A morte vem do alto Parte I

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by luizcsilva on 22 de janeiro de 2015

Ele flutuava sozinho. O tempo não significava nada. Finalmente, o som da música da imperatriz reverberou na quietude.

Enxameiem a Muralha, cantava a imperatriz. Os fortes voltarão. Os fracos, não.

Kil’ruk abriu os olhos pela primeira vez.

 

Fumaça e poeira encobriam o horizonte a leste. Apenas a silhueta tênue da Muralha, o Espinhaço da Serpente, era visível em meio à bruma. Ecos da guerra ainda pairavam no ar: os brados de júbilo dos jovens mantídeos e os gritos dos moribundos se misturavam à harmonia distinta de lâminas se chocando e carne rasgando.

O novo ciclo se iniciara de fato, gloriosamente.

Um grupo de mantídeos anciãos observava de uma colina a oeste.

— Os enxameadores parecem saudáveis e vibrantes. A imperatriz os nutriu bem — disse um deles. Ninguém discordou. Todos tinham visto os jovens mantídeos partir em carreira desenfreada na direção da Muralha poucos minutos depois de nascer, sem pensar em mais nada além de chacinar as criaturas inferiores. — O entusiasmo deles se mostrará bem útil se os mogus continuarem a nos provocar. Nada sofreia a ambição como o medo da aniquilação.

Os outros anciãos emitiram ruídos insetoides, clicando e zumbindo. Era o som da anuência, mas não do comprometimento. Não havia necessidade de tomar uma decisão ainda.

Por ora, os Klaxxi simplesmente observariam. Os eventos estavam se desenrolando conforme o esperado.

 

Um mogu solitário, vestido em um robe luxuoso, de corte perfeito, entrou na grande tenda e olhou friamente para os escravos correndo por entre a estranha coleção de tubos brancos polidos. Com uma voz alta e desdenhosa, ele disse: — Vocês disseram ao Senhor da Guerra Gurthan que suas armas estariam prontas agora. Ele está desapontado com seu fracasso.

Os dezesseis escravos — em sua maioria pandarens, embora houvesse também alguns jinyus — ficaram paralisados de medo. Bem no fundo da tenda, uma figura avantajada se ergueu lentamente, o rosto envolto em sombras. Ele se inclinou para frente. A luz de um braseiro bruxuleante tocou a ponta da sua mandíbula. Apesar das palavras hostis do visitante, a expressão do mogu mais avantajado era sinistramente calma.

— Se o senhor da guerra Gurthan estivesse desapontado comigo, ele mesmo me diria, Hixin — disse o capataz Xuexing.

— Talvez você não esteja informado dos últimos eventos. Os mantídeos estão atacando — disse Hixin, calmamente, como se fosse possível ignorar o som terrível da batalha a oeste dali. — O senhor da guerra Gurthan tem preocupações maiores que um arcanista delinquente e o emprego inadequado de alguns escravos.

Delinquente? Xuexing conseguiu se controlar. Hixin era de longe o mais astuto dos conselheiros do senhor da guerra Gurthan. Ele nunca provocava alguém sem motivo. Sem dúvida planejava levar notícias de alguma explosão temperamental de Xuexing ao Senhor da Guerra. Diria: Se ele não consegue reagir bem a meras críticas, Senhor Guerreiro, como se sairá com tarefas de importância crucial?

Não era segredo que Xuexing tinha a confiança do Senhor da Guerra em quase tudo o que dizia respeito às artes arcanas. Até os Zandalari procuravam seus conselhos e orientações. Hixin precisaria desacreditá-lo antes de substituí-lo. Ele quer subir usando minha cabeça de degrau.

— O huatang estará pronto quando estiver pronto — disse Xuexing. — E quando estiver pronto, eu mesmo direi ao senhor da guerra Gurthan.

— Devo dizer a ele que pode esperar uma arma operacional em quanto tempo? Dias? Semanas? Meses? Os insetos não vão esperar — indagou Hixin, na mesma voz serena e diplomática. Ele passou o dedo displicentemente pela boca de uma estranha urna ornamentada sobre uma mesa ao seu lado.

— Diga a ele o que quiser — respondeu Xuexing.

— Creio que terei que informar ao Senhor da Guerra que você não tem uma resposta.

— Não me provoque, conselheiro.

 

Sigam juntos. Enxameiem a Muralha. As palavras da imperatriz preenchiam suas mentes. Ela lhes dava um propósito. Os desejos dela eram os seus, e eles não hesitavam em obedecer.

Sem ela, os mantídeos não eram nada.

Os fortes voltarão. Os fracos, não, dizia ela.

Kil’ruk e dezenas de outros mantídeos voadores se alçaram aos céus e partiram para o oeste novamente. Era sua terceira viagem à Muralha, ou talvez a quarta. Kil’ruk não estava contando. Tudo com que ele se importava era a voz dela a impeli-lo. Ansiara pela batalha desde o primeiro instante de vida. Os instintos tomavam conta do resto. As antenas se moviam sem parar. As patas dianteiras permaneciam encaixadas sob o abdômen, confortáveis contra a carapaça. Mesmo o ato de manter as quatro asas transparentes zumbindo às costas era tão natural quanto respirar.

As criaturas inferiores têm que morrer, cantava ela para todos. Exterminem todas.

