Em Busca por Pandaria Parte 3

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by luizcsilva on 24 de novembro de 2013

O vapor da chaleira enchia o ar com cheiro de menta, lembrando Chon Po das vezes em que Shen-zin Su nadava até latitudes mais altas e os dias ficavam mais curtos e frios. Para vencer as baixas temperaturas, Xiu Li fervia a água do chá, e os dois pandarens aconchegavam as patas ao redor das xícaras de cerâmica e trocavam histórias, cobrindo-se com mantos e o que fosse possível para se manterem confortáveis. Naquele momento não era Xiu Li quem servia o chá, mas a mãe, Mei.

— Você tem estado tão cansado, Po — comentou ela.

Chon Po ergueu a xícara de chá, depois a pousou de novo. Mei se sentou à mesa no mesmo lugar em que Li Li estava na noite em que ele perdeu a cabeça com a filha e Chen; na noite seguinte, Li Li fugiu com a pérola, e desde então as únicas notícias que Po tinha eram cartas vagas. A saudade da filha o corroía por dentro.

— Estou preocupado com Li Li — disse Mei. — E com Chen.

Mei bebericou o chá. O pelo acinzentado que emoldurava seu rosto combinava perfeitamente com os cabelos grisalhos, penteados para trás e presos numa trança. Quando seus olhos se voltaram para Chon Po, ele sentiu uma pontada no estômago. Ela tinha os olhos iguais aos de Xiu Li. Iguais aos de Li Li.

— É natural que você esteja preocupado com sua família.

— O que fiz errado? — soltou abruptamente Chon Po. Mei ergueu as sobrancelhas e deu outro gole no chá.

— Você vai ter que explicar isso melhor.

— Eu falhei. Minha família está despedaçada, e apenas meu filho permanece comigo. Minha filha me odeia. — Sua voz revelava raiva e frustração. Mei meneou a cabeça negativamente.

— Li Li não odeia você, Po. Você não está fazendo a pergunta certa.

— Que pergunta eu deveria fazer, então?

— Você deveria estar se perguntando se crê que a morte do corpo é uma tragédia maior que a morte do espírito.

Chon Po piscou, confuso.

Mei deitou a xícara na madeira da mesa e dobrou as patas.

— Quando Xiu Li morreu, você perdeu uma esposa. Eu, uma filha. Sei o que você teme, pois também passei por isso.— O coração de Chon Po quase saltou pela boca.— Minha filha adorava os barcos de pesca. Ela amava o mar, o modo como o trabalho se dividia entre momentos de lazer, atenção e aventura. E sim, ela também adorava o risco.

Os olhos de Mei desviaram-se de Chon Po. Eles agora pareciam atravessá-lo, mirar alguma memória perdida como se estivesse no horizonte.— Eu me lembro do rosto dela se iluminando no caminho até o barco. Afastar-se da praia e perder-se em mar aberto todos os dias fazia o coração dela cantar.— Os olhos de Mei recuperaram o foco.— Você tiraria isso dela, se pudesse mantê-la por mais tempo?Chon Po apenas encarou o pires e a xícara nas mãos e respondeu:— Forte Bô foi atrás de Li Li no meu lugar e morreu por isso…— A Li Li ou o Chen contaram o que Bô disse antes de morrer, Po?Seus olhos ergueram-se para encarar Mei novamente. A pergunta inesperada o fez estremecer. — Não.— O último sentimento que Bô expressou foi de gratidão por ter acompanhado Li Li em suas viagens. Ele se sentia iluminado, e disse que se tivesse que fazer tudo de novo, faria exatamente a mesma coisa. Ele não se arrependia de nada.Chon Po remoeu a ideia por um instante.— Isso é verdade?

— Po, é impossível dobrar Li Li à sua vontade. Você sabe disso. Ela já o desafiou duas vezes. Li Li é o que é, uma lutadora, tanto quanto você. A sede de conhecer o mundo é parte de quem somos, e nosso lar em Shen-zin Su é prova disso.

— Li Li e Chen me contaram. Não acredito que estivessem mentindo. Os corações de ambos estavam despedaçados por causa de Bô.

— Mei esticou o braço e pousou uma das patas enrugadas sobre a pata de Chon Po.

— Po, é impossível dobrar Li Li à sua vontade. Você sabe disso. Ela já o desafiou duas vezes. Li Li é o que é, uma lutadora, tanto quanto você. A sede de conhecer o mundo é parte de quem somos, e nosso lar em Shen-zin Su é prova disso. Mas ela nunca deixará de ser sua filha. Mesmo que nunca volte, Li Li não está perdida.

— Só me preocupo com a segurança dela. — disse Chon Po, fechando os olhos.

— Ela saberá cuidar da própria segurança — respondeu Mei —, e da própria felicidade

As dunas douradas passavam velozes sob seus pés, cada passo lançando-a metros adiante. O poente brilhava à direita de Li Li, que percorria as montanhas irregulares na fronteira com Tanaris em grande velocidade. A pandarena atravessou um pequeno oásis de cactos no sopé de uma encosta, disparando por entre uma estreita passagem cortada entre as rochas de forma tão abrupta e precisa que parecia ter sido entalhada por algum machado cósmico. Quatro estátuas, austeras e magníficas, vigiavam a estrada. Uma tinha a aparência de uma mulher, as outras ostentavam intrincadas cabeças de animais. Quando Li Li se aproximou, as estátuas esticaram as mãos, convidativas. Intrigada, a pandarena caminhou lentamente em direção aos monólitos, mas o que ela viu foi uma mudança de atitude — com um rosnado, os quatro exibiram garras tal qual foices e as apontaram ameaçadoramente para ela. A boca da pandarena abriu-se e um grito irrompeu ao mesmo tempo em que as quatro estátuas fundiram-se numa só e adquiriram outra forma: Chon Po, seu pai. A criatura continuava a avançar com as mesmas intenções maléficas. Correr foi a primeira alternativa, mas as passadas ágeis que até há pouco lhe eram tão fáceis falharam, atirando-a no chão. Li Li se viu avançando em câmera lenta, cada segundo levando uma eternidade para passar. Quando a estrada ergueu-se para apoiar seus pés, a paisagem se liquefez, transformando afloramentos rochosos cor de cobre num azul cor de safira. O mar remexido por uma poderosa tempestade recebeu a pandarena, ondas do tamanho de Shen-zin Su fazendo com que ela subisse e despencasse violentamente várias vezes. Suas patas batiam convulsivamente para mantê-la na superfície, buscando o ar.

Uma onda a carregou na crista, de onde foi possível ver de relance outra pandarena que nadava na sua direção, perdida no mesmo oceano vil.— Mama! — gritou Li Li.Xiu Li chamou pela filha. Li Li esticou os dois braços em direção à mãe, esquecendo-se de nadar. A onda que a fizera subir não seguiu em frente; em vez disso, quebrou sobre si mesma. Li Li inclinou o corpo para frente, como a ponta de uma lança de água. As toneladas de água impulsionavam a pandarena na direção da mãe em grande velocidade, num paredão de água tão eficaz quanto uma tumba escavada por mãos mortais.

Algo molhado batendo contra a cabeça fez despertando Li Li lentamente. Quando tentou se levantar, a pandarena perdeu o equilíbrio e caiu outra vez, derrubando caixas e esparramando os equipamentos guardados.— Li Li? — A voz preocupada de Chen a acalmou, sufocando o pânico que começava a se instalar. — Você está bem?Li Li se sentou lentamente, esfregando os olhos. Sua mente começava a separar a fantasia da realidade. Ela estava numa carroça, atravessando Tanaris em uma caravana enânica que ia para Uldum.— Sim — balbuciou ela, ainda um pouco zonza por causa do pesadelo. — Tive um sonho ruim. — A imagem do rosto da mãe repleto de desespero invadiu seus pensamentos, forçando-a a se encolher.

— Imaginei. Você pulava enquanto dormia. Até acertou um dos odres. — Chen levantou a pequena bolsa de couro e mostrou a parte molhada, um pouco mais escura. Li Li pressionou a testa com a palma e tentou fazer uma piada, mas não conseguiu.

— Sobre o que você estava sonhando? Quer falar sobre isso?

