O Pergaminho em Branco Parte 1

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by luizcsilva on 16 de junho de 2015

— Deixa eu ver se entendi — disse Ziya, afiando as adagas. — Você quer que eu conte uma história?

Ela sentava-se com Arko contra um penhasco na costa norte de Pandária, abrigada dos piores ventos. Não podiam se arriscar a acender uma fogueira; os dez esquadrões de saqueadores goblins espalhados pelo continente vinham saqueando tesourarias, templos e arsenais já havia semanas e, por algum motivo, não eram muito populares com os nativos.

O esquadrão de Ziya já vira dias melhores. Luki estava na enfermaria com uma ferida de garrespinha em uma… área sensível. A habilidade de Zuzak com bombas não incluía saber mexer com pavios. Desobedecendo às ordens de Ziya, Strax tentara roubar um andarilho pandaren solitário, que se revelara um monge Shado-pan sem nenhum senso de humor.

Arko, que não parava de atear fogo às próprias vestes com seus encantamentos, era o último sobrevivente. Ziya não entendia como.

— É! — disse o pequeno mago. — Vai ser uma noite longa. Você já viu muita coisa, né? Que tal uma história de guerra?

— Qual guerra? — bufou Ziya. Um vento gélido varreu a superfície do oceano e a atingiu em cheio no rosto. Ela olhou para a forma distante, brilhante e tépida do superzepelim do príncipe mercador Gallywix acima das ondas escuras.

Gallywix, para surpresa e imediato horror dos seus goblins em Pandária, decidira supervisionar pessoalmente a Iniciativa Esquadrão Saqueador e “inspirar” suas tropas. A única coisa que ele tinha inspirado até o momento, como sempre, era desdém. Até de onde estavam era possível ouvir a música de festa pairando sobre a água.

Tremendo, Arko, aproximou-se dela ao longo da parede, procurando calor. Ziya casualmente enterrou uma adaga na areia entre eles.

— Como assim, “qual guerra”? — perguntou Arko, encarando a adaga.

Ziya suspirou. Ele era verde demais, até para um goblin.

— Vejamos — respondeu, embainhando a adaga e contando nos dedos. — Eu combati a Aliança. Os Sectários do Crepúsculo. Elementais. Mortos-vivos. Mantídeos. Os sha. Um dragão, uma vez. Ah, e Gallywix, quando ele tentou escravizar todos nós… opa, acabaram os dedos.

— Vai ser uma noite longa — repetiu Arko. — Por favor, sarja.

Ziya revirou os olhos.

— Tá bom, mas nada de histórias de guerra.

— Por quê?

— Porque — disse ela, pegando e girando o anel pendurado em seu pescoço — elas são muito pessoais. Que tal… você conhece a história de Rakalaz?

— Não.

— Você era da superfície, né? Eu cresci em Pyrix, uma cidadezinha de Inframina de que ninguém nunca ouviu falar…

— Eu já ouvi falar, sim! — disse Arko, prestativo.

— Ótimo. Pare de falar e escute.

— Há cem anos, o príncipe mercador Leeko estava enviando mineiros de Jakamina para mais fundo do que jamais se fora. Você tinha que encher um vagonete de minério, e só então os capatazes deixavam você ir pra casa. Então uma noite, lá embaixo no escuro, um mineiro chamado Miz atravessou o que ele pensava ser uma parede de rochas e encontrou…

Ziya pausou. Arko não falara nada. Até o vento silenciara. Mas ela pensou ter ouvido o eco sussurrado de suas palavras meio segundo depois de pronunciá-las.

— Um buraco. N… não — disse Ziya, só então lembrando que sempre detestara aquela história quando criança. — Um vazio. E no fundo, duas luas, pálidas e redondas. Os olhos de Rakalaz vigiando-o.

As ondas batiam na praia. Arko engoliu em seco. Lambendo os lábios, Ziya continuou: — Ele rugiu e começou a escalar…

Ziya se levantara de salto com ambas as adagas prontas antes mesmo de perceber por quê.

As estrelas tinham desaparecido.

— Quê? O que foi?! — gritou Arko.

Ziya teve que sorrir. Arko provavelmente pensou que fosse Rakalaz atacando.

Ela sentiu um calafrio na espinha.

