Conselho dos Três Martelos: Ferro e Fogo Parte 2

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by luizcsilva on 10 de março de 2019

Quando Kurdran saiu da Grande Forja, os grifos ainda estavam circulando no ar e os residentes da cidade ainda estavam tentando entender o que acontecera. Foi tudo o que ele pôde fazer para não desmoronar. O fogo havia aberto uma queimadura nele, e, com isso, queimado os últimos restos de esperança, ambição e alegria que um dia circularam por suas veias.

Kurdran ficou sentado por horas em uma taverna quase vazia, com um caneco de cerveja intocado à frente, remoendo lembranças de Sky’ree. Cada lembrança acabava sendo sobreposta pela imagem do corpo calcinado dela. Merecia ter morrido em batalha, ou ao menos no conforto de seu lar, perto do Ninho da Águia. Não enfiada no coração de uma montanha.

“Foi um erro vir aqui”, pensou Kurdran. O arrependimento o fez lembrar de alguém que havia ficado completamente fora de seus pensamentos durante as últimas semanas: Falstad.

Falstad havia assumido o título de thane enquanto Kurdran estava em Terralém. Após finalmente retornar ao Ninho da Águia, Kurdran sentiu a necessidade de compensar seu povo pelas décadas que passou ausente da própria terra. Apesar de não ter retomado oficialmente o antigo posto, Kurdran passou a dar ordens ao seu clã sem consultar Falstad, o que acabou prejudicando a posição soberana do thane.

A viagem de Kurdran a Altaforja era um exemplo de suas tentativas exageradas de provar que ainda era o líder que fora antes. Como thane atual, Falstad foi o convocado para unir-se ao Conselho dos Três Martelos, mas Kurdran aproveitou a oportunidade, dizendo, em termos nada sutis, que seu amigo não tinha experiência suficiente para assumir tal tarefa. Na euforia pelo retorno do antigo líder, o clã concordou com seus argumentos. Kurdran lembrava vividamente do ressentimento e da raiva nos olhos do thane após tudo o que foi dito e feito, como se ele tivesse considerado que os vinte anos de bravo governo de Falstad não tiveram importância alguma.

Agora Kurdran entendera a tolice de sua atitude. Pela primeira vez, ele desejou que Falstad pudesse tomar seu lugar na cidade. Não que Kurdran desejasse que o novo thane passasse por toda a tensão que permeava Altaforja, mas por acreditar que Falstad poderia cumprir a tarefa melhor do que ele.

“Não”, Kurdran disse para si mesmo.

Pedir a ajuda de Falstad, mesmo depois de tudo o que aconteceu, seria um sinal de fraqueza. Ainda havia um meio de impedir que Altaforja arrancasse tudo aquilo que lhe era caro, e ele se deu conta disso.

Ainda havia uma coisa que a cidade não havia lhe arrancado.


A Sala do Trono estava vazia quando Kurdran caminhou até o trono de Muradin. Ao lado do trono de pedra, estava o grande baú de ferro onde as três peças do martelo de Modimus estavam guardadas. Cada membro do conselho recebera uma grande e pesada chave para abrir o baú. Kurdran colocou a chave na tranca.

Abriu lentamente o baú e retirou o cetro de seu clã. Parecia maculado e inútil, sem as penas de grifo e os cordões de grama seca que antes o adornavam e foram arrancados na preparação para a reforja.

– Eu sabia que você iria pegá-lo de volta – falou uma voz, cheia de veneno.

Kurdran se virou. Moira estava no início da rampa que levava aos tronos, ainda usando seu traje formal, segurando Dagran nos braços. Um facho de luz atravessava a Sala do Trono, vindo da porta entreaberta de seus aposentos, nos fundos da sala.

– Eu não vou fazer parte desta farsa.

Moira subiu a rampa graciosamente. – Você me lembra Dagran agarrando um de seus brinquedos e ficando enlouquecido quando eu tento tirá-lo dele.

– Você não entende o que isso significa para mim… e nunca vai entender.

A herdeira de Altaforja caminhou até o trono de Kurdran e olhou para ele de cima a baixo.