— Começou como a visão que a pérola me revelou em Geringontzan. Eu viajava por Tanaris, e lá estavam o oásis, a passagem com as estátuas. Aí… — Li Li se perdeu em pensamentos. Chen esperou pacientemente.

— Aí virou um pesadelo. Eu estava… presa. Numa tempestade em alto mar.Chen não pediu mais detalhes: — Tudo bem, Li Li — disse. Sua mera presença deixava Li Li mais segura do que ela admitiria.Os dois passaram pelo tecido que cobria a frente da carroça e subiram até o banco de madeira de onde a condutora, Felyae, uma anã de cabelo cor de carvão, guiava o veículo. As areias douradas de Tanaris estendiam-se em todas as direções. A única pausa do absoluto tédio visual era a cordilheira a sudoeste, que surgira no horizonte alguns dias atrás, enquanto o grupo se embrenhava entre as dunas. Saber que a caravana se aproximava dos limites do deserto era um raio de luz jogado nos corações de todos, motivando-os a prosseguir com ânimo.

As areias douradas de Tanaris estendiam-se em todas as direções. A única pausa do absoluto tédio visual era a cordilheira a sudoeste, que surgira no horizonte alguns dias atrás, enquanto o grupo se embrenhava entre as dunas. Saber que a caravana se aproximava dos limites do deserto era um raio de luz jogado nos corações de todos, motivando-os a prosseguir com ânimo.

— Como tu tá, guria? —perguntou Felyae suavemente. — O sono que tu tirou não foi muito tranquilo.

— Ela teve um pesadelo — respondeu Chen, antes que Li Li pudesse dizer algo.

— Bah, o calor do deserto deixa mesmo qualquer um jururu — respondeu a anã, batendo as rédeas do camelo contra a coxa para enfatizar o que queria dizer. — Dá pesadelo e alucinação em qualquer um.

Li Li jamais havia pensado nas visões da pérola como alucinações, mas as experiências das últimas semanas a convenciam a repensar isso. Ao chegar a Geringontzan, sua esperança era contratar um navio usando os contatos de Fátia e seguir com Chen para o sul, em busca de Pandária. Mas mesmo com o auxílio de uma renomada pirata, encontrar um capitão disposto tinha sido uma tarefa impossível. Outra vez ela se voltou para a pérola em busca de conselhos, e obteve como resposta a visão da trilha que cortava Tanaris e cruzava as montanhas até dar em Uldum. Ela e Chen caíram na estrada, juntando-se a um grupo de anões da Liga dos Exploradores

— Mais um ou dois dias e chegamos à fronteira — comentou Felyae, quebrando o silêncio. — Qual é o plano de vocês em Uldum?

— Ir até a cidade — respondeu Chen.

— Ah, Ramkahen?

— Hum, sim. Ramkaaa… hen. — Li Li tropeçou na pronúncia. Até agora ela sequer sabia o nome da cidade. — A que fica à beira do lado. É essa?

— Na margem norte — confirmou Felyae. — Batizada com o nome do povo que vivia lá.

— Os tol’vir — completou Chen. Felyae concordou a cabeça, o que o motivou a fazer mais perguntas. — Você sabe muito sobre eles? Eu não sei quase nada.

— Bueno — começou Felyae pensativamente —, os tol’vir são meio que nem centauros, mas com ancas de gatos, em vez de cavalos.

Chen inclinou o corpo na direção dela, visivelmente fascinado: — Que incrível!— Ô! — exclamou a anã. — Já estive em Ramkahen um punhado de vezes, hasta encontrei uma meia dúzia deles. Os tol’vir se dividem em tribos, batizadas com os nomes das cidades em que vivem. Os Ramkahen vivem em Ramkahen. As outras duas tribos, os Neferset e os Orsis, já eram.— O que aconteceu com elas? — perguntou Li Li.

Felyae meneou a cabeça com tristeza: — Guerra. Guerra civil. Agora só restaram os Ramkahen.

— Isso é horrível — disse Chen em voz baixa.

— Ô! —concordou Felyae. — Desde o fim da guerra não fui mais à cidade, então não posso dizer o que vocês devem esperar, mas era um lugar judiado. Muito bonito, mas cheio de tristeza, de laço a laço.

Os três permaneceram em silêncio, sacudindo ao sabor do vagão, vendo o camelo subir o aclive da milésima duna. No topo, foi possível ouvir a voz de Dalgin, o líder da caravana:

— Já dá para ver o Vale Moitagulhas no rumo do sopé! Estamos muito perto de Uldum!”

A excitação de Dalgin era contagiante, e Li Li, Chen e Felyae sorriram, apesar da conversa sombria que travavam antes. Li Li sentiu um estremecimento descer pela espinha, nervosa. Nenhuma das cartas de Chen descrevia Uldum.

Quando chegaram ao vale, o ânimo de todos melhorou. A areia deu lugar a um solo mais firme, e a caravana acelerou. As montanhas hirtas se postavam logo à frente deles, revelando por uma estreita fenda a passagem por onde a estrada se estendia.Dalgin sempre indicava o que estava acontecendo: — Estamos nos aprochegando da passagem! — gritou. — De noite chegamos no acampamento!A caravana avançava resoluta na direção das muralhas, adentrando as sombras sem hesitação. Adiante, as estátuas guardiãs flanqueavam os viajantes, ainda maiores que na visão de Li Li. Ao se lembrar do sonho, a pandarena se encolheu, mas os monólitos permaneciam imóveis, imponentes, mas inofensivos.

Adiante, as estátuas guardiãs flanqueavam os viajantes, ainda maiores que na visão de Li Li. Ao se lembrar do sonho, a pandarena se encolheu, mas os monólitos permaneciam imóveis, imponentes, mas inofensivos.

Os cascos dos camelos estalavam contra o pavimento de pedra, ecoando como sinos distantes. Li Li virava a cabeça em todas as direções, desejando conhecer o povo que criara este lugar, ouvir suas histórias, saber mais sobre sua arte. Chen surgiu em seu campo de visão portando a mesma expressão de curiosidade e fascínio. Será que Liu Lang também tinha se sentido assim? Esse era o sentimento que havia feito com que ele e os seguidores se dedicassem a uma vida de exploração? O coração da pandarena se encheu de pesar quando veio o primeiro pensamento sobre o próprio pai. Ele não fazia ideia do que estava perdendo.

A luz cobriu outra vez a caravana assim que a estreita passagem terminou. A estrada seguia para oeste, na direção de uma imensa ruína. À frente, uma tumba era protegida por uma estátua meio humana, meio felina, dotada de asas e segurando uma enorme espada. Li Li estava tão ocupada encarando a criatura de pedra que mal percebeu quando a caravana parou repentinamente. Foi a voz de Dalgin que a tirou do transe:— Pelas barbas de Brann, o que significa isso? Por que você está apontando essas coisas pra gente?Li Li, Chen e Felyae olharam-se, desconfiados. Instintivamente, Li Li esticou o braço para pegar o cajado na parte coberta da carroça, mas Chen a impediu e, com a outra pata, apontou paras as ruínas. Os olhos dela acompanharam o movimento.Várias criaturas se moviam em direção à caravana, seres de cor dourada-escura ou negros como ônix, com torsos humanos, mas cabeças e pernas felinas. Li Li prendeu a respiração — tol’vir! —, mas a excitação durou pouco. Justo os primeiros tol’vir que viam não tinham cara de muitos amigos e estavam armados.— Mas bah! —gritou Dalgin, caminhando na direção dos tol’vir. — Não fizemos nada!

O líder dos tol’vir, facilmente reconhecível pelas vestes e ornamentos sobre o peito e as costas, deu um passo à frente. Numa das mãos, uma imensa lança sustentada sem esforço algum. Dalgin tinha a metade da altura da criatura, talvez menos, o que aumentou a admiração que Li Li sentia por ele. Principalmente pela coragem, ou talvez inconsequência.

— Vocês precisam nos acompanhar até a cidade de Ramkahen — disse o líder das criaturas — para se explicar ao Rei Phaoris.

