Sobre a água Parte I

by luizcsilva on 7 de janeiro de 2015

Não importa quantas vezes a gente faça, nunca fica mais fácil. Usar as mesmas roupas enlameadas dia após dia. Esperar horas a fio para que um bando deles ataque, grunhindo feito lobos o tempo todo. Brandir a espada até não sentir mais os ombros. Com tanto medo de se cortar ou de cortar algum aliado quanto de levar uma facada nas costas. Acabar coberto de sangue e suor sem saber de quem é, depois voltar para o buraco que a gente mesmo cavou e dormir, mas não sem antes tentar adivinhar quem morreu e quem sobreviveu. Aí alguém nos sacode, acorda e começa tudo de novo. Às vezes é preciso marchar primeiro.

O garoto olhou para Tarlo com uma expressão extremamente estúpida. Alguém provavelmente o tinha convencido de que a guerra acabara e a Aliança vencera.

Claro, eles estavam melhor que o outro lado. Orgrimmar invadida, o orc chefe acorrentado, a Horda no chão, lambendo as feridas.

E daí? Pandária fora devastada e ninguém ficou surpreso. Agora que as ameaças locais tinham sido rechaçadas, os nativos apressavam-se em expressar gratidão, mas Tarlo sabia que só estavam sendo educados. Era impossível suportar dois exércitos lutando em seu lar sem acabar odiando quem começou a luta.

E a Horda não tinha sido destruída, apenas expulsa. Havia um novo chefe guerreiro, e haveria uma nova guerra assim que ele acabasse de se instalar. Quem quer que tenha imaginado que um troll canibal levaria a Horda a uma era de paz e compreensão não conhecia os Zandalari.

É, a Aliança tinha vencido.

Tarlo Mondan participou da campanha em Pandária desde a primeira convocação de voluntários e já lutara muitas batalhas antes. Orcs, mortos-vivos mofados, bois chifrudos que usavam crânios humanos… ele tinha combatido todos e vivera para contar a história.

O que ele conseguira no final? Tantas cicatrizes que sua pele original mal aparecia mais? Alguns espólios guardados em um banco? Nada de filhos, esposa, nem um lar construído pelas próprias mãos, nada de quadros nas paredes. Não tinha conseguido grande coisa. Agora eles iam para casa a bordo do Orgulho do Cliente, mas podia ser qualquer outro navio inchado de pilhagem e novos recrutas. Vestiriam uniformes limpos pela primeira vez em meses, fariam fila para receber medalhas baratas e aí… fariam o quê? Esperariam o próximo chamado às armas?

É melhor que o moleque entenda isso logo de uma vez. Melhor agora que mais tarde, quando algum chifrudo da Horda cair matando em cima dele. Pelo menos ele podia parar enquanto era jovem.

Mas, claro, ele nunca entendeu. O moleque ainda estava com a mesma expressão idiota quando a terceira onda grande da noite desabou sobre o convés.

Ela deixou Tarlo de joelhos. Espuma branca jorrou sobre tudo, entrou em sua boca e fez arder as gengivas mal cuidadas, mas ele apertou os olhos e tentou firmar a vista no garoto.

A vela estava torta, quase rasgada ao meio. Os homens gritavam tentando se fazer entender em meio ao barulho enquanto se reorganizavam. O Orgulho do Cliente seguia trôpego. O estômago de Tarlo deu um nó quando ele correu na direção do garoto.

Tarlo percorrera metade do convés quando compreendeu por que a expressão do garoto não tinha mudado. Ele estava caído, encostado à amurada, e a enxurrada o empurrava para frente e para trás. Estilhaços de madeira ensopada recobriam suas vestes e redemoinhavam ao redor dele. A túnica, antes azul, manchara-se de sangue e agora tinha um tom de roxo doentio. Provavelmente um canhão deslizara, esmagando-o. Ou um dos mastros lhe partira a cabeça. Talvez…

Enquanto Tarlo especulava, outra onda fez o navio adernar. Seus pés saíram do chão e ele foi arremessado pelo convés. Por um instante, viu água sob os pés. Fazia apenas algumas horas, estava mijando nela.

Tarlo bateu com as costas na água. O ar foi expulso de seus pulmões, e o empuxo da água fazia seus membros sacudir como se ele fosse um boneco. Estava afundando.

Não.

