A morte vem do alto Parte II

by luizcsilva on 31 de janeiro de 2015

— Seis dias. Já passaram seis dias — disse Klaxxi’va Pok. — Algum de vocês ainda espera que os enxameadores subitamente saiam do transe e voltem à luta?

— Não — disse outro membro do conselho. — A menos que queiramos tentar trazer a imperatriz para campo aberto novamente.

Não fora uma sugestão séria. Havia três dias, os Klaxxi tinham convencido a imperatriz e ir a campo aberto encontrar-se com os enxameadores, cara a cara, provando assim que não fora morta, apenas silenciada pela estranha relíquia dos mogus. Milhares e milhares de enxameadores haviam se reunido em Klaxxi’vess, mas, quando ela apareceu, eles não a reconheceram. Incapaz de falar dentro de suas mentes como antes, ela não tinha influência alguma sobre eles. Os mantídeos apenas a encararam.

A única notícia boa era que os enxameadores não tinham partido. Uma aglomeração maciça de mantídeos ainda vagava sem rumo por Klaxxi’vess. Pelo menos serviriam de escudo vivo contra o ataque inevitável dos mogus. Nenhum dos Klaxxi tinha esperança de que eles fossem tentar lutar.

Klaxxi’va Pok mancou até o centro da câmara. Um ferimento que ele sofrera três dias antes o incomodava sensivelmente. Ele parou perto de um grande pedaço redondo de âmbar liso que fora encontrado e realocado fazia menos de uma hora. Dentro dele havia uma lenda, um herói dos mantídeos preservado para o caso de uma grande crise. Um paragão.

— Então esta é nossa única chance — disse Klaxxi’va Pok, com voz medida.

— O Aniquilador dos Ventos deve assumir o papel de Arauto do Despertar — disse outro membro do conselho. Todos se voltaram para encará-lo. — Vocês sabem tão bem quanto eu que ele está distraído. Ele não ficou inútil, não tanto quanto os outros, mas sua mente ainda grita pela presença da imperatriz. A presença de um paragão pode tirá-lo dessa depressão.

— Tragam-no aqui.

 

Um som verberou no silêncio.

O paragão abriu os olhos pela primeira vez em séculos.

O meio onde ele fora preservado, o ovo de âmbar, se esfacelava ao seu redor. O ar invadiu seus pulmões. Doía. O mantídeo desabou no chão, em convulsões incontroláveis. O âmbar o mantivera vivo, e seu corpo se revoltava em sua ausência.

Levou algum tempo até ele recobrar o controle. Havia um grande suprimento de seiva kypari disposto à sua frente, e ele se banqueteou. Sentiu que havia alguns mantídeos o observando, mas sem interromperem. Era um sinal de respeito. Eles fingiam não notar sua fraqueza.

Pelo menos por ora.

Logo sua força começou a retornar. Os membros tremeram, mas ele se forçou a se erguer. — Eu ouço o chamado dos Klaxxi — ciciou Ninil’ko. — Eu retornei.

Um dos mantídeos perguntou: — Ninil’ko, o Chama-sangue, você está bem?

— Estou — respondeu Ninil’ko, com prazer. Se sabiam seu nome, então conheciam sua reputação. — Diga qual crise os levou a me acordar. Eu espero suas…

Ele piscou. Havia três mantídeos diante dele, dois dos quais trajavam as vestes tradicionais dos Klaxxi’va. Nenhum deles era o seu Arauto do Despertar. Ninil’ko sabia. Ele sentiu que o terceiro mantídeo, o que tinha a armadura interessante e as armas…

— Você não é um membro dos Klaxxi. Qual é o seu nome?

— Meu nome é Kil’ruk. Alguns me chamam de Aniquilador dos Ventos.

Alguns? Ele não é um paragão? pensou Ninil’ko. Interessante. Por que os Klaxxi o escolheram como meu Arauto do Despertar?

— Chama-sangue — disse um dos Klaxxi —, nós precisamos da sua ajuda. O ciclo está em perigo.

Ninil’ko ignorou sua curiosidade pelo terceiro mantídeo. — Digam do que precisam.

— As criaturas inferiores estão invadindo. A imperatriz está à beira da aniquilação — disse o outro Klaxxi’va.

Ninil’ko não disse, mas pensou: Então substituam-na. Se os Klaxxi’va já não estivessem preparados para isso, deveria haver fatores atenuantes e a opção não valia a pena ser mencionada. — Preciso ver a movimentação do inimigo antes de formar um plano.

Kil’ruk inclinou um pouco a cabeça de lado. Ele parecia estranhamente desconcentrado, mas sua voz era forte. — Eu levo você, Chama-sangue. Eu lhe mostrarei o inimigo.

Ninil’ko olhou para os dois Klaxxi’va. Ambos aquiesceram.

— Vamos, Arauto.

 

Apenas um prédio do Terraço de Gurthan fora completado nos seis dias desde que os mantídeos tinham sido dispersados, embora escravos houvessem trabalhado dia e noite para lançar os alicerces e construir paredes para mais uma dúzia. Por ora, Gurthan decidira que o prédio terminado serviria de sala de guerra. Quando os mantídeos fossem derrotados por completo, aquele seria um local adequado para receber os embaixadores dos outros clãs mogus. Sem dúvida eles buscariam cair em suas graças quando todas as terras a oeste do Espinhaço da Serpente ficassem subitamente desocupadas.

Fulmin conduziu o senhor da guerra Gurthan para dentro. — Gostaria de mostrar uma coisa — disse o conselheiro.

No canto sul da sala de guerra havia um objeto desconhecido. — Eu mandei preparar isso para o senhor nos últimos dias — disse Fulmin. — Finalmente ficou pronto.

O Senhor da Guerra Gurthan inspecionou o objeto com atenção. Era uma grande urna, folheada em bronze. Parecia brilhar, e ele sentiu resíduos de energia arcana pairando ao redor do item como fumaça em torno de um palito de incenso. — Para que serve?

— Me ocorreu, Senhor da Guerra, que, quando enfim matarmos a rainha mantídea, precisaremos de um local adequado para exibir os restos mortais dela — disse Fulmin.

A risada grave do Senhor da Guerra ribombou pelo aposento. — Eu admiro seu preparo.

— Além disso — acrescentou o conselheiro —, talvez nem precisemos matar a imperatriz para deixá-la indefesa.

— Explique-se.

