A força do aço Parte I

by luizcsilva on 9 de janeiro de 2015

Koak estava caindo. Uma queda sem fim por incontáveis léguas de nuvens e chuva. A terra lá embaixo parecia para sempre além do alcance de sua visão. Ao redor dele voavam os dragões, com escamas vermelhas como sangue e olhos de ouro derretido, fantasmas rubros em uma tempestade eterna. Koak podia sentir o ódio fervente contra seu corpo órquico

Ele ergueu o punho contra os dragões e gritou com a autoridade do clã Presa do Dragão. — Me obedeçam! — ordenou, mas sua voz estava maculada por medo e dúvida.

— NÃO! — rugiram eles, em uníssono. Suas inúmeras sombras se fundiram em uma única, maior que o próprio céu. O relâmpago faiscou e Koak vislumbrou Grim Batol ao longe, uma ruína fumegante que ele outrora chamara de lar.

— Koak! — gritou alguém

O sopro do dragão causou uma conflagração e os céus se incendiaram. Koak uivou de dor enquanto as nuvens de tempestade queimavam e seu mundo era consumido pelo fogo. Sua queda acelerou de repente e o chão implacável aproximou-se para encontrá-lo…

— KOAK!

Ele acordou abruptamente no ponto de impacto, com o eco da explosão apitando em seus ouvidos. Embaixo dele havia um convés de madeira lixada e polida. Acima, o balão inflado de um zepelim goblínico. A nave era um inferno incandescente, e sua tripulação lutava freneticamente para mantê-la no ar.

— Abandonar a nave! — gritou o capitão.

Koak se ergueu cambaleando. Sangue escorria de uma ferida aberta em sua testa. — A Aliança… — disse, ainda tonto. Ao olhar por sobre a amurada, viu uma belonave desaparecer entre as nuvens bem acima da Floresta de Jade.

Com um guinchado de metal retorcido, o zepelim se inclinou lentamente para o lado. Koak correu para se agarrar a alguma coisa — qualquer coisa — enquanto as águas do Mar Nebuloso apareciam a estibordo. Então outra explosão o derrubou, arremessando-o para o ar, por sobre a amurada. Os gritos de socorro do capitão foram soprados pela brisa do oceano.

 

Uma chuva leve caía e os ventos costeiros sussurravam em seus ouvidos. Koak chegara à praia. Sua perna pulsava; a dor era contínua. A corrente o arremessara contra as pedras e ela recebera o pior do impacto. Jazendo alquebrado, sangrando na areia, ele se perguntou se aquilo era o que Grito Infernal tinha em mente ao ordenar que pintassem o continente de vermelho.

Ele estava em uma ilha pequena, com uma única torre de pedra no centro, alçando-se na direção das nuvens. Por toda a parte, destroços flamejantes do zepelim afastavam-se da costa em direção à torre, detritos que caíram da nave em sua descida final. O resto flutuava sobre as ondas, junto com os cadáveres calcinados dos antigos colegas.

Pela Horda, pensou, amargo. Houve uma época em que aquelas palavras tinham significado para Koak. A dor na perna aumentou quando ele se ergueu.

Apoiando-se em uma muleta improvisada, Koak coxeou em direção ao interior, entre os restos espalhados da nave, em busca de sobreviventes. Fumaça pungente se evolava dos tanques de combustível rompidos, fazendo seus olhos e pulmões arderem. Ele quase sufocou com os gases ao dar a volta em uma seção devastada do casco do zepelim.

Diante dele apareceu uma serpente das nuvens monstruosa, as escamas escarlates cintilando com sangue úmido.

A perna de Koak cedeu e ele arquejou e cambaleou para diante. A serpente se postava em um ninho de pedra achatada na base da torre. Seu corpo estava recoberto de cortes e queimaduras. Ela ergueu a cabeçorra e encarou Koak.

— Calma… — sussurrou Koak no tom mais dócil que conseguiu. A serpente tinha nove metros de músculo sólido, com garras tão grandes que poderiam facilmente envolver o torso de Koak e esmagar suas costelas enquanto as enormes mandíbulas o partiam ao meio. Mas ela não se moveu para atacá-lo, e Koak percebeu que ela estava morrendo. Ele reparou nas pilhas de metal retorcido e madeira queimada que cercavam o ninho.

Nós fizemos isso, pensou. Subitamente, sentiu-se enjoado.