Era frio demais, como ser atingido de surpresa por uma lança. Seus dedos se curvaram involuntariamente. Doía abrir os olhos.

Não.

Para baixo. Seu corpo não parava de girar. A água o esmurrava de todos os lados. Braços e pernas espadanavam.

Parecia que Tarlo estava sendo puxado mais para o fundo. Ele sentia os pulmões doer ao latejar, tentando se expandir. Eles iriam arrebentar e a água os inundaria. Não dava para saber quando. Ele mordeu os lábios, convulsionando, cercado de bolhas por toda a parte.

Os pulmões queimaram mais forte e mais quente. As veias do pescoço pulsavam, tensas feito o encordoamento de um navio.

Seu peito estava cedendo. Seu corpo era um boneco. Talvez as pernas estivessem quebradas. Elas mal se moviam.

Tudo parecia pesado. Ele estava se afogando? Que apropriado morrer ali perto do navio, depois de sobreviver a dezenas de batalhas.

Ele precisou abrir a boca. Alguma coisa o atingiu com força, e sua boca se abriu sozinha.

Engoliu salmoura quente. Por causa da dor, continuar respirando pareceu a coisa certa a fazer. Ele se odiou por fazer aquilo.

Ar. Ele fungou ar e água e catarro, e Tarlo percebeu que sua cabeça estava acima da superfície. Ele estava respirando. As costas e os flancos ardiam e os braços estavam exaustos, mas ele enxergou direito pela primeira vez em muito tempo, e a luz das luas gêmeas iluminava a cena do alto. Tarlo bateu em alguma coisa atrás dele na água. Pedras. Afiadas. Apoiou as pernas nas pedras para tomar impulso e inspirou fundo outra vez.

Tarlo tossiu bile salgada e vermelha. Doía, o que era bom sinal. Ele estava vivo.

Ao longe, ele divisou o Orgulho do Cliente, alquebrado, com as velas em frangalhos, afastando-se trôpego. Sabia que não voltariam para buscá-lo naquela tempestade. Ele não teria voltado. Melhor perder um homem no mar que cem.

 

A água era gelada. No início, as ondas o empurraram dolorosamente contra a rocha, mas agora pareciam querer erguê-lo e esmagá-lo. Tarlo tentou não pensar nas costas, sem sucesso. Esperava que fosse apenas uma torção. Nem se atrevia a levar os braços às costas para averiguar.

Água revolta subia por todos os lados. Quanto tempo ele ainda tinha? Olhou para cima outra vez tentando localizar o Orgulho do Cliente e viu o vulto ainda pequeno de uma onda se formando na distância. Não seria tão grande quanto a que praticamente destruíra um navio da Aliança, mas era o suficiente para acabar com ele.

Tarlo inspirou fundo e tremeu. As ondas continuavam vindo. Se não fosse aquela, seria a seguinte. Sua respiração estava entrecortada.

Enquanto a onda mais próxima desabava e preparava-se para se reerguer, ele viu algo subir em sua crista. Destroços? Parecia uma tábua comprida.

Se ele conseguisse se aproximar dela quando a onda se desfizesse, talvez…

A onda estourou e ele foi arremessado para trás novamente, coberto de borrifos de espuma. Tarlo quis gritar quando as rochas arranharam suas costas, mas ele empurrou o corpo contra elas. Tinha a sensação de que mal saía do lugar, mas de alguma forma estava se aproximando da tábua, da salvação. Como é que aquilo ainda flutuava sobre as ondas depois do último impacto?

Tarlo compreendeu então que a tábua estava indo em sua direção. À luz do luar, podia vê-la nitidamente atravessar uma onda e bater contra a água. Estava ficando maior. Chegando mais perto. Um navio?

Era alguma embarcação. Tarlo observou o vulto aumentar de tamanho e tornar-se um longo esquife de madeira com redes dos lados.

Os pilotos do barco eram brucutus de pescoço grosso. Eles se inclinavam para frente, e os remos, que pareciam varetas em suas mãos, batiam repetidas vezes na água.

Orcs. Quando chegaram mais perto, Tarlo viu que eram três. Ele desejou ainda ter sua espada.