– Eu ainda me pergunto por que você veio aqui – falou ela. – Você e seu clã não pertencem a Altaforja. E, ao que parece, a cidade também não quer vocês aqui.

– Pediram para que eu viesse aqui.

– Não fui eu que pedi.

Era verdade. Quando Moira chegou em Altaforja com seus Ferro Negro, ela tomou a cidade de assalto e fechou os portões. Um dos visitantes que ficou preso durante o período foi o príncipe Anduin de Ventobravo. Reagindo a isso, o pai dele, rei Varian, invadiu Altaforja com uma equipe de assassinos da AVIN, com intenção de matar Moira por seus atos traiçoeiros. Mas, por fim, ele poupou a vida dela e resolveu criar o Conselho dos Três Martelos para manter a paz. Ao fazê-lo, Varian nomeou Falstad como representante do clã Martelo Feroz.

Por um momento, os dois anões apenas se entreolharam, até que Moira quebrou o silêncio:

– Eu me pergunto como um anão como você, que já venceu tantas batalhas, deve se sentir ao ser derrotado.

– O que você quer dizer?

Moira colocou Dagran no chão, perto do trono de Muradin, e a criança escalou o trono de pedra, ignorando o diálogo que estava acontecendo.

– Deve ser uma sensação estranha e terrível – continuou Moira.

– Do que você está falando? – perguntou Kurdran, cada vez mais agitado.

Um sorriso se abriu no rosto de Moira. Era o mesmo sorriso ensaiado que Kurdran vira tantas vezes, mas, na situação atual, sinalizava algo sinistro. Uma compreensão assustadora começou a lhe ocorrer.

– Eu fiquei preocupada quando você se uniu ao conselho. Tratava-se de um anão com vontade férrea, forte e resoluto, que sacrificou tudo para proteger o nosso mundo. Mas quando você chegou, eu percebi como você se apegava tanto a este pedaço de ferro velho. Uma visão estranha… como se, de alguma maneira, todo o seu orgulho estivesse depositado em um objeto.

Kurdran mal podia ouvir as palavras de Moira. Sua mente estava acelerada. Os estranhos rumores sobre os Martelo Feroz. A tensão crescente levada ao máximo por causa do pergaminho falsificado encontrado na biblioteca. Até mesmo o fato de Moira defender seu clã. Tudo serviu para criar a fama dos Martelo Feroz como não conformistas e, metodicamente, destruir a reputação deles. No fim, Altaforja passou a ter um novo objeto de animosidade no lugar dos tradicionalmente odiados, que eram os Ferro Negro.

A simplicidade do plano inundou Kurdran com uma sensação de incompetência, por ter sido vencido por um inimigo inferior. Este era o tipo de comportamento diabólico que poderia ser esperado de Moira, mas ele não confiou nos próprios instintos.

– Então foi você que colocou o pergaminho na biblioteca? Ou foi aquele rato do Drukan que fez o trabalho sujo?

A herdeira de Altaforja simplesmente sorriu e acariciou Dagran, ignorando a pergunta:

– Eu coloquei guardas na porta da biblioteca. Pode ter certeza de que uma coisa dessas nunca mais acontecerá.

– Responda! – rugiu Kurdran, sacando seu martelo da tempestade e apontando-o para Moira.

Moira olhou para ele, impassível, e retrucou:

– Você matou dragões com esse martelo, certo? Inúmeros orcs também, não é? Mal posso imaginar o que faria comigo.

– Eu rebentaria o seu crânio antes que você pudesse gritar.

Moira respondeu às gargalhadas:

– E com o meu sangue ainda fresco no chão, meu povo se rebelaria e queimaria esta cidade. Você e seu clã de brutamontes seriam os primeiros a serem jogados no fogo.

– Se você tiver pelo menos uma gota de honra no sangue, vai admitir o que fez.

– É o fim, Kurdran. Você é um anão de ação, não de palavras. E aqui em Altaforja, são as palavras que importam. Aqui não é Terralém, onde o vencedor é o que derrama mais sangue. Quem vence aqui é quem conquista mais seguidores. E você falhou completamente nesse quesito. Talvez Falstad tivesse representado melhor o seu clã, no fim das contas.