A costa sumira, as ondas soavam abafadas. O ar estava rançoso, gorduroso, e parecia familiar.

Era o cheiro de Inframina.

Naquele instante, uma mão azul gigante, pálida, de oito dedos, irrompeu do chão a oito metros de distância e empalmou a areia. Rakalaz se ergueu, e seus olhos reptilianos como lanternas encaravam ambos.

A mente de Ziya gritou. Mas seu corpo ergueu Arko pelas vestes.

— Faça sinal pro zepelim — cochichou para ele. Forcejando para libertar a perna, Rakalaz golpeou na direção deles e uivou, atingindo-os com um bafo pior que mil monturos de lixo da Inframina.

Arko choramingou, mas não se moveu.

— Arko! — gritou Ziya. — Avise ao superzepelim que estamos aqui! Talvez tenha alguém sóbrio o bastante lá para mandar reforços. Cuidado!

Ela pegou o pequeno Arko, girou e usou o peso dele para se afastarem do caminho. Garras se enfiaram na pedra sólida bem no local em que eles estavam e arrancaram um bom pedaço do penhasco.

Tremendo, Arko foi o primeiro a se levantar. Firmou-se e começou a cantar, chamando um sinalizador arcano, chamando a salvação com as mãos em concha ao redor da boca.

Então ele cometeu o erro de olhar para Rakalaz, que ia em sua direção. Grossos fios de baba escorriam de sua bocarra aberta.

Arko guinchou, atirou o sinalizador incompleto no ar e correu em direção à praia.

 

Ziya viu-o se afastar. Então ela olhou para o pequeno fiapo de luz do sinalizador bem a tempo de vê-lo sumir.

— Ótimo — disse.

A mão de Rakalaz se fechou quase delicadamente ao redor de Ziya, que forcejava por libertar-se, e a ergueu em direção à bocarra.

Uma rocha veio zunindo de algum lugar e acertou um dos olhos da lua. A mão que segurava Ziya se abriu num espasmo e ela caiu…

… em braços peludos.

— Olá — disse a pandarena, depondo-a no chão com força serena. Ela apontou para Rakalaz com a cabeça. — Acho que não conheço esse aí.

— Hein?

— Esse personagem — disse sua salvadora, com as patas na cintura, observando o pesadelo da juventude de Ziya com um olho clínico. Grunhindo, Rakalaz virava o olho bom de uma para a outra, talvez imaginando como faria para devorar as duas de uma só vez. — Você estava contando uma história e ele surgiu, não foi? Ah, só por curiosidade, como é que a história termina?

— Você tá falando sério? — Ziya olhou para o superzepelim. Para a sua surpresa, ele se voltava lentamente na direção deles.

— Quase sempre. Rápido.

— Miz joga a última banana de dinamite na garganta do monstro.

O sorriso gentil da pandarena congelou.

— Ah, uma história goblin. Claro que ia terminar com explosões. Não deixe cair.

Ziya deu um pequeno espasmo. Sua mão direita ficou mais pesada de repente. E chiava.

Uma certeza serena tomou conta dela, a despeito da situação. Tinha crescido ouvindo aquela história. Ela se imaginara no lugar de Miz, imaginara aquele momento com o terror vívido de uma mente infantil.

Sem pensar duas vezes, ela se voltou para o monstro e arremessou a dinamite da história na garganta cavernosa de Rakalaz.

Rakalaz a encarou intrigado e engoliu. Ziya piscou; ela olhava da criatura para sua palma vazia.

— Ahm? — disse ela, astutamente.

A pata da pandaren apareceu perto dos pés de Ziya e a puxou na direção da areia.

Depois de um período interessante de barulho e espatifamento, Ziya ergueu a cabeça. Os restos queimados estavam desaparecendo. O buraco no chão se enchia de areia. Logo seria como se nada tivesse acontecido.

Então a ficha caiu.

— Fui eu que fiz aquilo.

— Foi — disse a pandaren, se levantando e batendo o pó com graça precisa. O superzepelim de Gallywix estava perto o suficiente para que vissem os escorregadores de rum e jacuzzis de pudim nos andares mais baixos da aeronave. — Você começou uma história. Você a terminou. Isso é contar uma história. O resto é conversa.

— Mas nós sobrevivemos.

— E…? — disse a pandaren, franzindo o cenho para o superzepelim.