Uma onda bateu contra o flanco da embarcação a bombordo, e os três vultos trocaram agilmente de posição, ficando de pé e batendo com os remos no mar como cabos de lança para impedir que a nau adernasse. Tarlo prendeu a respiração, tentando evitar que os dentes batessem, e pensou. Era melhor morrer congelado, ou se afogar, que ser capturado por…

Não, não são orcs. Seus rostos e mãos eram cobertos de pelo e eles estavam encharcados. Até os olhos pareciam empapados. Eles tinham se enrolado com mantos marrons e cinzentos, lembrando trouxas de pano molhado, e as patas peludas se agarravam às laterais do barco.

Pandarens?

Um vulto enorme estava com a bocarra aberta, mas não parecia estar dizendo nada. Só… gritando. Uma onda se ergueu atrás do barco, puxando-o para trás e fazendo com que a popa se levantasse perigosamente. A figura que berrava ergueu a pata, fazendo um sinal enquanto a embarcação perdia o controle. Sua boca não se fechou.

O vulto estava… celebrando?

O esquife pandarênico subiu à crista da onda por alguns segundos antes que ela rebentasse, e Tarlo viu que a embarcação estava a menos de cinco metros de distância. Os três marinheiros estavam completamente encharcados, mas o maior estendia uma pata enorme que apontava para Tarlo. Sua boca ainda estava aberta. Atrás do barco, outra onda surgiu, direcionada para as rochas.

Tarlo mexeu as pernas e nadou para salvar sua pele.

 

Ele foi içado ao barco pelas três figuras, trêmulo e vomitando. E quando começaram a se mover novamente, Tarlo engoliu água salgada. Contra as ondas que se erguiam, os pandarens eram uma força considerável.

Eles davam gritos inarticulados, dois berros rápidos e depois um, cantando na subida das ondas e celebrando quando saíam delas incólumes, batendo nas costas uns dos outros e gritando como se não estivessem correndo perigo. Sempre que o barco passava por uma muralha de água, Tarlo esperava cair no mar a qualquer momento… mas então a cantoria recomeçava e o barco saltava contra as ondas. A água espirrava para todos os lados como se mãos gigantes invisíveis espancassem o oceano, mas os pandarens continuavam. Então não houve mais ondas; apenas celebração.

Tarlo tinha parado de contar as ondas que quase viravam o barco e ficou deitado quieto. Não parecia ter quebrado nada… talvez fosse uma costela fraturada? O flanco estava dolorido, mas sentar doía menos do que ele esperava. Assim, enroscou-se no manto extra que o pandaren providenciara. O céu continuava sinistro, a chuva caía com força e o barquinho balançava precariamente quase do nada, mas as ondas estavam mais… calmas. Não via o Orgulho do Cliente em lugar nenhum, mas, bem longe dali, divisou as projeções rochosas de penhascos escuros, provavelmente o local que os homens a bordo pretendiam circundar antes da tempestade.

Examinando o barco, Tarlo tinha a sensação de que acabara acordar. Ele estava seguro. Mais seguro. — Vocês… obrigado — murmurou

Um dos pandarens, o grandão que não parava de gritar, parou por tempo suficiente para responder com um grunhido. Outro — pequeno e robusto, de queixo forte — retirava água do barco com uma caneca. O terceiro, de capuz erguido, manejava dois remos alternadamente, costas apoiadas em um barril de cerveja da metade do tamanho de um homem. O pandaren não se virou nem parou de remar enquanto falava, e quase não dava para ouvir suas palavras em meio à chuva incessante.

— Você é… da Aliança? — Língua geral com sotaque. Voz rouca, abrasiva. Um macho?

— Sou. — Tarlo fez uma pausa. — Para onde nós… para onde vocês estão indo?

O barco deslizou por um instante quando os pandarens pararam de remar. Ele se voltou para fitar Tarlo e seus olhos dourados brilhavam sob o capuz como os de um animal assustado. A barba rala e os dois longos fios de bigode tremeram.

— Pescar.

 

Tarlo estava completamente encharcado. Ele cobriu a cabeça com outro cobertor enquanto os remos se erguiam e os pandarens faziam uma pausa, deixando que o barco fosse sacudido pelas ondas.

Os penhascos estavam ainda mais longe. Tarlo mal podia vê-los. Ele não conseguia imaginar onde estaria o Orgulho do Cliente se não tivesse afundado. Um relâmpago estalou no céu.

Os pandarens estavam ocupados conversando, mexendo nas linhas, verificando se havia buracos nas redes, enfiando iscas em anzóis. O grandão que gritava tinha destampado o barril e enchia as canecas, duas de cada vez.

