O Dever das Revoadas

by luizcsilva on 9 de novembro de 2013

“Assassinei um dos meus.”

O sombrio pensamento abateu-se imediatamente sobre Nozdormu, o Atemporal, diante da visão do ressequido dragão bronze. Zirion fora reduzido a metade do porte original, o corpo coberto por chagas da cabeça à cauda. Em vez de sangue, areia dourada fluía em cascata das feridas, formando uma corrente incessante onde se viam imagens da vida que o dragão ainda teria pela frente. O futuro de Zirion esvaía-se dele.

Nozdormu atravessou um dos remotos picos do Monte Hyjal para postar-se ao lado de Zirion. As escamas douradas do Atemporal refletiam em ondas todos os acontecimentos da história. Ao curvar-se sobre o combalido dragão, Nozdormu foi tomado por imenso desamparo. Um véu descera sobre as linhas do tempo, em uma cortina impenetrável até mesmo para ele, Aspecto da Revoada Dragônica Bronze e Guardião do Tempo. O passado e o futuro, que antes apresentavam-se com clareza, agora estavam turvos.

– Onde estão os outrosss? – Nozdormu dirigiu-se a Tique, que trouxera Zirion do refúgio da Revoada Bronze nas Cavernas do Tempo. A leal dragonesa transportara o amigo nas costas e a toda velocidade, um feito possível apenas devido à atrofia do dragão.

– Ele retornou sozinho – respondeu Tique, ainda ofegante pelo esforço hercúleo.

– Não pode ssser! – rosnou, frustrado, o Atemporal. – Doze foram osss que enviei ao passado. Doze!

Nozdormu determinara aos agentes que investigassem o estado preocupante das linhas do tempo, e agora não podia evitar o sentimento de que os enviara à morte. Ao retornar ao presente, os dragões deveriam se apresentar ao Atemporal no alto do Monte Hyjal pontualmente ao meio-dia. Já passava desse horário quando Tique, que não havia sido designada para a missão nas linhas do tempo, chegou com Zirion às costas.

– Conte-me o que você viu, Zirion – sibilou Nozdormu enquanto começava a tecer feitiços para conter as areias do tempo que derramavam-se do corpo do dragão.

– Acho que não lhe restam forças para falar – interviu Tique.

O Atemporal mal ouviu a dragonesa. O impossível estava acontecendo: seus feitiços não surtiam qualquer efeito. Seu ritual fora previsto e neutralizado por uma magia igualmente poderosa. Apenas um ser detinha a vidência e a habilidade para superar o Aspecto Bronze no reinado do tempo…

– Quando ele tinha acabado de chegar das linhas do tempo – Tique continuou, hesitante – Zirion contou o que viu. Não importa que ponto da história tentassem atingir, ele e os outros sempre emergiam no mesmo acontecimento futuro… na Hora do Crepúsculo.

Nozdormu abaixou a cabeça e fechou os olhos.Acontecera o que ele temia. Os fios do tempo haviam sido puxados para o apocalipse. E, nesse cinzento e inanimado porvir, até mesmo o Atemporal deixaria de existir. Pelo menos, assim ele acreditava. Eras atrás, o titã Aman’Thul concedera-lhe não apenas a maestria sobre o tempo, mas também o conhecimento sobre a própria morte.

– Quem foi o responsável pelasss feridas em Zirion? – O Atemporal sabia a resposta, mas esperava ardentemente que estivesse errado… que aquilo que vira fosse uma anomalia.

– Foram a Revoada Infinita e o… líder deles. – respondeu Tique, desviando os olhos de Nozdormu.

“Eu assassinei um dos meus.” A condenação ecoava na mente do Aspecto.

Nozdormu chegou a acreditar que a Revoada Infinita fosse um mero sintoma de uma linha do tempo errante. E, por mais inconcebível que pudesse parecer, o Atemporal havia descoberto que ele próprio e seus dragões de bronze abandonariam, no futuro, a missão sagrada de guardar a integridade do tempo e se empenhariam em subvertê-la.

O Aspecto do Tempo remoeu os acontecimentos das semanas anteriores, lutando para controlar a raiva. Ele estivera preso nas linhas do tempo até recentemente, quando um mortal, Thrall, lembrou-lhe a Primeira Lição: viver no presente é muito mais importante do que insistir no passado ou no futuro. Nozdormu saíra do cativeiro com um renovado entendimento sobre o tempo… apenas para se ver confrontado pelos mais sombrios temores.

– Perdoe-me – sussurrou Nozdormu para Zirion, sem saber se o querido servo ainda conseguia ouvi-lo ou vê-lo. O dragão ferido ergueu a cabeça, reconhecendo a voz, e virou-a de um lado a outro até que os olhos túrbidos detiveram-se em Nozdormu.

– Perdoe-me – repetiu o Atemporal. Zirion escancarou a bocarra e seu corpo tremeu, num gesto que poderia parecer uma gargalhada, mas Nozdormu logo percebeu que o amigo soluçava em choro.

Quando o futuro de Zirion esvaiu-se completamente, ele se valeu e das forças que lhe restavam para se afastar de Nozdormu, com os olhos tomados de terror.

Músicas festivas ecoavam pelo Monte Hyjal.

Após uma série de contratempos, Alexstrasza, Ysera, Nozdormu e Kalecgos – os Aspectos Dragônicos – finalmente haviam conseguido combinar seus poderes mágicos com os xamãs da Harmonia Telúrica e os druidas do Círculo Cenariano para recuperar Nordrassil, a ancestral Árvore do Mundo. Algum tempo depois, correu a notícia de que Ragnaros, o senhor elemental do fogo cujos lacaios haviam incendiado Nordrassil, havia sido morto pelas mãos dos mortais.

Entretanto, o júbilo soava como um sussurro distante para Ysera, a Desperta. Aos pés da Árvore do Mundo, no Refúgio Cenariano, as canções soavam-lhe apenas como o lamento de uma tragédia.

Ysera, o Aspecto da Revoada Verde, estava reunida com os demais aspectos para discutir o próximo passo a ser dado contra Asa da Morte, o enlouquecido líder da Revoada Dragônica Negra, responsável pelo Cataclismo que dilacerou o mundo. Embora os defensores de Azeroth tenham triunfado em Hyjal e outras regiões, o atormentado aspecto ainda tramava para precipitar a Hora do Crepúsculo. Enquanto lhe restasse um último suspiro, Asa da Morte insistiria naqueles planos sombrios.

Em vez de debater estratégias, no entanto, Nozdormu havia relatado a morte de Zirion e a última investida da Revoada Infinita contra as linhas do tempo. Rugas marcaram a imaculada face de elfo superior do Atemporal. Ele havia assumido essa forma mortal assim como seus companheiros, num truque usado sempre que estavam junto dos seres efêmeros que habitavam os arredores de Nordrassil.

– Ele foi morto pela minha magia… por mim – murmurou Nozdormu. Ysera observava, inquieta. Apesar da agonia do companheiro, a Desperta não conseguia evitar a sensação de afastamento. Ela flutuava entre o mundo vígil e o reino dos sonhos, presa a nenhum.

– Tenho de voltar para o local de encontro – continuou o inquieto Aspecto Brônzeo, esfregando as mãos impacientemente. – É possível que meus outros agentesss retornem, mas disso não sei ao certo. Só me resta esperar.

