Conselho dos Três Martelos: Ferro e Fogo Parte 1

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by luizcsilva on 7 de março de 2019

O céu sobre o Ninho da Águia convidava Kurdran Martelo Feroz como o brilho distante de uma fogueira em uma gélida noite de inverno. Após vinte longos anos preso num mundo infernal hoje conhecido como Terralém, ele voltou para casa. Nunca se arrependeu de participar da expedição da Aliança na luta contra a Horda dos orcs em seu mundo, mas nesses anos difíceis o desejo de ver esse céu ardia em seu coração.

Seu grifo, Sky’ree, planava acima dele com três outros: ela nunca esteve tão alegre nas últimas duas décadas. Ele queria muito estar lá em cima com ela e sentir a brisa da montanhas acariciar-lhe o rosto. O destino determinara que ele andaria em duas pernas sobre a terra, mas era no céu que ele se sentia livre. Essa era a maior dádiva de Sky’ree para ele. Acima da ferocidade na guerra ou da amizade em tempos de paz, estava a bênção do voo. Mas, por enquanto, ele a deixaria voar sozinha.

Kurdran respirou fundo e contemplou sua terra: florestas verdejantes se estendiam por todos os lados; anões Martelo Feroz iam e vinham entre lojas e casas que ladeavam o sopé da montanha; e o aviário colossal, um recôncavo de pedra esculpido à imagem de um dos nobres grifos, coroava o Ninho da Águia. Tudo estava como ele havia deixado.

O anão sacou da cinta um pequeno cetro de ferro enrolado com cordões de grama e adornado com penas de grifo. Não era uma arma (seu martelo da tempestade estava às costas): era um lembrete. Em Terralém, o cetro adquiriu uma natureza quase mística, um símbolo de quem Kurdran era e da terra pela qual ele lutava. Muitas vezes, sentiu que segurá-lo próximo de si o enchia de esperança e dava força para prosseguir. Agora que estava em casa, porém, a potência do cetro parecia…

Um guincho agudo perfurou os ares. Kurdran olhou para cima, e uma pontada de medo o trespassou: Sky’ree estava caindo em parafuso, suas asas torcidas de forma bizarra.

– Sky’ree! – berrou Kurdran.

O grifo aterrizou com um baque seco. Ossos desencontrados irrompiam das agora destroçadas pernas traseiras, e sangue jorrava de uma fratura horrível no crânio. Sky’ree tentou se levantar, mas desabou de dor. Ela abriu o bico e soltou um piado fraco.

– Não se move, menina! – exclamou Kurdran. Corria ao socorro da sua companheira ferida, coração retumbando, quando sentiu a mão enrijecer.

O cetro estava borbulhando e se tornando algo assustadoramente familiar… cristal… diamante. Tentáculos faiscantes saíram dele e deslizaram pelo seu braço, congelando-o até que ficasse sólido como pedra. A substância viscosa chegou ao peito e se expandiu até embaixo, solidificando suas pernas e fundindo-as com o chão.

Kurdran tentou puxar o martelo das costas, mas seu braço foi recoberto de diamante antes que conseguisse. Congelado, podia apenas olhar, com desesperança impotente, o grifo que salvou tantas vidas e se tornou uma extensão de seu próprio ser sangrar lentamente até a morte diante de seus olhos.

A prisão de diamante subiu pelo pescoço de Kurdran, espessa e gélida, até que invadiu sua garganta e encheu seus pulmões. Por fim, cobriu seus olhos e ouvidos. Sky’ree e o convidativo azul do céu se foram.

Mas a libertação da morte lhe foi negada. Ele existia num vácuo, em sua mente corria um terror calcinante como metal derretido. Por fim, um som de uma pancada indistinta e ritmada ficou cada vez mais alto.

BAM. BAM. BAM.

Cada golpe mandava vibrações pelo seu corpo, como se estivessem batendo com um objeto contundente em sua mortalha cristalina, tentando libertá-lo.

BAM. BAM. BAM.

A rigidez do corpo arrefeceu. A sensibilidade voltou aos membros. Então, o som ficou diferente.

CLANG. CLANG. CLANG.

A ruído familiar foi o suficiente para Kurdran saber onde estava e perceber que tinha apenas acordado de um pesadelo e entrado em outro. Tratava-se do som metálico de um martelo atingindo uma bigorna dia e noite, atormentando os ouvidos de Kurdran. O pulso de uma cidade que não a sua, profunda, construída no âmago de uma montanha e que jamais teria a alegria do céu aberto.

Era Altaforja.


A cidade dos ancestrais de Kurdran era um caldeirão fervente de velhos preconceitos. Era uma convulsão infinita. Seus gases tóxicos dissolviam qualquer lógica ou racionalidade que restasse nos anões Barbabronze, Martelo Feroz e Ferro Negro que viviam juntos em Altaforja pela primeira vez em dois séculos. E Kurdran estava à margem de tudo, fitando confuso o coração fervilhante da cidade prestes a entrar em erupção.

Ele teve a incômoda sensação de que ainda estava em guerra com a maldita Horda e preso em Terralém. Contudo, não havia inimigos às claras em Altaforja. Nenhum demônio ensandecido. Nenhum orc furioso tentando dizimar a vida em seu mundo. Só havia palavras.