— Olha, eu agradeço muito — disse ele ao pandaren maior —, mas será que dá para me deixar perto daqueles penhascos?

— O primo Shi Ga está preparando a rede. Quer um trago?

A voz dela — dela — era surpreendentemente suave. Tarlo quase não acreditou que o que estava ouvindo saía da mesma bocarra que se esgoelava minutos antes.

Ele se viu aceitando uma caneca espumante de cerveja. Seus dentes batiam enquanto tomava alguns goles. Estava morna… mas não de um jeito ruim.

— Ahn, obrigado. Tarlo — disse, apontando para si mesmo.

— Eu me chamo Mei Pa. É bom beber com você, Tarlo. Esse é o meu irmão, Kuo. — Ela apontou para o pandaren robusto de cara grande.

Kuo, que segurava duas canecas com a pata musculosa enquanto ajeitava as redes, acenou de volta.

— Kuo estava contando da vez em que ele pegou uma piramboia na costa da Floresta de Jade. Você pesca, Tarlo?

Tarlo não pescava. Pescar era o que havia de mais chato: ficar sentado esperando, olhando e esperando um pouco mais. A pesca era conduzida nas condições mais claras e modorrentas, e quem trabalhava nisso se chamava de pescador como se fosse grande coisa. Qualquer um podia ser pescador na primavera. Pescar durante uma tempestade, em um barco minúsculo no meio do oceano, morrendo de frio — isso não era tedioso: era idiota.

— Eu não sou pescador, não — disse ele.

— Mas com certeza você sabe contar histórias.

— Histórias? Sim, claro. Eu conheço algumas.

Imediatamente, Mei Pa e Shi Ga olharam para ele com atenção. Haviam gostado da ideia na hora, e talvez o levassem a algum lugar mais seco se achassem que tinham algo em comum…

Tarlo limpou o pigarro.

— Bem, quando eu estava servindo no pantanal há alguns anos, nós encontramos uma cidade antiga. Éramos, uhn, oito no pelotão, acho. Era uma fortaleza depauperada, provavelmente construída por anões há muito tempo. Os batedores a encontraram. Nós começamos a averiguar o interior, mas acho que a Horda ficou sabendo, porque não demorou muito e logo dois grupos guerreiros estavam perto dos portões, tentando entrar. Eles cercaram o local completamente. Não dava para sair dali sem atrair a atenção deles. Eram muitos. Uns cretinos feiosos. Com machados gigantes, espadas, tudo.

A testa enorme de Mei Pa se franziu.

— Daí o Griley teve uma ideia ótima: nós puxamos toda a tapeçaria e a decoração da parede, pegamos alguns tapetes ainda não apodrecidos e empilhamos tudo no paço da frente. Rasgamos alguns para fingir que foram deixados pelos saqueadores. E ainda jogamos algumas moedas no meio da pilha, porque orcs não conseguem resistir a uma pilha de cacarecos se acharem que tem dinheiro no meio.

Os pandarens estavam absortos na história. Shi Gai tinha deixado a vara de pesca de lado e ajeitou-se no assento para observar Tarlo.

— Então nós pusemos meia dúzia de cargas explosivas na pilha, bem lá no fundo. E nos escondemos. Quando os orcs chegaram, eu estava suando pra valer. Eu não tinha certeza de que iam cair naquela.

— Eles ficaram discutindo por algum tempo, mas no final mandaram alguns goblins — são uns nanicos verdes orelhudos — para averiguar. Nós esperamos um monte deles se meter na pilha: seis, oito, dez… e aí CABUM! Aquilo acabou com uns vinte e derrubou a grade do portão e grande parte das paredes frontais também. O barulho mais alto que já escutei na vida. Enquanto os idiotas se perguntavam o que tinha acontecido, nós jogamos as cordas pelo portão oeste e saímos de fininho.

Pronto. Parecia que Kuo estava prendendo a respiração. Ele perguntou: — E depois?

— Ãh? — perguntou Tarlo.

Mei Pa falou. — Acho que meu irmão quer saber qual é a moral da sua história. — O rosto dela parecia pequeno e estranho.

Moral? — Bom, nós atraímos eles. Fomos mais espertos. E conseguimos fugir. Nenhum dos nossos chegou a se machucar. As chances eram muito baixas! — Tarlo começou a corar.