– Durante todo esse tempo você mencionou união – falou Kurdran, segurando o martelo com cada vez mais firmeza. – Você nem sabe o que é isso.

O rosto de Moira endureceu, e ela lutou para manter o sorriso.

– Eu sei exatamente o que eu quero – retrucou Moira. – Você nunca desejou fazer a paz com os Ferro Negro. Suas opiniões já estavam formadas quando chegou aqui, embaçadas pelo ódio antigo.

– Então você sacrificou a mim e ao meu clã para que os Ferro Negro não fossem tratados como a escória que eles são? – Kurdran perguntou.

– Eu fiz isso pelo futuro. Para que, quando o meu filho herdar o trono, não precise governar uma cidade que o trata como um pária por causa do sangue que corre em suas veias.

– Ah, se o Magni te visse agora… Imagina a dor que ele sentiria ao ver a filha degenerada destruindo tudo o que ele construiu.

– Não fale comigo se conhecesse o meu passado ou o de Magni. – Moira explodiu de raiva. – Você e o seu clã são convidados nesta cidade. Quanto antes vocês forem embora, melhor! – Moira apertou o braço de seu filho sem perceber e a criança começou a chorar.

– Eu sempre esperei que… – Kurdran calou-se no meio da frase. Um pensamento horrível passou pela cabeça dele. Deu um passo na direção de Moira, com o martelo a centímetros do rosto dela. – Você matou Sky’ree. Você mandou aqueles imundos do seu clã iniciarem o incêndio.

– Não – defendeu-se ela, indignada. – Não venha me acusar de algo que foi sua culpa. Eu puni severamente os Ferro Negro que entraram na briga, mas pelo que eu fiquei sabendo, foi você que deu o primeiro golpe.

A culpa tomou conta de Kurdran. Desde o incêndio mais cedo naquele dia, ele tentara esquecer que poderia ter evitado a briga. O anão deixou amolecer o braço e baixou o martelo.

– Vá embora de uma vez com essa coisa – disse Moira, olhando o cetro dos Martelo Feroz. – Ou fique.

A herdeira botou Dagran no colo e desceu a rampa sem olhar para trás.

– Nós começaremos a reforjar o martelo de uma forma ou de outra. Amanhã, os clãs serão unidos por um Ferro Negro – exclamou Moira, entrando no quarto e batendo a porta atrás de si.

A verdade das palavras de Moira, em tudo o que ela disse, tinha um peso enorme. A inimiga que Kurdran procurava finalmente se mostrara, mas ele não podia fazer nada para enfrentá-la sem colocar a cidade em risco. Estava tão indefeso quanto a estátua cristalina que um dia fora o rei Magni. E, de uma vez só, todo o sentimento de derrota inundou-lhe a alma.

O suor começou a escorrer-lhe pelo corpo. A cada respiração, o anão parecia inalar vapor quente, em vez de ar. Kurdran colocou o cetro em uma abertura de sua armadura, perto do braço. Com o item escondido, saiu da sala em direção aos portões de Altaforja, sentindo como se as paredes de pedra da cidade estivessem se fechando em torno dele.


Kurdran respirou o ar frio profundamente. O suor que cobria seu corpo ficou gelado pelo ar da noite, fazendo-o estremecer.

À distância, através da cortina de neve, várias silhuetas iluminadas pela luz do portão descarregavam uma carruagem. Uma das silhuetas olhou para Kurdran e começou a caminhar na direção dele.

Era Muradin.

– Eu estava te procurando – disse o Barbabronze, limpando a neve das ombreiras. – Sinto muito pela Sky’ree. Ela morreu do mesmo jeito que viveu, sem medo de nada. Lutando pelo que era mais importante, a família dela. O futuro dela.

– O futuro dela morreu junto com ela – disse Kurdran, exalando vapor pelas narinas em meio ao ar gelado.

Muradin refletiu por um instante e respondeu:

– Sim, mas eu preferiria morrer pelo meu povo em uma luta que eu sei que não posso vencer do que não lutar. Mas acho que você não sabe o que é isso, não é?