Quando Kurdran chegou em Altaforja poucas semanas antes, foi tratado como herói por seus sacrifícios em Terralém. Agora era diferente. Rumores infundados contra o clã Martelo Feroz emergiram dos saguões obscuros da cidade como fantasmas vingativos da sangrenta Guerra dos Três Martelos, que despedaçara a unidade dos clãs enânicos muitos anos antes. Os boatos iam desde histórias de rituais de sacrifício no Ninho da Águia até relatos de que Kurdran tinha executado uma dúzia de combatentes da Aliança em Terralém por terem fugido de uma batalha. Uma semana antes, a atenção dos anões tinha se voltado para um novo assunto.

– O conselho está te esperando, thane Kurdran.

Kurdran ignorou o guarda de Altaforja e segurou o cetro dos Martelo Feroz firmemente na mão. De onde ele ficava, no poleiro de grifos da cidade, era possível observar as profundezas da Grande Forja, que era o coração de Altaforja, cidade apropriadamente batizada, por sinal. Rios de metal liquefeito caíam do teto em escaldantes poças alaranjadas. Perto desses tanques borbulhantes, ferreiros anões martelavam bigornas. O calor, especialmente ali tão perto da forja, era insuportavelmente opressivo, era como estar preso numa garrafa de vidro e ficar sufocando sob o sol ardente.

Sky’ree estava deitada numa cama de palha ao seu lado, com as pernas escondidas sob o corpanzil. Kurdran passou os dedos calejados pela crista de penas e ponderou sobre o destino da fiel companheira.

– Por que droga eu escolhi vir pr’estas paragens? – murmurou Kurdran para si mesmo, tomando fôlego.

– Pois tu não queria ver o passado suceder de novo – respondeu a voz calma de Eli Golpeforte, aproximando-se de Kurdran e juntando palhas soltas em pilhas arrumadas. – Pois o rei Magni, apesar de ser Barbabronze, é um anão honrado. E pois que, como tu mesmo disse para Falstad, tu é o anão que vai dar conta da pendenga – prosseguiu o cuidador de Sky’ree.

As palavras de Eli trouxeram memórias à mente de Kurdran. Tendo voltado de Terralém, Kudran desrespeitou profundamente seu amigo íntimo Falstad, que havia liderado o clã Martelo Feroz em sua ausência. Mas remoer o ocorrido com Falstad agora só traria mais mágoas para Kurdran, por isso ele afastou esses pensamentos sobre o amigo.

Sky’ree emitiu um arrulho baixo e cutucou Kurdran de leve com o bico, como se concordando com as palavras de Eli.

– Eu não tava falando contigo – disse Kurdran, dispensando Eli com um gesto e virando para Sky’ree: – Nem contigo.

Sky’ree simplesmente se ajeitou no ninho de palha, revelando brevemente três ovos de cor bege com pontos azuis que ela tinha posto logo depois de chegar a Altaforja. Kurdran queria que ela voltasse ao Ninho da Águia com a prole em vez de ficar na cidade, mas ela não o abandonaria. Não era uma mascote. Era um espírito livre, livre para escolher o próprio destino assim como Kudran podia escolher o seu.

A decisão de Sky’ree de ficar encheu Kurdran com um misto de alegria e raiva. Logo depois de pôr os ovos, ela ficou tão abatida e frágil que não podia mais voar. Vários sacerdotes, mestres de grifos e alquimistas que a examinaram chegaram à mesma conclusão: a condição de Sky’ree não se devia a alguma estranha enfermidade contraída em Terralém ou em Altaforja. Era uma mazela para a qual não existe cura: o tempo.

– Thane Kurdran…

– Estou indo! – exclamou Kurdran, olhando para o guarda de Altaforja.

– É meio difícil ir enquanto tu está sentado no chão… – ralhou Eli, continuando a fazer o trabalho.

Kurdran resmungou e ficou de pé. O guarda Barbabronze subitamente se virou e passou todo desajeitado pelos grandes ninhos de grifos que ladeavam a passarela ao redor da Grande Forja. O aviário tinha praticamente dobrado de tamanho depois de que os Martelo Feroz chegaram na cidade com seus grifos. De certo modo, a área passou a lembrar o Ninho da Águia. Era uma casa longe de casa.

Com o cetro na mão, Kurdran seguiu o guarda, cumprimentando os cavalga-grifos dos Martelo Feroz que estavam sentados entre os montes de palha. Por mais que Kurdran estivesse abatido, a expressão no rosto dos anões era bem pior, como se ele estivesse indo para a morte.

De certo modo, estava.

Kurdran seguiu o guarda pela passarela até chegar à Sala do Trono. Uma multidão barulhenta de anões estava à porta da câmara. Nos rostos via-se a combinação de luz e sombras criada pelos braseiros de ferro que ardiam em toda a cidade. Estavam presentes membros de cada clã: os Barbabronze com suas armaduras de prata polida; os Martelo Feroz com suas tatuagens e adornos de penas de grifo; os Ferro Negro com sua pele cinzenta e aventais de trabalho manchados de carvão. Era uma amostra fiel de Altaforja como um todo: poucos Martelo Feroz e alguns Ferro Negro salpicados em meio à maioria dos Barbabronze.