— Miz não sobreviveu à explosão na história.

A pandarena sorriu. Seus dentes eram afiados e muito brancos.

— Ora, então ainda bem que você não disse isso antes.

Havia alguma coisa errada.

O superzepelim pairava sobre as ondas, iluminando Ziya, a pandarena Shuchun e o buraco que Rakalaz fizera no penhasco.

Shuchun era uma Andarilha das Lendas; Ziya mal compreendia o que aquilo significava. Andarilhos das Lendas contavam histórias. Procuravam artefatos do passado ancestral de Pandária. E, a julgar por Shuchun, falavam de boca cheia e sorriam um bocado.

Emoldurada no círculo cegante de luz, a Andarilha olhou para cima, deu outra mordida no rolinho de ave selvagem e mastigou pensativamente.

— Você realmente devia dar o fora daqui — disse Ziya. — Gallywix está lá em cima. Ele pode começar a tacar megabombas na gente só de sacanagem.

— É? — respondeu Shuchun, engolindo. — Eu ouvi falar dele. Mas acho que vou ficar.

— Por quê?

— Vamos torcer para que você não descubra.

Ficaram sentadas num silêncio desconfortável. Por fim, Ziya disse: — Obrigada pelo resgate. Olha, eu acho que devia avisar…

— Que você está aqui para roubar tesouros e artefatos? — disse Shuchun. — Eu sei. Eu vim para impedir você.

— Mas você me salvou!

— Eu disse impedir, não matar — respondeu Shuchun, serena.

— Ah. E como foi que eu fiz o Rakalaz aparecer?

— Mágica — disse Shuchun.

— Mágica.

— Isso, mágica — concordou a Andarilha das Lendas. — Que bom que estabelecemos isso.

— Isso não explica nada!

— Você lembra — perguntou Shuchun — quando eu disse que esperava que você não descobrisse por que eu ainda estou aqui?

— Lembro. Você disse isso há dez segundos.

— Bem, eu falei sério, sério, muito sério.

Uma corda se desenrolou do convés distante em uma lenta espiral até se estirar totalmente por vários metros. Então um vulto sombrio pulou da amurada e desceu numa velocidade estonteante, usando apenas uma mão.

Quando o vulto estava na metade do caminho, Ziya xingou. Não se tratava de um assassino, nem de um marginal, nem de algum matador contratado. Era alguém pior.

Druz, o principal capanga de Gallywix, pousou na areia. Sua armadura de couro era tão bem cortada quanto um terno. Ele carregava uma maleta esguia sob o braço musculoso.

 

Diziam as histórias que ele crescera junto com Gallywix em Kezan. Ele não era infame, pois jamais fora pego em nenhum ato realmente horrível. Mas, às vezes, coisas bem horríveis aconteciam aos inimigos de Gallywix, e Druz sempre era um dos primeiros goblins a dar os pêsames.

— Sargento — disse ele, acenando com a cabeça para Ziya. — Andarilha das Lendas Shuchun. Um segundo, por favor.

Ele se ajoelhou na areia e abriu a maleta de costas para eles. Houve cliques suaves atrás da barreira de couro.

Ziya grunhiu baixinho. Aquele era outro detalhezinho assustador: Druz sempre parecia saber demais sobre todos que encontrava. Nomes. Cargos. Pontos fortes. Fraquezas. Ela não sabia se aquilo era conseguido com pesquisa, espiões ou magia.

Ela não ficou surpresa do capanga ter chamado a Andarilha pelo nome. Ele provavelmente sabia os nomes, números dos calçados e bebidas favoritas de todos em Pandária.

— Eu vi Rakalaz do convés — disse Druz, enquanto trabalhava. — Aquilo foi impressionante. Eu odiava aquela história quando era criança.

Clique. Claque-clique.

— Muito bem — disse ele finalmente. — Obrigado por resgatar nossa funcionária, Andarilha. Tenha uma boa noite.

Ele esperou. O sorriso de Shuchun ficou maior. Druz acenou e meteu a mão na maleta. Instintivamente, Ziya agarrou as adagas…

Druz arremessou um enorme saco de ouro (Ziya reconheceu o metal pelo barulhinho delicioso) aos pés da Andarilha das Lendas.