Lá de cima, o próprio chão parecia se contorcer com a fúria dela. Milhares e milhares de mantídeos seguiam instintivamente para o leste na direção das criaturas inferiores e de seu obstáculo patético. Embora a Muralha se erguesse até o céu, a imperatriz ordenara sua queda. E ela cairia.

Eles a chamam de Espinhaço da Serpente, dissera a imperatriz. Destruam-na.

No chão, os enxameadores investiam contra a Muralha, tentando escalá-la. Pilhas de carapaças partidas se amontoavam na base do Espinhaço. A subida era cansativa e perigosa, e os poucos mantídeos que conseguiam chegar ao topo se viam sozinhos contra dezenas de defensores. Eles não sobreviviam por muito tempo.

Kil’ruk e os outros mantídeos voadores pairavam bem acima das barbacãs da Muralha, bem longe do alcance dos arqueiros. Cada mantídeo carregava uma rede repleta de estranhas pelotas (assim as chamara um molda-âmbar caolho) que vazavam uma fumaça fétida. — Soterrem os inimigos com elas — dissera ele, enquanto agarrava as redes com as patas dianteiras.

Os mantídeos voadores jogaram as pelotas nos inimigos lá embaixo. Elas se abriram, borrifando veneno e ácido nos defensores próximos. As criaturas inferiores correram por alguns instantes gritando de dor e confusão, mas o veneno logo se dispersou ao vento. Os defensores retomaram suas posições na beirada da Muralha e atiraram mais pedras e flechas nos mantídeos voadores.

Kil’ruk continuou a arremessar pelotas. Mas não era satisfatório. Queria ver a agonia das criaturas inferiores de perto. Queria pintar as ameias com o sangue delas. Arremessar bombas do alto parecia limpo demais, distante demais, e pouco eficiente.

Quando ficou sem pelotas, o grupo de mantídeos voou de volta até o molda-âmbar. Os outros voadores estalavam e chiavam contentes pelo caminho. Kil’ruk ruminava em silêncio. O molda-âmbar tinha mais redes esperando à sombra de um broto de árvore kypari.

Por dois dias e duas noites, eles repetiram as mesmas ações: voar até a Muralha, arremessar pelotas do alto, voltar para apanhar mais redes e assim por diante.

Na segunda noite, a maior parte do grupo de Kil’ruk se encolhera exausta sob as árvores kypari maiores. Kil’ruk apenas apanhou outra rede de pelotas e voou com elas.

A Muralha ainda resistia. Os inimigos da imperatriz ainda estavam vivos. Como ele poderia descansar?

Ele não sucumbiu à fadiga até o sol se erguer no quarto dia.

 

No alto, um falcão pairou na brisa vespertina, caçando solitário. Quase todas as criaturas fugiram das terras mantídeas quando o ciclo de ataques começara. Apenas alguns bebês vermingues, jovens demais para acompanhar o êxodo em massa, permaneceram em seus ninhos, tremendo com os sons da batalha distante. Uma das criaturinhas espichou a cabeça para fora do solo farejando o ar, na esperança de captar o cheiro de comida.

O falcão a viu. Ele colou as asas ao corpo e desceu em arco a toda. Um segundo antes de tocar o chão, estendeu as asas, cindindo o ar. Houve um grande frêmito e então o falcão decolou outra vez, um filhote de vermingue se sacudindo em suas garras. Com um apertão firme, aquietou o vermingue para sempre.

O falcão voltou velozmente para seu alto ninho em uma árvore kypari. Subitamente ele mudou de rumo, passando ao largo de um mantídeo voador solitário que pairava ali perto.

O falcão o observou com olhos desconfiados, mas, quando ficou claro que o mantídeo não estava se preparando para atacar, o pássaro guinchou furioso com a demora e partiu dali. A ausência de vítimas o deixara faminto.

Aquele mantídeo solitário, Kil’ruk, apenas observou o pássaro partir com um olhar atônito.

 

— Um falcão?

— Um falcão — disse o ancião mantídeo chamado Klaxxi’va Pok. — Este mantídeo está fascinado com ele. Obcecado, até. Ele tenta imitá-lo constantemente.

— Mergulhar do céu é impossível para nós — objetou o outro. Ele tinha asas. Klaxxi’va Pok, não. — Aqueles entre nós abençoados com o poder de voar podem pairar. Nós zarpamos agilmente de um ponto a outro. Essa é nossa vantagem. Esse enxameador é suicida. O esforço de parar um mergulho tão alto arrancará as asas das suas costas.

— Como eu disse, ele treina constantemente — disse Klaxxi’va Pok. — Ontem ele conseguiu parar uma queda de dez braças. Hoje de manhã, de quinze.

— Isso não serve de nada, apenas…

— Hoje à tarde, vinte e cinco braças — completou Klaxxi’va Pok.

O outro ancião mantídeo ficou em silêncio. Suas patas dianteiras se esfregaram em contemplação. Recuperar-se de uma queda livre de vinte e cinco braças era o limite até mesmo de voadores mantídeos extremamente habilidosos. — Então ele está ficando mais forte?

— Está.

— Muito mais forte?

— É o que parece — respondeu Klaxxi’va Pok.

— Interessante.

— Em mais aspectos do que você imagina — acrescentou Pok. — Mal se passou uma semana. Os enxameadores ainda estão frágeis e muito imaturos. Eles são completamente dependentes da voz da imperatriz, e ela não falou nada sobre essas táticas estranhas.