Lentamente, como se quisesse mostrar algo a ele, a serpente se desenroscou. No centro do ninho havia um único ovo do tamanho do peito de Koak, imaculado, incólume. A casca brilhava feito granada polida. A serpente o tratava com carinho, em contraste com sua aparência feroz. Ela podia ter escapado ao seu destino, mas ficara para proteger o ovo. Por algum motivo, aquilo enraiveceu Koak.

— Você se sacrificou em vão — grunhiu ele. — O filhote vai morrer de qualquer jeito, abandonado e sozinho. — Ele fez uma careta quando outro espasmo de dor percorreu sua perna. Sangue escorria feito um rio, manchando o chão. E eu vou morrer junto.

A serpente ergueu a cauda e a enroscou no punho de Koak, puxando-o com insistência na direção do ninho. Ela rastejou até o lado dele e o empurrou por trás. Ele se viu diante do ovo.

Ela quer que eu tome conta dele? Eu?

 

— Não — protestou Koak, mas não conseguia parar de encarar o ovo.

Ele estendeu a mão na direção do ovo. O espaço entre eles parecia espesso e pesado como a bonança antes da tempestade. Quando ele o tocou, um choque agudo perfurou seu braço. Koak sentiu o ovo tremer sob a palma; sutilmente no começo, mas logo começou a sacudir com tanta força que ele se afastou apreensivo.

Então a parte superior do ovo explodiu, cobrindo Koak com fragmentos de casca. Uma aura brilhante de fumaça vermelha saía da rachadura, avançando pelo chão como uma parede de neblina. De dentro do ovo saiu uma serpente das nuvens brilhante com escamas de rubi e olhos de safira, olhos tão profundos e fluidos que encará-los era como tentar discernir o fundo do mar.

O filhote encarou Koak e susteve a mirada. Koak estendeu a mão; o filhote serpenteou para diante e fechou as pequenas mandíbulas na carne da palma. Koak não recuou, suportando a dor até a jovem serpente se acalmar. Ela enroscou o corpo em seu braço.

Koak viu a mãe observá-los com uma expressão de tristeza evidente. Ela encarou Koak uma última vez, e ele encolheu-se diante do olhar fixo. Ela fechou os olhos e seu corpo subiu e desceu com um último suspiro ofegante. Então ficou imóvel. O filhote a viu, e seus gritos atormentados indicaram a Koak que ele sabia o que tinha acontecido. Ele observou em silêncio o filhote ir até o corpo da mãe, acariciá-la tristemente com o focinho e enrodilhar-se à sua sombra.

Nos dias que se seguiram, Koak lutou para manter os dois com vida enquanto esperava o grupo de busca que suspeitava que o general Nazgrim não mandaria. E por que deveria mandar? A vida de um único orc não preocupava Grito Infernal, assim como a vida de um único dragão não importaria aos Presa do Dragão. Koak estava sozinho.

A chuva fornecia uma quantidade limitada de água doce, e o apetite da serpente jamais se satisfazia, não importava quantos vairões-doces ele pescasse. Sua perna o atormentava sem parar, assim como a questão do que fazer com o filhote.

No quinto dia, as chuvas pararam. As esperanças de salvação de Koak esvaíam-se e a serpente tiritava de frio. Foi então que ele viu dois vultos aproximando-se pelo céu. Uma dupla de serpentes das nuvens adultas dardejava graciosamente entre as outras torres acima do oceano, cada uma com um pandaren às costas. Elas circularam agilmente pelos picos das montanhas e voltaram aos penhascos da Floresta de Jade a uma velocidade estonteante. Uma história que ele ouvira de um dos nativos semanas antes ecoou em sua mente.

A Ordem da Serpente das Nuvens.

 

Os penhascos varridos pelo vento da Floresta de Jade se erguiam íngremes e altos sobre o Mar Nebuloso. Koak e o filhote tinham cruzado as águas em uma jangada que ele improvisara a partir do casco quebrado do zepelim e agora avançavam penosamente ao longo de uma trilha estreita e íngreme em direção à floresta. A perna de Koak doía sem cessar; dores agudas e latejantes. Para piorar, a serpente lutava por todo o caminho, forcejando por livrar-se da corda esfiapada com que Koak a amarrara.

— Fica quieta! — bufou Koak, com a voz embargada de cansaço. — A gente vai chegar logo, logo, aí você passa a ser problema da ordem.