— Com um simples feitiço arcano, podemos deixar o espírito da imperatriz suspenso nessa urna. Sua forma física desaparecerá, mas sua mente ficará presa. Será como um sono pesado com sonhos inquietantes — disse Fulmin. — E se algum dos outros mogus duvidarem que você tenha conquistado os mantídeos de verdade, só é necessário evocar o espírito dela. A própria essência dela ficará ao seu dispor. A mente dela será o seu troféu.

O Senhor da Guerra fez uma careta. — Não. Se os mantídeos souberem que ela ainda está viva, podem tentar salvá-la. Eu não lhes darei chance de recuperá-la.

— Ah — disse Fulmin, sorrindo. — Foi por isso que criei o feitiço de forma a ser imutável para os mantídeos. Eles não poderão danificar a urna, muito menos libertar o espírito.

— É um risco muito alto.

— Eu aposto a vida nisso — disse Fulmin. — Capture a rainha dos mantídeos. Suspenda seu espírito. Então, para testar, arremesse a urna para o resto dos insetos. Se algum deles conseguir arranhar a urna, corte minha cabeça como punição.

O senhor da guerra Gurthan o considerou por um instante. Eram raros os mogus dispostos a apostar a vida, e Gurthan teve que admitir que a ideia de manter o espírito da imperatriz mantídea como um troféu o seduzia enormemente.

— Fulmin, creio que você terá mais responsabilidades quando tivermos terminado com os mantídeos. Você pode me ensinar esse feitiço?

— Posso.

— Então me ensine. Agora. — O senhor da guerra Gurthan deixou um largo sorriso iluminar seu rosto. — Eu quero acabar com os mantídeos hoje.

 

A vista do alto era incrível. Ninil’ko estava agachado nas costas do aniquilador dos Ventos, deixando-o subir mais e mais alto, finalmente chegando à altura de quase mil braças.

O paragão não falava nada, e Kil’ruk por sua vez não tentava entabular uma conversa. Ninil’ko simplesmente estudava a movimentação do exército mogu. A situação era obviamente grave. Os Klaxxi’va não tinham exagerado. A menos que as criaturas inferiores se locomovessem com cautela, o exército atacaria Klaxxi’vess antes do pôr-do-sol, e embora milhares de enxameadores estivessem reunidos em uma massa compacta cercando o local, eles não ofereceriam muita resistência.

Ninil’ko podia sentir a ausência da voz da imperatriz, mas aquilo pouco significava. Não a conhecia. E mesmo que conhecesse, ele servia a um novo propósito agora. Imperatrizes vão e vêm. Ninil’ko bateu no ombro de Kil’ruk, que deu um leve espasmo como se tivesse sido acordado de um cochilo. Estranho, pensou o paragão.

— Arauto, quem dentre os enxameadores é o mais habilidoso nos ataques àquela muralha?

— Sou eu.

Era a primeira notícia boa que Ninil’ko ouvira desde o despertar. Fragmentos de um plano dançaram em sua mente, mas havia sérios desafios a superar. — Aquela muralha não existia na minha época.

— Você pode derrotá-la?

— Eu não sei.

— Então a imperatriz está condenada. — A voz de Kil’ruk expressava melancolia.

— Não foi o que eu disse. O ciclo será preservado a qualquer custo.

— Mas a imperatriz está condenada.

Ninil’ko não disse nada por alguns instantes. A mente do Aniquilador dos Ventos ainda é imatura. Ele é uma criatura da imperatriz, não dos Klaxxi. Era um pensamento inquietante, mas que esclareceu algo de interesse. Ele deixou que sua mente investigasse, remoendo aqueles segredos.

As peças se encaixaram. Ninil’ko entendeu por que os Klaxxi haviam permitido — provavelmente forçado — o Aniquilador dos Ventos a acordá-lo. Um molda-âmbar especulara havia muito tempo que o processo pelo qual um paragão era revivido de seu sono âmbar era semelhante àquele pelo qual uma imperatriz dava à luz os enxameadores. Havia alguma lógica na ideia. Ser preservado era doloroso. Parecia morrer. Quem podia garantir que ser acordado não era simplesmente renascer? Os jovens mantídeos eram completamente dependentes da imperatriz; talvez um paragão sentisse um vínculo parecido com o seu Arauto, mesmo que fosse apenas um reflexo pálido daquela lealdade cega.

Ninil’ko compreendeu que a teoria não estava errada de todo. Mesmo agora…

Ele sacudiu forte a cabeça. O plano apareceu claro em sua mente. Ele sabia como deter os mogus. Mas precisaria de Kil’ruk, o Aniquilador dos Ventos, totalmente concentrado na tarefa, e não distraído pela ausência da imperatriz.

Ele morrerá aconteça o que acontecer, mas precisa causar o maior estrago possível antes disso, pensou Ninil’ko. — Arauto, há quanto tempo você serve a imperatriz?

— Desde que vim ao mundo — foi a resposta irritada de Kil’ruk.

— Há quanto tempo você serve os Klaxxi? — perguntou Ninil’ko. Kil’ruk não respondeu, e o paragão insistiu. — Servir os Klaxxi é preservar o ciclo. Preservar o ciclo garante que a imperatriz sobreviva. Você não serve a eles?

— Eu sirvo à imperatriz — respondeu Kil’ruk.

— Você sabe o que é o ciclo?

— Claro.

— Explique para mim.

A cabeça de Kil’ruk se virou, e o paragão viu o olhar do voador encará-lo. O paragão pisava em terreno perigoso e sabia disso. Se o Aniquilador dos Ventos decidisse que Ninil’ko estava sendo traiçoeiro, seria uma longa queda até o chão.

Depois de alguns instantes, Ninil’ko rompeu o silêncio. — Você nasceu conhecendo o ciclo. Você pode senti-lo. Você sabe de sua importância. É um instinto, mas não foi explicado direito a você. Não há vergonha nisso.

— Me explique.

Ninil’ko descreveu com cuidado o processo centenário. Como a imperatriz nutria os enxameadores. Como todos avançavam contra as criaturas menores, para provar seu valor em combate. — Nós só crescemos por meio de batalhas. É o melhor mentor que podemos ter. — Ninil’ko não mencionou a frequência com que imperatrizes morriam e eram substituídas. Quando Kil’ruk perguntou a ele como era a imperatriz no passado, o paragão mudou de assunto.

