Sol Sangrento Parte II

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by luizcsilva on 30 de junho de 2016

— E você agora virou perito nos mogus? — desdenhou um pandaren. — Ouvi dizer que há grupos de saqueadores Shao-Tien por todo o vale, assassinando todos que encontram e desaparecendo feito fantasmas. A fogueira pode ser uma armadilha para nos atrair.
Um silêncio desconfortável se abateu sobre o grupo. A cauda de Dezco abanava de um lado para outro, sinal de que ele tentava conter a ansiedade, dizendo a si mesmo que os mogus não poderiam ter adentrado tanto no vale.

O batedor voltou algum tempo depois, acenando para que a caravana seguisse. — É seguro! —
Os pandarens ao redor de Dezco suspiraram de alívio, mas ele manteve a cautela.
— Mais refugiados? — gritou para o batedor. Além dos mogus, havia outro inimigo que o preocupava: a Aliança. Os rivais da Horda tinham estabelecido uma embaixada em uma fortaleza semelhante ao Santuário das Duas Luas naquele canto do vale. Dezco formara um vínculo com um dos líderes da Aliança, o príncipe Anduin Wrynn. Assim como os taurens, o jovem humano não desejava o conflito.

Ele viera ao vale atraído pela promessa de esperança e paz. Ainda assim, o tauren não sabia qual era o peso real daquela amizade. Havia tantos fanáticos beligerantes na Aliança quanto na Horda.
— Não — respondeu o batedor. Dezco discerniu seu sorriso ao longe. — É o Lótus Dourado!
— Sentem! Comam! Descansem! — gritou Mokimo com os braços erguidos.
Uma grande fogueira crepitava atrás do hozen. Vapor se evolava das panelas de ferro penduradas sobre as chamas. Perto dali, Weng, o Misericordioso, pegava arroz dos caldeirões e o despejava em tigelas lisas de madeira entalhadas com símbolos dos quatro celestiais. Um pandaren que Dezco não conhecia desembalava copos de capangas de couro. Ele era enorme, a ponto de fazer o tauren parecer minúsculo, e vestia enormes placas de armadura negra. À exceção do coque e da barba castanhos, seu pelo era todo branco.
Os refugiados passaram por Dezco e precipitaram-se em direção à fogueira, famintos e exaustos. O estômago do tauren também roncou quando o vento levou o cheiro de comida quente até ele, mas Dezco não se moveu. A presença do Lótus o irritava. Àquela altura, com certeza já estavam a par de sua escolha. O mais honrado teria sido deixá-lo seguir caminho e encarar as consequências de sua decisão.
Em vez disso, tinham-no seguido.

— Dezco! — Mokimo acenou para ele. — Venha! Você deve estar faminto!
Dezco abanou as orelhas e bufou, irritado com o tom casual. Do jeito que Mokimo falava, até parecia que encontrar o tauren no meio do vale não era surpresa nenhuma.
Sem responder, o tauren se afastou um pouco do acampamento e escolheu um terreno desimpedido. Não demorou muito e ele já tinha sua própria fogueira crepitando na noite. Tirou Casco das Nuvens e Chifre Rubro das cestas e começou a alimentá-los com o preparado de leite de iaque. Alimentá-los tornara-se mais fácil. Os pequeninos até estavam começando a gostar da bebida.
As crianças tinham acabado de comer quando Mokimo se aproximou da fogueira de Dezco. — Eu teria vindo antes, mas os refugiados estavam com muita fome — disse o hozen. — Graças aos celestiais você e seus filhos estão bem. Nós estávamos preocupados. — Ele se agachou e sorriu francamente para Chifre Rubro e Casco das Nuvens. Os jovens riram e ficaram pegando nos longos tufos de pelo branco ao redor das bochechas do hozen.
— Você já conhece Weng. — Mokimo apontou para seus dois companheiros, que se misturavam aos refugiados. — E o grandalhão é Rook. Ele nunca foi bom com formalidades, mas é extremamente leal. Um amigo gentil, e também um inimigo feroz. Acho que você ia gostar dele. Não quer se juntar a nós? Tem bastante espaço em nosso…
— Vocês me seguiram — disse Dezco.
— Bem… não exatamente — respondeu Mokimo. — Nós adivinhamos para onde você estava indo. Com o Portão dos Celestiais Majestosos fechado, não há muitos lugares aonde ir no vale.
— Eu fiz minha escolha, Mokimo — afirmou Dezco, com a voz firme. — Foi errado de minha parte não dizer a vocês pessoalmente.