À medida que abria caminho entre os anões, Kurdran ouvia fragmentos das discussões acaloradas que estavam ocorrendo ali.

– Nós, Barbabronze, mantivemos o nosso pedaço do martelo de Modimus como era, como deveria ser!

– Vocês tacaram ele numa biblioteca para juntar poeira. A gente, do Martelo Feroz, pegou o nosso pedaço e forjou uma coisa nova.

– Bah, guri! Não adianta discutir com esses Barbabronze. Tudo que é coisa boa que sai de Altaforja é coisa que eles afanaram de algum tesouro antigo – gritou um cavalga-grifo ali perto.

Do meio da aglomeração, alguém empurrou o anão que falava em cima de Kurdran. A multidão se movimentou, cercando-o.

– Saiam da frente! – gritou Kurdran.

Uns poucos anões que estavam perto deram passagem. Outros o fitavam, contorcendo o rosto de ódio.

– Abram caminho para Kurdran, a chefia das borboletas! – berrou uma voz com sarcasmo, usando o apelido jocoso do clã de Kurdran.

– Uma rodada de cerveja por minha conta se o Kurdran abrir mão do pedaço dele do martelo de Modimus!

– Só um anão sem juízo ia apostar contra isso!

Kurdran acotovelou os últimos anões no seu caminho e emergiu já na Sala do Trono. A câmara, lar da realeza de Altaforja, era como o resto da cidade: mal iluminada, com paredes altas de pedra metálica clareadas por lamparinas dependuradas. No fundo da sala, em cima de uma plataforma elevada, estavam os três idênticos tronos do Conselho dos Três Martelos.

Um arrepio correu pelo corpo de Kurdran quando seus olhos fitaram o trono do meio, que pertenceu ao rei Magni. No dia em que Kurdran entrou para o conselho, o irmão de Magni, Muradin, o levara às profundezas da cidade ancestral. Lá, Kurdran viu uma imagem que assombraria seus sonhos por muito tempo: Magni transformado numa estátua de diamante. A petrificação aconteceu quando o rei tentou fazer um ritual de comunhão com a terra para obter respostas sobre os perturbadores terremotos, tempestades e outras catástrofes que afligiam o mundo naqueles tempos.

Agora, Muradin estava no trono central. Kurdran olhou para o anão Barbabronze, que lhe devolveu um olhar pernicioso, bem diferente das joviais boas-vindas dadas a Kurdran quando este entrou na cidade. Nos primeiros dias como membro do conselho, ele brindou muitas canecas de cerveja com Muradin e contou as histórias de Terralém, enquanto o Barbabronze partilhou suas aventuras no gélido continente de Nortúndria. Com o passar do tempo, Muradin tornou-se frio com Kurdran por razões que este não entendia.

À direita de Muradin estava Moira Thaurissan, filha de Magni. Apesar de ter decepcionado seu pai ao se casar com os antigos rivais do clã Barbabronze, os Ferro Negro, ela era a herdeira legal de Altaforja, assim como seu filhinho, Dagran, que balançava calmamente num berço aos pés de Moira.

– Bem-vindo, Kurdran. – A herdeira, com cabelos trançados em coques perfeitos, curvou-se discretamente.

– Buenas – foi só o que Kurdran disse. Passou por uma mesa de madeira ao pé da rampa no caminho para os tronos. Na mesa, havia dois artefatos que, na semana anterior, tinham chacoalhado o fervilhante caldeirão de Altaforja: um nodoso cajado de madeira incrustado com uma gema roxo-escura e uma cabeça de martelo deformada.

Kurdran franziu o rosto ao ver as relíquias e sentou-se em seu trono, à esquerda de Muradin. Não era a primeira vez, desde que viera a Altaforja reinar ao lado de Moira e Muradin, que ele se sentia deslocado. O conselho tinha uma forte presença dos Barbabronze e, devido a Dagran, um forte componente Ferro Negro, mas não pelo lado de Kurdran.

Os murmúrios do povo à entrada da Sala do Trono diminuíram, e o Conselheiro Belgrum, um anão encarquilhado que estava ao pé da plataforma, curvou-se. Dois jovens historiadores ali perto imitaram o gesto respeitoso de Belgrum. Um deles era um pequeno Martelo Feroz vestido numa vistosa túnica vermelha, um conferente muito detalhista, pelo que diziam.

Belgrum endireitou-se e avançou claudicando para cumprimentar o recém-chegado. – Bem-vindo, thane Kurdran. Já tomaste tua decisão?

Kurdran perscrutou a sala. Era sempre a mesma coisa nos últimos dias. A mesma pergunta. A mesma multidão de anões futriqueiros. A mesma sensação de estar encurralado. Em todas as ocasiões anteriores, ele respondera a Belgrum da mesma forma: não. Contudo, na noite anterior, um Martelo Feroz e um Barbabronze morreram durante uma querela sobre o cetro nas mãos de Kurdran.