Nozdormu virou-se, de saída, enquanto Ysera urgia a si mesma para encontrar palavras de conforto e consolar o amigo, que havia claramente se resignado ao próprio destino. Aman’Thul o havia encarregado da preservação da pureza do tempo, não obstante os acontecimentos do passado ou futuro. De alguma maneira, o encargo do Atemporal parecia equivocado aos olhos de Ysera, mas não cabia-lhe questionar os deveres do amigo.

“O que dizer a uma criatura que faria qualquer coisa para proteger os dragões da própria revoada, mas que agora se responsabiliza pela morte de um dos seus?”, ponderava Ysera. A mente da Desperta parecia um vendaval de cacos de pensamentos, como se estivesse em uma biblioteca assolada por um furacão. Páginas de ideias e imagens voavam diante de seus olhos, mas todas arrancadas de livros diferentes.

Antes que a Desperta conseguisse pensar em qualquer coisa útil a ser dita, Nozdormu partiu, deixando para trás um silêncio lúgubre. Os elfos noturnos, habitantes daquele paraíso druídico, faziam a gentileza de saírem dali durante as reuniões dos Aspectos, e a ausência da agitação habitual deixava no refúgio uma atmosfera fria e triste.

– Pouco importa se a Revoada Infinita aliou-se ao Asa da Morte – disse finalmente Alexstrasza, a Mãe da Vida, Rainha dos Dragões e Aspecto da Revoada Vermelha. – O motivo por que todos concordamos em permanecer em Hyjal é a discussão da melhor estratégia para lidar com ele. O enigma das linhas do tempo é apenas mais uma prova de que é preciso agir rapidamente. Kalecgos, sua revoada continua pesquisando?

– Sim. – O Aspecto da Revoada Azul limpou a garganta e empertigou-se. Seu costumeiro comportamento amável havia se tornado estranhamente formal. Kalec era o aspecto mais jovem, recém escolhido para comandar sua revoada após a morte de Malygos, o antigo líder. Ysera deduziu que o jovem tentava mostrar valor perante os demais aspectos, mas, na verdade, os companheiros já o viam como igual.

Kalec passou a mão pelo ar, fazendo surgir uma série de runas luminosas que detalhavam os experimentos conduzidos pelos dragões azuis. Eles haviam esgotado os antigos baús de conhecimento guardados no Nexus, o refúgio da Revoada Azul, em busca de indícios sobre as fraquezas do Asa da Morte. Os companheiros de Kalec eram os guardiões da magia, e, se houvesse alguma resposta escondida no mundo arcano, eles a encontrariam.

– Coletamos porções do sangue do Asa da Morte no Geodomo, onde ele se escondeu por muitos anos. As amostras eram pequenas, mas foram suficientes para os testes – informou Kalecgos.

– E quais são os resultados até agora? – A voz de Alexstrasza demonstrava ansiedade. Ysera jamais a vira tão esperançosa ao longo de tantas reuniões infrutíferas.

– Infundimos o sangue em magia arcana, em uma quantidade que arrasaria qualquer outra criatura, mas isso apenas agita as amostras. O sangue talha e ferve, mas acaba se recompondo.

– Nem mesmo a magia arcana adianta – suspirou a Mãe da Vida, desanimada.

– Mas os testes estão apenas no início – acrescentou Kalec de pronto. – Acho que precisamos de alguma ferramenta para enfrentarmos o Asa da Morte. Grandes contingentes não ajudam em nada. Precisamos de uma arma… como nenhuma outra jamais vista. Minha revoada não descansará enquanto não resolvermos esta tribulação.

– Obrigada – agradeceu Alexstrasza, para logo dirigir-se a Ysera. – Você teve alguma visão significativa?

– Não… não até agora – respondeu Ysera, ligeiramente envergonhada. Durante as reuniões, a Desperta com frequência sentia-se pouco mais importante do que uma mosca na parede. Eonar, o titã, concedera-lhe o domínio sobre a natureza e as exuberantes florestas primordiais do reino conhecido como Sonho Esmeralda. Por milênios, a dragonesa viveu ali, sob a alcunha de a Sonhadora. Logo antes do Cataclismo, no entanto, foi retirada do Sonho. Ysera, a Desperta: assim era conhecida agora. Seus olhos, há tanto fechados, abriram-se, mas Ysera se perguntava o que haveria de enxergar.

– Mantenha-nos informados se algo surgir. – Alexstrasza sorriu, mas Ysera percebeu a ansiedade da Mãe da Vida. – A próxima reunião será amanhã.

E assim a discussão encerrou-se como começara: sem respostas.

Na manhã seguinte, Ysera vagou pelos campos aos pés de Nordrassil. Diante da dragonesa erguia-se a colossal Árvore do Mundo, cuja grandiosa copa escondia-se por entre as nuvens. Aqui e ali, xamãs da Harmonia Telúrica e druidas do Círculo Cenariano meditavam tranquilamente. Após a cura de Nordrassil, Ysera ensinara aos druidas como unir os próprios espíritos às raízes da Grande Árvore, para penetrarem o solo. Enquanto isso, os xamãs acalmavam os elementais da terra para permitir que as raízes vencessem as profundezas de Azeroth. A empreitada representava uma inédita união dos dois grupos mortais. Por mais que isso encorajasse Ysera, ela sabia que a nobre iniciativa nada significaria se Asa da Morte continuasse livre para conquistar seus objetivos sórdidos.

Ysera seguiu caminhando até um remoto bosque a norte da Árvore do Mundo. Ao chegar a uma clareira, viu Thrall aguardando-a em profundo estado de meditação. Ysera nutria profundo respeito pelo xamã, num nível maior do que ela havia percebido. Há semanas, Asa da Morte e aliados atacaram os aspectos verde, vermelho, azul e bronze, que teriam sido destruídos se o orc não tivesse intervindo. Thrall ajudou a reunir os líderes dragônicos e lembrou-lhes da missão de defender Azeroth. Os aspectos estavam mais unidos agora do que há dez mil anos.

– Thrall – chamou Ysera, com suavidade. A natureza vibrou com o som da voz da Desperta. O vento balançou as longas tranças do orc, e a grama farfalhou sob as simples vestes do xamã. Ainda assim, Thrall não abriu os olhos.

Ysera estava impressionada com tamanha concentração e sabia que tal habilidade não havia sido atingida facilmente. Durante a primeira tentativa de recuperar Nordrassil, os servos do Asa da Morte surpreenderam Thrall e dividiram a mente, o corpo e o espírito do xamã por entre os quatro elementos. Graças aos esforços da consorte de Thrall, a heroína mortal Aggra, o xamã foi salvo. Desde então, o orc demonstrou uma renovada conexão com a terra, muito além de mera comunicação com os elementos. Ele sentia Azeroth como parte de si, via-se milagrosamente ligado ao planeta. Ysera supunha que, no processo de reconstituição do espírito do xamã, a essência de Azeroth fora adicionada a ele.

– Thrall – sussurrou Ysera, gentilmente apoiando a mão sobre o braço do xamã.

O orc finalmente saiu do estado de meditação e pôs-se de pé. – Lady Ysera, comecei sozinho. Desculpe-me.”

– Estou aqui apenas para ajudar quando necessário – garantiu-lhe o aspecto verde.

– Posso perguntar como transcorreu a reunião?

– Fizemos progressos… – Ysera respondeu vagamente e mudou de assunto. – Podemos começar?

– Claro. – Thrall sentou-se, e Ysera fez o mesmo. A dragonesa aprendera há tempos que a melhor forma de ensinar era por meio da demonstração. Enquanto o espírito de Thrall unia-se à terra, ela se ligaria às raízes de Nordrassil. Tratavam-se de feitiços distintos, mas os princípios da concentração eram os mesmos.