— Oigalê! Tu só pode estar brincando. A gente estava só dando uma olhada! — questionou Dalgin. — Documentando umas coisas, fazendo anotações…

— Vocês serão escoltados até a cidade — repetiu o tol’vir, impassível. Dalgin balbuciou algo na língua dos anões, enquanto Li Li, imaginando o que ele falara, divertia-se em silêncio. A caravana avançou sob a escolta dos austeros tol’vir, que guiavam o grupo em silêncio na direção de Ramkahen

O grupo entrou na cidade por um grande rio que cruzava um oásis. Li Li estava extasiada com o lugar, imaginando a diversidade de vida que se nutria do mesmo rio em lugares totalmente diferentes daquele. Palmeiras e samambaias com folhas enormes amontoavam-se na areia, projetando sombras que serviam de abrigo para várias criaturas: sapos, rãs, lagartos e pássaros de pernas compridas. Era incrível que um pequeno pedacinho de paraíso como aquele sobrevivesse em meio ao deserto escaldante.

As árvores ralearam subitamente. Quatro pilares de pedra erguiam-se da terra, e depois deles, duas grandes estátuas com cabeça de águia guardavam a entrada da cidade. Ao sul, a superfície do Lago Vir’naal brilhava como um campo de diamantes sob o sol inclemente.

Enfim, Ramkahen. Os tol’vir os conduziram para dentro da cidade, ordenando que as carroças ficassem do lado de fora dos portões. Li Li tomou o cajado cautelosamente nas mãos enquanto caminhava ao lado do maior dos homens-gato, mas nenhuma das criaturas prestou atenção.

Ramkahen certamente seria fascinante para os pandarens, se as circunstâncias fossem diferentes. Mas, naquela situação, Li Li não conseguia notar a beleza do pavimento das ruas, ou como eram bem acabados os toldos coloridos que ornavam todas as portas; nem ela nem Chen se sentiam tranquilos o suficiente para extrair o melhor do lugar.

Enquanto o grupo avançava, uma movimentação anormal ficou evidente. Um grupo de tol’vir estava reunido em círculo no centro da cidade, urrando e gritando nervosamente. Guardas permaneciam em alerta em volta da enorme praça, observando a turba, esperando qualquer indício de comportamento potencialmente perigoso.— O que está havendo? — Chen perguntou em voz alta.Uma enorme construção se avultava ao norte da praça, exibindo uma escadaria larga que levava a um terraço elevado. Cinco tol’vir agrilhoados postavam-se nos degraus, escoltados por outros três; uma das escoltas tinha o rosto completamente coberto, portando uma máscara magnífica. À distância, Li Li teve dúvidas, mas a pele dos prisioneiros parecia de alguma maneira diferente da pele dos outros. Ela apertou os olhos, tentando ver melhor.

Uma enorme construção se avultava ao norte da praça, exibindo uma escadaria larga que levava a um terraço elevado. Cinco tol’vir agrilhoados postavam-se nos degraus, escoltados por outros três; uma das escoltas tinha o rosto completamente coberto, portando uma máscara magnífica.

Um dos tol’vir que escoltavam os prisioneiros pediu silêncio à multidão.— O Rei Phaoris dirige-se a vocês! Calem-se e ouçam!A multidão aquietou-se. O tol’vir mascarado — o Rei Phaoris — falou, mas não se dirigia ao povo reunido, e sim aos prisioneiros. Sua voz potente ecoava nos quatro cantos da praça.— Vocês, os últimos Neferset, são acusados de conluio com o dragão Asa da Morte; acusados de aceitar sua oferta de reverter a maldição da carne em troca de lealdade a ele e seu aliado, o lorde elemental do ar Al’Akir; acusados de usar o poder fornecido por eles para atacar o próprio povo…— Tio Chen, o que é maldição da carne? — sussurrou Li Li.— Não sei — respondeu ele, também mantendo a voz muito baixa.— Ela só afeta criações dos titãs — respondeu Felyae em voz baixa, de pé ao lado deles. Os dois pandarens piscaram, surpresos. — Os titãs fizeram a maioria das criaturas deles com pedra, e algumas outras usando outros meios mecânicos, para que cumprissem as tarefas sem que se deteriorassem ou enfraquecessem. Mas umas outras criaturas com baita poder mágico e baita maldade, cheias de querelas com os titãs, sabotou as criações transformando os corpos delas em carne, feito as outras criaturas de Azeroth.— Como você sabe de tudo isso? — Li Li falava bem baixinho, e Felyae meio sorriu, meio contorceu o rosto.

— Porque ela atinge os anões. Já fomos criaturas de pedra, criadas pelos próprios titãs.

Estava estampado no rosto de Felyae que ela não sabia exatamente como se sentia sobre ser feita de carne. Li Li se manteve em silêncio, pensando sobre a Cervafest que conheceu no tempo em que passou em Altaforja, e achou que a festa certamente não seria tão alegre e animada se os anões ainda mantivessem sua estrutura rochosa. A pandarena não conseguiu evitar uma pontinha de satisfação ao saber que os anões eram criaturas de carne e osso, como ela própria.

— Então os tol’vir devem ter sido criados pelos titãs — comentou Chen. Felyae concordou.

Do topo das escadas, o Rei Phaoris encerrava seu discurso. Li Li tinha perdido a segunda metade inteira.

—… o Alto Conselho discutirá a questão até o fim do dia de hoje e pelo dia de amanhã. No dia seguinte, seus destinos serão decididos. Se algum de vocês tem mais algo a dizer, a hora é agora!

— Matem os prisioneiros! — Um gritou emergiu da multidão.— Façam os traidores sofrer! — gritou outra voz.— As deliberações terão início agora — dirigiu-se o Rei Phaoris à turba enraivecida. — Qualquer cidadão que deseje expressar seus argumentos quanto à situação, deve falar diretamente ao conselho.

Os prisioneiros Neferset foram levados por um grupo de soldados ao som de gritos e vaias da turba. O Rei Phaoris e seus companheiros entraram no magnífico prédio e desapareceram. A multidão começou a se dispersar lentamente, e ainda era possível ouvir murmúrios raivosos em determinados pontos. Os tol’vir que acompanhavam Li Li, Chen e os anões, os fizeram andar até a escadaria, para dentro do enclave do rei.

O grupo foi levado até o Rei Phaoris, que os observou por longos minutos antes de falar.

— Meus guardas os trouxeram a mim por alguma razão — observou friamente. — O que fazem aqui?

Dalgin deu um passo adiante: — Nós somos arqueólogos — respondeu, estufando ligeiramente o peito cheio de orgulho. — Da Liga dos Exploradores de Altaforja. Estamos aqui para aprender o que der das ruínas ancestrais de Uldum.

Li Li podia jurar que viu Phaoris olhar de lado, impaciente, mas com a máscara era impossível ter certeza. O suspiro, contudo, ela ouviu.

— Uma expedição de gnomos andou revirando as ruínas do sul, e todos os membros enlouqueceram — anunciou o rei com a voz transbordando irritação. — É verdade que estrangeiros como vocês forneceram um auxílio inestimável durante a guerra recente, mas lembre-se de que são convidados em nossas terras. Algumas coisas estão melhores enterradas. Permaneçam na cidade, por ora, mas não ponham nossa hospitalidade à prova. Podem ir.

Os anões saíram em fila, resmungando. Li Li ouviu expressões como “obstrução ao academicismo” e “queimar pólvora em chimango” e precisou conter o riso. Chen vinha logo atrás, percorrendo a sala toda com os olhos, extasiado com a arquitetura e a decoração do lugar. Diminuindo o passo para caminhar com o tio, a pandarena sorriu.

Vendo que ficavam para trás, os dois pandarens correram para alcançar os anões, que já procuravam pela taverna ou equivalente de Ramkahen mais próxima. No instante em que passava pela ombreira da porta, Chen foi atropelado por um tol’vir que corria para dentro do prédio.

— Rei Phaoris! — o tol’vir berrava. — Preciso falar com Vossa Majestade e o Alto Conselho.

O Rei bufou escancaradamente: — Já ouvimos o que você tem a dizer, Menrim.