Os outros mantídeos estalaram as mandíbulas lentamente em anuência. — Ele está agindo por iniciativa própria. Ele está ignorando os desejos dela. É promissor, vindo de um mantídeo tão jovem. — Suas antenas tremeram suavemente, e um risinho áspero saiu-lhe da boca. — Já faz três ciclos desde que um paragão despontou dos enxameadores. Talvez este logo receba um segundo nome.

— Talvez — disse Klaxxi’va Pok. — Ou talvez ele seja só mais um que morrerá antes de atingir seu potencial.

— De fato. É assim que o ciclo funciona, afinal.

 

Yong se confortou com um pensamento simples. Isso vai acabar logo.

As surras selvagens das últimas horas tinham deixado o escravo pandaren quase cego, capaz de discernir apenas formas e sombras vagas. Dois guardas mogus o arrastaram para a luz do sol e o acorrentaram a um poste alto. Ele não sabia dizer se eram os mesmos que ele atacara na véspera.

Tomara que eu os tenha machucado, pensou, exausto. Fora um gesto patético que custaria sua vida, e no entanto ele não se arrependia nem por um instante. Eles não podem mais ter minha obediência. Não merecem.

— Nós vamos tentar algo novo com você — disse um dos mogus. — Xuexing, dispare quando quiser.

Yong estava exausto demais para sentir medo de verdade, mas certamente estava curioso. Ele piscou forte e tentou entender a silhueta à sua frente.

Estranho. Parecia que os mogus iam executá-lo com um grande favo de mel branco.

A última coisa que Yong ouviu antes de morrer foi o estalar de energia arcana.

 

O pôr-do-sol do nono dia veio e se foi. Quando amanheceu, Kil’ruk já dominava quedas de cinquenta braças. Ele não estava satisfeito: o falcão mergulhara pelo menos cem. Mas podia sentir as asas ficarem mais fortes, os tendões das costas enEnxameiem a Muralha, rijecerem.

O molda-âmbar mudara o local onde guardava as redes durante a noite. Agora elas estavam nas encostas perto de Klaxxi’vess, lar do conselho cultural dos mantídeos. Quando Kil’ruk retornou da Muralha, ele se quedou por ali, fascinado com a arquitetura cor de âmbar no topo da colina. Ele não podia entrar lá, claro. Entrar no reino dos Klaxxi sem ser convidado significava a morte.

Não pela primeira vez, Kil’ruk se perguntou por que os Klaxxi eram vistos tão raramente. Os mantídeos tratavam o conselho com respeito, mas poucos enxameadores já haviam visto seus membros fora dos limites do lar. Nenhum dos Klaxxi já fora visto juntando-se à luta. Durante uma batalha contínua e gloriosa, o conselho parecia inútil.

O molda-âmbar interrompeu os devaneios de Kil’ruk. — Algo o perturba, enxameador?

Muitas coisas. Kil’ruk fez a pergunta que pesara em sua mente por todo aquele dia. — E as criaturas inferiores?

— Como assim?

Como pode um falcão voar melhor do que eu? Eu sou um dos escolhidos da imperatriz — Kil’ruk não disse isso. Ele se envergonhava de sua incapacidade; não tinha nenhuma vontade de expô-la a outra pessoa. Perguntou outra coisa: — Eu vejo várias criaturas diferentes lutando contra nós na Muralha. Formas diferentes. Tamanhos diferentes. Seres diferentes. Por que elas estão trabalhando juntas?

O molda-âmbar estalou as mandíbulas, achando graça: — Juntas? Os sauroks e os pandarens são escravos dos mogus. Eles não têm escolha a não ser lutar contra nós.

Sauroks? Pandarens? Kil’ruk não conhecia aqueles nomes. Nunca pensara em considerar os defensores como outra coisa que não criaturas inferiores. O molda-âmbar ficou feliz em explicar. — Os lutadores exímios, com escamas, são os sauroks. As criaturas de barriga grande e com pelos são os pandarens.

O molda-âmbar falou à larga sobre os mogus e como eles haviam usado o poder dos usurpadores para estabelecer seu império havia muitos milênios, fortalecendo-se e subjugando outros. As maiores obras dos mogus não teriam sido completadas se não fosse pela força dos escravos conquistados.

Quando Kil’ruk perguntou como os escravos aprenderam a lutar, o molda-âmbar sorriu outra vez. — Os sauroks nasceram para matar. Eles ainda não encontraram outro propósito. Os pandarens, bem… eles não podem pegar em armas de maneira alguma, a menos que seja na Muralha, nos enfrentando.

As patas dianteiras de Kil’ruk tremeram; ele não podia acreditar. — Os mogus mandam criaturas destreinadas para a batalha? Será que são tão tolos assim?

— É verdade, enxameador — disse o molda-âmbar. — Os mogus reprimem a rebelião ainda na infância. Todo pandaren que demonstra sinais de dissensão é enviado à Muralha como castigo. Assim, os mais fortes dentre eles vêm para cá nos enfrentar. Mas tudo o que conseguem é morrer.

Kil’ruk não sabia que os mogus tinham um senso de humor tão farto. Ele riu até as antenas doerem.