Kurdran apertou os olhos com a afronta, mas ele se sentia fraco depois do encontro com Moira e simplesmente respondeu:

– Eu estou lutando pelo meu povo desde que cheguei em Altaforja.

– Não confunda teimosia com bravura. Não são a mesma coisa – respondeu Muradin.

– Tu não entende. É igualzinho à Moira.

– Quando tu se juntou ao conselho, eu pensei comigo mesmo “taí um anão que vai dar um jeito nessa cidade”. Em vez disso, você só piorou as coisas. – Muradin suspirou e abaixou a cabeça.

– Sim, por que eu tive que fazer tudo sozinho. Tu me recebeu de braços abertos, mas logo da primeira vez que eu briguei pelo que eu acreditava, virou as costas.

– Quantas vezes eu falei que esse negócio do martelo não valia a pena? Eu parei de gastar saliva quando tu mostrou que não ia me ouvir – respondeu Muradin.

Para crédito de Muradin, Kurdran lembrou-se das várias vezes nos últimos dias em que Muradin falou com ele em particular, sobre desistir do cetro. Mas as conversas pareciam mais ataques pessoais do que conselhos.

– Tu não vê, piá? – Muradin prosseguiu. – Aquele pedaço de ferro velho é só um arreio prendendo você. Prendendo a cidade toda. Quanto mais você briga por ele, mais apertado o arreio fica.

– E se eu não seguir em frente com a reforja amanhã? – perguntou Kurdran. Conforme as palavras saíam, sentia o cetro pressionando as costelas, escondido sob a armadura.

Muradin franziu a testa e olhou para Kurdran com desdém. – O Magni admirava os contos das tuas batalhas com Sky’ree em Terralém. Eu fico feliz por ele não estar aqui para ver o tolo que você é na verdade.

Kurdran inicialmente pensou em contar a Muradin sobre o confronto com Moira. Agora, no entanto, ele se perguntava se Muradin não estaria em um complô com a filha de Magni. Ainda assim, havia um ar de retidão em Muradin que aplacava as suspeitas de Kurdran e tornava as palavras do Barbabronze ainda mais dolorosas.

– Aquele certo manteve o coração do meu clã vivo em Terralém! – explodiu Kurdran.

– O coração do seu clã está em ti! – Muradin levantou a voz, acompanhando Kurdran. – Estava na Sky’ree. E está em todos os Martelo Feroz que estão na cidade, pelejando enquanto você discute. Eu estou tentando levar essa cidade para a frente, e não encher tudo com besteiras sobre pedaços de ferro velho.

– Levar pra frente? – Kurdran perguntou indignado. – O martelo já não era o modo certo de tocar a cidade para a frente quando a gente achava que ele era real, muito menos agora que eu e você sabemos que é uma farsa.

– Deixa isso pra lá, meu amigo. Tudo que é bom vem com sacrifício. Tu sabe disso melhor do que todos nós. – Muradin respirou fundo e colocou a não no ombro de Kurdran, que empurrou o braço do Barbabronze.

– Era pra isso que tu tava atrás de mim? Para me dizer como cuidar do meu clã?

O rosto de Muradin contorceu-se de fúria. Ele virou-se para olhar as silhuetas trabalhando nas sombras. Os outros anões continuavam a descarregar as caixas, ignorando o diálogo dos dois. Quando virou-se de volta, Muradin deu um tapa forte no rosto de Kurdran, jogando-o para trás.

– Não, eu só queria ver com meus próprios olhos o que é verdade e o que é mentira do que estão dizendo por aí.

Muradin já estava caminhando de volta para a carroça quando o choque do tapa passou em Kurdran, que permaneceu parado no portão, olhando para a noite.

O cetro dos Martelo Feroz parecia estranhamente pesado. Muitas de suas memórias de Terralém estavam ligadas a ele. Mas, antes desse período, ele tinha poucos laços com o item. Na verdade, lembrava de quase tê-lo deixado para trás quando partiu para o mundo dos orcs. O cetro ficava pendurado na parede, acumulando poeira, e, num rompante, Kurdran decidira colocá-lo na bagagem antes de partir.