As forças de vanguarda da Horda tinham chegado a Pandária fazia pouco, mas Koak já ouvira falar bastante da Ordem da Serpente das Nuvens. Os cavalgadores de serpentes eram guerreiros poderosos que montavam bestas ferozes. Dizia-se que eles entravam em batalha velozes feito o vento, atacando com a força do céu e da tempestade. Koak vinha nutrindo um desejo secreto de conhecê-los, de testemunhar seu poder e compará-lo ao dos Presa do Dragão.

Claro que Koak não sabia muito sobre os Presa do Dragão. Ele era apenas uma criança quando a revoada vermelha destruiu Grim Batol e um dos poucos fracos demais para fugir da Aliança quando o resto do clã escapou para o Planalto do Crepúsculo. O que ele sabia sobre o próprio clã, tinha aprendido de histórias contadas por veteranos da Segunda Guerra e dos sonhos que atormentavam suas noites mal dormidas. Nunca conseguira controlar um dragão; o filhote de serpente que ele arrastava a contragosto colina acima já era até demais para ele.

A Ordem da Serpente das Nuvens dever ser mesmo temível, pensou Koak, para domar feras tão turronas.

Quando chegaram ao topo, Koak pensou por um instante que tinham subido a colina errada. Ele esperava uma fortaleza de aço e ferro, uma cidadela poderosa protegida por serpentes em patrulha, adornadas em armaduras e prontas para a batalha. O que ele viu em vez disso foi um chalé modesto e um gazebo delicado, ambos construídos em madeira e pedra, cercados de poças de lama e montes de feno.

— Não pode ser aqui — murmurou para si mesmo. Mas, ao dobrar a esquina do chalé até a área mais adiante conduzindo o filhote, Koak viu serpentes das nuvens de todas as cores e tamanhos. Algumas descansavam em jaulas abertas enquanto eram escovadas e alimentadas. Outras flutuavam calmamente ao lado das companheiras, apreciando a caminhada vespertina. Alguns filhotes sentavam-se enrodilhados e plácidos no colo de pandarens que meditavam beatificamente à margem de um córrego tranquilo.

 

 

Koak ficou bastante confuso. Onde estavam os guerreiros lendários?

— Ah, nós temos visita! — disse uma voz tranquila às costas dele.

Koak se voltou e viu uma pandarena anciã sair do gazebo. Seus cabelos e pelo iam se agrisalhando com a idade, mas os olhos ainda tinham o brilho da juventude. Ao lado dela estavam outros pandarens, cada qual acompanhado de uma serpente das nuvens de cor diferente. Ela se adiantou e se curvou.

— Bem-vindo ao nosso lar, viajante — disse ela, sorrindo. — Eu sou a Anciã Anli, e nós somos a Ordem da Serpente das Nuvens.

— Você está bem? — perguntou um dos pandarens que a acompanhavam. — Você não parece muito bem

— Ah, e quem é esse pequerrucho? — trauteou outra voz, em tom alegre.

O filhote recuou para trás das pernas de Koak, protegendo-se dos olhares dos outros. Koak ajeitou-se, puxou a serpente e a apresentou a todos, tentando não deixar transparecer sua perplexidade diante do comportamento dos pandarens, que brincavam, mimavam e falavam em tatibitate com o filhote.

— Ele é todo seu — respondeu, oferecendo a ponta da corda a Anli. — E eu não estou muito bem. Eu estou ferido e necessito de transporte até o posto da Horda mais próximo. Se vocês puderem arranjar isso, eu terei uma dívida de gratidão.

Anli olhou para ele, pensativa, antes de sacudir a cabeça: — Infelizmente não será possível.

— Vocês não querem se envolver no conflito. — Koak lutou para o desdém que sentia não transparecer e para se livrar da imagem da serpente-mãe ferida. — Se vocês puderem me levar a Flor da Manhã…

— Não — interrompeu Anli. — Eu quero dizer que você não pode deixar essa serpente conosco e partir.

Koak franziu a testa. — Como assim, pandaren?

— Ele parece ter se apegado bastante a você — respondeu ela calmamente. — Deve ter sido você quem o chocou. E por isso precisa criá-lo.