 

Um jovem pandaren serviu uma xícara de chá. Algumas gotas caíram no chão, e ele guinchou de medo. Xuexing o ignorou e bebeu o chá polidamente.

— Eu fiquei satisfeito com a demonstração do huatang. O senhor da guerra Gurthan deseja usá-lo na batalha imediatamente — disse Hixin.

— Diga ao senhor da guerra Gurthan — respondeu Xuexing, e suas palavras ressoaram na tenda — que eu desejo discutir pessoalmente e em particular sobre a maneira como ele planeja empregar o huatang.

— Não há necessidade — disse Hixin. O conselheiro entregou-lhe um pergaminho. Uma ordem oficial do clã Gurthan, selada por magia. Xuexing pegou e examinou o documento, desconfiado.

— O que é isso?

Hixin deu um pequeno gole do chá. — É a vontade do senhor da guerra Gurthan.

Xuexing olhou para o outro mogu, cauteloso. Era inconcebível que o senhor da guerra Gurthan usasse aquela criatura política como intermediário, mas o selo parecia genuíno. Ele conjurou um pouco de magia e abriu o pergaminho. Nele havia uma mensagem curta.

Demonstre seu potencial até o anoitecer. Não me decepcione de novo.

Xuexing não disse nada. Só se ouviam o som distante da batalha e a respiração curta e assustada do escravo pandaren ajoelhado em um canto da tenda.

O huatang fora testado apenas uma vez. Em um escravo. Não em batalha. O menor desequilíbrio no fluxo de energia podia enguiçá-lo. Um desequilíbrio maior seria catastrófico.

Batalhas costumam criar desequilíbrios — pensou Xuexing, amargo.

Não que ele fosse admitir aquilo para a criatura reles sentada à sua frente. Xuexing esvaziou a xícara. — Que seja. Diga ao Senhor da Guerra que os céus logo lhe pertencerão. — Ele se ergueu para partir. — Obrigado pelo chá.

Ele não se deu ao trabalho de levar o pergaminho consigo. Hixin observou-o se afastar, não se permitindo sorrir até Xuexing desaparecer de vista.

— Livre-se disso — ordenou Hixin ao escravo, entregando-lhe o pergaminho.

 

— Eu quero uma lâmina — disse Kil’ruk.

O molda-âmbar pareceu intrigado. — Por quê?

— Eu preciso de garras.

— Quê?

— Eu vi como os mantídeos lutam no chão, usando lâminas. Eu quero me unir a eles.

— Você é um dos voadores — disse o molda-âmbar. — Aquilo não é para você.

— Os sem-asa não podem chegar às muralhas. A subida é muito perigosa. Há pilhas de mantídeos mortos ao longo da base da Muralha. Eu tenho asas. Eu posso aterrissar nas ameias vindo de cima.

— Não é para você — repetiu o molda-âmbar, mais confuso do que nunca. — Você ainda sente o desejo da imperatriz, não sente? Ela ordena que você permaneça no ar.

— Eu serei as garras dela — murmurou Kil’ruk.

— Eu não entendo.

— Então não temos mais o que falar.

Ao cair da décima noite, Kil’ruk já conseguia sobreviver a uma queda de setenta e cinco braças.

 

Em seu décimo quarto dia de vida, Kil’ruk conquistou os favores da imperatriz.

Kil’ruk e o resto do grupo estavam jogando pelotas sobre as barbacãs, pairando a salvo fora do alcance dos inimigos. O sentimento incômodo de inutilidade ainda espicaçava a mente de Kil’ruk, mas ele obedeceu ao comando da imperatriz e continuou a fazer chover veneno sobre as criaturas inferiores.

Sua rede ainda não se havia esvaziado quando sons estranhos se fizeram ouvir — estalos, seguidos de um chacoalhar engasgado e cavo, como um tronco de árvore gigantesco se partindo ao meio durante uma tempestade de vento forte.

A primeira reação de Kil’ruk foi ficar confuso. Ele jamais ouvira tal som antes. Um instante depois, gritos assustados de dor e surpresa encheram o ar. Cinco mantídeos voadores mais ao norte caíram, reduzidos a pedaços de carne e asas. Os outros mantídeos estalaram e zumbiram, alarmados. Arqueiros? Com arcos melhorados, talvez? Eles não tinham oferecido ameaça alguma nos ataques anteriores.

Depois de um instante vasculhando o chão, Kil’ruk viu uma forma estranha nos limites do acampamento mogu atrás da Muralha. De sua perspectiva, pareceu primeiro um favo de mel, mas, ao olhar mais de perto, ele viu que era um conjunto de tubos empilhados em um monte arredondado, do tamanho de um mogu. Fumaça branca saía em fiapos das bocas dos canos.

Eles haviam colocado o emaranhado de tubos sobre rodas e mirado diretamente no bando de mantídeos.

Escravos corriam na frente do favo, enfiando mancheias de pedregulhos nos tubos.

Mais estalos encheram o ar.

Kil’ruk entendeu bem a tempo.

 

Xuexing alimentou a parte de trás da arma com poder arcano em uma explosão violenta.

BUM.

O som da explosão sufocou todos os outros, a força percussiva de um golpe de martelo no peito. Fumaça branca nublava sua visão. Ele podia ver o vulto esmaecido de vários escravos pandarens jazendo imóveis no chão em frente ao huatang. Provavelmente mortos. Xuexing não esperara que eles saíssem da frente.