— Eu… entendo. — Mei Pa certamente parecia aborrecida.

— Nós estávamos em guerra, sabe. — Tarlo estava levantando a voz, mas os pandarens tinham parado de prestar atenção. Estavam mexendo no equipamento, preparando as linhas e olhando para as trevas tempestuosas. O barco sacudia loucamente, mas não saía do lugar. Aquilo era estranho.

— O que vocês estão fazendo no mar durante uma tempestade, aliás? — perguntou Tarlo, ciente do absurdo de questionar seus salvadores. — É óbvio que vocês não estavam procurando o nosso navio.

— Posso responder sua pergunta com uma história, Tarlo? — foi a resposta suave e polida de Mei Pa. Ele aquiesceu. Por que não? Ia sobrar para ele de um jeito ou de outro.

 

Há muitos e muitos anos, não muito longe daqui, havia uma pequena aldeia chamada Za Xiang. Os pandarens que lá viviam eram pescadores desde tempos imemoriais e enchiam a pança com os frutos do oceano. Eles dependiam quase exclusivamente disso. Não havia um fazendeiro ou caçador entre eles. Mas eram felizes e saudáveis, até que um período de carestia fora do normal se abateu sobre o lugar e os peixes desapareceram. Bebiam chuva e cerveja e comiam nozes, mas logo seus estoques se acabaram, e nada de os peixes voltarem. E eles sofreram.

 

Depois de semanas de fome e racionamento, os aldeões perderam a esperança. Eles enviaram mensageiros à capital para pedir comida e, enquanto esperavam, as famílias começaram a abandonar Za Xiang em massa. Pandarens sentavam-se nas docas por horas a fio na esperança de pescar alguma coisa, mas não conseguiam nem que um único peixe mordesse as linhas, e sempre voltavam para casa de patas vazias. Menos um menino chamado Xun, de uns doze anos.

Xun era teimoso. Ele jurou que pescaria sem parar até ter comida para alimentar não só sua família, mas também toda a aldeia. Infelizmente, não entendia bulhufas de pesca. Então ficava parado nas docas chamando os peixes, procurando-os lá de cima. Tinha um galho com uma linha amarrada na ponta, mas a escassez fizera seus vizinhos comer as iscas e ele não tinha nada que pudesse usar. Assim, Xun decidiu tentar enganar os peixes: poliu pedras até brilharem e as arremessou na superfície da água na esperança de que os peixes avançassem nelas. Não avançaram.

Ele atirou pedras durante uma semana inteira, sem dormir, até que finalmente desistiu. Depois, Xun tentou atrair os peixes para fora da água. Ele meteu a boca no mar e contou piadas para os peixes na língua deles. Mas os peixes não têm o mesmo senso de humor que a gente, e se algum ouviu a voz de Xun, nenhum se dignou a aparecer na superfície para encontrá-lo.

Depois de mais três dias, parecia que não havia mesmo peixe no mar, e Xun se irritou. Ele deixou as pedras de lado e foi entrando no mar até ficar frio. Seguiu pela água, e a costa e seu lar ficaram bem pequenos às suas costas.

Ele prendeu a respiração e mergulhou. Começou a procurar os peixes de olhos abertos e coçando para pegá-los com as patas. E lá embaixo da lama, viu um peixinho marrom, coberto pela areia como se estivesse se escondendo. Xun era rápido e nadou para agarrá-lo, mas, ao se aproximar, uma sombra enorme bloqueou a luz do Sol que vinha do alto. Viu uma boca de cobra gigante e faminta passar chispando por ele e morder o peixe.

O monstro que roubou o peixe de Xun era enorme e comprido feito uma enguia, mas estava amarrotado como se não pudesse se esticar. Seu estômago estava inchado, e havia peixes vivos espetados nos dentes de prata. Xun compreendeu que aquele monstro andava comendo todos os peixes de Za Xiang e, por isso, ninguém, nem os melhores pescadores da cidade, conseguia pegar nada.

O corpo de Xun cabia todo na boca da criatura. Era tão grande que só ficar na água junto dela assustava Xun, mas ele estava zangado demais para voltar para casa. Nadou atrás do monstro, movendo as armas e pernas no mesmo ritmo das nadadeiras, cortando as águas copiando os movimentos da fera.