— Mas uma verdade cruel do ciclo é que esta imperatriz morrerá um dia. Ela sabe disso. Ela aceita isso — disse Ninil’ko. — Não há nada a temer.

Kil’ruk começou a tremer. Ninil’ko esperou pacientemente que a tremedeira passasse antes de continuar. — É por isso que os Klaxxi estão aqui: para garantir que o ciclo continue. Para garantir que o bom trabalho dela não se apague nunca.

— De que serve o ciclo sem a imperatriz? — sussurrou Kil’ruk. Suas asas fraquejaram um pouco, e os dois mantídeos desceram algumas braças antes que ele recuperasse o controle.

— A batalha é um mentor eficiente — repetiu Ninil’ko. — Há muito o que aprender com as criaturas inferiores. — E por que Kil’ruk retesara-se ao ouvir aquilo? Ninil’ko insistiu, sentindo que finalmente tocara o mantídeo voador. — A cada ciclo, aprendemos mais sobre a batalha, sobre eles, sobre nós mesmos. Ficamos mais fortes. Nós mudamos. As criaturas inferiores não aprendem nada a não ser o medo.

Ninil’ko podia sentir Kil’ruk respirando lentamente. Ele estava se acalmando. Estava ouvindo. — Quanto tempo o ciclo dura? — perguntou Kil’ruk. — Para sempre?

— Não. Virá o dia em que não precisaremos mais enxamear. Até lá, os Klaxxi preservam o ciclo. Eles fazem tudo para que esta imperatriz e todas as outras que virão depois desta vivam tanto quanto for possível. Você entende?

Kil’ruk não respondeu, mas Ninil’ko sabia que a semente tinha sido plantada. Era hora de deixá-la crescer.

— Por favor, quero voltar e falar com os Klaxxi — disse Ninil’ko. — Preciso contar meu plano a eles.

— Nós podemos vencer?

— Claro.

— Como?

Ninil’ko deu uma risada áspera. — Fazendo o que o inimigo não espera. É assim que se vence uma batalha.

 

— Os séculos que você passou no âmbar apodreceram seu cérebro, Chama-sangue.

— Ouçam, Klaxxi’va — disse Ninil’ko, indo de um Klaxxi’va a outro. Todos o olhavam com uma expressão de reprovação. — A imperatriz morrerá ao pôr-do-sol não importa o que façamos. Eu estou errado?

— Não está. Mas o que você propõe é loucura. Não temos ninguém para substituir a imperatriz. Não podemos expô-la ao risco. Se ela morrer, o ciclo acaba.

— A única solução para a invasão dos mogus é usar os enxameadores. Se não pudermos reviver as mentes dos nossos jovens, não teremos contingente suficiente para repelir o ataque — disse Ninil’ko, suavemente. — Os enxameadores serão inúteis até que a relíquia seja destruída. Eu não posso destruir a relíquia enquanto ela estiver protegida por um exército. Nossa única chance de chegar à relíquia é oferecer a eles um prêmio irresistível. A imperatriz é esse prêmio. É o único que temos! Essa é minha lógica. Esse é o meu plano. Foi para isso que vocês me acordaram. Ouçam minhas palavras.

Houve um longo, longo silêncio.

 

— Senhor da Guerra! — O jovem mogu irrompeu no prédio. Sete líderes militares ergueram os olhos da coleção de mapas e relatórios de reconhecimento espalhados sobre a comprida mesa. Gurthan estava sentado na cabeceira. — Os mantídeos estão se movendo!

— Na nossa direção? — perguntou um dos comandantes.

— Não! — respondeu o jovem mogu, engasgando-se. — Para longe… longe de nós.

— Explique — ordenou o Senhor Gurthan.

O jovem mogu respirou fundo algumas vezes. — Nossos batedores dizem que alguns mantídeos deixaram a fortaleza voando, carregando outro.

— Por quê?

— Não sabemos… O que estava sendo carregado, ele parecia… — O mensageiro subitamente transpareceu nervosismo. Ele limpou a garganta e escolheu cautelosamente as palavras. As notícias do fim de Hixin se espalharam rapidamente. — Esse mantídeo parecia diferente. Muito diferente. Os outros insetos pareciam tratá-lo com cuidado e respeito.

Os comandantes se entreolharam.

— Era a imperatriz mantídea? — perguntou Gurthan em voz baixa.

— Os batedores acham que sim, Senhor, sim — respondeu o jovem mogu.

O Senhor da Guerra Gurthan se levantou lentamente, os olhos pousados sobre a urna ornamentada no canto da mesa. Seus exércitos se moveram cautelosamente para além da muralha. Gurthan sabia que o tempo estava ao seu lado; mais cedo ou mais tarde, os mantídeos só teriam opções temerárias, desesperadas. Era esse o momento que ele aguardava. — Eles viram nossas preparações. Sabem que atacaremos hoje. Eles esperam adiar a destruição e manter a imperatriz longe de nossas mãos, mesmo que seja apenas por alguns minutos a mais. Agora ela está fora do único lugar onde poderiam montar uma defesa apropriada.

Um dos comandantes mogus parecia inquieto. — Talvez eles queiram afastar nossas…

— Claro que querem — interrompeu Gurthan. É exatamente o que eu faria, pensou. — Não muda nada. Temos guerreiros suficientes para vencer qualquer defesa que ofereçam.

— Suas ordens, Senhor?

Todos os comandantes fixaram os olhos nele. O senhor da guerra analisou rapidamente suas opções, procurando por falhas e perigos imprevistos. A relíquia ficará vulnerável enquanto o exército persegue a imperatriz, pensou. Aquilo sinistro mantídeo voador ainda está vivo. Será uma armadilha?

Um sorrisou se alargou no rosto do senhor da guerra. — Mandem todos. Cacem a imperatriz. Tragam-na aqui. De preferência viva. Quero ela nessa urna até o pôr do sol. Espero que o voador ataque, pensou Gurthan. — E apronte as equipes de huatang. Mandem-nos esperar um ataque dos céus.

 

Kil’ruk observava os guerreiros mogus e seus escravos abandonarem suas tendas, suas fogueiras, seus pertences, tomarem apenas uma arma nas mãos e correrem sem demora para o oeste. O senhor da guerra certamente havia ordenado que não perdessem tempo.