Aquilo ensinaria os outros a ter mais pressa.

À medida que a fumaça clareava, os efeitos da arma se tornavam mais evidentes. O primeiro tiro passara ainda um pouco ao largo do alvo, matando apenas alguns dos voadores na seção norte do grupo, mas o segundo atingira bem no centro. Dezenas de mantídeos voadores caíram. Alguns, em pedaços. Xuexing chegou a ver um mantídeo ainda agarrado à sua rede, as asas imóveis. Talvez três ou quatro voadores no bando inteiro houvessem conseguido escapar ilesos e tido o bom senso de fugir para suas terras, longe do alcance de Xuexing.

— Recarregar! — gritou Xuexing. Os escravos enfiaram mais pedregulhos nos tubos, socando-as com força. Ele começou a reunir com cuidado mais energia para disparar outra vez. Um terceiro tiro provavelmente seria desnecessário, mas por que arriscar? A arma funcionava melhor do que ele sonhara.

O céu naquela seção do Espinhaço da Serpente fora esvaziado com dois tiros. Só dois. Terei que agradecer aos Zandalari por isso, pensou. O poder dos trolls sobre as energias arcanas era primitivo se comparado ao dos mogus, mas observar as técnicas deles dera rumos novos e inesperados às ideias de Xuexing.

Quem mais entre os mogus teria imaginado que pedras diminutas, mesmo que propelidas a velocidades incríveis com energia arcana, poderiam causar tamanho estrago?

 

Os gritos dos feridos vinham de todos os lados. Quase todo o bando fora dizimado. Pedras e pedregulhos haviam destroçado dúzias de mantídeos voadores, abrindo buracos em suas carapaças. Eles caíam, sem controle.

Kil’ruk caiu com eles, mas ele não estava fora de controle. Ele não estava morrendo.

Ele estava mergulhando. Como um falcão.

Um instante antes do favo disparar, Kil’ruk apertara forte a rede contra o peito e encolhera as asas às costas. As pelotas na rede o protegeram do pior do disparo da arma. O resto dos pedregulhos passou zunindo ao redor dele.

O vento passava soprando tão rápido… O coração de Kil’ruk alçava voo enquanto ele caía. Os mogus não deram um terceiro disparo. Deviam ter pensado que todos os voadores haviam morrido.

Era hora de mostrar a eles o seu erro. — Você me vê, Imperatriz? — sussurrou Kil’ruk. O choque do ataque o fizera se esquecer da canção dela, mas tornou a ouvi-la cantar suavemente e instar os enxameadores a avançar. Haveria uma nota melancólica na melodia? Será que ela tinha visto o que a arma dos mogus fizera?

Kil’ruk soltou a rede. Ela pareceu flutuar para longe lentamente. Ele estendeu um pouco as asas, sentindo só um pouco da força do vento que passava. Machucava. Ameaçava arrancar suas asas. Aquela seria uma queda muito, muito mais longa do que qualquer outra que ele tivesse tentado. Talvez ele caísse duzentas braças. Talvez duzentas e cinquenta.

— Imperatriz, observe.

 

— Morreram todos! — disse Xuexing. Com um giro cauteloso do punho e relaxando sua força de vontade, a energia arcana que ele reunira se evaporou de maneira inofensiva. — Vamos para o norte!

Ao norte ficava o Portal do Sol Poente e a maior concentração de mantídeos. Primeiro ele varreria os mantídeos voadores que ainda estivessem por lá, depois…

Uma sombra caiu sobre Xuexing. Mal teve tempo de olhar para cima antes que um guincho ensurdecedor de pura fúria mantídea se abatesse sobre ele.

 

Kil’ruk aterrissou com as patas no estômago do mogu. Ele tentou perfurar a criatura no peito com as patas dianteiras, mas o impacto foi violento demais. O mogu foi arremessado para longe e Kil’ruk caiu para o lado, patinando na lama e rolando até parar contra as finas paredes de tecido de uma tenda de escravo.

Um pensamento tranquilo surgiu na mente de Kil’ruk. Preciso treinar a aterrissagem.

Kil’ruk lutou contra a tontura e se ergueu de um pulo. Ele estava cercado de criaturas inferiores, mas sua chegada dramática os debilitara. Os pandarens e mesmo os sauroks instintivamente recuaram, surpresos.

Um pandaren morto jazia aos pés de Kil’ruk. Ele exibia estranhos ferimentos. Talvez tivesse sido morto pelo favo de mel. Fogo amigo. Uma espada lascada estava perto da criatura. Aço barato, baixo. Patético. Kil’ruk a apanhou mesmo assim. Por um momento, ele sentiu o peso estranho e desajeitado na mão.

Então Kil’ruk se lembrou do falcão, de suas garras, da naturalidade com que ele capturara a presa. Agora eu tenho uma garra.

Súbito, a espada era como uma extensão do seu corpo. Não parecia mais estranha em sua mão que as asas às suas costas.

Kil’ruk ouviu uma explosão ensurdecedora nas ameias. Ele e as criaturas inferiores se encolheram. Ah, sim. Minha rede. Ainda havia muitas pelotas nela quando Kil’rk a soltara durante a queda. Ao atingir o topo da muralha, estouraram imediatamente. Uma nuvem de veneno e ácido se expandiu depressa. Pelo menos iria manter os defensores da Muralha ocupados por algum tempo.