Prendendo a respiração o máximo que podia, Xun foi direto para a boca aberta da fera. Ele meteu o braço entre dentes tão grandes que sua pata cabia no espaço entre eles e puxou um peixe de lá. Então Xun exalou e disparou para a superfície antes que a criatura o mordesse.

Ele levou o peixe direto para casa, jogou-o na mesa e disse aos pais e irmãos que eles não precisavam ir embora. Havia descoberto uma nova maneira de pescar, e logo todos poderiam comer.

Xun descobrira — como todos que se dedicam a isso — que a pescaria não deve ser algo passivo.

 

Tarlo teve que olhar para baixo e beber da cerveja para não dar um sorrisinho, apesar da dor nas costas e da chuva e do frio e de todo o resto que aqueles pandas loucos pareciam ignorar.

Claro que um jovem pandaren havia nadado até o meio do oceano, e claro que ele era tão rápido que tirou um peixe da boca de uma enguia gigante, fugiu sem ser pego e salvou sua aldeia faminta. Claro.

O que Tarlo disse foi: — Er. História interessante.

Mei Pa sorriu como se pudesse ler seus pensamentos. — É apenas uma história, Tarlo, e é só um pedaço, ainda por cima. Mas acho que é uma história importante.

Aqueles pandarens não eram segregacionistas. Não só tinham salvado sua vida e contado uma história, mas também lhe deram uma vara de pescar pequena e retorcida e algumas iscas, como se fosse uma espada de brinquedo presenteada a uma criança. Ele lançara a linha na água com uma das mãos enquanto Mei Pa continuava a falar. Pesca. Certo. Estava mais para ficar segurando uma linha sobre a água para se distrair do frio. Não pescou nada após uma hora de espera atenta. Nenhuma mordida.

Agora que ela tinha se calado, Tarlo virou as duas pernas para o mar, fitando-o. Por que ele não tinha pescado nada depois de tanto tempo? Kuo e Shi Ga estavam puxando redes abarrotadas de peixes dourados fedorentos.

— Não se preocupe, Tarlo. Às vezes os peixes não aparecem mesmo. Não tem nada a ver com você.

Tarlo puxou a vara da água, olhou para ela e, resmungando, jogou-a no fundo do barco. Os pandarens tinham terminado, então ele também tinha. Podiam prosseguir. Em alguns minutos, o barco estava se movendo outra vez.

 

Tarlo olhou para o céu. A chuva estava mais forte. Os cobertores agora só serviam para mantê-lo frio e ensopado. Ele tentou lembrar da última vez em que vira os penhascos. Fazia quanto tempo, quatro, cinco horas? Ainda estava escuro.

 

— Estamos indo para a terra? — perguntou, a ninguém em particular.

— Ainda tem muito o que pescar — foi a resposta rouca de Shi Ga. Um relâmpago cortou o céu e as nuvens se abriram.

Tarlo preferiria morrer por um erro seu que pelo engano de outra pessoa, então olhou para a água tentando achar algo na direção do que nadar, mesmo machucado como estava. Madeira flutuante, pedaço de coral, qualquer coisa. Mas tudo o que viu foi uma cortina de chuva tão grossa que o obrigava a apertar os olhos.

Não, ele viu outra coisa. Lá, um pouco abaixo da superfície, havia uma forma sinuosa, negra e lustrosa movendo-se. Tarlo pensou ter visto uma nadadeira, mas a profundidade não o deixava saber ao certo. O barco sacudiu suavemente, e ele segurou-se na amurada. É a tempestade que está sacudindo a gente. E não… aquela coisa lá embaixo.

— Ei… — começou a dizer, mas Kuo e Shi Ga tinham retirado os remos do mar. O barco desacelerou lentamente até parar, e a força da chuva os atingiu em cheio do alto.

— Não perturbe a superfície — sussurrou Shi Ga, com sua voz de fumante de cachimbo. — Vai passar

Tarlo observou a forma escura dar voltas em círculos perfeitos lá embaixo e não teve tanta certeza. Seu pescoço coçava, e ele quis tossir o que quer que se estivesse acumulando na garganta, mas não faria nenhum som desnecessário com aquela criatura à espreita.

Kuo não teve tais escrúpulos. — Tarlo, posso continuar a história de Xun? Agora parece uma hora excelente. — As patas gordas empurraram outra caneca de cerveja em sua direção. A água da chuva fazia espirrar espuma sobre a borda da caneca.