Eles matarão esta imperatriz e todas as imperatrizes que viverem. O pensamento saltava em sua cabeça como uma mosca-da-seiva numa árvore kypari durante a primavera. Estranhamente, a despeito da raiva, os efeitos de torpor mental da relíquia mogu pareciam muito mais fracos que uma hora atrás. Ele ainda não conseguia ouvir a imperatriz, mas sua ausência não turvava mais seus pensamentos.

Na verdade, ele jamais sentira seus propósitos tão claramente. As criaturas inferiores queriam interromper o clico. Kil’ruk não permitiria.

Nós só crescemos por meio de batalhas, dissera Ninil’ko. É o melhor mentor que podemos ter.

Aparentemente até a sede de batalha podia afiar uma mente mantídea.

Kil’ruk esperou até os últimos retardatários do vasto exército mogu desaparecerem entre as montanhas. Então, saltou no ar. Seis outros mantídeos voaram com ele. Apenas seis. Eles eram os únicos mantídeos alados sobreviventes maduros o bastante para lutar sem a voz da imperatriz para guiá-los.

O Terraço de Gurthan se estendia diante dele. Acima, a Muralha.

Kil’ruk voou na direção da Muralha. A seiscentos passos de distância, nos edifícios, as silhuetas brancas de seis favos se viraram para ele.

 

— Aí está, Senhor da Guerra.

O Senhor da Guerra apertou e protegeu os olhos contra o Sol da tarde. De fato, aquele mantídeo voador estava vindo do oeste. Vários outros mantídeos voadores, talvez cinco ou seis, vinham logo atrás.

Para surpresa do senhor da guerra, eles não mergulharam no terraço.

— Eles estão atacando o espinhaço da Serpente? — perguntou Fulmin. — Acho que eles não sabem que trouxemos a relíquia para cá.

— Talvez — disse Gurthan, indeciso. Os mantídeos não eram conhecidos por tais deslizes. O que é que não estou vendo? Gurthan olhou em redor no terraço. Seus guardas mantiveram a posição, mas ficaram de olho nos mantídeos. Até os quílens de batalha treinados aos pés deles seguiam com os olhos os voadores pelo céu.

O primeiro tiro de huatang soou no instante em que os mantídeos alados atravessavam a borda oeste do terraço. Dois mantídeos voadores caíram em um instante. O mais perigoso não era um deles.

 

Faltavam duzentas braças. O bando continuava no nível das ameias. Os guardas mogus no chão observavam com atenção.

Os mantídeos viram o tufo de fumaça branca um segundo antes de a carga de pedregulhos do favo de mel passar assobiando. Kil’ruk ouviu impactos em uma carapaça à sua esquerda. Impactos fatais. ele não sabia quem tinha sido atingido. Nem se importava. Havia mais cinco favos de mel carregados com os quais se preocupar. Era hora de ver se o Chama-sangue estava à altura da sua fama como estrategista.

— Dispersar — disse Kil’ruk.

Os mantídeos voadores restantes — eram quatro, Kil’ruk contou em um relance — se espalharam para a esquerda, direita e para o alto, mas não mergulharam. O paragão tinha proibido expressamente.

As criaturas inferiores esperam que vocês mergulhem no terraço, dissera Ninil’ko, então não façam isso.

Outro favo de mel disparara, mas a trajetória do disparo tinha sido muito baixa. Mais dois dispararam em seguida, com o mesmo resultado. O paragão estava certo; eles esperavam que os voadores tentassem pegar a relíquia. Escravos corriam ao redor dos quatro favos de mel vazios, recarregando.

Aniquilador dos Ventos, a maior parte dos tiros será direcionada a você. Eles têm muito medo de você para agir de outra forma, dissera Ninil’ko.

Eles se aproximaram da Muralha. Faltavam cinquenta braças. Os dois últimos favos de mel carregados estavam na posição certa de tiro. Não errariam o alvo àquela distância.

Vinte braças. Hora da segunda parte do plano do paragão.

Eles não acreditam que você não seja o primeiro a atacar, dissera Ninil’ko.

Nem eu acredito.

Surpreenda-os. Surpreenda-se, dissera o Chama-sangue.

As asas de Kil’ruk subitamente zumbiram, tornando-se um borrão translúcido. Ele subiu rápido, incrivelmente rápido, quase tão rápido quanto podia mergulhar. Os dois últimos favos de mel tentaram segui-lo, dispararam tiros apressados… e erraram.

Nenhum dos favos de mel já tinha sido recarregado. Os outros quatro voadores se abateram sobre as barbacãs em um furacão furioso de âmbar e sangue.

Kil’ruk permitiu que suas asas parassem. O impulso o levava mais e mais alto, descrevendo um arco sobre o Espinhaço da Serpente. Ele chegou ao zênite quatrocentas braças acima das ameias.

Lá no alto era estranhamente silencioso. Os sons da batalha estavam longe, lá embaixo. A imperatriz estava em silêncio. Pela primeira vez na vida, Kil’ruk estava entrando na batalha realmente sozinho.

Aquilo não o perturbou nem um pouco.

Ele começou a mergulhar.

 

— Inteligente — disse o Senhor da Guerra Gurthan, sorrindo. O mantídeo voador explorara suas presunções e passara sem problemas por suas defesas. Agora ele tinha o caminho livre até o Espinhaço da Serpente. — Realmente inteligente.

— Devemos enviar reforços? — perguntou Fulmin.

— Não. Mesmo se perdermos todos nas ameias, isso não significa nada se a relíquia…

Um grito agudo interrompeu o Senhor da Guerra. — Mantídeos! Vindos do oeste!

O senhor da guerra Gurthan girou nos calcanhares. Uma dúzia de mantídeos a pé invadiam o Terraço de Gurthan, já a menos de cem passos dos mogus. Todos os guardas tinham se concentrado tanto nos mantídeos voadores que…

Inteligente, pensou ele, já não mais sorrindo.

 

Ninil’ko, o Chama-sangue, avançou para a batalha com o resto. Ele sibilou e estalou as mandíbulas — kss kss tk-tk-tk-tk — e os outros mantídeos fizeram uma formação em cunha. Ele se permitiu um momento de satisfação: o tempo dormindo no âmbar não havia diminuído seu talento nem um pouco.

A maioria dos paragões recebia seu segundo nome dos Klaxxi. Até onde ele sabia, Ninil’ko era o único que havia escolhido o segundo nome por conta própria. Quem mais poderia tê-lo feito? Os Klaxxi o tinham saudado por seu senso de estratégia, e sua imperatriz, embora fraca e patética, se maravilhara com sua astúcia ao derrotar uma rebelião de mantídeos.