Kil’ruk permitiu que as asas o impelissem até a massa de criaturas perto do favo de mel. Sua nova garra arrancou sangue quase imediatamente.

 

Era loucura. Mantídeos voadores nunca lutavam de perto, no chão. Nysis gritou uma ordem aos companheiros sauroks: cercar e atacar. Até mesmo os melhores lutadores mantídeos acabavam sucumbindo àquela tática. Se os escravos pandarens fossem espertos, sairiam da frente. Se não…

O voador enlouquecido pulou em um pandaren que fugia e rasgou seu torso com as patas dianteiras. Nysis avançou, golpeando com a lâmina de aço, mas as asas do mantídeo zumbiram e a criatura alçou voo, saindo de alcance.

Nysis hesitou.

O mantídeo desceu e estripou outro saurok com um golpe que pareceu quase casual. Então ele alçou voo outra vez. Cercá-lo não ia funcionar. Ele tem asas. O pensamento era como gelo na mente de Nysis. Se não podiam cercá-lo, o que podiam fazer? O mantídeo se debruçou sobre um saurok moribundo e Nysis pulou para golpear o seu flanco desprotegido.

Para sua surpresa, a espada foi bloqueada por aço. O mantídeo tinha pegado outra lâmina, a espada do saurok moribundo.

O mantídeo girou e golpeou com as duas espadas. Nysis consegui aparar apenas um golpe. Ele sentiu a pontada de uma perfuração profunda e mortal no peito. O mantídeo girou para longe e pulou sobre novos oponentes, gritando algo estranho sobre uma “imperatriz”.

Nysis desabou no chão e sentiu o calor de sua vida se esvair e embeber a lama fria.

Loucura.

 

Isso não está acontecendo. Xuexing disparou outro tiro e errou novamente. Não pode estar acontecendo. O outro mogu ali perto cambaleou para longe; seu fêmur se partira, transpassando a coxa. É só um mantídeo!O voador se ergueu no ar no instante em que Xuexing ateava fogo ao chão sob suas patas.

Não era hora para delicadeza. Xuexing se agachou e juntou as mãos, reunindo todo o poder de que ousava dispor, sem se importar com a proximidade do huatang. A máquina era sensível. Podia reagir mal ao excesso de energia, mas aquele problema ficaria para depois. Agora…

Fink.

Xuexing olhou surpreso para o aço saindo do seu peito. O mantídeo havia atirado uma de suas espadas.Não pode ser verdade, uivou sua mente. Ele caiu de quatro no chão.

Não. Ele não deixaria aquele mantídeo sobreviver. Xuexing continuou a reunir poder enquanto as trevas se adensavam nos limites de sua visão. Estalos de energia pipocavam no ar ao redor.

Ele ergueu uma mão trêmula e cada vez mais fraca na direção do voador.

 

Estampidos ressoaram de todos os cantos, descontrolados e violentos. A expressão no rosto do mogu moribundo disse a Kil’ruk tudo o que ele precisava saber. O mantídeo voador alçou voo sem hesitar.

Usando seu último fôlego, o mogu ergueu a mão na direção de Kil’ruk, mas, antes que ele pudesse liberar o feitiço, o último sopro de vida o abandonou. Seu corpo relaxou, e a energia acumulada subitamente saltou em todas as direções.

O favo de mel tremeu e sacudiu, depois desapareceu em meio a uma onda de choque de pura luz. Kil’ruk continuou subindo aos céus até os ecos da explosão esvanecerem.

Lá embaixo, ele podia ver os limites do acampamento mogu em chamas. Tendas próximas e defensores tinham sido despedaçados pela explosão. Até a face posterior da Muralha da Serpente parecia chamuscada. A arma vil, fosse o que fosse, era instável. Capaz de causar desastre completo a quem tentasse usá-la. Ki’lruk se lembraria disso se encontrasse alguma outra.

Ao voar de volta até o molda-âmbar, ele compreendeu que algo mudara. A imperatriz estava cantando uma nova canção.

Contemplem nosso poder, dizia ela. Contemplem nossa força. A fumaça sobe do acampamento das criaturas inferiores. A nova arma deles foi destruída por um só dos meus favoritos.

— Imperatriz? — disse Kil’ruk. — Imperatriz, você estava vendo? — Suas antenas se curvaram de êxtase. A imperatriz cantava para ele. Meu favorito.

Os enxameadores no chão o observavam passar voando. Bandos de voadores o cercaram e o seguiram de volta para casa. Contemplem minha ira, atacando do alto, cantava a Imperatriz. Contemplem a morte vinda do alto. Contemplem o Aniquilador dos Ventos.

O bando atônito repetiu suas palavras. — Aniquilador dos Ventos.

— Imperatriz — disse Kil’ruk. Ela o vira.

Aniquilador dos Ventos.

Ao se aproximar de Klaxxi’vess, Kil’ruk viu um falcão dar voltas em uma árvore kypari.

Era o mesmo falcão que vira dias antes.

Kil’ruk voou em sua direção. O pássaro o viu chegar e mergulhou.

 

Que delícia, pensou Kil’ruk alguns minutos depois, o gosto de falcão.

 

— Temos muito o que conversar, Aniquilador dos Ventos — disse Klaxxi’va Pok.