— Por favor, por favor — repetia Menrim —, ouça o que tenho a dizer. Os prisioneiros Neferset merecem misericórdia…

Li Li ouviu expressões como “obstrução ao academicismo” e “queimar pólvora em chimango” e precisou conter o riso. Chen vinha logo atrás, percorrendo a sala toda com os olhos, extasiado com a arquitetura e a decoração do lugar. Diminuindo o passo para caminhar com o tio, a pandarena sorriu.

— Eu já sabia que você diria isso — desdenhou um dos membros do conselho. O Rei Phaoris ergueu a mão, ordenando silêncio.

— Menrim, eu sei que você se preocupa com os destinos que daremos a eles. O Alto Conselho garantirá que a justiça seja feita, da maneira como for.

— Eles iniciaram uma guerra e foram derrotados. Já não é o bastante? Temos que responder sangue com sangue?

Outro tol’vir balbuciou no fundo da sala algo que soou como um contundente “Sim.”

Li Li e Chen correram para fora da construção, esgueirando-se enquanto as atenções de todos estavam voltadas para Menrim. Enquanto hesitavam na praça, sem saber para onde ir, Menrim saiu pelo topo das escadas arrastando as patas cor de areia. O abatimento transparecia em tudo nele, tocando o coração de Chen. Num impulso, o pandaren decidiu falar com o tol’vir solitário:

— Ouvi por acaso o que você disse ao rei. Você tem muita coragem. Não é fácil advogar misericórdia aos que lhe fizeram mal.

As palavras do estranho surpreenderam Menrim. Seus olhos miraram os dois pandarens, obviamente longe de casa. Sua boca continuava sem dizer nada, mas ao menos os olhos já não pareciam assombrados.

Meu nome é Chen Malte do Trovão. Minha sobrinha Li Li e eu somos novos aqui. Gostaríamos de lhe desejar força para vencer esse período conturbado.

— Meu nome é Menrim. Obrigado pelas palavras. — O homem-gato parou por um instante. — Seria um prazer receber você e sua sobrinha para o jantar, se aceitarem.

— Seria uma honra, Menrim — disse Chen.

Menrim vivia numa casinha modesta, de frente para o Lago Vir’naal. Como o ocaso já assomava no céu, as luzes acesas na cidade que ficava do outro lado da água refletiam na superfície do lago.

— Que cidade é aquela? —perguntou Li Li, indicando as luzes alaranjadas e vermelhas da janela da cozinha, onde ajudava o tol’vir a lavar a louça após a refeição.

— Mar’at. Era vizinha de Orsis, quando Orsis ainda existia.

— Orsis foi destruída na guerra? Menrim primeiro respondeu à pergunta de Li Li meneando a cabeça, e só depois acrescentou:

— Sim. Al’Akir mandou seus exércitos enterrarem-na com uma tempestade de areia. Orsis e Neferset eram lugares realmente lindos, especialmente Neferset.

— Você já esteve lá?

— Eu nasci lá. —respondeu o homem-gato com um suspiro.

— Ah. — exclamou Li Li, esfregando a toalha no prato nervosamente. — Você é Ramkahen?

— Agora sou — respondeu Menrim depois de alguns instantes. — Mas já pertenci à tribo Neferset.

— Ah. — exclamou de novo Li Li, se concentrando no trabalho.

— Eu… — começou Menrim primeiro com uma fagulha de orgulho desafiador manifestada na voz, mas depois fechando a expressão. — Isso não parece incomodar você.

Li Li piscou: — E deveria?

Menrim a encarou por um segundo, enquanto refletia: — Acho que você não consideraria acharia minha herança necessariamente estranha.

— Menrim, eu não sei nada sobre seu povo. Houve uma guerra civil, e ouvi que os Neferset se aliaram ao Asa da Morte. — O tol’vir estremeceu ao som do antigo Aspecto Dragônico. Li Li prosseguiu. — Mas você não se parece nada com um aliado do Asa da Morte. Falta principalmente morte em você.

Menrim deu o mais discreto dos sorrisos como reposta às palavras de Li Li.— E asas — observou ele. Li Li revirou os olhos, divertindo-se com a piada. Menrim respirou fundo.— Nesse caso, há uma história que quero contar a você e ao seu tio.— Nós amamos histórias — disse Li Li. O tol’vir sorriu.— Talvez não essa — respondeu ele.

Chen e Li Li estavam sentados com as pernas cruzadas no chão da sala da pequena casa. De frente para eles, com as pernas dobradas abaixo do corpo, Menrim começou a falar:— A cidade de Neferset fica ao sul daqui. É… Bem, era magnífica, muito maior que Ramkahen. Foi lá que nasci, e também meu irmão, Bathet.“Todos os tol’vir conhecem muito bem nossa história. Sabemos que somos construtos dos titãs, com a tarefa de proteger Uldum e seus segredos. Dito isso, também somos um povo, não autômatos. Os titãs nos deram originalmente corpos de pedra para sermos guardiões melhores.””Quando a maldição da carne se abateu sobre os tol’vir, amaldiçoamos os novos corpos, frágeis e fracos, mas não havia nada que pudéssemos fazer para revertê-la. A única solução era aceitar e continuar com a vida. Mas muitos nunca pararam de lamentar a perda.”

“Todos os tol’vir conhecem muito bem nossa história. Sabemos que somos construtos dos titãs, com a tarefa de proteger Uldum e seus segredos. Dito isso, também somos um povo, não autômatos. Os titãs nos deram originalmente corpos de pedra para sermos guardiões melhores.”

“Como vocês sabem, o grande dragão Asa da Morte recentemente retornou ao mundo, aliando-se a Al’Akir, o senhor dos elementais do ar, e aos Deuses Antigos, a fonte da maldição.”— Aliado aos Deuses Antigos? — repetiu Chen, em voz baixa. — Não acredito…— Acredite — retrucou Menrim. — Quando o Asa da Morte veio, ofereceu uma barganha aos tol’vir: uma aliança com ele em troca dos corpos de pedra novamente. A maldição seria revertida.Li Li e Chen menearam a cabeça, concordando.— Meus irmãos Neferset, liderados pelo Faraó das Trevas Tekahn, aceitaram. Eu, contudo, tinha outros planos.Menrim fez uma pausa para se recompor.

— Eu bem que tentei convencer os outros Neferset de que não era uma boa ideia. Sim, nós recuperaríamos nossos corpos de pedra, mas teríamos uma dívida eterna com Al’Akir e o Asa da Morte. Meu povo era arrogante, e acreditava que poderíamos subjugá-los e obter novamente nossa independência quando recuperássemos nossa velha rigidez. Menos e menos Neferset compartilhavam da minha hesitação. Nem mesmo Bathet concordou comigo. Eu implorei para que ele reconsiderasse, mas ele não deu ouvidos e se tornou um dos maiores defensores da troca entre toda da tribo. Num determinado momento, minha segurança ficou em perigo. Fugi para Ramkahen e jurei lealdade ao Rei Phaoris. Quando o restante dos Neferset se tornou abertamente hostil, fiz o que pude para ajudar a derrotá-los.

— E seu irmão? —perguntou Chen, suavemente. — O que aconteceu com ele?

Menrim não respondeu imediatamente. Seu rosto parecia cansado, iluminado pela luz alaranjada das lâmpadas a óleo.

— Ainda está vivo. — respondeu Menrim com a voz trêmula. — Ele é um dos prisioneiros dos Ramkahen. Os que aguardam a decisão do Alto Conselho sobre seus destinos.

Chen não conseguiu pregar os olhos naquela noite, rolando acordado de um lado para o outro, encarando o teto da sala da casa de Menrim. O ronco suave de Li Li era um indício de que ela dormia, mas ele sabia que o sono da sobrinha era muito leve. Ela rolou e se revirou por uma hora inteira antes de sucumbir ao cansaço.

O pandaren, contudo, não conseguia descansar. Era perfeitamente compreensível que Menrim ousasse se opor aos outros tol’vir e advogar a favor da misericórdia aos prisioneiros de guerra Neferset. Bastava imaginar como ele se sentiria se Chon Po estivesse à beira da execução, ainda que por crimes como os de Bathet, para saber que também faria tudo o que pudesse para salvar a vida do irmão. Quanto mais Chen pensava, mais seu estômago se revirava, pondo-se na pele de Menrim, sabendo que poderia ser a única esperança entre o irmão e a morte. Na calada da noite, Chen se levantou e foi até a cozinha para se sentar à mesa, sentindo-se ao mesmo tempo desesperadamente inquieto e extremamente cansado.