Imediatamente, ele se sentiu um tolo por tirar o cetro da Sala do Trono. O que ele pretendia fazer? Deixar a cidade e abandonar seu dever como membro de conselho, manchando não só a própria honra como também a de Falstad e do resto do clã?

Kurdran remoeu a questão enquanto passava pelos portões, voltando para a quentura de Altaforja. Enquanto caminhava pelo anel externo da cidade, uma voz o chamou:

– Kurdran!

Eli correu na direção dele, carregando um pacote embrulhado num pelego.

– Eu não estou de bom humor – Kurdran murmurou.

– Sim, sim. Eu sei como você está. Mas vê isso! – disse Eli, quase tropeçando.

O cuidador de grifos colocou o embrulho no chão de pedra e ajoelhou ao lado dele. Kurdran ajoelhou também e subitamente se interessou pela coisa, enquanto Eli a desembrulhava.

– É dela – disse Eli. Um largo sorriso se abriu no rosto do anão.

Kurdran olhou mais de perto, sem acreditar. No meio do pelego havia um ovo, sujo de fuligem.

– Como…? – Kurdran estava sem palavras.

– O ovo estava com um dos outros grifos. Ele estava escondido em um poleiro na Grande Forja. Deve ter pegado o ovo durante o incêndio. Nenhum dos outros grifos estava chocando – explicou Eli. – Eu estou procurando você desde que descobri isso.

Então, Kurdran lembrou-se de que, em meio ao caos do fogo, das penas e dos gemidos terríveis, um dos grifos decolou rapidamente do lado de Sky’ree, com as patas junto ao peito. Ele olhou para cima e viu os olhos de Eli se encherem d’água. O tratador de grifos tentou se recompor rapidamente.

– Não conte pros outros sobre isso. Se eles souberem que eu tava chorando, vão me azucrinar.

– Não ia ser a primeira vez que tu fica choramingando. – Kurdran soltou uma gargalhada poderosa. Ainda assim, a alegria estava manchada pela raiva. Foi um acontecimento milagroso e inesperado, mas se ele tivesse escolha, teria trocado o ovo por Sky’ree sem pensar duas vezes.

– Isso não é a Sky’ree… – murmurou Kurdran.

– Bah, um pensamento desses vai te envenenar. Deixa isso pra lá, ou então tu vai passar a vida toda procurando uma coisa que nunca vai existir. – Eli segurou o braço de Kurdran. – Esse aqui nunca vai ser a Sky’ree – continuou ele, com uma expressão mais séria do que Kurdran jamais vira. – Mas é o sangue dela. Uma prenda dela para ti. E eu garanto que, um dia, esse ovo vai ser um grifo tão fantástico quando a mãe.

– Tu tá certo… – disse Kurdran, engolindo seco.

Hesitante, Kurdran botou a mão sobre o ovo. Estava quente, mas de algum modo, era diferente da quentura de Altaforja. O calor se espalhou pelo corpo de Kurdran, que sentiu-se como se estivesse novamente sob o céu das Terras Agrestes, sendo banhado pela luz do sol. Naquele momento, tudo ficou claro. Ele sabia o que tinha que fazer, independente das consequências, para honrar o rei Magni e cumprir seu dever como membro do Conselho dos Três Martelos.


A Grande Forja estava lotada de anões quando Kurdran chegou. Praticamente a cidade inteira estava lá para ver a reforja do martelo de Modimus. Até alguns gnomos, draeneis e outros membros da Aliança estavam lá para o evento, mas afastados dos anões que se juntavam próximo à Grande Bigorna, no coração da forja.

Uma fileira de guardas de Altaforja isolava a área ao redor da bigorna, e somente Moira, Muradin e um ferreiro Ferro Negro permaneciam no interior. Vários dos anões presentes estavam armados e tensos, com raiva acumulada. Os Martelo Feroz estavam reunidos perto da entrada da Sala do Trono, longe de seu lugar de costume, no ninho de grifos. Após o incêndio, eles tiraram todos os companheiros alados da cidade. O aviário, já limpo e com palha nova, agora acomodava os grifos de Altaforja.