– Não achei que tivesse opção… – redarguiu Kurdran.

– Bah… – bufou Muradin. – Quantas vezes a gente vai ter que discutir isso…

– Kurdran – Moira interrompeu o desabafo do anão Martelo Feroz –, de nós três, é seu o maior sacrifício a ser feito. Se você escolher ficar com seu pedaço do martelo, vamos abdicar do que planejamos.

A atenção de Kurdran se desviou para um pergaminho velho que Belgrum segurava com suas mãos trêmulas. O papel, descoberto na biblioteca de Altaforja uma semana antes, descrevia partes de uma guerra civil entre anões séculos antes. Dizia a história que, quando o rei supremo de Altaforja, Modimus Sidermar, morreu, os clãs lutaram pelo controle da cidade. Nesse tumulto, a arma de Modimus – o Martelo do Rei Supremo – misteriosamente sumiu. Ao longo dos anos, Kurdran ouviu rumores sobre o destino do martelo. Esse texto acabava com as especulações: dizia que o martelo de Modimus tinha se quebrado em três partes. Durante o caos da guerra, cada clã tinha de algum modo conseguido obter um dos fragmentos. Kurdran presumiu que, confrontados com o futuro incerto de Altaforja, os anões tolamente viam a reunificação do martelo como um caminho para a paz ou como mera válvula de escape para velhas disputas e rivalidades.

Kurdran afastou os olhos do pergaminho.

– Tomei minha decisão, sim – bradou ele, erguendo o cetro de ferro. – Este legado está nas mãos do clã Martelo Feroz faz séculos. Eu entrei nesse conselho para manter a paz, não para pelear sobre a reforja de um martelo velho.

Gritos de fúria emergiram dentre a robusta aglomeração de anões que assistia.

– O martelo era de Modimus pra começo de conversa! É da cidade!

– Se os Martelo Feroz não querem paz, não podem fazer parte do conselho!

Kurdran observou, agitado, a multidão cercar os poucos anões do Martelo Feroz que estavam no meio enquanto guardas armados corriam para acabar com o tumulto.

– Mas um dos meus está morto por causa desse martelo – berrou Kurdran mais alto que o clamor. – Não vou deixar isso acontecer de novo.

Ele apertou o cetro dos Martelo Feroz na mão pela última vez e o colocou sobre a mesa de madeira, ao lado dos outros artefatos, com uma pancada seca. A multidão silenciou.

Belgrum assentiu com a cabeça e ergueu as mãos para todos os presentes. – Assim seja. Por decreto do conselho, o grande martelo de Modimus Sidermar, último rei supremo de Altaforja, será reforjado!

Os anões que presenciavam a sessão explodiram num ruidoso aplauso, e Kurdran ficou taciturno.

– Como todos veem – prosseguiu Belgrum –, os Martelo Feroz doam o cabo do martelo de Modimus, que tinha sido reforjado na forma do cetro hoje carregado pelo thane Kurdran e, antes dele, pelo thane Khardros.

Kurdran mirou o cetro. O tamanho e a forma era ligeiramente diferente da descrição que o pergaminho fazia do cabo do martelo. Lembrou-se de ter perguntado a Khardros anos antes de onde tinha vindo o cetro. O velho anão simplesmente respondeu que o passado dele não tinha importância: importava apenas aquilo que se tornaria. Kurdran sempre achou que a explicação obscura do thane era mais uma de suas reflexões filosóficas, talvez até uma parábola para o clã Martelo Feroz. Agora ele se perguntava se havia sido Khardros que tinha pego o cabo e o reformado, sem nunca mais mencionar as origens dele.

Belgrum apontou a cabeça deformada de martelo em cima da mesa.

– Os Barbabronze doam a cabeça do martelo de Modimus, danificada a ponto de ficar irreconhecível por um incêndio durante a guerra civil e guardada na biblioteca da cidade junto com outros destroços como memória do conflito.

Por fim, Belgrum estendeu a mão para o cajado nodoso ao lado da cabeça do martelo.

– E os Ferro Negro doam o cristal, antes dourado, que ficava na cabeça do martelo de Modimus. A pedra foi achada por um dos feiticeiros do clã e teve a cor alterada para esconder sua identidade.

Um aplauso barulhento e desencontrado irrompeu dos Ferro Negro presentes.

– A reforja começará em três dias a contar de hoje. Por enquanto, nós do conselho pedimos que todo mundo cuide da vida enquanto escolhemos quem reforjará as partes – concluiu Belgrum.

Aos poucos, os espectadores se dispersaram, continuando as discussões de onde tinham parado, como se a sessão nunca tivesse acontecido. Kurdran olhou longamente o cetro dos Martelo Feroz sobre a mesa. Uma questão perturbadora o consumia: o que mais, nas próximas semanas ou meses, Altaforja tomaria dele e de seu clã?

Sem dizer mais nada, ele desceu da plataforma de pedra e caminhou em direção à saída da Sala do Trono.

– Kurdran, – chamou Moira, preocupada, – Nós ainda temos que decidir quem forjará o martelo.

– Não tem importância – Kurdran rosnou, saindo da sala.