— Também não consegue dormir? — A voz do tol’vir assustou Chen, arrancando-o de seus pensamentos. Os ouvidos do pandaren não captaram nenhum passo na sala, fazendo-o pensar sobre o quão maravilhoso era Menrim, apesar do tamanho, ser capaz de se mover tão silenciosamente quando um gato doméstico.

— Peço perdão pelo desconforto do chão — disse Menrim, ao que Chen respondeu sacudindo a cabeça com firmeza.

— Já dormi em lugares muito piores, acredite em mim. Estou acordado porque não consigo parar de pensar sobre o que você contou depois do jantar.

O tol’vir suspirou: — Eu também. Todos aqui conhecem minha história. Alguns já foram solidários, outrora, mas a guerra endurece até o mais compassivo dos corações.

— Também tenho um irmão, o pai de Li Li. Nunca fomos grandes amigos, mas não consigo sequer imaginar como seria terminar em lados diferentes de uma guerra.

O olhar de Menrim se perdeu ao longe. — Argumentei longamente com o Alto Conselho. Nem todos estão dispostos à misericórdia apenas pela misericórdia, mas alguns estão dispostos a considerá-la se os prisioneiros de declararem arrependidos. Já tentei convencer Bathet, mas ele diz que não sente nenhum remorso. — A voz do tol’vir falhou, e ele baixou a grande cabeça felina até o peito, baixando as orelhas.

— Minha família é tudo o que me importa. Sempre tentei ser um exemplo, por ser mais velho que Bathet. Queria mostrar como viver uma boa vida, mas também não queria ficar em seu caminho. Tentava não dizer a ele o que fazer, mas sempre falava honestamente quando ele me procurava. Quando ele se tornou um defensor tão ávido da oferta do Asa da Morte… Passei muito tempo me perguntando onde foi que eu errei.

— As escolhas dele não são responsabilidade sua — disse Chen. — Você só pode viver sua própria vida, e ser fiel a si mesmo. Foi o que Bathet provavelmente fez, por mais estranho que pareça. Talvez ele realmente achasse que estava fazendo a coisa certa.

— Talvez — respondeu Menrim, sem encarar Chen. — Acho que vou voltar para a cama. Boa noite.

— Boa noite — respondeu Chen. Ele sabia que suas palavras não tinham oferecido nenhum conforto. Sentindo-se inadequado, jurou fazer o que pudesse, tudo o que pudesse, para ajudar Menrim e o irmão.

Na manhã seguinte, antes de Li Li acordar, Chen saiu para descobrir onde os Neferset presos estavam sendo mantidos. Os tol’vir mostraram uma tendência de hostilizá-lo sempre que tocava no assunto, mas eventualmente uma orquisa apontou para o portão leste, por onde ele e Li Li chegaram no dia anterior. A rampa que se entranhava na terra, que nenhum dos dois soube o que era, dava para a entrada de uma prisão. Chen agradeceu e seguiu seu caminho.

Dois chacais sentados sobre enormes pilares guardavam o topo da rampa. Chen se deteve e os observou, esperando conseguir influenciar positivamente a situação, mas, ao mesmo tempo, se perguntando que diferença uma única pessoa pode realmente fazer. Bem, ele já tinha visto indivíduos realizarem grandes feitos, isso era inegável. Respirando fundo, Chen desceu pela trilha. No fundo, um guarda Ramkahen bloqueou a entrada:

Dois chacais sentados sobre enormes pilares guardavam o topo da rampa. Chen se deteve e os observou, esperando conseguir influenciar positivamente a situação, mas, ao mesmo tempo, se perguntando que diferença uma única pessoa pode realmente fazer.

— O que quer aqui? — exigiu saber, brandindo um pique com, pelo menos, a altura do próprio Chen.

— Bem… Eu queria falar com os prisioneiros Neferset — declarou Chen.

— Para quê? — pressionou o guarda.

— Aprendizado. Quero saber o que os fez fazer o que fizeram.

O guarda inclinou o corpo na direção do pandaren, examinando-o dos pés à cabeça. — Você tem uma aparência muito esquisita — salientou. — E obviamente não tem nada a ver com um tol’vir. Se quiser falar com os prisioneiros, terá que deixar todos os seus pertences comigo. Lá dentro outro guarda ficará de olho em você.

Chen assentiu, deixando cair o cajado e a mochila. — Obrigado — respondeu o pandaren, empurrando a porta.

A estrutura subterrânea obviamente não tinha sido pensada como uma prisão, mas convertida às pressas para servir a esse propósito. Como o tol’vir avisara na entrada, outro guarda postava-se próximo aos prisioneiros, observando-os atentamente.

Os Neferset estavam acorrentados às paredes de pedra, em jaulas instáveis que obviamente haviam sido construídas de forma improvisada. Chen se perguntou qual era o real objetivo do Alto Conselho ao manter estes tol’vir presos por tanto tempo.

— Qual de vocês é Bathet? — perguntou o pandaren.

— Aquele. — Foi o guarda Ramkahen quem respondeu, apontando para uma jaula encostada na parede da direita.

Chen fez um gesto de agradecimento e se aproximou do irmão de Menrim.

Agora que os olhos já estavam acostumados à escuridão dos subterrâneos, Chen observou longamente Bathet e os outros prisioneiros. Pareciam mais golens do que seres vivos.

— Então, você é Bathet? — começou Chen.

— Não interessa — rosnou de volta o Neferset. Seus olhos eram exatamente o oposto dos de Menrim: ferais, frios, furiosos.— Responda — vociferou o guarda, acertando as barras da jaula com o pique. O tinido de metal contra metal ecoou longamente pelo grande salão subterrâneo.Bathet olhou com desdém e não respondeu. Dentro da jaula, andava de um lado para o outro, exibindo os dentes para Chen de quando em quando. O guarda acertou as barras outra vez com a arma.— Estou aqui em nome do seu irmão, Menrim — afirmou Chen.Bathet piscou, depois gargalhou desrespeitosamente na cara de Chen.— Bem, isso explica por que você perderia tempo conosco, os perdedores, nesse buraco! Imagino que Menrim tenha implorado para você vir aqui me trazer um pouco de juízo.

Agora que os olhos já estavam acostumados à escuridão dos subterrâneos, Chen observou longamente Bathet e os outros prisioneiros. Pareciam mais golens do que seres vivos.

— Na verdade ele nem faz ideia de que estou aqui — respondeu o pandaren. Bathet gargalhou de novo.— Melhor ainda! Ele tocou tanto seu coração que você veio fazer o trabalho sujo no lugar dele! Magnífico!Chen inclinou um pouco a cabeça e encarou Bathet. Ele sabia que continuar contra-argumentando só resultaria em mais escárnio, por isso parou para refletir sobre a melhor maneira de fazer com que o Neferset conversasse com ele.— Esse é realmente um lugar bem sujo para se trabalhar — observou Chen, olhando em volta. — Suponho que nenhum de vocês tome banho há algum tempo, mas ser um pedregulho deve ter algumas vantagens.O guarda Ramkahen primeiro pareceu ofendido, mas mesmo assim riu em silêncio. Bathet parecia surpreso e Chen começou a esfregar o pelo preto e branco das costas com uma escova imaginária. Depois cruzou os braços e fez a expressão mais canalha que conseguiu para o tol’vir.Funcionou.

— Sim, continue achando que vocês, criaturas de carne, são mesmo superiores. Na verdade, diga isso ao meu irmão também. E quando disser, dê uma boa e longa olhada para a cara moralista e chorosa de sofredor dele, e note como seus olhos estarão marejados quando ele suspirar “Ah, Bathet, estou tão desapontado com você”. Nessa hora, deixe que ele saiba que é um…

O tol’vir começou a destilar uma torrente de epítetos que Chen jurou em silêncio jamais repetir. O guarda também se surpreendeu.

— É isso o que acho dele e do maldito complexo de superioridade que faz com que ele ache mesmo que vai salvar a todos.