Mas quem dentre eles o teria batizado de Chama-sangue?

Ninil’ko ergueu a lança enquanto os companheiros mantídeos davam os últimos passos antes de se chocarem com os mogus. Ele apontou a lâmina curva para o flanco esquerdo e estalou as mandíbulas duas vezes. Toda a força mantídea concentrou-se em dois mogus. Os inimigos morreram em um ciclone de âmbar afiado.

Passou lentamente a lança ao longo da linha de frente inimiga, escolhendo os alvos. Clique clique clique.Mais três mogus morreram, deixando um buraco gigante nas defesas. O flanco esquerdo desabou. Clique clique. Dois quílens morreram. Clique clique clique. Um mago, um senhor das feras e um quílen ferido tombaram logo depois.

Era um dom. Ninil’ko aprendera já em seu tempo de enxameador imaturo que era capaz de se comunicar com outros mantídeos sem usar palavras e influenciá-los. Quando ele projetava sua vontade, os mantídeos próximos sabiam onde atacar; quando ele estalava a mandíbula ou chiava, sabiam quando. Ele podia mandar e retirar seus soldados do combate, conduzindo o fluxo da batalha em um nível preciso imperceptível.

Nunca explicara tal dom a ninguém, nem mesmo aos Klaxxi. O próprio Ninil’ko não compreendia totalmente. Eles respondiam ao som? Ele podia influenciá-los feito a imperatriz? Não tinha certeza. Talvez estivesse explorando alguma parte ancestral da mente mantídea, algum instinto primevo que restara depois que o Antigo lhes dera clareza de pensamento e um propósito mais elevado. Talvez fosse assim que os mantídeos se comunicavam nas eras passadas.

No fim, pouco importava. Quando Ninil’ko chamava, o sangue fluía. Logo o terraço se recobriu de vermelho.

 

E Kil’ruk continuou a mergulhar.

 

— Continue recarregando! — rugiu o capataz.

Um escravo pandaren caiu de joelhos, juntando desesperadamente minúsculas pedrinhas com as patas. A gritaria dos outros escravos, que morriam, ameaçavam enlouquecê-lo. Ele queria correr, mas seria chicoteado de novo se…

Um guinchado medonho invadiu seus ouvidos e afugentou seus pensamentos com puro horror. Ele olhou para cima bem a tempo de ver um borrão âmbar e violeta descer em sua direção.

 

O pandaren ajoelhado absorveu grande parte do impacto. Kil’ruk rapidamente recuperou o equilíbrio e enterrou a lâmina no escravo. Ele sentiu alguma resistência por um breve momento – o primeiro sangue que derramava em batalha.

Haveria muito mais.

Duas das criaturas aladas ainda estavam vivas, lutando selvagemente entre as menores. Elas estavam sedentas, exaltadas por lutar lado a lado com o Aniquilador dos Ventos, mas eram absolutamente inexperientes. Jamais sobreviveriam a um combate como esse. O lugar estava abarrotado. Seis favos de mel e quase duzentos defensores preenchiam o espaço entre as duas torres que encimavam o Terraço de Gurthan.

Kil’ruk atirou-se por entre as criaturas menores e deixou suas lâminas de âmbar dançarem.

 

Ninil’ko saltou para trás sibilando. Ksss-tk-tk-tk-tk-tk. Era a única ordem que precisava dar; os outros saltaram para trás com ele. Dois dos mogus, cegos em meio à fúria da batalha, investiram. Clique clique.Sete lâminas mantídeas retalharam ambos. Em menos de um minuto, Ninil’ko reduzira o número de defensores mogus à metade, perdendo apenas um punhado dos seus.

Um início decente. Agora eles eram minoria em apenas dois para um, mas os mogus estavam recuperados do choque da emboscada e já retomavam a disciplina. Na sequência, formaram uma precária linha de defesa entre os mantídeos e o prédio com a relíquia. A tática deles seria adequada para a maioria das batalhas, Ninil’ko sabia.

Mas não hoje. Ninil’ko dardejou na direção de um mogu no meio da linha. Ele parecia o mais assustado, e também o mais velho. Isso o tornava o alvo mais valioso no momento.

Clique.

—-

O senhor da guerra assistia, impassível. Apenas o rilhar dos dentes traía seus sentimentos diante da morte do último de seus comandantes. Finalmente, ele se virou para Fulmin:

— Pegue a relíquia e vá — disse calmamente o Senhor da Guerra Gurthan.

— Quê?! — sibilou Fulmin. — Estamos em maior número!

Os olhos de Gurthan faiscaram. — Pegue e relíquia e vá pelo portão. Quieto. Sem ser visto. Mantenha a relíquia ativa a qualquer custo. Sem erros. Precisamos que os mantídeos continuem dóceis.

— Senhor…

— Não permitirei que eles vençam. Eu. Não. Permitirei. Entendeu? Nosso exército acabará com isso em uma hora. Pouco importam os milagres que os mantídeos operem no campo de batalha se a imperatriz estiver morta.

Fulmin hesitava. — Eles vão matar você, Senhor.

— Não tenho dúvidas de que tentarão. Vá. Mas volte o mais rápido que puder quando tiver terminado. — Gurthan sorriu maliciosamente. — Posso precisar de você para me acordar. Meu sono pode ser bem pesado.

A compreensão finalmente emergiu na mente de Fulmin. — Sim, Senhor.

Gurthan observou enquanto ele partia e esperou até que sumisse de vista para dar a ordem seguinte:

— Recuar! Recuem para o prédio!

 

Kil’ruk pintou as ameias com o sangue das criaturas menores. Ainda assim, elas continuavam a atacá-lo.

O que os mogus ameaçaram fazer se os escravos corressem? Kil’ruk pensava enquanto retalhava outro pandaren. Poderia ser pior que isso? As cabeças de dois sauroks saltaram fora dos ombros reptilianos.Como essas criaturas são inúteis.

Kil’ruk ascendeu e deslizou fora do alcance dos defensores, depois pousou junto ao favo mais próximo da torre norte e eviscerou o primeiro mogu que surgiu.

Um grupo de sauroks furiosos saltou da massa de defensores sobre ele. Kil’ruk conseguiu enterrar as lâminas em dois, mas caiu de costas com um baque seco. O peso de dúzias de corpos o mantinha imobilizado. Um rosto de saurok sorrindo cruelmente a poucos centímetros do seu destacava-se da pilha.