Kurdran caminhou ao lado de Sky’ree por várias fileiras de apartamentos e lojas de mercadores no anel externo da cidade, onde os sons de martelos e bigornas da Grande Forja não passavam de um eco longínquo. As névoas da idade nublavam os olhos do grifo, e a lentidão de seus passos deixava claro o esforço doloroso que fazia. Mas, para desgosto de Kurdran, Sky’ree parecia gostar de explorar cada buraco de Altaforja.

Mais do que tudo, Kurdran queria escapar de Altaforja e voar com Sky’ree, mas uma simples caminhada era tudo o que o grifo aguentava. As caminhadas costumavam ser uma distração bem-vinda, mas a mente dele hoje estava carregada com os pensamentos sobre o martelo de Modimus. Depois de Kurdran ter saído tempestuosamente da reunião do conselho no dia anterior, Moira e Muradin escolheram um ferreiro Ferro Negro para reforjar o martelo. A decisão fez o sangue de Kurdran ferver, mas pensando em retrospecto, ele sabia que a culpa era dele por não estar presente na hora para argumentar contra a escolha. O malquerer dele pelo clã Ferro Negro estava profundamente entranhado. A traição era como um traço da cultura dos Ferro Negro, assim como os grifos eram um traço da cultura dos Martelo Feroz.

Infelizmente, o sacrifício de seu cetro não serviu para diminuir as tensões em Altaforja. Ao caminhar, Kurdran sentia a animosidade no olhar dos passantes, que observavam sua pele bronzeada e castigada, seu rabo de cavalo ruivo como fogo e suas tatuagens. Kurdran sabia que os olhares penetravam muito mais profundamente do que pareciam. Altaforja era uma eterna guerra de culturas, cada uma considerando-se superior a todas as outras. Os Martelo Feroz preferiam viver na superfície e rasgar os céus do norte com seus amados grifos. Os Barbabronze preferiam habitar as montanhas, como sempre fizeram. E os Ferro Negro… os Ferro Negro viviam cada vez mais nas sombras, ocultando a própria cultura dos forasteiros…

Uma ombreira de aço chocou-se contra o ombro de Kurdran, trazendo-o de volta de seus pensamentos. Ele se virou e viu dois Ferro Negro carregando um grande barril. Os anões que esbarraram nele o encararam com olhos reluzentes, comuns entre os Ferro Negro. Para Kurdran, eles lembravam os olhos demoníacos que havia visto em Terralém.

Um dos Ferro Negro grunhiu e então seguiu caminho ao lado do companheiro. Eram seguidos por uma fila de anões do clã deles, todos em pares, carregando barris também. Um cheiro pungente emergia dos barris; Kurdran reconhecia o odor da bebida alcoólica preparada pelos Ferro Negro. A mistura não parecia em nada com a cerveja de que ele tanto gostava. Era o tipo de bebida que entorpecia as pessoas e as fazia esquecer as coisas após um único copo. Kurdran já vira grupos dos Ferro Negro carregando barris com o líquido pela cidade inúmeras vezes, aparentemente em busca de algo mais forte do que Altaforja poderia oferecer.

– Kurdran, – disse alguém fora do campo de visão no momento em que o último barril passava por ele. A voz era inconfundível, calma e calculadamente régia.

Kurdran virou-se e viu Moira se aproximando. Ao lado dela estava um grande anão Ferro Negro chamado Drukan, que ele havia observado acompanhando Moira em várias ocasiões.

– Vejo que está levando a nobre Sky’ree para passear – disse ela com um sorriso educado.

Kurdran procurou no rosto de Moira algum sinal de que sua cordialidade não fosse sincera. Ele suspeitava de que ela e os Ferro Negro fossem responsáveis, de algum modo, pelos rumores circulantes sobre o clã Martelo Feroz.

Afinal, foi graças às ações agressivas dela (após o acidente de Magni, ela havia trancado a cidade com seus exércitos e reclamado o trono) que o Conselho dos Três Martelos havia sido formado. A decisão de reforjar o martelo de Modimus também havia partido dela.

Porém, por várias vezes Moira provou ser o maior aliado de Kurdran em Altaforja. Quando as reclamações (quase sempre sem fundamento) sobre os Martelo Feroz foram feitas, culpando-os pela falta de comida, de casas e pelos ninhos de grifos superpopulosos, ela defendeu o clã dele. Mas a benevolência aparente dela não era o bastante para Kurdran.

– Ela estava precisando ficar longe da quentura – disse Kurdran, enquanto acariciava o flanco leonino de Sky’ree.

Moira se aproximou de Sky’ree e colocou a mão no bico do grifo. – Uma criatura magnífica. Como está a saúde dela?

– Melhorando – mentiu Kurdran, sem vontade de discutir o assunto com Moira além do necessário. Na verdade, ele ficou surpreso ao ver que Sky’ree fora capaz de se levantar do ninho hoje.

– Eu tenho a impressão de que ela acabará ficando nova em folha com o tempo – disse Moira. Ela acariciou a juba de Sky’ree e o grifo abaixou a cabeça, piando baixo.