— Obviamente, há uma recompensa. Dê minhas lembranças à pequena Fen. Está perto do aniversário dela, não é?

— Isso foi uma ameaça? — respondeu Shuchun, calmamente. Ela se levantou devagar.

Druz suspirou.

— Não. Isso fui eu sendo educado. Eu ofereci uma recompensa. E me despedi desejando tudo de bom para sua família. É exatamente o contrário de uma ameaça.

Num borrão veloz, Druz ergueu um rifle enorme, apontou-o para Shuchun e o engatilhou. Peças de arma giraram umas contra as outras como continentes bem oleados.

— Agora — disse ele —, isso, sim, é uma ameaça. Vou dizer de novo: pegue a recompensa. Vá para casa.

— Você viu, não viu? — perguntou Shuchun.

— O quê? — disse Ziya.

— Há uma porta dourada atrás daquele buraco no penhasco — disse Druz, apontando para onde Rakalaz atingira. O peso do rifle em sua mão não parecia incomodá-lo. — E nós vamos ficar com ela e com tudo o que tiver lá dentro.

— Pode apontar a arma que quiser para mim — disse Shuchun, mudando um pé de posição com lenta elegância. — Não vou deixar você entrar na câmara das lendas.

— Olha só — disse Druz, racionalizando —, vamos abrir o jogo. Parece que há uma arma lá dentro que pode criar monstros do nada. Nós a queremos, e ela não vale sua vida.

— Eu o impedirei se for preciso — disse Shuchun.

— Certo. Vamos supor que você me mate. — Uma das luzes da aeronave passou por ele, que protegeu os olhos. — O superzep vai detonar essa área com tiros de canhão até arrebentarem a câmara. Você sai perdendo do mesmo jeito.

Uma adaga apareceu em sua garganta.

— Estou com um pressentimento esquisito — disse Ziya, atrás dele — de que você vai atirar nela quando ela virar as costas.

— Provavelmente não — disse Druz. Ele não baixou a arma.

Provavelmente não é bom o bastante. Eu meio que gosto dela. E também tenho outro pressentimento de que você pretende ir à câmara sozinho.

— Pretendo. E?

— É que tem que ver isso aí da minha porcentagem.

— Seu esquadrão ainda não encontrou nada.

— Exato.

Shuchun observou com curiosidade os dois goblins brigando por causa de obrigações contratuais e pagamento por serviços de alto risco. Ela se sentou novamente, comeu alguns bolinhos de curry da mochila e esperou, ignorando o cano da arma.

Finalmente, ela disse: — Não é uma câmara.

Sua voz, rica e firme, interrompeu a discussão como uma lâmina derretida. Os dois goblins olharam para ela.

Druz a estudou com franca suspeita. — Mas eu pensei…

— Eu disse que era uma câmara das lendas. Esse lugar usa as histórias pandarianas de armadilha para proteger artefatos perigosos. Não gosto nem de pensar no que pode acontecer com quem entrar lá sem um guia que saiba o que está fazendo. Bolinho de curry, alguém? — disse ela, erguendo um.

— Você está oferecendo seus serviços? — perguntou Druz.

— Em troca de pagamento? De jeito nenhum — respondeu Shuchun. — Mas, sem mim, vocês dois vão ser devorados. Ou coisa pior. Então eu levarei vocês até lá e farei o meu melhor para convencê-los de que estão cometendo um erro.

Ela olhou para a arma, depois para a adaga, até que foram baixadas. Então ela sorriu, se levantou e, com uma voz de contadora de histórias que se erguia sobre o barulho das ondas, disse:

— “A Andarilha das lendas tomara sua decisão” — disse ela. — “Ela voltou a atenção para a câmara das lendas que a reconheceu e se abriu.”

Com um estalo alto, o penhasco se abriu, espirrando areia e pedaços de rocha.

Nas trevas lá dentro podia-se distinguir uma porta dourada redonda grande o suficiente para um dragão passar. Figuras insculpidas cobriam cada centímetro da superfície, milhares de personagens em milhares de histórias, um depois do outro. Os reflexos das luzes que passavam pela porta davam a impressão de que as marcas se moviam…

A porta girou e se abriu, revelando uma escadaria.