Kurdran caminhou até a forja abarrotada. Um grande clamor soou ao redor dele no caminho. Dentre os sons indistintos, Kurdran ouviu várias vezes a palavra “ladrão”. Ao aproximar-se do centro do salão, viu Moira atrás dos guardas, discursando para o público.

– Nós temos suspeitas de quem roubou o cabo do martelo de Modimus – disse Moira. – Uma investigação acontecerá. No entanto, nós não permitiremos que estes acontecimentos perturbem o nosso trabalho. Começaremos a reforja como… – Moira parou no meio da frase ao ver Kurdran passando pela fileira de guardas em torno da Grande Bigorna.

– Kurdran! – falou Moira casualmente, como se o encontro deles na noite anterior nunca tivesse ocorrido. – Há um ladrão entre nós.

A herdeira de Altaforja apontou para a Bigorna, onde estava a cabeça de martelo dos Barbabronze e a joia dos Ferro Negro.

– Você poderia explicar o que está acontecendo? – ela perguntou alto o suficiente para que todos ao redor pudessem ouvir.

Sob a máscara de civilidade, Kurdran percebeu Moira saboreando cada momento do que ela julgava ser seu golpe final sobre o representante dos Martelo Feroz.

– Posso sim – respondeu Kurdran, olhando, por um momento, para Muradin. O Barbabronze olhou para Kurdran com desgosto, mas disse nada.

Kurdran caminhou até a beira da Grande Bigorna. Tirou a relíqua de dentro da armadura e levantou-a diante da multidão.

– Altaforja! – gritou ele. – Fui eu quem pegou esta parte do martelo.

A multidão explodiu em gritos, e os anões começaram a pressionar o perímetro de guardas. Outros foram na direção dos Martelo Feroz que estavam na porta da sala do trono. Muradin caminhou furioso para perto da bigorna e segurou o braço de Kurdran, alertando:

– Kurdran! Tu vai causar um levante!

– Tu disse que eu era o único que poderia dar um jeito nessa cidade. E é isso que eu vou fazer.

– Como? – perguntou Muradin.

– Afrouxando o arreio.

Muradin franziu a testa, confuso. Mas, por fim, o Barbabronze pareceu entender o que estava prestes a acontecer. Muradin caminhou na direção do povo e berrou:

– Deixem o homem falar!

<@screenshot linkId=”ss002″ alignClass=”left”/>Quando o barulho diminuiu, Kurdran continuou:

– Eu passei muitos anos preso em Terralém, sem nunca saber com certeza se ia conseguir voltar para casa. Durante todo esse tempo, este pedaço de ferro deu esperanças a mim e aos meus companheiros. Ele nos lembrava quem nós éramos e pelo que lutávamos!

Kurdran olhou o artefato. Na noite anterior, enquanto estava ajoelhado ao lado do ovo de Sky’ree, ele finalmente concluíra que o cetro era só isso… ferro velho. Um pedaço de metal temperado havia colocado os anões uns contra os outros e instaurado medo e ódio no coração de Kurdran. Ele não era nada diferente da multidão furiosa que estava à sua frente. Um anão com medo do desconhecido, hesitante em seguir em frente e desistir de algo familiar. Mas ele havia feito tudo isso ao ir para Terralém. Abriu mão de seu título de thane em prol de Falstad. Abriu mão de anos de sua vida no Ninho da Águia para garantir um futuro melhor para seu povo. Em comparação com isso, o cetro era completamente trivial.

– Mas nós não estamos em Terralém – prosseguiu Kurdran. – Esta também não é a Altaforja dos nossos ancestrais. Então, por que nós estamos tentando montar o martelo para voltar ao passado? Esta é uma nova Altaforja. Nunca vai ser como no passado, e reforjar o martelo de Modimus certamente não vai mudar isso! – Kurdran bateu o artefato contra a bigorna. – Eu e meu clã não ajudaremos a começar uma nova era de anões presos a um martelo!

O movimento da multidão se tornou desordenado. Em meio às sombras da Grande Forja, os anões pareciam um organismo vivo, expandindo-se e contraindo-se momentos antes de estourar.