Kurdran sabia que Sky’ree era uma ótima juíza de caráter. O fato de ela gostar de Moira criou dúvidas sobre suas suspeitas acerca da líder dos Ferro Negro.

Moira chamou Drukan, que estava longe dali com a cara fechada:

– Venha, Drukan. Sky’ree é uma lenda. Ela já enfrentou dragões, você sabia?

– Eu não confio num bicho que gosta de sangue de anão – resmungou Drukan, com uma expressão de desprezo.

Os olhos de Moira se abriram em choque e ela riu. – Não seja ridículo.

– É isso que dizem sobre as terras dos Martelo Feroz – continuou Drukan. – Eles alimentam os grifos com os prisioneiros. E essa Sky’ree aí… bom, dizem que ela já comeu mais do que o suficiente.

Kurdran sentiu o sangue subir à cabeça e caminhou em direção a Drukan.

– Olha como fala, piá.

– Você sabe como esses rumores absurdos andam se espalhando – falou Moira, colocando a mão no ombro de Kurdran. – Drukan está… como posso dizer… ainda aprendendo os fatos mais sofisticados da civilidade.

Moira se virou para Drukan e falou, em um tom malévolo:

– Peça desculpas.

– Mas, Majestade…

– Agora. – Ela olhou para Drukan de uma forma fria que falou mais do que palavras.

– Peço perdão, senhor – disse Drukan a Kurdran, com os dentes crispados.

– Bom, eu não quero atrapalhar você e Sky’ree, – falou Moira, cordial novamente. – Só queria dizer que a sua decisão ontem foi incrivelmente humilde… algo que eu já esperava após ouvir contos sobre sua bravura em Terralém. Reforjar o martelo trará união, e isso só será possível por causa da sua decisão.

– Eu não sou um desses anões por aí sem opinião própria – respondeu Kurdran severamente. – O que está feito, está feito.

A herdeira do trono de Altaforja simplesmente sorriu e concordou:

– É claro. Vou deixar você e a poderosa Sky’ree continuarem o passeio.

Kurdran viu a dupla ir embora, mas seu momento de paz com Sky’ree já estava arruinado pela conversa. Ele queria que Moira fosse o inimigo. Isso, pelo menos, tornaria a confusão em Altaforja mais compreensível. Porém, ele sentia cada vez mais que estava procurando lógica em uma cidade que havia abandonado os últimos traços dela ultimamente.

– Vamos voltar para o ninho, menina. – falou Kurdran enquanto alisava a asa de Sky’ree.


Kurdran estava de pé em frente a seu trono na Sala do Trono, forçando-se a permanecer calmo. Foi necessária toda a sua força de vontade para impedi-lo de se lançar contra Belgrum, que estava de pé diante dos tronos.

– Eu assumo toda a responsabilidade por isso – disse o conselheiro, abaixando a cabeça em respeito a Kurdran e aos outros membros do conselho.

A Sala do Trono estava vazia, salvo por Belgrum e os três representantes dos clãs. Ainda assim, o velho anão falou em um tom bem alto. Entre suas palavras, o silêncio preenchia a sala. Em sua mão estava o pergaminho que contava a história do martelo de Modimus.

– É uma mentirada muito bem-feita – afirmou Belgrum, erguendo o pergaminho e sorrindo com desgosto. – Depois de uma baita pesquisa, eu concluí que o pergaminho foi envelhecido por magia. E foi enfiado nos livro de registros. À primeira vista, nada era motivo de preocupação.

– Não é motivo de preocupação? – exclamou Kurdran. – Um dos homens do meu clã está morto!

– Caso tu tenha esquecido, caudilho, um dos homens do meu clã morreu também – retrucou Muradin. – O entrevero não teria ido tão longe se tu tivesse entregado o pedaço do martelo logo de cara.

– Tá surdo, anão? Isso não é pedaço de coisa alguma!

– Não use isso como desculpa! Você não queria nada disso, para começar!

– Muradin, Kurdran, por favor – disse Moira, que virou-se para Belgrum. – A reforja é daqui a um dia. Você sabe o que isto significa, não é?

– Sim, senhora. Mas o pergaminho é fajuto. Eu garanto isso com a minha vida. Alguém aí teve um trabalhão para falsificar isso, mas a escrita usada não combina com a dos outros pergaminhos da mesma época.

– Então, de onde vêm as partes do martelo? – perguntou Moira.

– Pelo que se sabe, o cetro dos Martelo Feroz e a joia dos Ferro Negro surgiram depois da guerra civil. O pergaminho descreve o dano na cabeça do martelo dos Barbabronze em detalhes, exatamente da mesma forma como o encontramos. Mas, pelo que sabemos, não há como dizer quando ele foi danificado e colocado na biblioteca.

– Quem fez isso? – rugiu Kurdran. Ele limpou uma camada de suor da cabeça. Apesar de ter uma constituição física invejável, o calor sufocante da cidade estava começando a afetá-lo.

– Bah, isso é impossível de saber. Muitos anões passam pela biblioteca todo dia – respondeu Belgrum.