Ela deu um passo na direção de Koak, fechando a mão dele na ponta da corda e pressionando-a contra o peito dele. Os membros da ordem o observavam, acariciando as escamas de suas serpentes como se fossem de estimação. Koak fitou-os com franca decepção. Era para eles serem guerreiros poderosos. Ele não via nada ali além de um berçário. E não tomaria parte naquilo.

— Acho que não — disse ele, com desprezo.

Koak deixou a corda cair no chão e se voltou para partir, mas só conseguiu dar alguns passos. Uma dor súbita mordeu sua perna. Apertando-se contra a muleta, Koak caiu ajoelhado e amaldiçoou os ferimentos. Ele sentiu alguém puxar sua cintura.

— Se vocês não vão me levar até Flor da Manhã… — Koak se interrompeu ao voltar a cabeça e ver não um pandaren, mas o filhote. Ele tinha enrolado a pequena cauda em seu pulso e o puxava na direção dos outros com um olhar de súplica.

Ele também não queria que Koak partisse.

Koak observou uma dupla de pandarens montados em serpentes voar entre as nuvens desenhando espirais e círculos, executando manobras arriscadas com graça rotineira enquanto apostavam corrida. A Ordem da Serpente das Nuvens não era composta dos lutadores que Koak imaginara, mas era inegável que eles sabiam voar.

Algo em Koak mudou. Quando olhou outra vez para o filhote, ele não viu um fardo, mas uma oportunidade: uma chance de finalmente se tornar um orc Presa do Dragão, de treinar sua própria montaria de guerra, de cavalgá-la em batalha e de conquistar os céus. Que os outros preparassem suas serpentes para uma vida de paz e brincadeiras. Ele prepararia a sua para a guerra.

— Muito bem — disse ele, tanto para o filhote quanto para Anli. Ele pegou a serpente nas mãos e a ergueu sobre a cabeça. O sol refletiu nas escamas rubras, tão vermelhas quanto os dragões que seu clã comandara.

Eu deixarei o clã Presa do Dragão orgulhoso, prometeu Koak.

Eu farei minha serpente obedecer.

 

A primeira semana de treinamento não correu como Koak tinha esperado. A serpente mostrara-se opiniosa e turrona, bem mais que qualquer outro filhote sob os cuidados da ordem. Parecia determinada a mastigar e devorar tudo, exceto o que Koak lhe dava para comer. Sempre que Koak tentava chamá-la, ela preferia perseguir os outros filhotes, estalando as mandíbulas. A serpente era rápida e ágil, e a perna machucada de Koak continuava a atrapalhá-lo, obrigando-o a se limitar a gritar com ela até ficar roxo. Os outros estudantes o olhavam com preocupação e algum divertimento. Mas a perna estava cicatrizando, graças aos cuidados dos pandarens, e ele pensou que qualquer ordem com o costume de cavalgar feras tão agitadas devia mesmo ter ampla prática no conserto de ossos quebrados.

No oitavo dia, o sol erguia-se sobre os picos das torres no mar quando Koak viu que o cercado da sua serpente estava vazio. Parada ao mourão da cerca, Anli sorria afavelmente.

— Parece que meu filhote começou cedo a aprontar das suas — grunhiu Koak.

— Ah, de forma alguma — explicou Anli. — Jenova tomará conta da sua serpente hoje. Por favor, venha comigo.

 

A caminhada foi quieta e erradia. Anli o conduziu pelo esplendor sereno do Arboreto, mosqueado de sol e acariciado por uma brisa gentil, até que finalmente chegaram à Ponte da Torre de Vento. Fiel ao nome, a ponte perfazia a distância entre várias das torres naturais que se erguiam do oceano lá embaixo. Cada um dos seus arcos era uma maravilha arquitetônica, um monólito de alvenaria que parecia desafiar a gravidade e se postava resoluto contra os ventos costeiros incessantes. A própria ponte parecia uma serpente das nuvens, uma criatura gigantesca escavada em pedra e madeira, serpenteando por sobre o Mar Nebuloso e vigiando a Floresta de Jade eternamente.

Anli esperou até que tivessem cruzado quase toda a extensão da ponte antes de se voltar para falar com ele.

— Você já deu um nome à sua serpente, Koak? — perguntou.

— Não. E não darei até ela merecer. Esse é o costume dos Presa do Dragão.

— Nós não somos os Presa do Dragão — respondeu Anli. — Os costumes deles não são os nossos.