A Andarilha das Lendas Shuchun, à frente dos dois goblins, ia descendo a curva suave da passagem de pedra. Quando ficou claro que ninguém trairia ninguém imediatamente, os goblins relaxaram. O ar estava frio e parado. Expectante.

Ziya rompeu o silêncio. — Eu não entendo.

— O quê? — disse Druz.

— Você. Você é um cara reservado, é competente. Como você foi trabalhar para um cara todo “minha fuça está esculpida numa montanha” feito o Gallywix?

Sr. Gallywix — corrigiu Druz. — Ou príncipe mercador Gallywix. Nunca só “Gallywix”. E talvez você não o conheça tão bem quanto eu.

 

— Não tem nada pra conhecer — disse Ziya. — Ele é um monstro. Já vi poças mais profundas que ele.

— Então tá — respondeu Druz. — E, de alguma forma, ele ainda está no comando, quando quase todos os outros goblins e príncipes mercadores querem a cabeça dele. Até a mãe dele tentou matá-lo duas vezes, diabo. Faz a gente pensar.

O caminho subitamente virou para a direita. Aos poucos, as paredes lisas sumiram, dando lugar a tijolos antigos e retorcidos. Um lodo fétido escorria das rachaduras. Nenhum goblin notou. Shuchun sorriu, olhando para o teto.

— Não, não faz — redarguiu Ziya. — Ele nos escravizou quando saímos de Kezan! Seu próprio povo!

— Não é culpa dele se você não tinha um barco — disse Druz. — Mas, olha só, você lutou e se libertou. Bom pra você. E aposto que você agora não sai confiando em qualquer um.

A descida suave tornou-se uma intersecção de quatro pontas. Shuchun dobrou à esquerda sem parar e os goblins a seguiram.

Deixando isso de lado — grunhiu Ziya (pois ele estava certo) —, você quer mesmo dar essa arma, seja lá o que for, pro Gallywix? Sabendo como ele é puxa-saco do nosso chefe guerreiro lunático?

— Sr. Gallywix — disse Druz, em reprovação. — E cá entre nós… e nossa guia… nós queremos moeda de troca, e não poder. Antes a gente queria a paz entre a Horda e a Aliança, mas, depois de Theramore…

— Paz — disse Ziya. — Gallywix quer que a Horda faça as pazes. Com a Aliança.

— É — disse Druz, erguendo as sobrancelhas ao detectar raiva na voz de Ziya.

— Mas eles são piores que ele! Se voltarmos atrás agora, tudo que fizemos terá sido em…

— Espere — disse Druz. Eles tinham passado por mais algumas intersecções sem parar. — Andarilha das Lendas, onde nós estamos?

— Em uma história — disse Shuchun. Ela prestava atenção no chão.

— Qual?

— Uma não muito feliz, se eu estiver certa — disse ela, desacelerando para que os goblins a acompanhassem. — Mas quero ter certeza antes de… deixa pra lá. — Ela apontou. — Agora eu tenho certeza.

Suas pegadas apareciam diante deles. De alguma forma, tinham andado em círculos, mas havia alguma coisa estranha.

Havia outras pegadas atrás das suas, tortas e horríveis. E, se estavam andando em círculos…

— Não se virem — disse Shuchun.

— Mas… — disse Ziya, sentindo um calafrio. Pés ávidos batiam no caminho de pedra atrás deles, aproximando-se.

— Não se virem — repetiu Shuchun. — Esse é o “Labirinto do Imperador Louco Kun”.

— O imperador Kun — explicou a Andarilha das Lendas Shuchun — era dominado por seus medos. Ele acreditava que os mogus iriam retornar. Em meio à névoa da paranoia, ele enxergava traição atrás de cada sorriso, um complô atrás de cada juramento de lealdade e armadilhas astutas por trás das calmas profecias dos parláguas jinyus.

— Por isso, ele ordenou que um labirinto fosse construído sob seu palácio, com uma sala segura no centro. No ataque de pânico seguinte, Kun fugiu para o labirinto, entrou na sala segura, fechou a porta e esperou que o terror passasse. Mas nunca passou. O labirinto fora construído tão bem que o imperador esqueceu a saída.

Mordendo os lábios, Druz olhava de um lado a outro enquanto espichava o braço para pegar seu…

Sem tirar os olhos do túnel à frente, Shuchun lhe aplicou uma cacholeta na orelha.

— Ai. Para com isso.