– Não importa. Temos de ir até o fundo disso– exclamou Moira. – Nossos companheiros anões estão esperando um ato de união dos clãs. Se esta história vier à tona e nós cancelarmos a reforja, vão querer culpar alguém. Esta informação não deve sair desta sala – Moira olhou fixamente para Belgrum. O velho anão assentiu.

Kurdran deu um soco no trono e explodiu:

– Eu não vou abrir mão de uma coisa que pertence ao meu clã por direito para manter essa farsa!

– Não é uma farsa para a cidade – falou Muradin. – Não após dias de discussão sobre isso.

Mesmo nervoso, Kurdran reconheceu a sabedoria das palavras de Muradin. As discussões sobre o martelo de Modimus elevaram as tensões em Altaforja a um ponto sem retorno, como uma avalanche que seguiria seu curso até o momento da reforja, independente do que o conselho dissesse.


Kurdran sentou-se no poleiro dos grifos e remoeu aquela situação perturbadora. A verdade sobre o martelo de Modimus pesava em sua mente. Ele pensou em levar Sky’ree para dar um passeio e limpar a cabeça, mas ela não se levantou. Ficou lá deitada, inerte, com a respiração fraca.

Os cavalgadores de grifo dos Martelo Feroz estavam sentados ao lado de seus companheiros alados, todos preocupados com a condição de Sky’ree e com a atmosfera tensa em Altaforja. Até mesmo o costumeiro semblante jovial de Eli parecia preocupado. O cuidador dos grifos espalhava os feixes de palha letargicamente. Vários cavalga-grifos, Eli inclusive, eram veteranos de Terralém. Eles acompanharam Kurdran a Altaforja, assim como o haviam seguido até a terra natal dos orcs, sem nunca questionar suas decisões. Mas pela primeira vez na vida, Kurdran sentia que havia levado-os a uma batalha sem sentido.

Kurdran havia se levantado e começado a caminhar distraidamente pelo aviário quando dez anões Ferro Negro começaram a passar por entre os ninhos, levando barris de madeira para a passarela. Os Ferro Negro olhavam de maneira inquietante para os Martelo Feroz enquanto passavam. Um deles tropeçou em uma pilha de palha seca, derrubando um dos barris no chão. O barril de madeira arrebentou e um líquido pálido se espalhou por todo o aviário.

O Ferro Negro caído socou o chão e se levantou com dificuldade.

– Por que vocês aí dos Martelo Feroz ficam espalhando essas suas galinhas por onde a gente passa? – reclamou o Ferro Negro, cuspindo no grifo mais próximo. A criatura gritou e chutou a beira do ninho, jogando uma pilha de palha na cara do anão.

Eli parou o que estava fazendo e aproximou-se calmamente do Ferro Negro.

– Não é culpa deles, piá – disse ele, em um tom contido.

– Esses bichos só causam problemas desde que chegaram por aqui. Como se ter que ficar caminhando pelo meio desses ninhos imundos deles não bastasse, eles anida largam esse fedor na cidade inteira! – O Ferro Negro estava cheio de ódio. Estalou os dedos e caminhou na direção do grifo mais próximo, com os dois punhos fechados.

Eli instintivamente levantou o forcado na direção do Ferro Negro. – Nem pense em encostar um dedo no grifo, piá.

Os olhos do Ferro Negro se arregalaram ao ver o forcado apontado para ele. – Estão vendo isso, rapazes? – gritou para os outros Ferro Negro. – Um Martelo Feroz tá levantando a arma contra nós.

Eli baixou rapidamente o forcado e contemporizou:

– Não transforma isso em uma pendenga maior do que é.

Cinco cavalgadores de grifos levantaram-se. Um deles caminhou à frente e encostou o dedo em riste no peito do Ferro Negro.

– Peguem as suas coisas e sigam caminho – ordenou o Martelo Feroz.

Kurdran sentia a confusão esquentando. O caldeirão estava fervendo, cada vez mais perto de transbordar. Depois da revelação perturbadora sobre o Martelo de Modimus, uma briga era a última coisa que precisava acontecer. O thane caminhou até os Ferro Negro, na intenção de evitar o inevitável.

– Vocês Martelo Feroz preferem ver essa cidade queimar a colocar esses bichos em perigo! – gritou o Ferro Negro, que depois virou-se para seus companheiros e disse – Deem para eles alguma coisinha para acalmar a cabeça.

Sem pensar duas vezes, dois Ferro Negro arremessaram um dos barris no ninho. O objeto passou voando pela cabeça de Kurdran e caiu ao lado de Sky’ree, quebrando-se e espalhando a bebida dos Ferro Negro sobre ela e os outros grifos próximos.

O ódio ebuliu no interior de Kurdran, que precisou respirar fundo para recuperar a compostura. Caminhou até o líder dos Ferro Negro para mandá-los irem embora. Ao ver Kurdran, o Ferro Negro recuou involuntariamente e tropeçou novamente na palha, caindo outra vez ao chão.

A risada irrompeu entre os cavalgadores de grifos. – Só de ver Kurdran, os cabeças de bagre perderam toda a coragem.

O Ferro Negro olhou furtivamente para os lados, a humilhação clara no rosto. Por fim, se levantou e ficou a centímetros de Kurdran, provocando:

– Thane borboleta… por que você não volta para lá e vai sentar com o resto dos animais? – E cuspiu no rosto de Kurdran.