– Ele vai devolver a peça!

– Os Martelo Feroz estão mostrando quem são de verdade!

Sem dizer mais nada, Kurdran sacou o martelo da tempestade. Em um movimento rápido, ergueu a arma e bateu com força contra o cetro, provocando um clarão. O estrondo fez os ouvidos de Kurdran zumbirem, apesar de ter usado o martelo durante anos. A relíquia explodiu em uma chuva de estilhaços de metal.

Os anões na multidão ficaram congelados de espanto. Seus rostos estavam confusos.

– A nova Altaforja começa aqui. Perguntem a si mesmos se querem começá-la reconstruindo um martelo que pode ser quebrado novamente um dia. Os Martelo Feroz decidiram dar um passo à frente, não para trás. Quem de vocês está conosco?

Quando Kurdran se virou para estender o martelo para os outros membros do conselho, ficou surpreso ao ver Muradin já caminhando na direção da bigorna.

– Os Barbabronze estão! – gritou Muradin, ao segurar o martelo da tempestade com uma das mãos.

Juntos, Muradin e Kurdran olharam para Moira, assim como toda a Grande Forja. Ela estava isolada.

A herdeira de Altaforja olhou ao redor, como se procurasse um meio de escapar. Ao perceber o silêncio que tomava o salão, decidiu dirigir-se à bigorna, com passos hesitantes, como se o corpo e a mente estivessem brigando entre si. Com os olhos fixos em Kurdran, Moira pousou a mão sobre a de Muradin no martelo da tempestade.

Com a mão que estava livre, Kurdran moveu os outros dois artefatos para o centro da enorme bigorna. Como se fossem um só, os membros do conselho bateram a arma de Kurdran. Outro trovão ecoou, e as partes restantes do martelo se desfizeram em pedaços. E, junto a isso, a mentira se foi.

Em seguida, os três anões ficaram parados em frente à bigorna, todos ainda mantendo as mãos no martelo da tempestade, segurando firme. O povo começou a aplaudir e festejar. Durante todo o tempo, Moira ficou olhando para Kurdran, esperando que ele dissesse alguma coisa. Mas ele disse nada.


Na semana seguinte, a tensão entre os clãs esfriou. Ainda existia, mas a ameaça de violência parecia bem distante. Kurdran estava tomando seu segundo caneco de cerveja na Taberna Pedra de Fogo, sentado sozinho em uma mesa no canto do salão. Sua solidão, porém, não era fruto de culpa ou raiva. Ele estava esperando por alguém, ansioso.

“Se ele não aparecer”, pensou Kurdran, “não posso culpá-lo por isso”.

Falstad Martelo Feroz entrou na taverna, com o cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo, parecido com o de Kurdran. Passou pela porta, procurando Kurdran no recinto mal iluminado. Sem sorriso nem cumprimento, Falstad caminhou até a mesa de Kurdran e sentou-se.

– Bom te ver, companheiro – disse Kurdran.

– Bom te ver também – respondeu Falstad em um tom contido.

Passou-se um momento de silêncio desconfortável. Kurdran havia convocado Falstad a Altaforja logo depois da destruição do cetro, sem saber ao certo como seu amigo reagiria ao chamado. Agora que Falstad havia chegado na cidade, Kurdran estava ao mesmo tempo aliviado e inseguro.

– Tu não precisava fazer isso. Tem mais direito de estar nesse conselho do que eu – disse Falstad.

– Não – respondeu Kurdran. – Tu é o thane dos Martelo Feroz há vinte anos. A única coisa que mudou foi que um anão cabeça dura achou que podia fazer um trabalho melhor do que o teu…

– Eu falei com Eli agora há pouco. Parece que tu já deixou sua marca em Altaforja.

– Tudo o que eu fiz foi limpar a bagunça que eu mesmo fiz. Uma bagunça que nem teria começado se tu tivesse aqui.

Falstad olhou para Kurdran com os lábios crispados. Kurdran se preparou, esperando o amigo repreendê-lo pela arrogância ou até mesmo tripudiar sobre o tumulto provocado em Altaforja.