— Qual o problema? — respondeu Shuchun calmamente, enquanto os grunhidos da criatura que se aproximava ficavam mais altos. — Você não está usando seus ouvidos pra ouvir mesmo. Não É. Pra. Olhar.

— Por quê?

— Acho que ela está tentando explicar — disse Ziya, de olhos fechados como se orasse ou estivesse com medo.

— Os grupos de busca às vezes o ouviam chamar — continuou Shuchun. — Mas os anos se passaram. Às vezes, algum explorador entrava no labirinto e fugia de lá gritando, louco de terror, pois o tempo que Kun passara lá dentro o transformara em algo horrível de se ver…

— O que vamos fazer? — sussurrou Ziya. Garras arranharam as paredes atrás deles. A boca de Druz estava firmemente apertada e sua mão pairava sobre o rifle.

— Nós imitamos a história — disse a Andarilha. — Um filhote chamado Li Tao perseguiu seu bandinim até o labirinto. Ele logo percebeu que estava sendo seguido.

Eles viram pelo canto do olho uma cabeça enorme aparecer. Uma respiração sôfrega, quente e azeda soprou em seus rostos.

— Embora estivesse assustado demais para olhar, o pequeno Li Tao ainda se lembrava de que ali estava alguém que tinha ainda mais medo que ele. Então ele voltou…

Ela voltou. Uma garra enorme e deformada se fechou gentilmente sobre a sua.

— … e levou o pobre imperador Kun para fora do labirinto.

Luz do sol, branca e cegante, surgiu à frente. Ziya e Druz, ambos tentando parecer calmos, avançaram rapidamente naquela direção.

Eles adentraram a região iluminada. Os dois goblins olharam para trás e se encolheram ao mesmo tempo.

O imperador se fora. Bem como o labirinto. A Andarilha das Lendas Shuchun olhou com tristeza para sua pata vazia.

 

— Medo e paranoia transformam nossos inimigos em monstros — disse ela, calmamente. — Alguém tem que fazer o primeiro gesto.

Eles continuaram a caminhar pela luz, seguindo a Andarilha das Lendas.

— Onde nós estamos? — perguntou Druz.

— Na câmara das lendas — respondeu Shuchun.

— Isso eu já sei — disse Ziya. — Qual história? “A luz do tédio infinito”?

— Eu gosto de tédio — disse Druz. — Raramente se morre de tédio.

— Ah, sim, aposto que sua vida é bem perigosa mesmo — disse Ziya.

Druz ergueu a sobrancelha. — Você tem alguma coisa pra desabafar?

— Já que você perguntou, sim. — Ziya se voltou para ele. — É fácil pra você falar de paz. Você fica no bem-bom com Gallywix durante anos; já eu, vivo nos campos de batalha. Todo mundo que entrou junto comigo já morreu. A paz é impossível, Druz. Se você lutasse nas linhas de frente, saberia disso!

A luz pulsou gentilmente uma vez. A Andarilha das Lendas Shuchun parou de caminhar e cheirou o ar.

Apertando o anel que levava no pescoço até a mão doer, Ziya esperava que Druz gritasse com ela. Elaqueria que ele gritasse. Em vez disso, ele suspirou.

— Você se lembra das Guerras do Comércio, Sargento? — perguntou ele.

— N-não muito… eu era muito jovem.

— Eu, não. Era briga entre cartéis. Irmão contra irmã. Eu já trabalhava para o Sr. Gallywix na época, como você sabe.

“E você está certa. Eu nunca vi as linhas de frente, porque não havia isso nas Guerras do Comércio. Nós lutamos em túneis e galpões por toda a Inframina. Emboscadas não eram manobras em pinça chiques em campo aberto, eram algum cretino arrebentando uma parede que você achava que era sólida. Claro, a Guerra da Paz foi pior.”

A luz agora pulsava mais rápido. Druz olhou ao redor e sacou o rifle.

— Você não pode impedir a guerra, sargento. Não por muito tempo. Ela fica voltando. O sr. Gallywix continua vencendo elas também. Às vezes usando a bomba certa na hora certa. Às vezes fazendo aliança com um idiota poderoso. E às vezes usando uma arma assustadora como moeda de barganha.

— E agora o seu mestre estrategista acha que a paz é a melhor jogada — disse Ziya, revirando os olhos.