 

Peço desculpas por isso. Mas me seguir não muda nada. O lugar dos meus filhos é em casa, em Mulgore. Juntos. Essa é a minha decisão. — Acrescentou: — Os resto do pessoal no santuário não teve nada a ver com isso.
— Nala me contou. Eu me encontrei com Zhi, e ele concordou que, se o seu desejo é partir, então você é livre para fazê-lo.
Dezco não sabia como reagir. Ele esperara alguma resistência. — Outro dia mesmo você falou da importância dos meus filhos para o futuro da sua ordem — disse o tauren.
— E eu fiquei feliz. E os membros do Lótus também. Mas isso não é minha decisão, não é? Isso é com você.
— Então por que vocês estão aqui?
— Seus filhos foram escolhidos; estão vinculados a Chi-Ji e, assim, ao vale. O Lótus jurou defender esta terra para sempre. Até que seus filhotes partam daqui, nós os vigiaremos. Mas por que você quereria partir, isso é o que não entendo. Pensei que você tivesse viajado tanto para ficar aqui.
— Sim, é… foi por isso. — Dezco baixou a cabeça. — Se Chi-Ji tivesse mandado que eu avançasse sobre as linhas mogus sozinho, eu teria honrado seu pedido sem pensar duas vezes. Teria feito qualquer coisa. Qualquer coisa menos isso… — Ele olhou para Mokimo. — Não foi para isso que eu vim aqui.
— Como você sabe?
— Não foi — disse Dezco, sentindo a raiva aumentar. Ele percebeu o que estava acontecendo: Mokimo estava tentando convencê-lo.

 

Zhi provavelmente enviara o hozen e os outros para dissuadi-lo de partir.
— Já perdi demais — continuou o tauren. — Não vim para cá para perder tudo. Prometeram paz à minha tribo. Esperança. Nós… Eu não encontrei nada do que esperava. — O tauren respirou pausadamente, tentando se acalmar. Sem sequer se aperceber, já estava na ponta dos cascos. Weng, Rook e os refugiados em volta da outra fogueira o encaravam em silêncio.
Mokimo permaneceu impassível. — Expectativas são… perigosas. — Ele cutucou a fogueira com um graveto. — Eu esperava muitas coisas quando me uni ao Lótus. Mas à medida que os anos foram se passando, eu comecei a odiar este lugar. Tudo era tão estranho e confuso. Queria ir para casa. Bom, um dia eu decidi ir mesmo, mas Zhi me flagrou quando eu estava tentando escapar do vale. Mas ele não me repreendeu. Ele entendeu. Na verdade, prometeu que me levaria para ver minha família. É raro que um membro do Lótus saia do vale se não for em ocasiões oficiais. Ele me fez uma grande honra.
“Quando chegou o dia, nós viajamos até minha aldeia nas colinas enevoadas da Floresta de Jade. Eu me sentia assustado e empolgado ao mesmo tempo. Já fazia anos que não via minha família. — Mokimo desamarrou uma pequena tira azul-esverdeada do rabo de cavalo e a mostrou a Dezco. Não era nada de mais: uma tira de couro simples, envelhecida, gasta pelo tempo. — Foi da minha mãe. Nós a encontramos nas ruínas da velha cabana da família. A aldeia inteira tinha sido destruída. Todos tinham morrido. As tribos hozen frequentemente lutam entre si, sabe.
— Sinto muito — disse Dezco, envergonhado por sua explosão de raiva.
— Por quê? Se eu não tivesse sido escolhido, não estaria vivo aqui hoje. Nós não podemos prever aonde a vida nos levará. É melhor não lutar contra o que nos foge ao controle. O momento em que você abandona as expectativas é o momento da verdadeira liberdade.