– Se não quiser fazer isso por mim – disse Kurdran com urgência – assuma seu lugar no conselho pelo bem do nosso clã.

Falstad recostou na cadeira de braços cruzados, olhando fixamente para Kurdran.

– Então tu espera que eu te perdoe e me junte ao conselho… sem nem me oferecer um caneco de cerveja gelada? – Falstad perguntou, abrindo um largo sorriso.

Kurdran soltou uma risada, aliviado, como se um grande peso tivesse sido retirado de seus ombros. Naquele momento, ele reconheceu a enorme sabedoria e capacidade de perdoar de Falstad. Eram traços que certamente levariam o clã Martelo Feroz a realizar grandes feitos, mesmo em meio às incertezas causadas pela formação do conselho.

Depois de pedir uma cerveja para Falstad, os dois ergueram os canecos.

– Pelo conselho! – brindou Falstad.

– Pelo thane dos Martelo Feroz! – respondeu Kurdran.

– E por Sky’ree! – Falstad levou o caneco à boca antes que Kurdran pudesse fazer outro brinde. Certamente, Eli havia contado a Falstad sobre a morte de Sky’ree. Kurdran apreciou a brevidade da lembrança, pois sabia, assim como Falstad e todos os outros cavalgadores de grifos, que longas condolências não serviriam para aplacar a dor da perda de uma amiga como Sky’ree.

Falstad pousou o caneco na mesa e perguntou:

– Então, o que tu pretende fazer agora?

– Acho que vou para Ventobravo. Eu tive uma boa experiência com os humanos e queria conhecer o rei Varian. Além disso… eu ouvi dizer que tem uma estátua em homenagem à minha morte nas batalhas de Terralém, bem nos portões da cidade – Kurdran sorriu.

– É verdade… Fui eu que escrevi a placa. Foi bem difícil achar alguma coisa boa em você para dizer – disse Falstad, às gargalhadas.

Com o cair da noite, outros anões se juntaram à mesa de Kurdran e Falstad. Conversou-se sobre as grandes mudanças políticas ocorridas nos reinos de Azeroth, assim como sobre as calamidades naturais que transformaram o mundo depois do Cataclismo. Entre os tópicos que mais interessaram Kurdran, estava a discussão sobre os anões do Martelo Feroz espalhados pelo Planalto do Crepúsculo. Eles sempre se mantiveram bravamente independentes do governo do Ninho da Águia. No entanto, recentemente havia chegado notícias de que algo sombrio estava tomando conta das colinas verdejantes das terras do norte.

Quando os anões mudaram de assunto, a mente de Kurdran continuou vagando. Uma semana antes, ele estaria preocupado que sua força poderia ser diminuída aos olhos do clã se abrisse mão de seu título. Hoje, isso pouco importava. Havia algo ligado a esse sacrifício, algo ligado a abrir mão de seus desejos pessoais pelo bem do clã, que enchia Kurdran de vontade. A mesma gana que antes o levara para Terralém e o havia feito destruir o cetro do Martelo Feroz. O destino dele não estava em Altaforja, nem no Ninho da Águia. Era aqui e lá. Uma vida guiada pelos ventos. Na imprevisibilidade, Kurdran encontrava forças para encarar qualquer desafio, para resistir mesmo contra todas as probabilidades e lutar pelas causas com as menores esperanças. Assim era a força de um Martelo Feroz.

Pela primeira vez desde que chegou à cidade – na verdade, desde que voltou de Terralém –, ele se sentiu livre, como se estivesse voando pelas nuvens com Sky’ree. E em sua mente, ele estava. Kurdran estava ao lado do espírito do grifo, voando pela imensidão azul que parecia infinita. À frente, havia algo indecifrável, vago como uma miragem. No fundo do coração, ele sabia que era a paz para o Ninho da Águia e para os Martelo Feroz. Se estava a um dia, uma semana, ou dez anos de distância, era impossível de saber, e era tolice se preocupar com isso. Com garra e determinação, acariciou o pescoço de Sky’ree e deixou que os ventos os guiassem em direção ao horizonte.

Por: Matt Burns
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