Koak irritou-se. — Eu farei isso ao modo Presa do Dragão ou não farei de maneira alguma. Não há opção.

— Isso parece ser bem importante para você — observou ela.

Koak parou por um instante, procurando as palavras certas antes de continuar a andar. — Quando a Aliança me levou prisioneiro, eu fui separado do meu clã. Eu tive a chance de me reunir a eles após o Cataclismo, mas não aceitei.

— E por que não?

— Eu não espero que você entenda — respondeu Koak —, mas eu desonrei a mim mesmo e aos Presa do Dragão ao ser posto em correntes. Como eu poderia encará-los sem antes provar que sou digno?

Koak virou-se na direção oposta a Anli, olhando para o mar ao norte, na direção dos Reinos do Leste. — Eu sou Presa do Dragão no nome, mas não nos atos. Se eu domar a serpente à nossa maneira, poderei mudar isso e me reunir ao meu povo.

— Entendo — murmurou Anli. Eles tinham alcançado o final da ponte, e o santuário ornado ficava no topo da torre mais alta e mais distante. Atrás deles estendia-se a espetacular vista da costa de Pandária com a ponte serpeando entre o céu e o mar aberto e os pagodes dourados do Templo da Serpente de Jade difusos ao longe.

Koak fez o possível para desviar a vista da beirada da torre, que o fazia pensar em uma queda longa e fatal até o mar. Ele não teve muito sucesso, mas conseguiu disfarçar o medo que o acossou.

Encarando o oceano, Anli disse: — A Ordem da Serpente das Nuvens foi fundada há milhares de anos por Jiang, uma jovem de Flor da Manhã. Ela encontrou um filhote ferido, chamou-o de Lo e o fez recobrar a saúde.

— Na época, os cidadãos de Pandária temiam as serpentes das nuvens. Pensavam que elas eram criaturas agressivas, violentas, e até chegar perto de uma já era perigoso. Todos acharam que os atos de Jiang causariam um desastre.

— Domar um monstro não é tarefa para garotinhas — grunhiu Koak.

— Ah, mas estavam todos errados — continuou Anli. — Quando os Zandalari atacaram o império Pandaren e nossos exércitos lutavam uma batalha sem esperança em uma ponte parecida com essa, Jiang montou Lo mudou e os rumos da guerra. Juntos, derrubaram os cavalga-morcegos do céu e empurraram os trolls da ponte. Jiang fundou a ordem logo depois, e a visão de uma serpente das nuvens enche os corações pandarens de esperança desde então.

Koak fez um ruído de mofa. — E agora todos vocês seguem o exemplo dela? Essas serpentes são caçadoras e assassinas natas. Não é possível mudar a natureza de uma fera com compaixão, assim como não é possível mudar a natureza da guerra.

— Não é questão de mudança, Koak, e sim de escolha. — Anli voltou-se para encará-lo. — Serpentes das nuvens são selvagens e agitadas por natureza e, se forem maltratadas, podem permanecer assim na idade adulta. Mas uma serpente das nuvens não está indissoluvelmente ligada à sua natureza. Não mais do que você ou eu. Jiang não forçou Lo a lutar; Lo escolheu lutar, pois Juang escolheu confiar nele e tratá-lo com compaixão. É por isso que seguimos o seu exemplo. Todos nós escolhemos quem vamos nos tornar.

Koak permaneceu em silêncio por um longo instante. Uma coisa assim poderia mesmo ser verdade? Alguém que montasse tal fera, com a vida em risco, soltaria as rédeas e confiaria que a criatura fosse obedecer? Parecia loucura.

— Sentimento interessante — disse ele por fim. — Mas eu ainda acredito que correntes funcionam melhor que escolhas.

— É mesmo? — ponderou Anli, serena.

Ela deu um passo para trás e caiu da beirada da torre.

— NÃO! — berrou Koak. Ele pulou para diante, esquecendo momentaneamente a dor na perna. Mas era tarde demais. Anli se fora, e tudo o que restava dela era o som de sua risada dançando ao vento. Aquilo confundiu Koak; Anli não estava rindo quando caiu.

 

Mas ela estava rindo agora. Anli apareceu sob o arco mais próximo, montada em sua serpente das nuvens ônix. Os dois se alçaram diante das vistas de Koak, volteando e deslizando feito fumaça líquida.

— Você está louca?! — exclamou Koak. — E se sua serpente tivesse deixado você cair?

Anli perguntou calmamente: — Você sabe qual a diferença entre o aço e o ferro?

Koak hesitou. Ela é louca, ensou.

Os cantos da boca de Anli se curvaram em um sorriso enigmático. — Assim é.

The corners of Anli’s mouth curled into an enigmatic smile. “So it is.”

Ela tocou o lado do pescoço da serpente, que obedeceu e partiu volteando na direção da costa distante. — Espero que você encontre seu caminho, Koak! — gritou ela por sobre o ombro, zarpando na direção da Floresta de Jade tão rápido quanto tinha reaparecido. — Que a Serpente de Jade o guie!

Koak os viu se afastar, apoiando-se pesadamente na muleta. Ele ficou parado no final da ponte sentindo o vento nos cabelos e a mente perdida em pensamentos

 

— Eu não concordei com isso! — gritou Koak. — Vocês me enganaram!

— Do que você está falando? — perguntou Ás. — Anli disse que você concordou em ser treinado de acordo com os nos nossos costumes!

Ás Pata Longa não era como os demais discípulos da ordem. Enquanto os outros demonstravam humildade nas vestimentas e um espírito esportivo, Ás se enfeitava com camisas de seda finas e joias chamativas. Ele mantinha o bigode encerado e o cabelo bem penteado, e jamais perdia uma chance de se gabar de sua habilidade tanto no céu como com o sexo oposto. Koak achava tal bufonaria muito irritante. Principalmente porque o outro parecia pensar que os dois eram muito parecidos. Mas ele fora designado por Anli como tutor de Koak e, após semanas bancando a babá do filhote, o orc estava ansioso para começar o treinamento de verdade.

Mas aquilo não era o que ele tinha em mente.

— Eu concordei em treinar — disse Koak. Ele meteu a mão na bolsa que Ás trouxera e puxou uma bola de couro. — Mas isso é brincadeira de criança!

— Então será perfeito para vocês dois — respondeu Ás, com um sorriso insuportável. — Todos os cavaleiros da ordem brincam de bola com suas serpentes — explicou ele. — Isso ensina a ler os movimentos um do outro e cria um relacionamento de troca mútua vital entre serpente e cavaleiro. É uma lição importante!

— Tolice — zombou Koak. — No calor da batalha, um único momento de deliberação pode causar a morte. Tem que haver um mestre e um servo. Não há espaço para “troca mútua”.

— Ora, vamos, Koak — suspirou Ás. — Apenas tente, está bem?

Koak fez uma careta e olhou da bola para o filhote. Ele não tinha nada a perder; Ás já o tinha arrastado para campo aberto a uma hora de caminhada do resto da ordem. Assobiando para chamar a atenção da serpente, ele arremessou a bola em sua direção. O filhote a viu e a arremessou com uma batida de cabeça na direção de Koak..

— Viu? — Cantarolou Ás, vendo Koak agarrar a bola. — Não foi tão ruim, foi? — Ele se voltou para as instalações da ordem. — Agora repita mais vinte e cinco vezes… seguidas, entendeu? E daí nos encontramos na ordem

—Vinte e cinco? chiou Koak. Mas Ás já se afastava, deixando Koak com uma sacola de bolas de borracha e um filhote acostumado a dificultar seus dias.

— Vamos logo acabar com isso — disse Koak. Ele arremessou a bola para o filhote outra vez. A serpente descreveu um círculo estreito e bateu na bola com a cauda. A bola veio forte e alta demais para que Koak a alcançasse, e a perna ruim cedeu sob seu peso quando ele foi tentar. Erguendo-se dificultosamente com a ajuda da muleta, olhou para o filhote e pôde jurar que ele estava dando um sorrisinho.

Aquele filho de uma… pensou Koak. Ele fez de propósito

— Você cometeu um erro grave — Koak disse, sinistro. Ele tirou outra bola do saco enquanto o filhote o observava com atenção. Segurou a bola discretamente, escondendo-a atrás do quadril.

— Agora — disse ele, grunhindo — nós dois vamos brincar.

Koak tensionou o braço e atirou a bola na direção do filhote com força e velocidade. Os olhos da serpente se arregalaram e ela pulou fora do caminho no instante em que a bola atingiu o chão com um baque alto e uma explosão de poeira. O filhote guinchou para ele e Koak riu.

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