– Você vem passando pelas mesmas dificuldades de antes? – perguntou Ysera. Thrall mencionara não conseguir se conectar com a terra sob Hyjal, como se houvesse barreiras mentais bloqueando seu espírito. O orc estava determinado a compreender as novas habilidades, mas parecia hesitar ao lançar-se muito profundamente dentro de Azeroth.

– Sim, venho. – Thrall franziu o cenho, frustrado. – Sinto-me como se estivesse sobre a arrebentação de um grande oceano. Quanto mais avanço para o fundo, mais distante me sinto da costa…

– Thrall – disse Ysera ao recolher um punhado de terra e depositá-lo sobre a mão esquerda do orc. – Aqui está Azeroth. Se o seu espírito penetrar esta terra, poderá caminhar por onde quiser. Hyjal não é uma âncora mágica. Trata-se do mesmo chão que se estende pelas ruas de Orgrimmar e pelas florestas da Selva do Espinhaço. Este planeta é um corpo único.

– Um corpo… – O orc olhou a terra e riu animadamente. – Tantas vezes os mais difíceis problemas são resolvidos pelas mais simples respostas… pelo que está diante dos nossos olhos. Meu antigo tutor, Drek’Thar, falou-me isso há anos. Você e ele têm muito em comum. Tão sábios, tão pacientes… Não importa que obstáculos eu encontre, vocês sempre sabem como superá-los.

Ysera tentou sorrir ao perceber a ironia das palavras de Thrall.

– Esta será a minha âncora – exclamou o xamã ao apertar a terra na mão.

Thrall fechou os olhos e respirou profundamente. Ysera acompanhou-o e falou: – Aquiete os pensamentos. Afaste o espírito da carne e perceba a terra que nos rodeia. Sinta que as rochas sob você são as mesmas sob mim. Sinta que, se você der um passo adiante, certamente conseguirá dar outro.

Ysera seguiu as próprias instruções e fundiu seu espírito a uma das colossais raízes da Árvore da Vida. Thrall achava que não merecia os cada vez maiores poderes, que eles eram fruto do acaso. Na verdade, os poderes eram o oposto disso. O propósito do xamã estava claro, mesmo que ele próprio não soubesse disso. Todos aqueles anos de dedicação ao xamanismo haviam culminado numa extraordinária capacidade de unir-se à terra. A Desperta ansiava por tal sentimento de satisfação.

A mente de Ysera divagou até as reuniões com os demais aspectos. Lembrou de cada detalhe, tentando procurar alguma resposta simples escondida por entre os debates sem fim. Atentou para Kalec. Algo mencionado pelo jovem aspecto intrigou-a.

“Uma arma… diferente de todas as outras já vistas.”

Aquelas palavras tinham força, um significado além da compreensão de Ysera.

“Uma arma…”

“… como nenhuma outra. Tem de ser diferentes de todas.” Uma voz familiar irrompeu na mente da dragonesa, atingindo-a como um maremoto que varreu as inúmeras ideias desconexas que circulavam-lhe pela consciência.

Ysera arregalou os olhos em choque, mas ela não estava mais em Hyjal.

A Desperta flutuou por uma caverna escura, que reconheceu como sendo a Câmara dos Aspectos, o terreno sagrado das cinco revoadas dragônicas. Abaixo de Ysera havia um grupo de dragões: ela própria, em uma versão do passado, junto a Alexstrasza; a primeira-consorte de Nozdormu, Soridormi; o falecido Aspecto Dragônico Azul, Malygos; e por fim… Asa da Morte.

Mas não… Não se tratava da odiosa e maculada criatura do presente. Ali estava Neltharion, o Guardião da Terra, o antigo aspecto da Revoada Dragônica Negra. Ele já havia sido corrompido pelos traiçoeiros Deuses Antigos, os enlouquecidos e incomensuravelmente poderosos seres aprisionados pelos titãs, e renegado a missão de proteger Azeroth – mas seus companheiros não sabiam disso.

Ysera identificou a época imediatamente. Estavam há dez mil anos, em meio à Guerra dos Antigos. A demoníaca Legião Ardente invadira Azeroth, e os aspectos estavam reunidos para um ritual que salvaria o mundo da extinção. Os dragões circundavam um disco flutuante dourado.

À primeira vista, o disco parecia um artefato comum. Mas, na verdade, tratava-se da arma que destruiria a união das revoadas… A arma que aniquilaria inúmeros dragões azuis e baniria Malygos para milênios de reclusão: a Alma Dragônica.

Ysera assistiu, aterrorizada, ao término da cerimônia. Todos os aspectos – à exceção de Neltharion – abriram mão de parte da própria essência para conceder poder ao artefato. Os dragões sacrificaram-se de forma tão drástica pois acreditavam que o disco seria capaz de expulsar a legião de Azeroth.

– Está feito… – declarou Neltharion. – Todos concederam o que deviam. Lacrarei agora a Alma Dragônica por toda a eternidade, para que o que foi conseguido jamais seja perdido.

Um brilho negro sinistro envolveu o Guardião da Terra e a Alma Dragônica, em um sutil indício da verdadeira natureza do artefato.

– Tem de ser assim? – perguntou em voz baixa o eu passado de Ysera.

– Para que seja como tem de ser, sim – retrucou Neltharion, mal escondendo o tom desafiador.

– É uma arma como nenhuma outra. Tem de ser diferentes de todas – acrescentou Malygos.

Logo em seguida, as paredes do salão trincaram e desabaram como estilhaços de vidro, revelando a clareira em seus tons de esmeralda. Thrall continuava concentrado na meditação, alheio à visão da tutora. Ysera vislumbrou o orc enquanto punha-se de pé, tentando entender o que presenciara. “Seria um equívoco considerar a Alma Dragônica como a salvação de Azeroth após todo o sofrimento e toda a morte que ela desencadeou?”

A Desperta desabalou pelo bosque à procura de Kalec e Alexstrasza. “Os demais aspectos me tacharão de louca quando eu propuser usar aquilo a nosso favor”. Apesar da apreensão, um argumento simples a impelia a continuar: “A tirania do Asa da Morte deve terminar como começou.”.

A terra não era apenas um objeto sobre a palma de Thrall. Ele percebeu que aquilo fazia parte dele como os dedos faziam parte da mão, únicos em si, mas parte de um todo maior.

O espírito do orc penetrou a terra e desceu às profundezas de Hyjal. Sentia cada rocha e cada grão de areia como uma extensão de si próprio. Os desarmônicos elementais da terra, a quem o xamã lutara tanto para apaziguar, receberam-no – na verdade, acolheram-no – como igual.

A montanha fervilhava. Xamãs, Aggra entre eles, entoavam um coro harmonizador que acalmou o espírito de Thrall e os elementos. Alhures, druidas conduziam as raízes de Nordrassil para cada vez mais fundo em Azeroth, e a essência do orc seguia com elas. A rocha áspera e dura desfazia-se em terra fofa, nutrindo a Árvore do Mundo que, por sua vez, fortalecia o solo. Thrall se deixou levar pelo ciclo de cura, revigorado.

O espírito do xamã chegou ao sopé da montanha. Jamais ousara chegar tão longe. A consciência do corpo físico estava tão distante como nas tentativas anteriores. Thrall concentrou-se na tênue sensação da terra sobre a mão, repetindo a sábia lição de Ysera, “Isto é Azeroth… Este planeta é um corpo único”.