Kil’ruk ergueu suas duas lâminas novas, forjadas com a mais pura kyparita por ordem da imperatriz. Elas rebrilhavam à luz do dia. Somente seu favorito pode ter tal honra. — Conversaremos quando as criaturas inferiores tiverem sido destruídas.

— Nós não tomaremos muito do seu tempo.

— A imperatriz ordenou a morte de todas as criaturas inferiores — disse Kilruk. O olhar do mantídeo ancião era estranho. Quase como se estivesse desapontado por Kil’ruk não protelar o cumprimento das ordens da imperatriz. — Atrasos são inaceitáveis.

— Muito bem — disse Klaxxi’va Pok, baixinho. — Tome cuidado. Acredito que as criaturas inferiores farão o possível para impedir você de atingir seu potencial. Elas podem ter outras máquinas vis feito o favo de mel. E as usarão contra você.

— Ótimo. Eu destruirei todas as outras também.

 

O senhor da guerra Gurthan massageava gentilmente a testa do filhote de quílen sentado ao seu lado enquanto via o mantídeo solitário mergulhar na direção das barbacãs distantes. Flechas finas e escuras voaram em sua direção sem atingi-lo. O mantídeo desapareceu atrás dos limites da muralha, e Gurthan não pôde continuar acompanhando a batalha. A julgar pelos gritos vindos do acampamento, os defensores não estavam se saindo bem.

— Por que foi mesmo, Hixin — disse Gurthan, de olho no espinhaço da Serpente —, que o próprio Xuexing entrou na batalha sem minha permissão?

— Ele parece ter superestimado as próprias capacidades, Senhor da Guerra — respondeu Hixin. — É claro que eu implorei a ele durante semanas que o avisasse assim que o huatang ficasse pronto para que vocês dois pudessem formular uma estratégia adequada…

Gurthan não disse nada. Simplesmente retirou do bolso um pedaço de pergaminho, que segurou com o braço esticado. Hixin calou-se no mesmo instante.

Um dos seus conselheiros novatos, Fulmin, pegou o pergaminho e o averiguou. Sua expressão foi ficando intrigada. — Tem o seu selo, Senhor da Guerra.

— De fato tem — disse Gurthan.

Hixin moveu-se inquieto às suas costas.

 

O molda-âmbar trabalhara bem. As lâminas gêmeas de âmbar eram balanceadas e ágeis nas mãos de Kil’ruk, e a armadura servia perfeitamente, sem restringir o voo nem a matança.

Kil’ruk talhou um caminho em meio aos defensores. Eles tinham enviado os seus melhores aquele dia. Ótimo. Ele provaria que os melhores dentre eles não eram capazes de detê-lo.

 

Mesmo àquela distância, o Senhor da Guerra Gurthan podia ver o líquido escuro pingando das lâminas do mantídeo. Ver um mantídeo rasgar uma trilha por seus defensores era enfurecedor. Humilhante. Era para deter coisas assim que o huatang deveria servir.

— Você sabe onde o pergaminho foi encontrado, Hixin? — perguntou Gurthan.

— Não, Senhor da Guerra.

— Um filhote pandaren o entregou. Um dos seus escravos, pelo que eu soube. Ele disse que você mandou que ele o jogasse fora, depois que você o mostrou a Xuixing. Parece que ele achou que teria um mestre menos cruel se denunciasse sua traição — disse Gurthan.

A reação de Hixin foi imediata e veemente. — Mentiras — cuspiu. — Traga-o para mim. Vamos ver o que ele tem a dizer quando…

— O filhote morreu. — As palavras do Senhor da Guerra Gurthan congelaram a língua de Hixin. — Qualquer escravo que toque um selo do clã Gurthan é executado, claro. Mas eu garanto, Hixin, ele foi… encorajado… a falar a verdade antes de morrer.

Os olhos de Hixin moveram-se nervosamente. — Senhor da Guerra, não vá confiar nas palavras finais de um escravo… um filhote! Eu o servi fielmente por anos!

— Eu me lembro desse pergaminho — respondeu o senhor da guerra Gurthan. — “Demonstre seu potencial até o anoitecer.” Eu encantei essas palavras há mais de três anos. Creio que foram endereçadas a um dos meus senhores das feras novatos, pedindo uma demonstração de suas habilidades no treinamento de quílens de batalha. As circunstâncias tornaram o documento redundante e ele nunca foi enviado; por isso o selo não foi rompido, e o pergaminho foi arquivado. Eu andei investigando depois da morte de Xuexing. Parece que roubaram o pergaminho recentemente.

— Senhor da Guerra, eu…

— Você trabalhou como arquivista-chefe por anos, não foi, Hixin?

Hixin caiu de joelhos, balbuciando um pedido de desculpas que não chegou a terminar. O senhor da guerra Gurthan franziu os lábios e assobiou duas vezes: um toque longo, outro curto. O quílen aos seus pés avançou na garganta de Hixin. O conselheiro — ex-conselheiro — deixou escapar um grito engasgado de terror.

Os ruídos desagradáveis duraram pouco tempo. O quílen trotou de volta para o lado do senhor da guerra, lambendo sangue dos beiços. Os outros conselheiros não conseguiam tirar os olhos da cena grotesca.

— Não é para eu saber a verdade — disse o Senhor da Guerra Gurthan a todos eles — da boca de um escravo moribundo.