 

Tudo o que podemos fazer é servir ao vale sabendo que, aonde quer que o vento nos leve, teremos vivido por algo maior do que nós mesmos. Para nós, é o que basta.
Mokimo se ergueu e bateu o pó das roupas. — Volte ao santuário. É tudo o que eu peço. Para que arriscar a vida dos filhotes aqui? Nenhum lugar é seguro no vale. Nenhum.

Dezco respirou fundo e olhou para as chamas que tremeluziam, cambiantes. Sempre em movimento, nunca estáveis. Imprevisíveis, como tanta coisa em Pandária. A única constante era ele mesmo, suas próprias escolhas. Viajara pela selva costeira, pelas montanhas do norte e por outras regiões com os filhos. Enfrentara inimigos brutais, como os mogus, que espreitavam em cada reentrância escura daquele continente. Todo aquele tempo, sempre protegendo os filhos.
O santuário não era uma fortaleza inexpugnável. Na verdade, parte de Dezco suspeitava que o Lótus o queria ali apenas para ter uma chance de convencê-lo. Ele ficaria encurralado. Preso.
Dezco sacudiu a cabeça. — Você tem razão quando diz que esta terra é perigosa, mas existe um lugar seguro para meus filhos: ao meu lado. É onde eles vão ficar. Se você quiser nos seguir, que seja, mas nosso destino é Bruma Baixa.

Ainda estava escuro quando Dezco acordou de súbito.
Ele se apoiou nos cotovelos, zangado por ter caído no sono. Planejara continuar a vigília noite adentro, mas a longa jornada finalmente cobrara seu preço.
Perto dali, os iaques bufavam e batiam com os cascos no chão, apavorados.
Os pensamentos de Dezco voltaram-se para Chifre Rubro e Casco das Nuvens. Eles estavam seguros, dormindo um sono tranquilo sob cobertores perto da fogueira. Ele colocou os filhos nas cestas com cuidado e prendeu-as ao corpo.
No outro acampamento, alguns refugiados acordavam aos poucos, esfregando os olhos cansados. Mokimo, Weng e Rook estavam imóveis do outro lado da fogueira, olhando para as trevas.

 

— O que foi? — perguntou Dezco ao se juntar a eles.
Mokimo levou o dedo aos lábios. — Rook está vendo alguma coisa — sussurrou.
Um grunhido cavo ressoou na garganta de Rook. Sua pata apertou uma maça de ferro gigante adornada de pregos. — Rook não gosta daquelas rochas ali — disse o pandaren branco.

 