O pequeno ato de insulto mexeu com algo que havia dentro de Kurdran. Algo que estava se remoendo dentro dele desde que chegou a Altaforja. O sonho de ver o céu sobre o Ninho da Águia, a decisão de entregar sua relíquia, a condição de Sky’ree. Tudo veio à tona de uma só vez, cegando-o com fúria.

O punho de Kurdran se chocou contra o rosto do Ferro Negro com tanta força que arrancou o anão do chão.

Sem receber qualquer ordem, os Martelo Feroz ao lado de Kurdran partiram para cima dos Ferro Negro, que rapidamente rolaram para o lado, desviando dos primeiros golpes. Grunhidos altos partiram dos grifos enquanto os barris eram jogados nos ninhos, partindo-se ao entrar em contato com o chão de pedra. A partir daí, os Ferro Negro e os Martelo Feroz se atracaram, agarrando todos os braços, pernas e armaduras que alcançassem.

Os grupos coesos se empurraram para frente e para trás, até que os Ferro Negro finalmente perderam o equilíbrio e se chocaram contra um braseiro. As brasas caíram e incendiaram uma pilha de palha. O fogo rapidamente tomou conta dos ninhos ao redor, alimentado pela bebida alcoólica derramada pelos Ferro Negro.

Em questão de segundos, o aviário inteiro estava em chamas. A fumaça subia em direção ao teto da Grande Forja. Vários grifos guincharam fortemente e decolaram, deixando para trás uma torrente de penas, cinzas e brasas.

– Água! – gritou Kurdran desesperado, pisoteando a pilha de anões caídos no chão.

De outras partes da Grande Forja, vários anões começaram a correr na direção do aviário. A maioria dos grifos já estava voando, circulando nos cantos escuros da área, mas quatro deles permaneceram no chão. Três grifos estavam amontoados em torno de Sky’ree e seu ninho.

– Sky’ree! – gritou Kurdran. – Sai daí!

Da direção dela veio um som que fez Kurdran apertar os olhos de dor. Um som que ele não ouvia deste suas batalhas em Terralém. Era um grito de guerra que, por várias vezes, foi o suficiente para fazer os inimigos de Sky’ree fugirem aterrorizados.

Chamas ardiam ao redor dela. Kurdran mal podia ver Sky’ree através da fumaça pesada que impregnava o aviário. Um dos grifos que estava ao lado dela subiu ao ar como uma flecha, deixando para trás uma trilha de penas queimadas no ar. Os outros dois grifos decolaram também, mas não fugiram. Ficaram pairando no ar, tentando segurar as asas de Sky’ree com as garras e gritando um para o outro. Em sincronia, os dois grifos começaram a bater as asas furiosamente, tentando tirar Sky’ree do chão. Mas ela se soltou da pegada de seus companheiros.

Os anões começaram a apagar as chamas com barris de água, enquanto uma dupla de gnomos recém chegados começou a lançar feitiços com cristais de gelo sobre o aviário. No entanto, o fogo continuava violento. Kurdran tentou tirar a armadura, mas no estado de nervosismo, não conseguiu soltar as presilhas. Abandonou a ideia e correu para dentro das chamas.

– Kurdran! – gritou Eli.

O cuidador dos grifos e outros dois Martelo Feroz seguraram o corpo de Kurdran. Mesmo com três anões muito fortes segurando ele, Kurdran continuou caminhando em direção às chamas. Foram necessários mais dois Martelo Feroz para prendê-lo no chão.

Preso, Kurdran só conseguiu ver o momento em que os dois últimos grifos fugirem do ninho, não aguentando mais a fumaça e o calor. Depois de alguns segundos agonizantes, Sky’ree caiu ao chão.

Depois que as últimas chamas foram apagadas, Eli e os outros Martelo Feroz soltaram Kurdran, e ele correu para o ninho fumegante. Sky’ree estava lá, inerte. Escurecida e esfumaçada.

Uma mão tocou o ombro de Kurdran.

– Eu… Eu sinto muito – lamentou Eli, com uma voz chorosa.

– Por que ela resistiu quando os companheiros tentaram salvá-la? – Kurdran balbuciou, sem acreditar.

– Ela estava protegendo os ovos! – concluiu Eli repentinamente.

Os dois anões moveram cuidadosamente o corpo de Sky’ree. Debaixo dela, onde antes estavam três belos ovos, havia pedaços partidos de casca e os restos calcinados dos filhotes de Sky’ree.

Kurdran observou a cena mórbida, sem conseguir dizer palavra.

– Ela… Ela tentou – comentou Eli enquanto se agachava em frente ao ninho enegrecido.

A multidão em torno do aviário de grifos arruinado permaneceu silenciosa. Até os Ferro Negro, que foram parcialmente responsáveis pelo incêndio, pareciam aterrorizados e sem palavras. Todos olhavam para Kurdran. A fumaça do ambiente estava permeada pelo cheiro de carne e de palha queimada, e ele se sentiu enjoado.

Parte 2
Por: Matt Burns
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