Então o ar foi tomado por uma crepitação. Os sauroks olharam para cima. O sorriso se tornou terror.

Uma explosão ensurdecedora, mais forte que tudo, entorpeceu a todos. O peso reduziu a pressão sobre o peito de Kil’ruk. Ele se recusava a piscar. Queria morrer de olhos abertos. Ele viu o saurok saltar, e em seguida morrer com o segundo impacto que atingiu a Muralha. Antes de cair, a criatura desapareceu em meio à terceira explosão.

O estampido ecoava, paralisando todos os outros sentidos. Finalmente Kil’ruk piscou. Ele ainda estava vivo.

O mesmo não podia ser dito da maior parte dos sauroks. Tossindo, Kil’ruk afastou os corpos que se amontoavam sobre ele e ficou de pé. A dor lancinante em seus ouvidos logo deu lugar a gritos e prantos.

A visão que teve aturdiu Kil’ruk.

Os mogus viraram os favos recarregados para o norte e começaram a disparar na direção das ameias. Estavam atirando nas ameias. Três vezes. Numa tentativa de aniquilar um único mantídeo voador, eles dizimaram os próprios escravos. A pilha de corpos amontoados sobre ele foi a única coisa que impediu que se ferisse.

O respeito de Kil’ruk pelos mogus aumentou substancialmente. Uma tática corajosa, pensou.

A fumaça que subia serviu de cobertura, ocultando-o dos mogus. Isso não duraria. Eles vão achar que morri com os escravos, pensou. Kil’ruk saiu pela muralha e desceu até o chão.

O som da batalha ainda ecoava no Terraço de Gurthan. Eles pareciam ter se movido para o prédio onde a relíquia era abrigada. Kil’ruk correu para lá.

 

O espaço reduzido do prédio restringia enormemente os movimentos dos atacantes. O único outro mantídeo ainda em condições de lutar morreu quando duas lanças mogus partiram-no em três, impedindo-o de atender ao silvo de alerta de Ninil’ko.

O Chama-sangue estava sozinho no campo de batalha. Ninil’ko apoiou as costas contra a parede e esperou pelo inevitável golpe final. Restavam apenas três mogus — não, quatro, contando com o estranho que usava vestes reais ricamente ornadas. Esse último mogu estava de costas para a batalha, os braços cruzados no peito, com dois quílens sentados aos seus pés.

Esse deve ser o Senhor da Guerra Gurthan, suspeitou Ninil’ko.

— Alto — ordenou o quarto mogu. Os outros pararam. — Mantídeo, você tem nome?

 

O solitário inseto não parecia ouvir. — Criatura, você entende o que digo? — perguntou Gurthan.

Um som estranho, agudo, ecoou pela sala. As mandíbulas do mantídeo abriam e fechavam, estalando em um ritmo incomum, áspero. Ele está rindo de mim?, pensou Gurthan. — Eu sou o Senhor da Guerra Gurthan, mantídeo. Eu sou…

— Eu não me importo, mogu.

Gurthan fechou a mandíbula com força: — Você tem um nome, mantídeo?

— Nenhum que eu queira dizer a você — chiou a criatura.

 

Kil’ruk rastejou até a porta e ouviu duas vozes:

— Onde está a relíquia? — perguntou Ninil’ko.

— Eu pus sua espécie à beira da extinção, mantídeo — disse a outra voz. — Se você for capaz de pensar…

— Mais capaz que você, Gurthan. Onde está a relíquia?

— Sua imperatriz estará morta antes de você encontrar a relíquia — disse Gurthan. — Mas talvez não haja razão para todos os mantídeos morrerem com ela. Alguns de vocês são bons guerreiros; talvez…

— Você está negociando? — chilreou Ninil’ko, divertindo-se. — Então aqui está minha oferta, mogu: ajoelhe-se diante de mim, implore por perdão, entregue a relíquia e eu permitirei que saia vivo desta sala. Mas não posso garantir nada da porta até a Muralha.

— Ajoelhar? — A voz de Gurthan, mesmo baixa, emanava fúria. — Os escravos do império ajoelham-se diante de mim. As feras se deitam aos meus pés, esperando minhas ordens. Você, em sua arrogância…

Kil’ruk não queria mais ouvir. Ele deu um passo na direção da porta. — Suas palavras desperdiçam nosso tempo — disse em voz alta. — Venha me enfrentar.

Os três guerreiros mogus alvoroçaram-se ao ver o segundo mantídeo.

Gurthan apenas torceu os lábios e assoviou agudamente duas vezes. Os dois quílens a seus pés saltaram para agarrar a garganta de Kil’ruk.

O mantídeo lançou as duas lâminas de âmbar num arco, e ambos os quílens caíram pesadamente no chão. Um mal estava vivo; apenas um deplorável choramingo escapava de seu focinho. Ele tentava se arrastar de volta para o Senhor Gurthan. Kil’ruk enterrou uma das patas dianteiras em seu peito e deu fim ao pranto lamentoso.

— Chama-sangue. Eu estou pronto. E você? — perguntou Kil’ruk.

Ninilko ergueu a lança: — Sim, Aniquilador dos Ventos.

Os dois deram juntos um passo à frente.

 

— Matem os dois — ordenou o Senhor da Guerra Gurthan.

Os três guardas restantes avançaram na direção dos dois mantídeos. Lâminas se chocaram, lançando faíscas no ar.

Gurthan não tinha ilusões sobre as chances reais de sucesso deles. Seus olhos miraram a urna dourada, que deveria abrigar a imperatriz mantídea.

Teria que ser suficiente.

Eu não permitirei que eles vençam.

Enquanto seus guardas morriam, Gurthan se abaixou e fez uma concha com as mãos, colhendo o máximo que podia de energia arcana. Ele só teria tempo para um feitiço.

 

O último guarda lutava bravamente, mas com os dois companheiros agonizando no chão, era apenas questão de tempo até que um ataque mantídeo enfim encontrasse carne. As duas lâminas do Aniquilador dos Ventos perfuraram seu peito. Ele caiu, e grunhiu, e não se moveu mais.

Kil’ruk virou-se lentamente. Na direção do último mogu de pé. — Gurthan — sibilou —, você teria assassinado a imperatriz. A atual imperatriz e todas as imperatrizes por vir. Você teria dado fim ao ciclo.