— Por que você não gosta delas? — perguntou Weng.
— Não ficam paradas. — Rook rilhou os dentes. — Rochas más. Rochas burras.
Dezco ficou de costas para o fogo a fim de que seus olhos se acostumassem à escuridão. Lentamente, os detalhes foram ficando mais nítidos: uma encosta íngreme, o lado da montanha por onde eles planejavam passar. Rochedos de vários tamanhos pontilhavam a encosta. Mas nada parecia fora do lugar. Era só uma…
Houve um movimento rápido na encosta. Foi só por um instante, mas Dezco viu.
— Weng — disse Mokimo. — Acorde os refugiados. Em silêncio. Prenda as carroças aos iaques.
Weng aquiesceu e partiu.
Dezco mantinha os olhos na montanha, sem saber se o que vira fora real ou um simples fruto da sua imaginação. Então houve movimento outra vez. E não parou.
— Corra. — Mokimo voltou-se para Dezco. — Corra!
Dez rochedos gigantes começaram a descer pela encosta em uma avalanche.
Não… não simplesmente descer, concluiu Dezco. Eles estavam correndo.
Rook ergueu os braços e rugiu; os rochedos pularam da encosta e os detalhes de suas carrancas e corpos quadrúpedes atarracados foram realçados à luz do fogo.
— Quílens. — Dezco sugou ar por entre os dentes.
As feras corriam na direção do acampamento, e suas peles de granito ondeavam de maneira estranha e antinatural. Eles eram os sabujos dos mogus, criaturas cruéis com a mesma pele de pedra viva dos mestres.
Os iaques ergueram as patas dianteiras. Apenas dois estavam presos às carroças. Weng os segurou pelas rédeas, forcejando para impedi-los de correr. Os refugiados corriam pelo acampamento, acendendo pedaços de madeira na fogueira para usar como tochas. Chifre Rubro e Casco das Nuvens choravam de medo.
Em vez de atacar, os quílens formaram um amplo semicírculo ao redor do acampamento, criando uma barreira entre os refugiados e o vale ao norte, mas deixando a passagem da montanha franqueada.
— O caminho até Bruma Baixa está livre! — gritou Weng. — Vão para…
— Mantenham a posição! — berrou Dezco, ciente do que estava acontecendo. — Estão tentando nos conduzir para a passagem.
— Ele está certo. — Mokimo pulou para o lado de Dezco respirando pesadamente. Os quílens estalaram as bocarras e se aproximaram do acampamento, mas não atacaram ainda. — Precisamos voltar para o norte, para o meio do vale.
— Rook abre caminho. — O pandaren branco ergueu a carroça que não estava amarrada e seus braços grossos feito troncos de árvore tremeram com o esforço. Com um rugido ensurdecedor, arremessou-a diante de si. O veículo se estraçalhou no centro da linha ofensiva quílen, forçando as feras a se espalharem.
— Agora! — Dezco fez um sinal.
Os refugiados avançaram. Quílens os cercaram de todos os lados. Rook acertou um em pleno salto com a maça. Outros quatro investiram contra Dezco. Ele orou para An’she, e o ar frio ao seu redor eriçou-se de poder, esquentando e fulgurando como se a noite tivesse virado dia.
Ele soltou o escudo do braço e arremessou a placa de ferro serrilhado contra o quílen. Brilhando, o escudo girou pelo ar e acertou a primeira fera, cravando-se em sua cabeça. O impulso do arremesso fez com que a criatura caísse em cima de um de seus irmãos, partindo-o ao meio.
As duas feras remanescentes continuavam incólumes. Mokimo deu uma cambalhota na direção deles apoiado em seus braços longos, acertando um dos quílens com o pé. Dezco teve tempo apenas de virar de lado e cobrir o peito com a mão livre, protegendo Casco das Nuvens, quando o outro quílen pulou na direção dele e o acertou.
Algo rasgou. Dezco sentiu um peso sair dos seus ombros. O quílen rompera a corda.
O tauren agarrou a cesta de Casco das Nuvens no ar. Ele girou a maça erguida, mas o quílen já fugia na direção da passagem.
O monstro arrastava a outra cesta pela corda. Chifre Rubro, lá dentro, estava gritando.
O tauren correu na direção do filho, e seus cascos escavavam fundo o solo. Mokimo correu ao seu lado e puxou seu braço com força suficiente para fazê-lo parar.
— Eu vou atrás dele — disse o hozen. — Pegue Casco das Nuvens e vá com os refugiados.
— Não vou abandonar Chifre Rubro! — Dezco soltou o braço das mãos de Mokimo.
— Então me entregue Casco das Nuvens e eu o levarei para um local seguro — pediu o hozen.