— Com certeza — mentiu Chen.

— Menrim está só gastando saliva — continuou Bathet. — Mesmo que o conselho consinta com seus apelos lamurientos por clemência, eu preferiria morrer aqui com minha verdadeira família do que perder um segundo que fosse na presença dele.

Depois disso, Bathet virou-se para a parede, dando as costas a Chen. O pandaren não insistiu. Seu trabalho ali estava terminado.

— Vou embora — disse ao guarda, que assentiu com um meneio da cabeça.

A luz do sol era atordoante, e Chen teve que piscar várias vezes até os olhos se acostumarem novamente ao ar livre. Um guarda fechou a porta do calabouço logo às suas costas, enquanto outro o observava com curiosidade.— Espero que tenha aprendido o que queria — comentou o guarda a meia distância. — Mas duvido que você tire qualquer tipo de esclarecimento dos prisioneiros. Eles são todos fanáticos.

Chen remoía a conversa na prisão enquanto coletava os pertences que deixara na porta. Ao mesmo tempo em que “fanático” parecia um qualificador razoável para Bathet, ele sequer mencionara o dragão Asa da Morte, riquezas ou qualquer tipo de poder. Tudo o que viu foi um irmão que odiava profundamente o outro.

— Aprendi o suficiente — disse o pandaren, virando-se para subir a rampa perdido em pensamentos.

— Olha só! Veja quem resolveu sair de fininho! — apontou Li Li. Ela esperava o tio do lado de fora da casa de Menrim, sentada à sombra de uma palmeira. A jovem tinha passado a manhã inteira estudando um dos mapas que trazia com ela, marcando os lugares onde haviam estado e acrescentando os pontos que faltavam, como Uldum inteira.

— Que horas você saiu da cama? Estamos de férias, esqueceu?

Chen bem que tentou responder às piadas da sobrinha sorrindo, mas não tinha forças. Li Li imediatamente sentiu a melancolia que o abatia:

“O que aconteceu?”

— Fui visitar o irmão de Menrim na prisão.

— Imagino que tenha sido uma ótima escolha para começar o dia.

Chen virou-se para o outro lado do Lago Vir’naal, sem saber o que dizer. Sua mente só pensava na tristeza de Menrim e no ódio de Bathet.

— Tio Chen? — Li Li pousou uma das patas sobre o pulso dele. — O que você foi fazer na prisão? — Seus olhos brilhavam, cheios da mais autêntica preocupação. Chen a abraçou com força.

— Não tenho certeza — confessou Chen, soltando Li Li. — Acho que queria ver o que levaria alguém a tomar a decisão que Bathet tomou.

Bathet odeia o irmão. Quando mencionei o nome de Menrim, ele… Bem, ele não ficou nada feliz.

O rechonchudo pandaren se apoiou no tronco da palmeira. — Não sei o que fazer. Bathet chamou os outros prisioneiros Neferset de “verdadeira” família, querendo distância de Menrim, e eu não sei o porquê. Na noite passada, Menrim só falava no quanto se importa com o irmão.

Li Li franziu a testa em silêncio e comentou:

— Como Bathet pode odiá-lo tanto? O que poderia ter acontecido entre os dois?

— Ele foi embora — sugeriu Li Li bem baixinho.

— Claro que sim — retrucou Chen. — Ele não queria trabalhar para o Asa da Morte.

— Não, antes disso. — Li Li olhou para os lados e continuou. — Enquanto você estava fora, eu conversei com Menrim. Ele é mais velho do que Bathet, e saiu de casa há muito tempo para trabalhar com os sacerdotes, para ajudar na manutenção dos dispositivos titânicos. Como passou todo esse tempo longe, ele mal conhece Bathet.

Chen mirava a sobrinha interrogando: — E daí?

— Daí que isso é ressentimento, eu acho. —murmurou Li Li. — O irmão preso se sentiu abandonado e jogado de um lado para o outro. Ele na verdade não dava a mínima para o Asa da Morte. Era tudo questão de se sentir acolhido.

— Como você pode saber o que se passa na cabeça do Bathet? —questionou Chen, cruzando os braços.

Li Li agarrou tufos de cabelos e os puxou, para exprimir sua frustração. Chen nunca tinha visto a sobrinha agir daquele jeito. Ela parecia lutar consigo mesma.

— Eu sei por que foi o que Bô me disse uma vez. Sobre você.

— O quê?

Li Li ficou cabisbaixa, mas não parou de falar: — Quando Papa mandou o Bô atrás de mim. Ele me disse… — Li Li fazia rodeios, sem confrontar os olhos do tio.

— O que ele disse? — perguntou Chen, o coração pesando em seu peito.

— Que você se importava mais com sua cerveja e suas aventuras do que com a gente.

— Isso não é verdade! —protestou Chen.

— Eu sei que não! — gritou Li Li. — Eu lia suas cartas todos os dias, Tio Chen! Mas foi como o Bô se sentiu. Por muito tempo. Ele ficou com muita raiva de você.

Chen curvou a cabeça. A discussão com Chon Po uma noite antes de Li Li pegar a pérola inundou sua mente, cristalina como água. Ele podia ver a dor nos olhos de Po, ouvir a fúria e a angústia em sua voz.

— Eu me lembro das palavras de Bô na praia, as últimas que me dirigiu. Na hora eu não compreendi, tudo aconteceu muito rápido. — O pandaren esfregou as patas no rosto, sentindo-se subitamente exausto. — Como foi que não vi? Chon Po se sentia do mesmo jeito. Ainda se sente.

Li Li não disse nada. Acima dos dois as folhas da palmeira farfalhavam ao sabor da brisa cálida.

— Acho que sei o que preciso fazer — declarou Chen.

Chen desenvolveu a mania irracional de oferecer chá o tempo inteiro por força do hábito, mas dessa vez estava de pé imóvel, inquieto, sem saber onde enfiar as patas. Cruzou os braços, depois os deixou pendurados ao lado do corpo, e finalmente se ajeitou entrelaçando os dedos atrás do corpo.

Menrim encarava a dupla de pandarens na sala, os olhos castanhos suaves e intrigados.

— Fiz uma visita ao seu irmão essa manhã — anunciou Chen. — Fui conversar com ele.

Menrim se virou e caminhou pela sala, abanando a cauda inquietamente. Sem se desvirar, perguntou: — O que ele disse?

— Ele está furioso.

— Eu sei. — O homem-gato sacudiu a cabeça positivamente.

Chen respirou fundo e pensou com seus botões se o que estava para sugerir tinha alguma chance de dar certo.

— Você deveria se desculpar com ele.

Menrim girou agilmente no mesmo lugar: — Eu deveria me desculpar? Foi ele quem se uniu ao Asa da Morte!

— Sim, mas ele acredita que você nunca lhe deu qualquer importância.

— Como ele pode pensar isso? É…— Menrim — interrompeu Chen num tom que até seus próprios ouvidos consideraram excessivo —, você pode pensar depois sobre certo e errado. Se quiser que ele demonstre qualquer remorso pelas ações que cometeu e receba indulgência, tenho certeza de que você precisa se desculpar.— Como você sabe disso? —questionou Menrim.— Já abandonei pessoas, nesta vida. Pessoas que amo, inclusive um irmão. — Lembranças de Chon Po e Bô Forte espocaram em sua mente. — E… Isso trouxe consequências.Menrim rodeava pela sala de novo, perdido em pensamentos. Desta vez parou de andar e encarou os dois pandarens:— Tudo bem. Vou tentar. Vou pedir desculpas a Bathet. — O tol’vir fez uma careta, obviamente não morrendo de amores pela ideia.Chen assentiu, tentando elevar os ânimos: — Acho que fará toda a diferença.Menrim apenas saiu da sala, em silêncio.— Acho que deu certo — observou Chen, com esperança de estar certo.Li Li olhou para as próprias patas. — Com certeza, Tio Chen.

— Menrim — interrompeu Chen num tom que até seus próprios ouvidos consideraram excessivo —, você pode pensar depois sobre certo e errado. Se quiser que ele demonstre qualquer remorso pelas ações que cometeu e receba indulgência, tenho certeza de que você precisa se desculpar.