Loucura.

 

O peixe que Xun pescou não foi o suficiente para alimentar toda a aldeia de Za Xiang. Não deu nem para alimentar sua família, embora o tivessem fatiado bem fininho e feito sopa com as barbatanas e mastigado até as escamas. Mas significava algo. Se até um amador conseguia pegar peixe, por que os mestres pescadores, que tinham pescado a vida inteira, não? Os aldeões começaram a lançar as linhas dia e noite, e havia tantos que o cais não comportava todos. Eles se empurravam, espremidos, e suas linhas se enrolavam. Os que não conseguiam pescar começaram a ampliar o cais para que toda a aldeia pudesse ficar lado a lado com as varas sobre a água.

Mas, mesmo com todos trabalhando juntos, os aldeões mal tinham o que comer. Conseguiam um peixe ou dois por dia, e os pandarens iam para o centro da aldeia, onde a pesca era fatiada, cozida e compartilhada. Os roncos dos estômagos ecoavam até o oceano. Eles perdiam peso por todo o corpo, estavam esquálidos e caminhavam vagando sem conseguir dormir. O mar parecia vazio

Xun estava infeliz. Sua aldeia trabalhara duro para obter comida outra vez, mas ele sabia que o monstro que tinha encontrado estava esperando lá embaixo, comendo todo o peixe e garantindo que seus amigos e família ficassem com fome para sempre. Não contara a ninguém sobre a fera por achar que os aldeões ficariam amedrontados demais para pescar. Em vez disso, tomou uma canoa e partiu para o mar na calada da noite. Empilhara panelas e barris no barco, o que o deixava muito pesado. Remava usando uma lança na água — a maior parte da madeira dos remos tinha sido usada para construir o cais. Levou metade de um dia para perder a terra de vista. O vento aumentou, e, sem casaco, ele sentiu frio. Ninguém poderia dizer que Xun era prudente.

Quando a aldeia já não estava mais visível, Xun começou a gritar e a bater na água com a lança. Ele pegou as panelas pesadas e barris, ergueu-os e os arremessou no mar com toda a força. Alguns foram cair no fundo, fazendo subir grandes nuvens de poeira, soando como pés gigantes pisando no leito do oceano. Ele ficou batendo no mar a noite inteira quase até o raiar do dia, quando seus olhos aguçados avistaram o monstro-enguia indo em sua direção, formando ondas ao avançar.

Xun pegou a lança, pronto para atacar a criatura assim que ela alcançasse o barco, quando viu outros vultos se aproximar atrás da fera. Alguns eram do mesmo tamanho que a grande enguia. Outros, ainda maiores. Bocarras em bico, coscos enormes, barbatanas. Cada criatura era maior que uma casa grande de Za Xiang, e a armadilha de Xun as atraíra.

Xun ficou atônito, e antes que conseguisse pensar no que fazer, os monstros chegaram ao barco e o destroçaram com as presas. Ele caiu no mar frio, debatendo-se entre as feras.

A fome os atraiu na direção dele com os dentes rilhando, e Xun sacudiu a pequena lança para um lado e para o outro e chutou tão rápido que chegou a sair da água, feito um peixe voador. As criaturas ficavam mais e mais agitadas toda vez que as mandíbulas se fechavam sobre o nada e mordiam umas às outras com a mesma frequência com que o ameaçavam. Aproveitando a oportunidade, ele tentou enfiar a lança em um dos monstros, mas o ferro se dividiu em quatro direções como a casca de uma banana.

O frenesi continuou, e o sol subiu e desceu outra vez, e Xun já estava se cansando. Cinco feras poderosas o cercavam, atacando para impedir que as outras o comessem antes. Então uma das grandes tartarugas rochosas bateu as barbatanas embaixo dele e abriu bem a boca como um alçapão, e Xun começou a descer, levado pela corrente de água. Sua visão escureceu quando foi sugado diretamente para dentro da bocarra.

 

— E o que você espera que eu aprenda com isso, Kuo? — perguntou Tarlo, evitando olhar para a água. — A não levar um barco minúsculo para o meio do oceano? Porque não parece que vocês três estejam seguindo a lição.

Kuo olhou para ele com alguma surpresa. — Ah, não, não. Xun aprendeu que, por maior que seja o peixe que se viu, sempre haverá maiores. Mas eu ainda não terminei.

 

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