Ele voltou a encarar a muralha. — A cada cem anos, os mantídeos atacam. A cada cem anos, nós lutamos com eles até chegarmos a um impasse, e então eles recuam para suas terras como se nunca tivessem querido lutar conosco. Ninguém nunca descobriu o porquê.

Gurthan falou em uma voz que era um mero sussurro: — Eu não obtive o comando do Espinhaço da Serpente para me contentar com outro impasse. A arma de Xuexing era a chance de mudar isso, definalmente estabelecer o controle da terra além do Espinhaço da Serpente e finalmente lançar um ataque contra os mantídeos. Essa oportunidade foi sabotada. Vai demorar até construirmos mais huatangs. O que mais podemos fazer?

Os conselheiros permaneceram em silêncio. A maioria ainda olhava para o que restara de Hixin. Por fim, Fulmin limpou o pigarro e disse: — Senhor da Guerra, a relíquia.

O senhor da guerra Gurthan lançou-lhe um olhar sem expressão. A relíquia era um projeto que Xuexing estudara anos antes da chegada do enxame mantídeo; era um objeto fascinante de origem arcana, mas nenhum experimento com ele conseguira produzir nada mais útil que um zumbido irritante. — A relíquia não é uma arma, Fulmin.

— Mas pode funcionar como uma.

— Como? Pelo que sei, seu propósito era a comunicação. — Gurthan fez uma pausa. Uma ideia interessante lhe ocorreu. — Você está sugerindo que poderíamos negociar com os mantídeos? — Talvez, se desse para convencê-los a se unir ao clã Gurthan…

— Não, Senhor da Guerra. A relíquia usa sons que nós não conseguimos ouvir. Xuexing realizou experimentos há muito tempo, mas não encontrou uso para ela. Quando ele testou a relíquia usando um grande influxo de energia arcana, ele descreveu o efeito como uma “parede de som” além de nossa audição — disse Fulmin. — Ele não viu vantagem em usá-la, dados os perigos envolvidos em seu manuseio.

— Aonde você quer chegar? — perguntou Gurthan.

— Os experimentos de Xuexin foram realizados no vale. Nós estamos bem mais perto da muralha agora. Sugiro que energizemos a relíquia sem parar com todo o nosso poder. Quero testar a tal “parede de som”. Se eu estiver certo, a energia arcana não vai facilitar a comunicação entre os mantídeos: vai impedi-la completamente.

Passaram-se vários segundos até que o senhor da guerra Gurthan compreendesse. — Você fala de uma teoria que não foi testada.

— Sim, Senhor da Guerra.

— Que a imperatriz mantídea dá ordens e propósito ao seu enxame, à distância. Que ela pode falar dentro da mente deles.

— Sim, Senhor da Guerra.

Gurthan deixou as implicações daquilo se desenrolarem em sua mente. — Você crê que há uma conexão, que a relíquia e a imperatriz se comunicam da mesma maneira. O que exatamente a relíquia faria se fosse sobrecarregada? Sufocaria as palavras da imperatriz?

— Basicamente, Senhor da Guerra. Talvez possamos abafar sua voz. No mínimo, a relíquia pode confundir os mantídeos. No máximo… — Fulmin deu de ombros. — Não tenho certeza. O efeito pode ser dramático. Acho que provocará uma reação tremenda.

O Senhor da Guerra Gurthan coçou a testa do quílen outra vez. — Se você estiver errado, não conquistaremos nada.

— Se eu estiver errado, não perderemos nada — disse Fulmin.

O senhor da guerra Gurthan sorriu. — Exceto você. Me disseram que a relíquia é instável. Uma vez, ela aumentou cem vezes uma pequena quantidade de energia e a arremessou de volta em um arcanista. Bem desagradável. Bem sujo. — Ele olhou para os restos mortais de Hixin.

Fulmin inclinou a cabeça. — Estou disposto a assumir o risco.

— Encontre a relíquia. Traga-a aqui.

— Sim, Senhor da Guerra.

 

Kil’ruk saiu da Muralha atrás dele. Seus braços e patas dianteiras doíam prazerosamente, cansados após um dia produtivo. Um pequeno corte na pata direita o incomodava um pouco, mas ele chacinara as criaturas inferiores sem um único ferimento maior.

— Imperatriz, você estava vendo? — murmurou. Kil’ruk deixou a canção da imperatriz preencher sua mente e…

Houve um barulho terrível. Um barulho horrendo, troante e assustador. E então, nada.

Ela sumira.

De uma hora para a outra.

Kil’ruk piscou e caiu do céu. — Imperatriz? — perguntou. Suas asas estavam paradas. O chão se aproximava veloz. — Imperatriz?

Ela sumira. O pânico o acossou. Onde antes cantava a voz da imperatriz, apenas um zumbido mortiço restara. Silêncio total. — Imperatriz!

Kil’ruk se lembrou de voar antes de atingir o chão. Ele pairou agilmente, tentando ouvir a voz dela.

Ela se foi. Por que ela se foi? O que aconteceu com ela? Será que ela…?

 

O silêncio repentino do oeste pairava no ar. Por alguns momentos, todos os mantídeos ficaram em silêncio absoluto. E então os gritos de terror, agonia e mágoa verberaram pela terra.

Um sorriso adejou no rosto do senhor da guerra Gurthan.

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