Menrim só voltou muitas horas depois que o sol se pôs. Chen e Li Li se sentiram desconfortáveis em ficar sozinhos na casa dele, e então ajeitaram as mochilas e cajados perto do poço e se sentaram, esperando perto da água.

Quando o tol’vir chegou, caminhando lentamente pela rua, Li Li dormia apoiada no ombro do tio. Chen acenou para chamar a atenção dele, mas Menrim não respondeu à saudação; apenas se virou, olhou no fundo dos olhos do pandaren, e entrou.

Chen abaixou a mão. — Era o que eu temia — disse, e despertou Li Li suavemente.

— O que foi, tio? — A jovem pandarena esfregava os olhos.

— Parece que não somos mais bem-vindos na casa de Menrim — disse com pesar. — Vamos encontrar uma estalagem.

— Pelo menos existe a possibilidade de passar a noite numa cama, em vez de no chão — balbuciou Li Li, pegando suas coisas do chão.— Isso sim é ver pelo lado positivo, hein? — Chen desejou por um instante que ele e Li Li tivessem feito como os anões e evitado ao máximo o confronto com o Rei Phaoris, e que nunca tivesse visto Menrim. O pandaren estaria com a caravana, onde quer que ela estivesse, rindo e se divertindo.Quando finalmente encontraram abrigo, os dois estavam tão exaustos que dormiram até a manhã seguinte, até que uma balbúrdia de centenas de vozes os arrancou da cama. Vestindo-se rapidamente, a dupla correu para ver o que estava acontecendo.Habitantes de Ramkahen atulhavam todas as ruas que davam para a praça central, de onde todos olhavam para o prédio que abrigava o Rei e o Alto Conselho.— O que está havendo? — Chen queria saber. Li Li já sabia:— Acabou o tempo — disse em voz baixa. — O Alto Conselho vai anunciar a decisão.

— O coração de Chen martelou no peito. Li Li via a angústia do tio.

— Precisamos de uma vista melhor.

Chen concordou.

A dupla abriu caminho à força até o imenso relógio solar que ficava na ponta sudoeste da praça. Uma pilha de caixas se acumulava, muito pequena para os tol’vir, mas grande o suficiente para dois pandarens se sentarem confortavelmente. Chen e Li Li subiram até o topo, de onde era possível ver o grande salão facilmente.

Depois de alguns instantes, um grupo de guardas Ramkahen surgiu com os cinco prisioneiros Neferset presos pelo pescoço por uma corrente de elos tão grandes que o tilintar era audível mesmo em meio aos gritos da turba. Chen reconheceu Bathet, e engoliu em seco.

O Rei Phaoris rodeou os tol’vir enfileirados, parou à frente do grupo e ergueu o braço. A multidão se calou.

— Cidadãos de Ramkahen! — A voz do rei ribombou. — O Alto Conselho chegou a uma decisão. Antes de anunciá-la, contudo, decidimos permitir que cada prisioneiro fale ao público, para que vocês compreendam por que tomamos a decisão que logo conhecerão. Ergam-se em solidariedade a nós que, após longa deliberação, realizamos o árduo trabalho de aplicar a justiça.

A multidão gritou em resposta, mas Chen sentia raiva no ar, e nem todos pareceram contentes com as palavras do rei. Phaoris deu um passo para o lado, e um guarda empurrou o primeiro dos prisioneiros, que olhou primeiro para um lado, depois para o outro, observando a turba que o encarava fixamente.

Enfim, o tol’vir cativo disse: — Meu nome é Nanteret, e digo que meu povo fez a aliança que deveria ser feita!

A resposta da multidão foi um estouro ensurdecedor, uma onda sonora carregada de ódio. A garganta de Chen ficou seca.

“Meu único arrependimento — prosseguiu Nanteret, aos gritos — é não ter matado mais de vocês Ramkahen imundos!”

— O tol’vir cuspiu na escada, enfatizando as próprias palavras. Um guarda rapidamente o empurrou de volta para o lugar. O Rei Phaoris pediu outra vez o silêncio da multidão, que obedeceu, aguardando os discursos restantes.

Um a um, os prisioneiros falaram. Os dois seguintes repetiram as palavras de Nanteret quase à risca. Quando chegou a vez de Bathet, o quarto na fila, o coração de Chen afundou, ainda que restasse uma fagulha de esperança:

— Sinto orgulho das escolhas que fiz — gritou o tol’vir com toda a força dos pulmões. — Não me arrependo de nada! Estou com meus irmãos! — Chen estremeceu com a ênfase que Bathet deu à última palavra. Li Li pousou a pata sobre a do tio. A multidão urrava, e uma torrente de objetos começou a voar na direção de Bathet; uma romã meio comida estourou no seu rosto, o suco vermelho escorrendo e sujando-lhe o pescoço e o peito.

O último Neferset falou. Chen mal o ouviu. O que quer que o prisioneiro tenha dito foi tão impenitente quanto os outros.

O Rei Phaoris foi novamente à frente e ergueu um braço.

— Que seja do conhecimento de todos que aos Neferset foi dada a oportunidade de dizer o que traziam em seus corações e mentes, mas eles não demonstraram qualquer remorso pela aliança blasfema que cunharam com Asa da Morte e Al’Akir; sequer esboçaram arrependimento pelos milhares que assassinaram em nome da própria ganância por poder! São traidores de tudo em que os tol’vir sempre acreditaram!

– A decisão do Alto Conselho é unânime. Os prisioneiros serão executados.

A multidão urrou vivas.

Li Li arquejou cobrindo a boca. Chen a agarrou pelo braço:

— Temos que encontrar Menrim — disse com urgência.

Ela assentiu: — Vamos!

Chen percebeu que provavelmente seria inútil tentar encontrar alguém em meio à massa que enxameava as ruas de Ramkahen. Ele e Li Li persistiram, encontrando uns poucos que afirmaram ter visto Menrim, até que finalmente o encontraram sentado à beira de uma fonte na parte norte da cidade, meio escondido. Se viu a dupla de pandarens se aproximar, o tol’vir não reagiu.

Chen se sentou ao lado dele e disse: — Sinto muito, Menrim.

A expressão de Menrim endureceu, e o tol’vir virou o rosto: — Não havia nenhum remorso na voz dele. Foi ele quem selou o próprio destino.

A indiferença das palavras de Menrim surpreendeu os dois pandarens, mas Chen a atribuiu ao choque com o veredicto do Alto Conselho.

— Eu sei o quanto você se importa com seu irmão. Não consigo nem imaginar o quanto deve ser difícil para você.

Os três permaneceram sentados, calados, ao som da água que corria na fonte.

— Como foi que ele reagiu à sua visita ontem, se me permite a pergunta? — A voz de Chen era suave, baixa.

— Como era de se esperar. Como o traidor nojento e egoísta que é.

— O que ele disse — insistiu Chen — quando você se desculpou?

Subitamente Menrim se levantou para partir, mas, depois de alguns passos, se deteve e disse a Chen:
Chen fechou os olhos e apoiou a cabeça nas patas. Li Li o abraçou com força. — Você fez tudo que pôde, Tio Chen. Não dá para consertar tudo.

— Quem você pensa que é?! — O tol’vir berrava. — Invadir a minha vida para me dizer o que tenho que fazer? Me desculpar com Bathet? Eu não precisava fazer nada disso! Ele é o criminoso blasfemo, e eu tenho lutado o tempo inteiro para salvar a vida dele! Ele deveria implorar pelo meu perdão, isso sim, agradecer do fundo do coração rochoso e ingrato, se é que ainda tem um! Comparado a ele, eu sou um santo.

— Não tenho nenhum arrependimento, e foi isso que eu disse a Bathet. Como ele ousa tentar me culpar? Deixem-me em paz — rosnou Menrim, e deu as costas aos pandarens, caminhando em direção à cidade.

Chen fechou os olhos e apoiou a cabeça nas patas. Li Li o abraçou com força.

— Você fez tudo que pôde, Tio Chen. Não dá para consertar tudo.

Chen Malte do Trovão jamais conseguiria articular os sentimentos de responsabilidade, dever, falha e culpa que se digladiavam em seu coração; ele nem se lembrava da última vez que tinha se sentido tão infeliz.