— Isso aí — respondeu Druz, calmamente.

— Impossível. Se a Aliança não acabar com a Horda inteira, eles vão nos escravizar, como fizeram com os orcs.

— Na verdade, eu concordo com você.

— Sério?

— Sério. Eu nunca vi o Sr. Gallywix errar, mas conseguir a paz é uma chance em cem e olhe lá. Ele pode voltar as princesas e príncipes mercadores uns contra os outros e sair de fininho inocente feito um pardal, mas contra os rosadinhos e seus aliados? Eu acho que é pra gente continuar lutando.

— Parem — disse a Andarilha Shuchun. Embora ela falasse suavemente, o tom peremptório era perceptível por trás de suas palavras. A luz ao redor deles agora pulsava como um incêndio branco. O calor se abatia sobre eles como um lençol seco e irritante. O branco tornou-se dunas que se estendiam em todas as direções. Um deserto infinito.

Uma passagem estreita escavada na areia irrompeu na duna mais próxima. Outra passagem a seguiu, e depois outras sete.

— Era o que eu pensava — disse Shuchun, com prazer. — Essa é uma das minhas favoritas: “Di Chen e o deserto”.

“O orgulhoso Di Chen era o melhor lutador do seu tempo. Nenhum monge podia derrotá-lo. Ele pegava flechas no ar com facilidade. As montanhas eram pequenos inconvenientes que ele podia saltar ou destruir com um chute.

“Ele estava muito entediado. Desesperado, Di Chen pediu um desafio de verdade a Lui Ka, a bruxa do deserto.

“Divertindo-se com sua arrogância, a bruxa lhe concedeu aquele desejo: ele combateria o próprio deserto. Cada grão de areia se tornou um guerreiro feroz decidido a matar Di Chen.

“Os guerreiros se aproximaram. Eles pareciam mogus de armaduras de placa, e suas mãos metidas em manoplas se flexionavam.”

— Então esses caras estão decididos a nos matar? — perguntou Druz, com uma careta.

— Ah, se estão — respondeu Shuchun.

— Ótimo — disse Druz, e disparou. Três cabeças arenosas explodiram. — Estava começando a achar que tinha trazido a arma à toa. Sargento?

— ‘Xá comigo — disse Ziya. Druz se ajoelhou para recarregar e Ziya pulou por sobre seus ombros largos, enterrando as duas adagas no peito do guerreiro mais próximo, que caiu num jorro de areia. Ela arremessou uma lâmina em um rosto arreganhado, passou pelo inimigo que se desintegrava para recuperar a arma, agachou-se e atacou os três guerreiros remanescentes. O aço brilhou em uma espiral e os soldados caíram um a um.

Uma brisa quente soprava pelo deserto vazio. Sorrindo, Ziya voltou, embainhando as adagas…

Mais trinta guerreiros irromperam das dunas, gritando de ódio e fúria.

— Volta, Sargento — disse Druz, fechando o rifle depois de recarregá-lo. Ziya, rilhando os dentes, foi até o lado dele e esperou com as adagas prontas.

— Eu não contei o fim da história — disse a Andarilha das Lendas Shuchun.

— Com todo o respeito, Andarilha — disse Druz, disparando outra vez. Dois guerreiros caíram. Outros três se ergueram. — Agora não é hora disso.

Shuchun deu de ombros e foi se sentar em uma duna próxima. Cantarolando, ela pegou uma maça da mochila, deu uma mordida entusiasmada e ficou assistindo à luta com interesse. Um único guerreiro cambaleou em sua direção, grunhindo, e ela mostrou as patas vazias. O guerreiro parou e se esfacelou na areia. As criaturas não a atormentaram mais.

Por fim, ela jogou fora o miolo da maçã e fez uma careta.

— Tem algo errado — disse ela.

— Ah, você acha? — As adagas de Ziya socavam a areia rapidamente. — Cai, seu lakratz feioso, cai!

Shuchun coçou a bochecha, intrigada, e então estalou os dedos.

— Ah, sim — disse, satisfeita. — Na história, os guerreiros do deserto tinham armas.

— Quê? Druz! Abaixe-se! — gritou Ziya. A pesada arma de ferro de um guerreiro zumbiu no ar e bateu contra a areia.

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