Dezco hesitou, acossado pela indecisão. Os refugiados batiam em retirada caótica, perseguidos de perto pelos quílen. Duas das feras levaram Rook ao chão. Ele batia freneticamente em suas cabeças com as patas.
— Para onde?! — gritou o tauren. — Eu já falei que…
Um grito de gelar o sangue irrompeu da passagem.
Dezco empurrou Mokimo e correu na direção do som, com a cesta de Casco das Nuvens presa firme sob o braço. Ele sussurrou uma oração para An’she e teceu um escudo de luz ao redor de Casco das Nuvens para mantê-lo a salvo da batalha iminente.
Ao se aproximar da passagem escura, o tauren sabia que Mokimo estava atrás dele, mas sua atenção estava toda nos gritos longínquos de Chifre Rubro. Luz do fogo bruxuleava mais à frente, um refulgir alaranjado que enfraquecia e ficava mais forte contra os flancos da montanha. Ele seguiu a luz, ouvindo seu sangue bombear forte nos ouvidos.
Logo depois de entrar na passagem, Dezco encontrou seu filhote.
Chifre Rubro estava dependurado do enorme punho cinzelado de um Shao-Tien. À exceção de um kilt de couro inticado, o brutamontes musculoso não usava armadura. Sua pele de rocha azul-escura rebrilhava à luz da tocha que ele trazia na outra mão. O quílen se postou a pouca distância do mogu, junto com mais dois Shao-Tien de armadura pesada e lanças de gume longo.
Os mogus não disseram nada. Dezco não esperava que o fizessem. Não se podia arrazoar com aquela raça. Suas ações desafiavam a lógica pela qual viviam as raças honradas. Ficaram apenas observando Dezco, fazendo caretas de desdém. O Shao-Tien líder sacudiu Chifre Rubro no ar como se em sinal para o tauren se aproximar.
Ele aceitou o desafio.
— Dezco! — gritou Mokimo, ainda na entrada da passagem, mas o tauren o ignorou. Os únicos sons que ouvia eram os gritos de Chifre Rubro e de Casco das Nuvens, e a voz longínqua da esposa, implorando:
Meu amor… o que quer que aconteça… você deve proteger… nosso filho…
Os mogus de armadura e o quílen saltaram. Dezco bateu com a maça no sabujo, estilhaçando sua cabeça. Uma onda de luz explodiu do golpe, indo em direção a um dos Shao-Tien. O mogu pulou para o lado, mas não foi rápido o suficiente. Metade de seu corpo, atingido pela luz de An’she, se esfacelou.
Mais à frente, o líder dos mogus cambaleou para trás, protegendo os olhos da luz. Ele sacudiu a cabeça e atirou a tocha ao chão. O brutamontes puxou uma lâmina curta do kilt. Longas gavinhas de energia negra e rubra coleavam da arma, deslizando no aço.
Dezco observou com horror o Shao-Tien erguer o braço armado, preparando-se para atacar Chifre Rubro.
A luz da tocha esmaeceu e a escuridão envolveu a passagem. Uma sombra moveu-se no alto: Mokimo, saltando no ar. O último mogu de armadura pulou na frente de Dezco, bloqueando sua visão. O Shao-Tien girou a lança nas mãos e a arremessou contra o tauren. Ele se esquivou da lâmina pesada, mas o cabo de madeira da arma quebrou contra seu pulso, derrubando a maça. O mogu adiantou-se e atingiu Dezco, na tentativa de derrubá-lo. O tauren aguentou o impacto e bateu com a cabeça no rosto do brutamontes. O Shao-Tien cambaleou para o lado, atordoado.
Dezco caiu de joelhos, cegado pelo sangue que escorria da testa para os olhos.
Ele procurou uma arma freneticamente. Qualquer coisa. Sua mão livre encontrou o quílen morto.
Dezco agarrou a perna traseira da fera e se ergueu, jogando o peso para frente e girando. Cada músculo em seu corpo tornou-se duro feito aço. A passagem nas montanhas quedou-se em silêncio. Todo o choro cessou.
— Chifre Rubro! — rugiu ele, ao bater com uma só mão a perna do quílen no peito do mogu de armadura. Houve um estalo alto. O brutamontes foi arremessado para trás e caiu imóvel no chão.
Sombras bruxuleavam adiante. Dezco cambaleou na direção delas. Ele sentia a cesta de Casco das Nuvens balançando sob o braço esquerdo, a salvo. O tauren limpou o sangue dos olhos até sua visão voltar. Mokimo estava ajoelhado. O líder dos mogus jazia perto dali, com a própria lâmina enfiada na cabeça de pedra.
— Onde ele está? — disse Dezco.
— Aqui. — A voz de Mokimo era áspera e úmida. Sangue fluía de uma ferida profunda em seu pescoço. Ele estendeu os braços, segurando Chifre Rubro. Os olhos do filhote estavam fechados. Estava coberto de sangue, e um pouco era dele próprio.
Antes de estender as mãos para pegá-lo, Dezco pediu a An’she que curasse as feridas do filho. Luz amarela envolveu a criança, mas, quando esmaeceu, ela não abriu os olhos.
— Não… — Dezco rilhou os dentes de raiva. Ele estava impotente. Inútil. Como quando Leza morrera. Ele tentara tanto salvá-la, mantê-la em sua vida. Não conseguira. Nada funcionara.
— A lâmina do mogu foi mais rápida — disse Mokimo, com a voz rouca. — A arma estava envenenada. É forte demais para você curar as feridas deles… ou as minhas. Mas ainda resta esperança. — Mokimo pegou debilmente a mão de Dezco e a levou até o peito de Chifre Rubro. Havia um batimento. Suave e baixinho, mas estava lá. — O filhote ainda vive.
— Eu não posso ajudá-lo… — Dezco bateu com o punho no chão, frustrado.
— Há outra saída. — Mokimo levantou-se lentamente. Ele balançou de lado um instante e quase caiu. — As fontes sagradas.