O senhor da guerra mogu desenhava pequenos círculos com as mãos. Conjurando poder. Para que propósito, Kil’ruk não sabia.

Tampouco importava.

Ninil’ko deu um passo para trás: — Aniquilador dos Ventos, a honra é sua — disse o paragão.

Kil’ruk ergueu as lâminas e avançou lentamente. Se Gurthan planejava desferir um ataque final, algum gesto desesperadamente covarde, o Aniquilador dos Ventos estaria pronto. — Você morrerá, Senhor da Guerra. E não será rápido.

— Você vai adorar, não é, inseto? — Gurthan cuspiu.

Apenas cinco passos até seu objetivo. — Mais do que você imagina.

As mãos de Gurthan subitamente pararam de se mover. O ar pulsava, avivado pelo poder. Os olhos do mogu cruzaram com os de Kil’ruk. — Muito bem. Eu juro: você e seu povo nunca terão o prazer de acabar com a minha vida.

As mãos do senhor da guerra se separaram. Um clarão de luz tomou a sala. Kil’ruk cobriu os olhos com as lâminas.

Quando sua visão clareou, a luz havia esmaecido.

O Senhor da Guerra Gurtan desaparecera. A urna parecia vibrar, como se imbuída de poder, energia, vida.

— Não — disse Kil’ruk.

 

Ninil’ko assistiu a Kil’ruk esbravejar por vários minutos.

— Covarde! Covarde! Venha me enfrentar!

O Aniquilador dos Ventos atingiu a urna com as lâminas várias vezes. Ela não estava sequer arranhada. Nem se movia. O encantamento usado por Gurthan para transferir seu espírito para a urna aparentemente a protegia de qualquer dano físico.

O senhor da guerra estava, em resumo, fora do alcance dos mantídeos. Kil’ruk golpeou com as lâminas várias vezes, possuído pela fúria.

Por fim, Ninil’ko decidiu que era suficiente. — Aniquilador dos Ventos — disse suavemente. Kil’ruk não parou, nem diminuiu a velocidade dos golpes. — Aniquilador dos Ventos, a imperatriz ainda está em silêncio.

Kil’ruk atacou a urna pela última vez. A lâmina se chocou contra a superfície, emitindo um som estranhamente abafado. Ele encarou o paragão, ofegante: — A relíquia não está aqui.

— Está se afastando de nós. Você também consegue sentir, sim? — questionou Ninil’ko. Era uma sensação estranha. Comparável apenas ao movimentos das nuvens no céu: do chão, parecia acontecer tão lentamente que era como se estivessem paradas.

— Sim — Kil’ruk chutou a urna com força, decepcionado. — Vá na frente, Chama-sangue. Vamos acabar com isso.

 

Fulmin caminhava cuidadosamente ao pé do Espinhaço da Serpente, trazendo a relíquia junto peito, concentrado em manter o feitiço. Sem manutenção constante, o delicado equilíbrio de energia perderia o controle. As consequências seriam imprevisíveis, mas provavelmente fatais para quem estivesse com a urna.

O Portal do Sol Poente estava logo à frente. Quando Fulmin o atravessasse, poderia entregar a relíquia para outro arcanista e reunir uma força de mogus para tomar de volta o terraço.

O terrível ruído e o clarão significavam que o Senhor da Guerra Gurthan suspendera o espírito para evitar a morte por mãos mantídeas. Bem, Fulmin lhe ensinara a técnica, e seria simples revertê-la quando a ameaça mantídea estivesse contida.

Folhas secas crepitaram às suas costas.

Fulmin se virou e quase perdeu o equilíbrio. Um mantídeo, coberto com uma bizarra armadura e portando uma imensa lança, estava a não mais que quinze passos de distância. Ele não tinha asas; não poderia voar.

O mantídeo ergueu a lança e apontou para Fulmin. O mogu assistia com curiosidade. Não havia poder, não era um feitiço. A distância era grande demais para um ataque rápido.

O mantídeo emitiu um estranho som. Clique.

Uma sombra se abateu sobre Fulmin, que nem teve tempo de gritar.

A relíquia caiu de suas mãos.

 

— Um objeto estranho — disse Kil’ruk.

A relíquia ainda gotejava sangue mogu. Ninil’ko examinou-a com cuidado, girando-a nas mãos. — Não consigo ouvir a imperatriz, Aniquilador dos Ventos. Você consegue?

— Não.

— Energia arcana está além dos meus talentos — refletiu Ninil’ko. A relíquia emitia uma luz pálida que, a cada instante, aumentava em intensidade. — Os mogus empregam magia de maneiras incomuns. Eu não sei como silenciar esta maldita coisa.

O paragão observou o mago mogu massacrado. A criatura manteve o feitiço até a morte. Por quê? A relíquia não parecia necessitar de um suprimento constante de energia para manter a imperatriz aprisionada.

Ninil’ko esticou o braço segurando a relíquia. — Aniquilador, talvez você possa ver se…

A luz emitida pela relíquia subitamente brilhou e desapareceu. Kil’ruk viu uma luz fraca e ouviu um estalo suave, breve.

Ninil’ko sentiu — por um ínfimo instante — a energia arcana restante na relíquia subir seu braço como um raio. Houve um instante de pura agonia, enquanto a energia atravessava seu cérebro, queimando cada traço de sua consciência.

A última coisa que o paragão ouviu foi um único e débil clique.

 

Kil’ruk soube instantaneamente que Ninil’ko estava morto. O paragão desabou inerte ao lado do mago mogu, os olhos vidrados e bem abertos.

A amaldiçoada, vil relíquia ainda bloqueava a voz da imperatriz. Mas não totalmente. Kil’ruk podia ouvir breves soluços de sua doce canção. Era como se a trama do feitiço mogu fraquejasse, desfazendo-se fio a fio, permitindo diminutos vislumbres do que jazia do outro lado.

Quanto tempo levaria até que a relíquia enfim silenciasse? Horas? Isso significaria a morte da imperatriz. Kil’ruk abaixou-se ao lado do corpo de Ninil’ko e examinou a relíquia, relutante em tocá-la. A luz enfraquecera, mas ele ainda podia ouvir estalos e assovios.

Como o favo…

Kil’ruk pegou a relíquia do chão. Agitada, a energia fez sua mão estremecer. Era como se a relíquia pudesse liberar sua carga arcana restante a qualquer instante.