Estimulado por essas palavras, o orc purgou da alma todos os receios e mergulhou em Azeroth.

A essência de Thrall precipitou-se por léguas e léguas de terra, que se abria para permitir-lhe passagem. Atravessou as planícies esturricadas de Durotar e os lagos lamacentos do Pântano das Mágoas. Todas as regiões, não importa quão distantes ou diferentes, estavam conectadas de uma forma nova.

Além dos lugares que já conhecia, Thrall deparou-se também com áreas e singularidades ignoradas até então.

Em algum lugar do Grande Oceano havia uma ilha misteriosa, encoberta por nuvens…

Nos Reinos do Leste, algo fervilhava no coração das montanhas de Khaz Modan. Uma presença de espírito forte, mas não de natureza elemental. Era, estranhamente, como Thrall, um mortal que transcendera as limitações da carne. O ser desconhecido percorria as terras ancestrais da região como um guardião silencioso, cuja voz ecoava com forte sotaque enânico por toda Azeroth:

– Pois contemplai, somos os terranos, somos da terra, da terra somos a alma, da terra temos a dor, e da terra, o coração…

Thrall também viu que as profundezas do planeta estavam marcadas por lesões magmáticas e outras feridas. O que mais preocupou o xamã, no entanto, foram imensas cavernas, frias e anormais, espalhadas por toda Azeroth. Eram bolsões desprovidos de vida, evitados até mesmo pelos elementais da terra.

Um desses vazios ficava bem abaixo do Monte Hyjal. Thrall direcionou seu espírito para aquele longínquo oco subterrâneo. E, ao contrário do restante do planeta, sua visão não alcançou o conteúdo da caverna. Conforme ele se aproximou, uma voz irrompeu da câmara, crispando o ambiente com poder incomensurável:

– Xamã!

– O som retumbou no espírito do orc como se Azeroth em si estivesse falando com ele.

– Venha.

Thrall foi atraído para a voz e sentiu-se compelido a procurá-la. Perscrutou o exterior da câmara até encontrar uma abertura nas paredes aparentemente impenetráveis. Conforme o espírito do orc atravessou a fenda, terra e rochas foram empurradas para o vazio. Esse material aglutinou-se em pernas, braços, tronco e cabeça, e dois cristais multifacetados faziam as vezes de olhos. O novo corpo do xamã parecia-se com o físico, mas de pedra.

– Quem é você? – bradou Thrall em um estalido forte que soou como o atrito de uma pedra contra outra, um som que pouco lembrava qualquer linguagem coerente.

O salão estava iluminado apenas por algumas poças de magma fervente. As paredes e o chão eram revestidos por uma substância cristalina áspera, tão negra que parecia sorver toda a luz à volta.

– Aqui, – respondeu a voz do centro da câmara. – Aqui reside a verdade do mundo.

Thrall avançou mais fundo no salão, atraído pela autoridade das palavras. A conexão com o restante de Azeroth e o corpo físico enfraquecia a cada passo dado pelo orc. No meio da caverna havia uma figura humanoide, com os traços ocultos por uma sombra estranha e quase tangível.

O xamã aproximou-se com dificuldade, e dois olhos de lava ardente se abriram naquela face impassível.

Thrall deu um passo para trás conforme o véu de sombras que encobria a figura se dissipava revelando um grotesco humano. Uma enorme mandíbula de metal estava soldada à pele cinzenta da criatura. Chifres serrilhados irrompiam-lhe dos ombros, garras afiadas encimavam-lhe os dedos, e veias de magma cruzavam-lhe o peito.

O orc não reconheceu o humano, mais intuiu a verdadeira identidade daquela criatura: Asa da Morte, em sua faceta mortal.

– Sempre me surpreendo com a arrogância dos xamãs – rugiu o aspecto negro, cuja voz retumbava como a colisão de dois pedregulhos. – Você quer domar um poder que não lhe compete… um poder além da sua compreensão.

Thrall correu em direção à parede por onde entrara, mas placas de cristal preto ergueram-se do chão e bloquearam a terra exposta. O orc chocou-se de ombro contra a barreira, pedindo aos espíritos elementais que aquilo se rompesse. A substância hedionda, no entanto, não atendeu ao apelo do xamã como os demais elementais da terra o faziam.

– Intrigante, não é mesmo? – sussurrou por entre dentes o Asa da Morte. – O sangue dos Deuses Antigos não atende aos seus caprichos, pois não são deste mundo. Apenas os escolhidos o governam.

Thrall virou-se para Asa da Morte, esperando um ataque, mas o aspecto não avançou.

– Eu estava aguardando sua chegada. Assisti ao seu espírito cambalear cegamente pelas encostas de Hyjal – observou Asa da Morte. – Pressupus que lhe faltava a coragem para avançar através da montanha, mas seu progresso provou o que eu suspeitava… Os aspectos desejam conceder-lhe meus poderes. Querem substituir-me por um mortal.

Thrall não compreendeu o significado das palavras do Asa da Morte. Embora detivesse habilidades superiores agora, Ysera e os demais disseram-lhe que jamais se tornaria um aspecto ou o Guardião da Terra.

– Os aspectos não tiveram nenhuma relação com a concessão destes poderes. – Thrall tateava às cegas a parede da caverna em busca de uma rachadura ou um ponto frágil entre as placas de sangue dos Deuses Antigos. – E a decisão de usá-los foi unicamente minha.

A câmara tremeu com a gargalhada do Asa da Morte, que desdenhou: – Você foi levado a pensar assim. Tenho olhos por todos os lugares, xamã. Sei que os aspectos tramam ardis em Hyjal e que você é parte disso. Os covardes o atraíram para este destino sem o seu conhecimento, com a intenção de tornar sua a minha maldição.

– O que você recebeu foi uma dádiva, não uma maldição – retrucou Thrall, que, nos últimos tempos, havia aprendido muito sobre os titãs e os aspectos. Há milênios, o titã Khaz’goroth concedeu ao Asa da Morte o domínio sobre a terra e encarregou-o de protegê-la contra todo o mal. Esta tarefa, no entanto, deixou-o suscetível à influência dos Deuses Antigos, que estavam aprisionados no centro de Azeroth. Todas as provações e dificuldades que afligiram os aspectos ao longo da história, desde a traição do Asa da Morte à iminente Hora do Crepúsculo, tudo fora parte de um grande plano dos Deuses Antigos para varrer a vida do planeta.

– Uma dádiva? – resmungou o Asa da Morte. – Você está tão equivocado quanto os outros aspectos, tolos demais para admitir que os deveres que nos foram impostos tratam-se apenas de prisões.

– Os titãs deram um propósito a você – retrucou Thrall, cuja conexão com Hyjal tornava-se mais distante do que nunca. O orc percebeu que o solo que ele segurava na mão a léguas de distância dali estava escorrendo pelos dedos.

– Não há propósito no que eles fazem. – Asa da Morte avançou em direção a Thrall, e cada passo retumbava pela câmara. – Azeroth foi uma experiência dos titãs. Um brinquedo. Quando se cansaram, eles nos abandonaram a todos, indiferentes ao mundo degradado que deixaram para trás.

– Degradado por causa do que você fez, porque você renegou sua dádiva! – urrou Thrall.

– Não foi uma dádiva! – Asa da Morte vociferou, com o corpo tremendo de raiva.

Thrall observou que suas palavras estavam de alguma forma afetando o Destruidor e continuou a incitá-lo, na expectativa de que o rival revelasse qualquer fraqueza: – A dádiva que você não teve força para aguentar. A dádiva…

– Cale-se! – ordenou Asa da Morte. – Se você insiste em chamar isso de dádiva, que seja. Saiba, então, o que é estar na minha pele, o que é aceitar tão generosa dádiva… o que é sentir as chamas do coração de Azeroth como parte de si.

Dores arrasadoras lancinaram o peito terroso de Thrall. As chamas infinitas do núcleo de Azeroth arderam-lhe no espírito. A pele de pedra do xamã ferveu, brilhando em um vermelho de trevas e fúria.

– Saiba o que é suportar nos ombros o peso deste mundo agonizante.

As pernas de Thrall tremeram com a pressão de cada rocha de Azeroth. O corpo do xamã se estilhaçou e rachou. O tormento ia além da agonia física; o espírito do orc estava se desintegrando, sufocado pela carga incomensurável. Asa da Morte continuou, divertindo-se:

– A dádiva parece-lhe tão doce agora? Esse é o desejo dos outros aspectos, acorrentá-lo a este mundo como fizeram a mim. Condená-lo a uma vida de tormento sem fim.

Em meio à dor excruciante, Thrall deu-se conta de que agora detinha uma força surpreendente. O peso de Azeroth estava a seu dispor. Seria Asa da Morte tão arrogante a ponto de conceder-lhe tal vantagem?

O orc não duvidou da própria intuição. Diante dele estava a oportunidade tão aguardada. Em um movimento rápido, Thrall canalizou todo o peso de Azeroth para o punho e avançou sobre o dragão. Todo aquele poder era inebriante, e o xamã sentia-se capaz de rasgar ao meio uma montanha.

O Aspecto Negro observou, impassível, a aproximação. Um instante antes do choque, no entanto, o peso de Azeroth – e todo o poder – foi arrancado do xamã.

Thrall colidiu violentamente contra a forma humana do aspecto, e o braço do orc estilhaçou-se em mil pedaços, sangrando magma fervilhante. O xamã caiu de joelhos e berrou de dor.

Muito longe dali, perto de seu corpo físico em Hyjal, Thrall sentiu a terra romper-se.

Alguns magos mortais, e até mesmo certos membros da Revoada Azul, acreditavam que as leias da magia arcana fossem absolutas. Entretanto, onde os outros viam limites, Kalec enxergava apenas um potencial para novas descobertas. Para ele, a magia não se resumia a um sistema de regras rígidas e lógica fria. Tratava-se do fluido vital do cosmos, de possibilidades sem fim. A magia arcana era a beleza encarnada.

Quando Ysera abordou Kalec, falando esperançosa da Alma Dragônica e do possível potencial disso, o aspecto azul foi tomado pela tarefa de resolver um impasse. Asa da Morte não havia cedido a própria essência como os demais aspectos, logo a questão de como usar aquela arma contra ele mostrava-se impossível de resolver. Outra preocupação era a crença de que todo dragão que empunhasse o artefato no estado original seria irremediavelmente prejudicado pelos poderes mágicos. A Alma Dragônica tinha chegado a destroçar Asa da Morte, o que o forçou a soldar o que restou do corpo com placas de metal.

Apesar dos desafios à frente, Kalec via o artefato como uma oportunidade de validar o próprio lugar entre os aspectos, seres que sempre lhe foram fonte de inspiração. Kalec tornara-se o Detentor da Magia numa época em que as revoadas Azul, Verde, Bronze e Vermelha corriam risco de extinção. Os fabulosos poderes concedidos ao falecido líder da Revoada Azul, Malygos, pelo titã Norgannon, agora eram de Kalec. Os dragões azuis, o coração da revoada, o haviam escolhido, e nele depositaram as esperanças. Não os decepcionaria.

– A Alma Dragônica não pode ser usada contra Asa da Morte porque ela não possui a essência dele – replicou Alexstrasza, embora sua voz deixasse transparecer alguma incerteza. Após Ysera relatar a descoberta para Kalec, os dois encontraram-se com a Mãe da Vida no Refúgio Cenariano para discutir o mérito do plano.

– Verdade – balbuciou o aspecto azul, que percebia os olhos dos colegas perfurando-o, como se julgassem cada palavra proferida. – Seria necessário obter a essência de Asa da Morte. Infelizmente, as amostras de sangue coletadas não estão dotadas disso, apesar de terem alguma utilidade. Entretanto, com bastante energia arcana, talvez seja possível alterar as características da Alma Dragônica para talvez afetar o inimigo… ao menos, em teoria.

– Em teoria – repetiu Alexstrasza.

Kalec estremeceu por dentro. O artefato era um risco, por certo. Boa parte do que o aspecto azul sabia sobre o funcionamento da arma fora extraída dos escritos dos magos do Kirin Tor. Um mago humano de nome Rhonin, em especial, havia manejado a Alma Dragônica e descoberto alguns de seus atributos, e o tratado escrito por ele sobre o assunto fora uma fonte de informações valiosa para Kalec. Ainda assim, pouco fora provado.

– Não temos outra opção – intercedeu Ysera, para alívio de Kalec. – Eu sei que é difícil para você, mas minha intuição é forte. Esta arma deu início a tudo, nos separou. Esta era de sombras tem de terminar como começou.

Alexstrasza baixou os olhos, e Kalec viu o conflito que fervilhava neles. Ele estava preocupado com a reação da Mãe da Vida quanto ao plano. Sabia da história sombria do artefato. Ao final da Guerra dos Antigos, os aspectos azul, verde, bronze e vermelho haviam encontrado e encantado a arma para que nem Asa da Morte nem qualquer outro dragão pudessem empunhá-la novamente. Milênios depois, o artefato caiu nas mãos dos orcs Presa do Dragão, que o usaram para escravizar Alexstrasza e sua revoada. Muitos dragões vermelhos foram obrigados a servir de montarias de guerra naqueles tempos de desespero.

– Esta é a resposta pela qual ansiávamos há tanto tempo, lady Alexstrasza – apaziguou Kalec.

– Eu sei… – concordou a Mãe da Vida em tom de desamparo. – Partirei agora para informar Nozdormu. Continue a pesquisa.

Tudo dependia do Atemporal. Mesmo que Kalec descobrisse uma forma de alterar a Alma Dragônica, os aspectos teriam que contar com Nozdormu para recuperá-la por entre as linhas do tempo. O artefato não mais existia no presente. Boa parte dele fora destruída há uma década por Rhonin. Posteriormente, a dragonesa negra Sinestra recolheu os restos da arma, já desprovidos de quase todo o poder, e os usou em benefício próprio. Por fim, esses fragmentos da Alma Dragônica foram destruídos também. Pedir do Atemporal que trouxesse o artefato de volta era tarefa quase impossível, mas Kalec, Ysera e Alexstrasza sabiam que isso precisava ser feito.

Após a saída da Mãe da Vida, Kalec foi até uma pequena mesa no Refúgio Cenariano. Sobre ela espalhavam-se orbes de vidência, com os quais se comunicava com seus agentes no Nexus. O aspecto azul pegou um dos orbes e o rodou nas mãos, meditando sobre os empecilhos que envolviam o uso da Alma Dragônica.

Ysera procurou Kalec e, logo antes de começar a lhe falar, a terra tremeu violentamente, jogando-os ao chão. Gritos começaram a ecoar da base de Nordrassil, onde a Harmonia Telúrica e o Círculo Cenariano estavam abrigados. Os aspectos verde e azul entreolharam-se, apreensivos. Terremotos eram comuns desde o Cataclismo, mas este parecia ter-se originado exatamente sob os pés deles.

A terra agitou-se outra vez, mais violentamente do que antes.

– Não pode ser… – Ysera apoiou-se nas paredes de madeira do prédio druídico com os olhos arregalados. A mistura de medo e compreensão na voz da dragonesa deixou Kalec preocupado:

– Foi Asa da Morte? – Um arrepio percorreu as costas de Kalec. – Ele está aqui?

Ysera saiu desabalada do prédio sem responder, e Kalec seguiu-a em direção à base de Nordrassil.

Inúmeras fissuras abriram-se em torno da Árvore do Mundo. Xamãs e druidas resgatavam os companheiros do fundo das fendas. Ysera, no entanto, não se deteve ali. Para espanto de Kalec, ela não parou Nordrassil e continuou até uma fileira de árvores que bordeava uma pacífica clareira. Thrall estava sentado no meio do círculo verde, aparentemente em estado de profunda meditação. Aggra, a companheira do orc, o sacudia pelos ombros.

A orquisa virou-se para Kalec e Ysera, que se aproximaram.

– Tem algo errado com Go’el – falou Aggra aos dois aspectos, referindo-se a Thrall pelo nome de batismo. – Procurei-o após os terremotos e encontrei-o assim. Ele não está saindo do transe. O que aconteceu?

Ysera ajoelhou ao lado de Thrall, cuja expressão denotava grande agonia. A face do orc estava crispada de dor, mas não havia ferimentos visíveis no corpo dele. O aspecto verde constatou: – Então é ele…

A Desperta olhou para a mão esquerda de Thrall, que estava vazia. Rapidamente, recolheu um punhado de terra e botou-o sobre a palma do orc.

– Há alguma ligação entre os terremotos e Thrall? – perguntou Kalec.

– Ele entrou em comunhão com a terra como nenhum xamã antes. A terra se tornou parte dele, e ele, parte da terra. Algo capturou o espírito de Thrall. Essas fendas… são as feridas dele.

– Deve haver algum jeito de libertá-lo – implorou Aggra.

– Se o espírito dele não tiver se afastado muito de Hyjal, talvez seja possível – respondeu Ysera, levantando-se. – Vamos reunir os xamãs e os druidas. Temos muito trabalho à frente.

A companheira de Thrall hesitou: – Não posso deixá-lo aqui, desse jeito…

– Confie em mim, se quiser salvá-lo. – A voz de Ysera soou quase inaudível, mas deixou Kalec alarmado.

Aggra provavelmente partilhou da sensação e juntou-se ao aspecto verde.

– Lady Ysera, há algo que eu possa fazer? – perguntou Kalec, sentindo-se pouco à vontade. O infortúnio de Thrall desenrolava-se no reino dos elementos, sob o qual o aspecto azul não detinha qualquer poder.

– Fique aqui e, aconteça o que acontecer, não deixe que a mão dele fique sem terra de forma alguma.

Com essas palavras, Ysera deixou a clareira junto a Aggra, que olhava para trás, preocupada.

Kalec não esperava aquela resposta, mas concordou. Por alguns instantes, o aspecto azul se perguntou se Ysera havia lhe designado uma tarefa menor por não o considerar à altura de algo mais importante. Ele sabia, no entanto, que a Desperta não costumava julgar os demais. Não havia quaisquer entrelinhas na ordem dela. Ele era necessário ali. E só.

Ao sentar-se ao lado de Thrall, Kalec percebeu que tentara encontrar uma forma de ele próprio derrotar o Asa da Morte, e assim negligenciou outras soluções, mais viáveis. Se Thrall realmente conseguira combinar a própria essência à terra, e vice-versa, isso significaria que o espírito de um mortal continha uma parte de Azeroth, assim como tinha acontecido a Asa da Morte?

Kalec tirou um orbe de vidência da bolsa. Após alguns instantes, a névoa no interior do orbe dissipou-se, dando lugar ao rosto de Narygos, membro da Revoada Azul.

– Kalecgos – disse Narygos, baixando a cabeça em sinal de respeito.

O aspecto azul devolveu o cumprimento e indagou: – Certa vez, um ser efêmero empunhou a Alma Dragônica contra a Revoada Vermelha, correto?

– Um orc de nome Nekros Esmagacrânios. Um ser desprezível.

– Sim, isso mesmo. Ele foi muito afetado pelo artefato?

– Segundo os relatos de Rhonin, nem um pouco – afirmou Narygos. – A Alma Dragônica não afeta negativamente as raças efêmeras como a nossa. Uma característica deveras peculiar, na verdade.

“– Obrigado, meu caro. Isso é tudo, por enquanto. – Kalec guardou o orbe novamente.

“Thrall, um mortal que se conectou à essência da terra”, ponderou o aspecto azul. Há pouco tempo, o orc ajudara a vincular Kalec, Ysera, Nozdormu e Alexstrasza à terra, permitindo que os aspectos combinassem poderes para deter um ataque dos lacaios do Asa da Morte. Naquela ocasião, o orc agira como mero fio condutor de Azeroth. Agora, no entanto, Thrall avançara para muito além disso. Ele era a resposta… o eixo que faria a Alma Dragônica virar contra o criador.

Kalecgos deitou mais terra sobre a mão de Thrall, cuja face se contorceu de dor. O dragão azul receava que a única esperança dos aspectos estivesse à beira de se perder para sempre.

Asa da Morte rasgou o peito de Thrall com as garras, abrindo mais feridas na pele terrosa do orc. O corpo do xamã estava tomado de chagas que vertiam lava, mas nenhum golpe do Destruidor havia sido fatal.

O Aspecto Negro ansiava em dobrar a vontade de Thrall, em moldá-lo conforme quisesse. Esta era a única explicação encontrada pelo orc para o fato de o rival não tê-lo destruído ainda.

Asa da Morte estava quase alcançando o objetivo. Preso naquela caverna, o espírito de Thrall quase não sentia mais Azeroth, exceto pela dor excruciante. Se passasse por tal situação há poucas semanas, quando as dúvidas, os medos e a raiva ainda lhe governavam o coração, o xamã teria desistido. Teria se perdido naquele isolamento aprisionante. Entretanto, Thrall estava certo do seu propósito como xamã como nunca antes.

– Os titãs acharam que você teria forças para persistir – afirmou Thrall, cujo poder era ínfimo comparado ao do aspecto, e portanto usava a arma que lhe restava: a palavra. – Eles confiaram em você. Foram o medo e a dúvida que o fizeram fracassar e se aliar aos seres que desejam aniquilar a vida em Azeroth?

– Sua lealdade é um despropósito, xamã. Se assim o desejassem, os titãs poderiam exterminar a sua e as outras raças inferiores sem hesitação. Os Deuses Antigos sabem da inutilidade do trabalho dos titãs e prometeram-me libertar do meu fardo. Quando chegar a hora, purgarei todos os vestígios dos titãs e governarei, triunfante, este mundo. Azeroth ressurgirá sob novas leis.

Asa da Morte deu uma joelhada no peito de Thrall, lançando-o contra a parede da caverna. O xamã lutava para se levantar quando ouviu o reverberar de várias vozes vindas de fora da câmara. Era a Harmonia Telúrica: Muln Terrafúria, Nobambo e… Aggra.

Por meio dos espíritos elementais, os xamãs estavam procurando o companheiro. Thrall tentou se ligar ao corpo físico, e, para grande surpresa, sentiu a terra úmida na mão. A conexão entre as léguas de solo entre Hyjal e a caverna se havia reavivado. O orc concentrou toda a energia para comunicar-se mentalmente com os elementais, que estavam fora da câmara.

Ouviu apenas silêncio.

Thrall preparou-se para tentar chamar os elementais novamente, mas foi interrompido por uma onda de energia que começou a curar seu corpo de terra. “Os xamãs também estão selando as fendas em Hyjal”, deu-se conta. E, conforme isso era feito, também eram curadas as feridas do orc, que pôs-se de pé, revigorado.

– Você não respondeu a minha pergunta – provocou Thrall. – Foram o medo e a dúvida que o fizeram fracassar?

Os olhos do Asa da Morte incendiaram-se. O aspecto negro avançou sobre Thrall, agarrou-o pela garganta e lançou-o para cima. Em seguida, passou uma das garras brutais pelo abdômen do orc.

– Em um sistema imperfeito desde a origem, o único fracasso é negar a verdade. No entanto, não me importa quantos seres miseráveis você e os aspectos enganarão com essa causa equivocada. A vitória sempre será fugaz enquanto vocês sacrificarem as próprias vidas em nome de um futuro sem esperanças.

A pele rochosa de Thrall estava se desfazendo sob as garras do Asa da Morte, que apertava cada vez mais o pescoço do inimigo, e a conexão do orc com Hyjal enfraqueceu-se mais uma vez.

–Não… – Thrall rosnava enquanto lutava para se livrar das garras do Asa da Morte. – Nós… triunfaremos… porque enfrentamos nossos desafios… juntos. Você fracassou… porque escolheu… carregar seu fardo… sozinho!

A terra ao redor da caverna começou a tremer, no que Thrall julgou ser uma manifestação do ódio do Asa da Morte. No entanto, em vez de intensificar o ataque, o aspecto negro subitamente largou o orc.

Asa da Morte estendeu as mãos, rugindo de fúria. Enormes penedos de sangue dos Deuses Antigos levantaram-se do chão da caverna e se aglomeraram num canto no alto das paredes, formando uma grossa barreira de cristais. Thrall levou alguns instantes para entender a origem dos tremores. As raízes de Nordrassil estavam mergulhando em direção à câmara, atravessando terra e rochas em velocidade espantosa.

A Harmonia Telúrica – e, aparentemente, o Círculo Cenariano – o haviam encontrado.

Thrall abriu caminho até Asa da Morte e se jogou contra o Aspecto, interrompendo o feitiço que o rival proferia. Asa da Morte se levantou apressado, fervendo de ódio. O corpo do dragão pulsava, e rios de lava vazavam das rachaduras na armadura. Asa da Morte se preparou para atacar, mas uma das raízes de Nordrassil irrompeu na caverna, explodindo a parede em uma chuva de cristais.

A raiz avançou em direção ao Asa da Morte, que fincou os pés no chão. Por alguns instantes, ele conseguiu resistir àquele aríete vivo, cujo diâmetro era maior do que um kodo. Entretanto, três outras raízes seguiram-se à primeira, invadindo a caverna e forçando o aspecto negro a recuar.

Uma outra raiz entrou lentamente e enrolou-se na cintura de Thrall, puxando-o para fora do vazio. Ao sair da caverna, a ligação de Thrall com o corpo físico fortaleceu-se. O orc sentiu novamente a terra como ela deveria ser, sem a influência dos Deuses Antigos. Toda a dor e todo o sofrimento por que ele havia passado, os sentimentos dilacerados que permearam toda a existência do Asa da Morte, tudo isso havia se dissipado.

Alexstrasza encontrou o Atemporal à espera.

Nozdormu aguardava, imóvel, no alto da montanha. Longe dos assentamentos de xamãs e druidas, a Mãe da Vida assumira a forma de dragão e sentiu-se revigorada ao estender as asas após tanto tempo confinada ao corpo élfico. Aterrissou ao lado do Aspecto Bronze e contou-lhe o plano de Ysera e Kalec para a Alma Dragônica e o papel que caberia ao senhor do tempo na ação. A Mãe da Vida imaginara que Nozdormu rejeitaria a proposta imediatamente, e ela não o questionaria. No entanto, encontrou o amigo com o espírito desarmado. Nozdormu comentou:

– A Alma Dragônica… Por vezesss eu considerei voltar no tempo e consertar aquele dia. Salvar a vida de Malygos… Poupar todos nós daquele terrível destino.

– O Atemporal suspirou profundamente, sem desviar o olhar do horizonte. – Mas, se assim o fizessssse, eu não seria muito diferente da Revoada Infinita e… do meu futuro eu.

– A diferença seria muito maior do que você poderia imaginar – retrucou Alexstrasza. – Eonar me encarregou da proteção da vida. Quando a possibilidade da Alma Dragônica foi levantada, eu me perguntei como eu poderia me manter fiel ao meu dever e, ao mesmo tempo, recuperar a arma mais destrutiva já forjada.

– No entanto, é isssso que você planeja – constatou Nozdormu.

– Sim. Pois, para proteger a vida, há momentos em que é preciso destruir aquilo que quer encerrá-la…

A Alexstrasza meditara longamente sobre a Alma Dragônica e o sofrimento inimaginável provocado pelo artefato, não apenas a ela e à Revoada Vermelha, mas também a inúmeros seres ao longo da história. Por fim, a Mãe da Vida chegou a uma penosa conclusão: nenhum custo é alto demais para salvar o mundo.

– Não posso forçá-lo a fazer o que você julga errado – argumentou a dragonesa. – Mas pergunte-se o seguinte: Aman’Thul lhe concedeu o domínio sobre o tempo para que você simplesmente observasse o mundo acabar?

– Esse futuro habitado pela Revoada Infinita… se eu fosse até lá… – disse Nozdormu, baixando a voz. Medo e preocupação emanavam do Atemporal. A Mãe da Terra intuiu que algo sobre o apocalipse, além das linhas do tempo, inquietava o aspecto bronze. Mas ela já pedira demais de Nozdormu. Se ele não quisesse partilhar as preocupações, respeitaria a escolha dele.

– A cada um de vocês foi concedida a dádiva… – sussurrou suavemente Alexstrasza, aproximando-se de Nozdormu.

– A todosss vocês foi concedido o dever – completou, sem hesitar, o Atemporal. Aquelas palavras ancestrais foram a última ordem dos titãs aos Aspectos, um aviso de que, embora cada um deles fosse único, seus poderes e conhecimento não poderiam se separar. Eles eram um.

– O tempo é o seu dever, enquanto a vida é o meu. Mas qual é o nosso dever?

– Preservar essste mundo… a qualquer custo. Evitar a Hora do Crepúsculo – sibilou Nozdormu.

O Atemporal permaneceu em silêncio após a resposta. A Mãe da Vida acompanhou o olhar do amigo ao horizonte, com o coração atormentado, e indagou: – Algum dos seus agentes retornou?

– Não. Nenhum retornará. Eu essstive perdido no tempo, até que Thrall me ajudou. Agora, essstou perdido fora do tempo. – Para surpresa de Alexstrasza, o Aspecto Bronze riu, desconfortável.

O Atemporal finalmente desviou os olhos do horizonte e dirigiu-se a Alexstrasza: – Por tempo demaisss fui rígido nos meus modos. O que você diz é verdade. O tempo de esperar é passado…

Os quatro aspectos dragônicos e Thrall haviam se reunido no refúgio dos druidas, aos pés de Nordrassil. Uma imagem da Alma Dragônica flutuava entre deles. Alexstrasza sentiu um arrepio por estar ali. De certa forma, aquilo a lembrava do ritual conduzido há milênios para conceder poder ao artefato.

Embora fosse uma cópia arcana evocada por Kalecgos, aquela Alma Dragônica continha poder. Banhados pela suave luz violeta emitida pela imagem, os aspectos viram as próprias sombras oscilarem entre as formas humanas daquele momento e os verdadeiros corpos dragônicos.

– Para obtermos a Alma Dragônica, temosss primeiro que avançar ao futuro previsto por mim, o fim dos tempos – afirmou Nozdormu. – Se destruirmosss a Revoada Infinita e o líder dela, o senhor do apocalipse, as linhas do tempo serão reabertas, e poderemosss voltar ao passado e recuperar a Alma Dragônica.

– Como poderia a história seguir em frente, se o artefato for subitamente retirado das linhas do tempo? – perguntou Thrall. O orc mantivera-se em silêncio perante os Aspectos até então. Ele já os ajudara muito. A Mãe da Terra queria deixá-lo em paz, mas precisava do mortal mais uma vez, pelo bem de Azeroth.

– O tempo não é linear como algunsss pensam. Minha revoada interromperá o fluxo da história para neutralizar o impacto que causamos no passado. Mas só conseguiremos preservar a integridade das linhasss do tempo por esse instante. Quando nosso trabalho estiver terminado, devolveremos a Alma Dragônico ao devido lugar.

– Quanto ao devido lugar da Alma Dragônica – completou Kalecgos –, podemos obtê-la em muitos pontos do tempo. Suas propriedades foram alteradas ao longo da história. Para termos sucesso, é preciso usar a arma em sua forma mais pura. Quando Nozdormu abrir as linhas do tempo, pegaremos o artefato da época em que foi criado, a Guerra dos Antigos.

– E isso nos leva a quem vai empunhá-la – concluiu Alexstrasza, indicando Thrall.

– Meu amigo – disse Kalecgos, apoiando a mão no ombro do orc. – Pelo que descobri, a Alma Dragônica foi criada de forma que, se for empunhada por qualquer dragão, libertará energias que dilaceram o portador. Ela nos injeta tal dor que leva à loucura. Mas os seres efêmeros, dada a própria natureza deles, podem usá-la sem sofrer qualquer mal.

– O que pedimos de você envolve grande risco, Thrall. – A voz melodiosa de Ysera flutuou pela sala. – Quando a Alma Dragônica tiver sido trazida para o presente, você deverá levá-la ao Templo do Repouso das Serpes, um local de grande poder, conectado à Câmara dos Aspectos, onde o artefato foi consagrado da primeira vez. A Alma Dragônica já conterá poder, mas nós a infundiremos em nossas essências outra vez, deixando-a mais forte do que nunca… e potencialmente mais instável. Se Asa da Morte souber de nossas intenções, ele e os lacaios por certo avançarão sobre o templo para deter você a qualquer custo.

– Não pretendo questionar a sua sabedoria – disse Thrall humildemente – mas outras raças de Azeroth também sofreram a fúria de Asa da Morte. Poderíamos reunir um exército de mortais como nunca visto para aniquilar o Aspecto Negro. Tal estratégia não seria mais simples?

– Mesmo que todos os mortais enfrentassem o Asa da Morte, isso pouco importaria – respondeu Alexstrasza. – Ele foi corrompido pela energia sombria dos Deuses Antigos. Nenhum ataque físico, por mais avassalador, poderia destruí-lo. Ele precisa ser… desfeito. Temos de dissolver a essência dele, e apenas a Alma Dragônica pode fazê-lo.

– E apenas se você estiver ao nosso lado – acrescentou Kalec. – O artefato foi imbuído das essências dos quatro aspectos, mas não de Asa da Morte. Para usarmos a arma contra ele, temos de infundi-la no poder do Guardião da Terra. Você, Thrall, possui uma porção, ainda que pequena, do mesmo poder: a essência de Azeroth.

– Não podemos empunhar a Alma Dragônica pessoalmente – dirigiu-se Alexstrasza a Thrall. – Cabe a você… se assim o escolher. Isso é muito mais do que eu jamais esperaria lhe pedir, especialmente porque você já arriscou a vida para nos ajudar.

– É uma honra que vocês busquem auxílio em mim – afirmou Thrall – mas tenho um pedido. As raças efêmeras derrotaram Ragnaros, e o Lich Rei antes dele, e outras inúmeras ameaças. Há tempos temos sido fundamentais para garantir a segurança de Azeroth. Estamos empenhados nisso tanto quanto vocês. Com todo o respeito, tenho certeza que tão nobre plano só poderá triunfar com a ajuda dos mortais.

Não restava dúvida de que Thrall tinha razão. Alexstrasza pretendia evitar o envolvimento de mais mortais no perigoso desafio, mas, por fim, concordou: – Se tal for o desejo deles, serão bem-vindos.

– Há sempre aqueles que assim o desejam – observou Thrall, sorrindo. – Vou enviar o chamado.

Após a partida de Thrall, os aspectos permaneceram quietos.

– Uma questão me atormenta. – Kalec quebrou o silêncio. – Se evitar a Hora do Crepúsculo é o nosso objetivo, se os titãs nos criaram para isso, então o que será de nós quando tudo terminar?

Uma brisa gélida cruzou o Refúgio Cenariano, como que para pontuar as palavras de Kalec. Os aspectos desviaram o olhar, evitando o assunto. Todos eles já haviamponderado sobre aquele mistério perturbador.

– Sim… Se cumprirmos nosso dever, para que serviremos em seguida? – remoeu Nozdormu. – Com as linhas do tempo maculadas, nem mesmo eu consigo ver o que o futuro nos reserva…

“–Nossos atos resultarão em perda… ou realização? – Ysera perguntou-se em voz alta.

– Os titãs claramente têm um plano para nós – argumentou Kalec. – Magia, tempo, vida, natureza… isso existirá sempre. É bastante lógico que nosso destino seja proteger a criação por toda a eternidade.

Alexstrasza apenas observava a discussão de Ysera, Kalec e Nozdormu, que externavam suas esperanças e preocupações. O caminho adiante deles era claro, mas para além da Hora do Crepúsculo o destino estava encoberto em uma névoa de incertezas. A Mãe da Terra preferiu manter os próprios medos trancados dentro de si. Ela era a Rainha dos Dragões, e, se houve um tempo em que seus companheiros precisavam de sua orientação, esse tempo era agora.

– Nenhum de nós sabe ao certo –disse Alexstrasza , atraindo a atenção dos demais. – E, se soubéssemos, isso importaria? Foi por isto que recebemos os deveres dos titãs.As dádivas que eles nos concederam destinam-se a este momento.

A Mãe da Terra pegou as mãos dos companheiros ao lado, Ysera e Kalecgos, e estes fizeram o mesmo com Nozdormu. As magias dos aspectos se mesclaram e fluíram por entre cada dragão. A vibração apaziguou os sentimentos de todos e os preencheu de determinação inabalável.

– Desbravaremos o desconhecido como um – conclui Alexstrasza. – Como sempre foi nosso destino.

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