 

Enquanto ainda houver vida no filhote, as águas do vale podem…
Ele parou de falar e seus olhos se arregalaram. — Casco das Nuvens — disse o hozen.
Dezco olhou para onde seu filho estava, seguro sob seus braços.
— Ele está…? — Lágrimas surgiram no canto dos olhos de Mokimo. — Não.
A cesta dependurada estava em frangalhos. Casco das Nuvens jazia preso ao braço de Dezco; seu corpo estava mutilado, esmagado. O tauren caiu de joelhos e soltou a cesta, fazendo o filho cair em seu colo. Ele ficou imóvel, aninhando o filho, e o entendimento o trespassou como uma lâmina no coração.
Toda a sua atenção estivera em Chifre Rubro. Ele nem notou quando Casco das Nuvens morreu.

 

— Por aqui! — gritou Mokimo. De alguma forma, o hozen encontrara forças para se mover, apesar dos ferimentos. Ele agitava a tocha mogu no ar, chamando Dezco. O tauren o seguia, segurando cuidadosamente Chifre Rubro em um braço e o corpo de Casco das Nuvens em outro.
Atrás do hozen, uma grande fonte brilhava suavemente na noite. Arcadas intricadas de madeira cercavam-na, subindo de pedras chatas ao redor das águas sagradas. Era a fonte mais ao sul do vale, não muito distante de onde ocorrera o ataque.
Dezco se esforçava para acompanhar Mokimo. Pela centésima vez, sua mente repassava a batalha. Ele se lembrou da sequência de eventos, numa tentativa de localizar o ponto exato em que morrera Casco das Nuvens. Quando? Quando o mogu o atingira, quase derrubando-o? Ou ele mesmo teria provocado aquilo?
Teria ele esmagado o próprio filho?

 

O tauren tombou, sentindo o estômago revirar. — Por An’she, fui eu — disse. — Eu sei.
— Levante-se! — Mokimo bateu na cabeça de Dezco com a ponta da tocha. O golpe arrancou o tauren do transe. Ele olhou ao redor até que seus olhos pararam no hozen ensanguentado.
— Ele se foi. Como, você jamais saberá — disse Mokimo. — O que importa agora é Chifre Rubro.
Dezco ergueu-se lentamente e seguiu Mokimo até a margem da fonte.
— Os mogus já usaram essas fontes para o mal, mas elas podem ser usadas para o bem também — disse o hozen. — Cada fonte dessas representa uma emoção. Coragem… paz… — Mokimo entrou na fonte, fazendo uma careta. O sangue da sua ferida se espalhou pela água. — Esta é a fonte da esperança.
— O que… o que eu faço? — perguntou o tauren. Alguns peixes, iluminados pelas energias da fonte, fugiram enquanto ele avançava.
— Dê-me Chifre Rubro.
Dezco entregou o filho sem hesitar. Não havia mais nada que ele pudesse fazer. Nada. Tudo o que o tauren podia fazer era observar enquanto Mokimo cuidadosamente — amorosamente — baixava Chifre Rubro até a água, até o nível do pescoço.
Ele ficou tocado com a cena: pelo modo como Mokimo segurava o filho como se fosse dele, pelo quanto o hozen tinha arriscado para dar uma chance de vida a Chifre Rubro, ainda que tênue. Em retrospecto, era claro o que havia acontecido na batalha. Mokimo interpusera-se entre a lâmina do mogu e a criança. Embora a arma tivesse atingido Chifre Rubro ainda assim, Dezco sabia que seu filho estaria morto se não fosse pelo hozen.
— Venha. — Mokimo fazia esforço para mexer a mão. Ele estava quase apagando. — Deixe… Casco das Nuvens na margem.
Hesitante, Dezco colocou o corpo de Casco das Nuvens perto da fonte e entrou na água.
— Pegue… mancheia de água… — disse Mokimo. — Derrame sobre… Chifre Rubro.
Dezco obedeceu com o coração acelerado. Ele deixou a água escorrer pela cabeça do filho. Mokimo fez o mesmo. Gotas brilhantes desciam pelo focinho de Chifre Rubro. Aquilo não pareceu afetar a criança.
— Não está acontecendo nada. — Dezco pegou mais água, mas Mokimo agarrou sua mão.
— Deixe… o vale… trabalhar — disse o hozen, com a respiração entrecortada. — Você não pode controlar isso. Só pode ter… esperança. Acredite como Leza acreditou… Ao enfrentar a morte… ela se desesperou?
— Não. — Dezco fechou bem os olhos. Ela sempre acreditara. Sempre fora forte. Leza merecia estar ali. Não ele. Se ela estivesse viva, nada disso teria…
Uma onda de calor inundou Dezco e ele abriu os olhos. Uma imagem translúcida de Chi-Ji caminhava sobre a água como se fosse chão sólido. Luz dourada se irradiava dos pontos em que suas patas tocavam a fonte. A cada passo, um tilintar se fazia ouvir.
O celestial abriu as asas e a súbita rajada de ar soprou água sobre o tauren e o hozen. Mokimo se endireitou e tocou o pescoço. A ferida tinha sarado.
Chi-Ji inclinou-se para diante, perfurando a água com o bico e tocando o peito de Chifre Rubro. Dezco observou e esperou. O momento parecia durar para sempre. E justo quando ele começara a temer pelo pior, a criança se mexeu. Dezco olhou para ele, descrente. Os olhos de Chifre Rubro se abriram e vagaram de um lado a outro até que ele viu o pai. Então estendeu os braços na direção de Dezco, chorando.
— Obrigado! — Dezco abraçou forte o filho. E então se lembrou de Casco das Nuvens. Voltando-se na direção da margem da fonte, onde depositara o corpo do filho, disse: — Meu outro filho. Garça Vermelha, ainda há algum jeito de…
Mas, voltando-se para Chi-Ji, ele se calou. A Garça Vermelha se fora.

— Quílens mortos. Refugiados com Weng. — Rook bateu a pata gigante contra o peito. Ele chegara às fontes logo após Chi-Ji aparecer. Quando o pandaren monstruoso soube do que acontecera a Casco das Nuvens, ele tinha se sentado e soluçado por um bom tempo antes de se recuperar. Dezco jamais esperara que aquela morte tivesse algum impacto em Rook. Ele mal conhecera as crianças.
Mas teve. O Lótus se importava muito com elas. Dezco gostaria de entender por quê. Tudo o que ele sabia é que a preocupação da ordem era genuína. De alguma forma, os pequeninos eram como membros da família para eles.
— Ótimo! — Mokimo disse a Rook, e então se voltou para Dezco. — É melhor voltarmos ao santuário agora. Eu sei que você quer partir, mas precisamos nos preparar. Custe o que custar, eu vou encontrar uma passagem para você e Chifre Rubro.
Lar. Dezco pensou no pequeno lar de sua tribo nas planícies ensolaradas de Mulgore. Quando ele e Leza partiram, tinham se perguntado se algum dia as veriam novamente. Ele acreditara que sim, mas a esposa, não. Ela sempre falara da terra que aparecia em suas visões como se fosse seu lar. Um lar ao qual sempre tivessem pertencido, mas que ainda não conheciam. Ele finalmente entendeu o que ela queria dizer. Dezco vira o poder do vale, seu potencial, não só para ele, mas para as vidas de tantas pessoas pelo mundo.
— Eu não vou embora — disse Dezco.
— Sério? — respondeu Mokimo.
— Tem outra coisa — acrescentou Dezco. Ele olhou para Chifre Rubro em seus braços. — Vocês ainda… — começou, mas era difícil demais. Ele entregou a criança a Mokimo.
— Não é necessário. — Mokimo sacudiu a cabeça. — Se você acha que Chi-Ji quer algo em troca do que fez, você está enganado. A dádiva foi dada de graça.
— Leve-o — pediu Dezco. — Foi para isso que viemos. Foi para isso. — Por An’she, ele pensou, tolice minha não ter percebido antes. Eles tinham vindo de tão longe para encontrar o vale, para vê-lo com os próprios olhos, para morar nele. Mas ser uma parte dele… tornar-se um com ele. Aquilo era muito mais.
— Se isso é o que você quer — disse Mokimo —, o que você quer de verdade, então é claro que aceitamos.

 

— Sim, é — respondeu Dezco. — Há algo que precisamos fazer? Quer dizer, para tornar oficial.
— Nós… — Mokimo baixou a cabeça. — Sim, há alguns rituais. Eu levarei a criança até Zhi, e ele a apresentará a Chi-Ji para a unção.

Infelizmente, apenas o Lótus Dourado pode estar presente quando isso acontecer. Sinto muito.
— Eu entendo. — A voz de Dezco ficou presa na garganta. — Vá, então.
— Não precisa ser agora — disse o hozen. — Podemos voltar ao santuário primeiro.
— Vá. Antes que eu mude de ideia.
— Quando os rituais terminarem, você poderá vê-lo — disse Mokimo, ao receber Chifre Rubro nos braços. — Ele estará ocupado pelos próximos anos em treinamento, mas ficará aqui no vale.

— Membro do Lótus Dourado.
— E seu filho — disse o hozen. — Sempre seu filho, mas agora, algo maior também.
Mokimo olhou para a cesta dependurada no peito de Dezco, onde estava Casco das Nuvens. O tauren consertara os restos da cesta, amarrando-a no pescoço. — E ele? — indagou o hozen.
— Eu vou construir uma pira e acendê-la ao amanhecer para que An’she possa ver o passamento do meu filho — respondeu Dezco. — Eu… preferia fazer isso sozinho.
Mokimo aquiesceu lentamente. Sem outra palavra, ele fez um gesto na direção de Rook. Quando estavam prestes a partir, Dezco os chamou, lembrando-se de algo.
— Esperem. — O tauren pegou o cacho de cabelo de Leza e o destrançou de sua juba. Ele entrelaçou o cacho nos cabelos de Chifre Rubro e então, inclinando-se, tocou a testa da criança com o focinho.
Depois disso, Rook e Mokimo partiram. Dezco passou a hora seguinte juntando lenha para a pira, pensando no dias por vir. Ele retomaria seus deveres no santuário, mas não estava ansioso por contar a Nala e aos outros o que acontecera. O que ele ia dizer? Será que o perdoariam pela perda de Casco das Nuvens? Será que ele se perdoaria? Talvez não. Mas ele merecia aquilo. Tudo fora sua escolha: uma escolha terrível e errada.
Dezco sentou-se para descansar antes de iniciar o funeral. Ainda estava escuro lá fora, mas a aurora chegaria logo. Ele podia sentir. O quando já não o preocupava.
— Estamos em casa — disse Dezco. Segurou Casco das Nuvens no colo e acariciou a cabeleira da criança. Ele se voltou para encarar o leste, sabendo que era apenas questão de tempo até que as yeena’e aparecessem.

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