Ele se lembrou do primeiro mergulho que dera dos céus em batalha, quando um favo e um pouco de energia arcana reagiram de maneira destrutiva.

Kil’ruk foi carregado pelas asas para um ponto acima das ameias. Ele segurava a relíquia com firmeza enquanto voava rumo ao sul, procurando algo. Os defensores na Muralha apontavam para ele e gritavam, surpresos.

Lá.

Os favos restantes estavam entre os escravos mortos e ressequidos nas ameias acima do Terraço de Gurthan. Os poucos escravos e mogus vivos o viram quase imediatamente, mas precisavam de tempo para preparar seus disparos. Kilr’uk só precisava de tempo para atirar a relíquia neles. Ela tinha praticamente o mesmo tamanho e peso das munições que utilizava. Sua mira estava certeira como sempre.

O objeto abominável voou na direção da Muralha e rolou entre dois favos. A relíquia se partiu com uma onda de luz brilhante e um ruidoso crescendo de estalos.

Houve um som terrível, e em seguida a luz envolveu os favos. A energia arcana combinada se expandiu num tremendo clarão luminoso, e as criaturas inferiores foram consumidas.

Então, um som maravilhoso, ouvido apenas pelos mantídeos.

Ainda estou aqui. Eu ainda estou aqui, cantou a imperatriz. Kil’ruk sentiu-se tomado pelo júbilo. As criaturas inferiores estão aqui. Matem-nas, matem todas.

Longe de Kil’ruk, muito a oeste, um grande estouro de alegria e fúria lançou-se nos ares. Os enxameadores despertaram, e sua fúria irrompeu.

Foi uma questão de horas, não minutos, mas ao pôr do sol, a canção da imperatriz era diferente.

Mortos, sem vida, totalmente mortos. Muito bom. Muito bem. Estou segura. Eu estou segura.

Muito bem.

 

Eu fui tornado paragão. Meus feitos tornaram-se lendas em meu ciclo e em todos os ciclos vindouros. Os Klaxxi concederam-me o segundo nome por que ansiava, Aniquilador dos Ventos, e ele foi sussurrado entre os enxameadores.

O exército do clã Gurthan estava dizimado. Ambos os lados sofreram grandes perdas, mas os Klaxxi desejavam mandar apenas uma simples mensagem: invadir nossa terra é sinônimo de morte. Eles me libertaram como punição. Eu massacrei milhares de defensores na Muralha. Muitos milhares. Depois de apenas alguns meses, eles fugiam ao me ver, Arauto. Tenho memórias calorosas daquele tempo.

Então os Klaxxi me ajudaram a voar para além do Espinhaço da Serpente. Eles me instruíram a atacar acampamentos mogus e linhas de suprimento. Eu jamais considerara isso, até eles darem a ordem. Estranho, sim? Seria simples para os voadores passar pelas defesas das criaturas inferiores e acabar com aldeões despreparados. Eles não teriam meios de contra-atacar. Seria tremendamente eficaz.

Quer dizer, se a morte das criaturas inferiores fosse o objetivo. Na verdade, Arauto, não é. Se os Klaxxi assim desejassem, o continente inteiro seria nosso agora.

Como paragão, ganhei o direito de fazer perguntas e esperar respostas. Os Klaxxi me disseram muitas coisas.

Eles falaram sobre preservação. Explicaram como um molda-âmbar escolhido por mim moldaria kyparita para tornar-se a casca de âmbar que serviria como meu local de descanso até que necessitassem de minha ajuda como paragão. Eu, claro, escolhi o molda-âmbar que criou minhas lâminas. Ele aceitou e sentiu-se honrado. Nós fomos sozinhos ao Terraço de Hurthan, e ele trabalhou o âmbar até que o sono clamasse por mim por milhares e milhares de anos. O molda-âmbar foi morto imediatamente depois, claro. Os Klaxxi creem na importância de manter em segredo a localização de um paragão. O poder de todo o conselho é necessário para localizar nossos ovos de âmbar; o segredo impede que curiosos ou Klaxxi’va solitários nos encontrem e destruam. Mas é possível que aconteça, como você testemunhou.

Eles falaram muito sobre o ciclo… Suspeito que você ainda não compreenda, Arauto. O ciclo era velho quando eu era jovem. Ele nos consome, eu e você. Eu fui preservado por milhares e milhares de anos, muito mudou.

Sabe o que não mudou?

A vontade dos Klaxxi.

A vontade dos Klaxxi é eterna.

Você enfrentou muitas batalhas, venceu muitos adversários, mas ainda assim nada em sua vida tinha significado até você atravessar o Espinhaço da Serpente e adentrar nossas terras. Você obedeceu aos Klaxxi. Você me libertou de meu longo sono no âmbar. Ao fazer isso, você se tornou profícuo.

Minha intenção não é ofender, Arauto. Alegre-se. Você ganhou nossa confiança. Todas as suas batalhas anteriores, inúteis, alçaram-no para além das criaturas inferiores. Poucas delas poderiam nos servir como você nos serviu.

Ouvi muito sobre a guerra. A Aliança. A Horda. Dois lados igualmente inúteis lutando por objetivos insignificantes. Suspeito que não veja dessa maneira. Sua guerra pode durar mil anos e, ainda assim, seria apenas um pequeno rio alimentando o oceano dos planos dos Klaxxi. A vontade deles é preservar o ciclo.

O propósito do ciclo não é a morte. Na verdade, é o conhecimento.

Conhecimento sobre si. Sobre nós. A batalha é um mentor eficiente. Todas as criaturas podem alcançar todo seu potencial quando a alternativa é a morte. Os Klaxxi garantem que a batalha dure o máximo possível. O prolongamento de cada ciclo serve aos seus fins, pressionando as criaturas inferiores o máximo possível sem alquebrá-las. Por isso os defensores lutam com toda sua habilidade, temendo que todos que conhecem e amam estejam à beira do abismo se falharem.

Os mais fortes entre os mantídeos retornam vivos. Os fracos são ceifados. Nosso povo se torna mais forte. A cada ciclo, aprendemos mais sobre as armas e as táticas das criaturas inferiores, e aprendemos como contra-atacar.

Há muito a aprender sobre criaturas como você, Arauto.

Eu mencionei que aprendi a mergulhar dos céus observando um gavião? A habilidade dele me fascinou, por isso eu as desenvolvi.

Você também é fascinante, Arauto do Despertar.

Translate »
%d blogueiros gostam disto: