lhe era leal, de corpo e alma. Mas eles não eram mais flechas na aljava. Eram um baluarte contra o infinito. Deveriam ser tratados com sabedoria. Nenhum orc tolo tiraria proveito daquele exército levianamente enquanto ela caminhasse pelo mundo dos vivos.

Garrosh baixou o machado, enquanto o lobo de guerra afastava-se, assustado, do corcel espectral. Após um longo instante, o Chefe Guerreiro por fim desviou o olhar de Sylvana.

– Pois bem, Dama Sombria – anuiu Garrosh, alto o suficiente para que todos ouvissem. – Tomaremos Guilnéas… do seu jeito.

Garrosh cravou as esporas na montaria e trotou em direção às tropas órquicas. “Mas vou vigiar você de perto”, disse a si mesmo.

“Os olhos do Grito Infernal estão sobre você, mais do que quaisquer outros.”

Por: Dave Kosak
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