Matar um Neferset, uma criação titânica com pele de pedra, não era uma tarefa fácil, por isso o Alto Conselho optou por executar os prisioneiros por esmagamento. Uma complexa máquina, que mais parecia um emaranhado de cordas, polias e contrapesos, havia sido criada exclusivamente para esse fim. Vários guardas acionariam as alavancas, erguendo os imensos pilões de rocha que, com o acionamento, cairiam e pulverizariam tudo à sua sombra. A brutalidade do método chocou Li Li.

O povo de Ramkahen lotou o espaço antes ocupado apenas pela fonte. A dupla de pandarens se posicionou em cima de um toldo e esperou o espetáculo começar, em silêncio. Nenhum dos queria de fato assistir à execução, mas Chen achava que devia, e Li Li jamais o abandonaria.

Com o sol já baixo, os guardas Ramkahen conduziram os prisioneiros pelas ruas. A multidão berrava, incontrolável, dirigindo insultos aos Neferset condenados. Li Li achou que fosse vomitar.

Não havia muito decoro na execução: um dos guardas soltaria um dos Neferset, o levaria para o ponto designado e o prenderia lá, para que outro guarda ativasse a máquina e a questão se resolvesse sozinha. Muito simples. Li Li bem que tentou assistir à cena, num gesto de respeito, mas fechou os olhos e preferiu saber o que acontecia apenas pelos sons: o guinchado das cordas, o silvo do deslocamento veloz de uma grande massa de ar, a batida seca do prisioneiro esmagado até a morte e o cascalho sendo varrido para o lado, abrindo espaço para o próximo na fila.Chen segurou a sobrinha pelos ombros com firmeza, tentando não tremer. Enquanto acompanhava as execuções, invejava Li Li por manter os olhos fechados; os seus se negavam a isso, como se uma força oculta os mantivesse abertos e o forçasse a olhar. Como durante os discursos, Bathet foi o quarto, e foi executado de forma tão indiferente quanto os outros. Tudo acabou muito rápido, e ainda assim parecia ter levado mil anos. Chen sabia que este dia o atormentaria para sempre.

O pandaren apercebeu-se de que os pulmões ainda respiravam, o coração ainda batia, mas todos os sons e sensações estavam a quilômetros, e ele mesmo mal sabia se estava realmente lá. O chão poderia ter sumido sob seus pés sem que ele sequer notasse. Quando os pensamentos começaram a divagar, o cervejeiro se sentou quase em transe, os olhos fixos do outro lado do lago por um longo tempo.— Tio Chen — chamou Li Li, baixinho.— Diga, Li Li —respondeu o pandaren, notando que ela não parecia bem.— Eu… Eu queria ir embora o quanto antes. Não sei por que a pérola nos trouxe aqui. Este lugar está cheio de dor.

— Ah! — Com as palavras de Li Li, Chen também sentiu uma necessidade urgente de sair de Ramkahen.

— Não sei aonde iremos agora — observou a jovem pandarena —, mas nem me importa, desde que a gente saia daqui.

— Concordo. Vamos descansar esta noite. Partimos pela manhã.

Os dois pandarens desceram do toldo e voltaram à estalagem. Quando chegaram à porta, uma figura saiu das sombras em direção a eles. Era Menrim.

— O que você quer? — Chen foi curto e grosso.O tol’vir hesitou e disse:— Me desculpar.Chen e Li Li cruzaram os braços e o observaram, calados.“Você tinha razão — continuou Menrim. — Eu deveria ter ouvido. Eu deveria ter feito o que você disse. Eu deveria…”— Um pouco tarde, não acha? — Chen o interrompeu. — O que você está tentando fazer?

O pandaren apercebeu-se de que os pulmões ainda respiravam, o coração ainda batia, mas todos os sons e sensações estavam a quilômetros, e ele mesmo mal sabia se estava realmente lá. O chão poderia ter sumido sob seus pés sem que ele sequer notasse. Quando os pensamentos começaram a divagar, o cervejeiro se sentou quase em transe, os olhos fixos do outro lado do lago por um longo tempo.

— Eu… Eu tentei. Tentei dizer a Bathet que sentia muito, mas… ele só me culpava, e eu fiquei furioso… eu não posso ser culpado por tudo.

— Ah, corta essa — interrompeu Li Li, desta vez.

— Eu queria salvá-lo! Queria salvar todos eles! — berrava Menrim. — Supliquei por clemência várias vezes e…

— Claro que você queria salvá-lo — respondeu Chen secamente —, desde que isso não comprometesse seu próprio orgulho, ou o que quer que seja.

Menrim encarava os pandarens com os olhos apertados: — Eu sei que falhei. Eu sei… sei que no momento em que vi as pedras caírem, e meu irmão… meu único irmão… — Sua voz hesitou, e o tol’vir chorou. — Minha tribo… meu povo… meu irmão… Como isso aconteceu?

Chen estava devastado pelo cansaço. Era verdade que Menrim e todos os tol’vir tinham sofrido terrivelmente. Também era verdade que Bathet e os outros Neferset tinham feito coisas terríveis, e que Bathet se ressentia do irmão, provavelmente com razão. Mas também era verdade que nada do que nenhum dos dois pudesse ter dito mudaria o destino de Bathet naquela tarde.

Chen mal conhecia os irmãos, e ainda assim…

— O que você quer ouvir de nós? — Chen atirava as palavras contra Menrim. — Eu e minha sobrinha não podemos absolver você, e nem Bathet. Não podemos mudar nada, para ninguém. O que está feito, está feito.

Menrim enxugou os olhos com as costas do braço, e parecia recomposto: — Eu sei — sussurrou. — Eu sei. Mas… obrigado por tentar.

— Li Li — falou o tol’vir —, conversamos sobre suas viagens ontem, quando seu tio estava fora. Imagino que você não queira mais ficar em Ramkahen depois de tudo isso.

— Pode ter certeza. — respondeu Li Li.

— Se seguirem pelo sul, à margem do Rio Vir’naal, vocês chegarão à Cidade Perdida. Em outros tempos ela servia de fortaleza para os Neferset, mas foram todos expulsos durante a guerra. Minha família tinha um pequeno barco. Pelo que sei, ainda está lá.

—Menrim segurava uma grande chave. — Solte as correntes do barco com isso. Tome. Você poderá sair de Uldum muito mais facilmente assim. As correntes do sul são generosas, e os ventos devem estar mais calmos, agora que Al’Akir se foi. Por favor, levem.

Li Li deu um passo e pegou a chave.

— Obrigada — agradeceu em voz baixa.

Lágrimas rolaram pelo rosto de Menrim. — Não sei se é possível restaurar tudo o que meu povo perdeu. Talvez a era dos tol’vir esteja mesmo terminada. O que me resta é tentar ser melhor do que eu era, e desejar sorte a vocês, e que bons ventos os guiem em suas viagens. Espero que encontrem o que procuram.
Lágrimas rolaram pelo rosto de Menrim. — Não sei se é possível restaurar tudo o que meu povo perdeu. Talvez a era dos tol’vir esteja mesmo terminada. O que me resta é tentar ser melhor do que eu era, e desejar sorte a vocês, e que bons ventos os guiem em suas viagens. Espero que encontrem o que procuram.

— Fique em paz, Menrim — disse Chen suavemente.

Menrim se virou e rumou para casa, sozinho.

Li Li e Chen voltaram à estalagem em silêncio. O clima estava tão pesado quanto suas pernas cansadas. Enquanto verificava as mochilas para ter certeza de que tudo estava pronto para partirem o mais cedo possível, Chen viu Li Li havia estendido uma folha de papel no chão.

— O que você está fazendo? — perguntou Chen.

— Escrevendo pra casa. Achei que seria uma boa. Já faz tempo. — A jovem olhou para cima, procurando o rosto do tio, que teve uma ideia.

— Também vou escrever uma.

— Li Li puxou mais folhas e outra pena do fundo da mochila. O pandaren também se sentou no chão, do outro lado do quarto, e abriu a folha branca à frente de si.

Querido Chon Po, começou Chen.

Devo desculpas a você.

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